Índice de Capítulo

    Um olhar perdido, sem qualquer resquício de concentração. As botas pretas de cano alto batiam no chão desarmoniosamente por conta dos movimentos irregulares. Um passo era mais rápido, outro mais lento, alguns demoravam mais que meio segundo para serem feitos. Nem mesmo pensava naquilo, perdeu-se em pensamentos e deixou o acaso lhe guiar. Uma espectadora da própria visão que esqueceu que o que via era a própria vida por um momento.

    “Será que ela vai aparecer?”

    As mãos mantinham-se rentes ao corpo, não as movia junto ao movimento da caminhada. Seus pensamentos retornaram aos eixos quando ouviu o som de uma buzina de um dos veículos movidos a vapor. Parou à beira da rua, encarando as próprias botas pretas por um instante.

    “Ah, não é para eu atravessar agora. Fica por aqui mesmo.”

    Ela virou a cabeça para a continuidade da calçada à esquerda, seguindo um pouco mais concentrada no que fazia. Desviava de algumas pessoas que vinham em sentido contrário, sempre mantendo o máximo de distância que conseguia, próxima da parede. Seu olhar cansado, desanimado, fitava uma loja específica de fachada elegante.

    “Aqui…”

    A entrada da loja era guardada por quatro autômatos portando espadas de um material brilhante. Ela disse uma frase curta para que sua passagem fosse liberada: — A oitava hora do oitavo dia no oitavo mês.

    Isso foi o suficiente para que os guardas mecânicos se afastassem do caminho dela. O calor de seus corpos metálicos podia ser sentido, tinham algum tipo de pequeno reator térmico dentro, dando energia para os movimentos com o vapor.

    “Hmmm… Preferia quando humanos realizavam essa função, era menos triste.”

    Ao passar pela porta, um sino tocou acima de sua cabeça, atraindo-lhe a atenção de imediato. Mesmo que já tivesse entrado lá várias vezes, sempre perdia para o reflexo de olhar. Caminhou vagarosa até se deparar com um grande espelho que refletia todo o seu corpo.

    — Charlotte… — cochichou, observando os próprios olhos.

    Charlotte tinha um olho azul e um vermelho que não era dela, um olho implantado. Seus longos cabelos azuis chegavam até sua cintura, enquanto na frente caíam sobre seus ombros até a metade do torso; uma franja quase escondia seu olho vermelho. Vestia uma camisa azul de mangas bufantes curtas, com um espartilho preto por cima, de laços frontais azuis. A saia de estilo gótico que vestia possuía três camadas: superior, preta; a intermediária com babados azuis claros com contornos escuros; a parte inferior de um branco vibrante. Meias-calças e botas pretas de cano longo.

    — Linda, linda, sempre linda — disse para si mesma com uma voz doce, apaixonada de forma tão genuína.

    Os olhos focaram-se no reflexo deles mesmos e ela abriu um vagaroso sorriso. Seu rosto foi tomado por uma sensação quente que a fez se aproximar do espelho para ver melhor. Uma estranha e volátil admiração que fazia seu coração acelerar.

    — Senhorita Charlotte, você apareceu! — Uma voz veio de trás dela, uma das atendentes, na direção da recepção do local.

    — Oh, oi. — Cada um dos pensamentos que se dirigiam à própria imagem se dissiparam, dando lugar ao que de fato acontecia ao redor. — Desculpa, me distraí um pouco.

    — Não se preocupa e vem logo aqui! Suas luvas ficaram prontas, do tamanho perfeito para você.

    Poucos minutos depois, voltou a caminhar pela cidade, ainda mantendo-se rente às paredes para evitar as pessoas. Não tinha qualquer interesse no que ouvia falarem ao redor, apenas ignorava e seguia.

    “Tenho que dormir mais cedo na próxima vez.”

    Ela parou antes de atravessar uma rua e olhou para os dois lados. Não avistou nada que poderia atrapalhá-la, então começou a travessia.

    — Ninguém vai, vai me atropelar… Ninguém, ninguém vai — cantava baixinho num ritmo animado, quase sussurrado. — Nin… Ninguém, ninguém vai me atropelar, lar, lar, lar…

    Chegou ao outro lado e perambulou até encontrar um lugar em que pudesse beber café e espantar sua lentidão para agir e pensar. Encontrou uma cafeteria aberta, um lugar modesto e bem arrumado. Sentou-se à mesa e passou a bater os dedos nela enquanto esperava alguém notá-la. Era impossível não notar, suas roupas chamavam muita atenção; também sua identidade.

    Foi atendida e pediu um café bem forte, 300ml disso. Aguardava olhando para as mãos enluvadas, analisando o tecido preto e confortável. Era azul claro na parte da palma, contrastando com o restante obscuro. Ouvia, bem baixo e quase no limite do que sua audição poderia conseguir, pessoas na cozinha do local falando de seu sobrenome.

    “Outra vez isso… gostaria de passear pela cidade sem ser reconhecida.”

    Das roupas, pegou um pequeno caderno de desenhos e o colocou sobre a mesa, aberto em páginas em branco. Com um lápis que estava guardado em seu interior, iniciou um novo desenho. Pouco a pouco formava a própria imagem, um traço limpo e sem qualquer imperfeição.

    — Aqui está. — Um garçom colocou uma caneca de porcelana na mesa e retornou à cozinha.

    — Agradeço — respondeu sem muita vontade, ainda irritada pela fofoca sobre ela.

    Charlotte bebeu todo o café de uma vez só, mesmo que estivesse bastante quente. Terminou o desenho alguns minutos depois e acariciou a página antes de guardar o caderno de desenho dentro de um espaço na saia volumosa. Deu tempo da cafeína fazer efeito e isso a tirou da letargia constante que dominava.

    “Para onde eu vou agora? Ahh, nem sei o que faço até o Vincent resolver aparecer novamente.”

    “Melhor continuar andando, devo achar algo interessante para ocupar minha cabeça.”

    Atravessando um dos becos, acabou encontrando algo inesperado que a animou muito. Um grupo bem grande de gatos, de diversas cores, descansava na sombra. Não pareciam muito surpresos com sua presença.

    — Boa tarde pessoal, sabem onde tá o Raman? — Agachou perto e fez carinho em alguns deles.

    Cada gato possuía uma identificação presa por um barbante à perna frontal direita, um pequeno papel com um nome. Nenhum respondeu e ela apenas sentou perto deles. Pegou seu caderno de desenhos e começou a fazer um novo autorretrato.

    — O quê? — Jeremiah arregalou os olhos e correu até ela. — Caramba, não achei que ia ser tão fácil de te encontrar!

    Ele ficou parado igual um bobo só olhando por um tempão até Charlotte dizer algo.

    — Jeremiah?! — Uma risada alegre escapou de seus lábios. — O que está fazendo aqui? Ficou forte o suficiente para cumprir aquilo?

    — Na verdade não… Eu só fiquei cansado de ter que esperar pra reencontrar você e meu irmão.

    Ela mordeu o lábio inferior e pensou um pouco antes de se levantar e caminhar até ele. Ergueu as mãos em direção ao rosto dele e removeu a máscara branca de detalhes dourados.

    — Credo…

    — Como assim credo? — O loiro ficou confuso, tão confuso que nem conseguiu imaginar uma resposta por trás daquilo.

    — Por que que… Ah… Você… — Ela apertou o rosto dele como se estivesse apertando uma massinha. — Que estranho, você tá parecendo a minha namorada, o rosto é quase parecido. Arrhh… mais uma coisa para me fazer pensar nela…

    — Ahh! Lembro que quando você foi à Aludra uns 7 anos atrás, falou que começou a entender algumas coisas sobre o amor. Era dela que tava falando?

    — Sim, sim, sim! Meu amorzinho aquece tanto meu coração… — Ela soltou o rosto dele e uniu as mãos, toda apaixonada. — As pessoas dizem que ela é uma péssima influência e é melhor manter distância… Mas eu também não sou uma boa influência, então tudo combina! Queria tanto poder abraçar ela agora…

    — Que bom que encontrou alguém!

    Jeremiah pensou: “Antes, ela nunca pareceria tão feliz e tão animada assim… Não aquela Charlotte do dia em que minha mãe morreu. Parece que realmente mudou, que bom.”.

    — Faz um tempinho que ela sumiu e eu ainda não encontrei. Não sei o motivo dela estar me evitando. — Cruzou os braços e balançou a cabeça em negação. — Ela deve aparecer de novo, vou encontrar!

    — Não sabe mesmo algum motivo dela ter sumido assim?

    — Não, ela só sumiu e ainda não encontrei. — Charlotte bufou. — Espero que ela não esteja me dando um gelo porque está dando em cima de outra por aí de novo.

    — Ahmm… Já aconteceu algo do tipo antes então?

    — Sim. A Beare já fez coisas desse tipo, mas sinceramente não me importo com isso. Eu provavelmente me mataria sem ela… Sem a Beare eu voltaria a ser a mesma pessoa solitária que era na época em que obedecia às ordens do meu pai, e pensar nisso me assusta um pouco. Então coloquei na minha cabeça que deveria aceitar tudo que acontece desde que isso signifique que ela ainda vai voltar pros meus braços no fim.

    Jeremiah pensou: “Isso é estranho e muito sombrio… Que bom que eu gosto de ficar sozinho, isso parece complicado e assustador.”.

    — Então…?

    — Eu vou amarrar ela e depois arrastar pra minha casa, acho uma solução válida quando encontrar. — Tratava a situação com tanta casualidade que Jeremiah se perguntou, atônito, do quão frequente isso era.

    — Você é estranha… ela também…

    Charlotte pegou novamente seu caderno de desenhos e voltou a trabalhar em um deles. Ficou em silêncio, fazendo isso em pé na frente do Jeremiah.

    — O que você tá desenhando? — Ele se aproximou para tentar ver e Charlotte se afastou rapidamente com alguns passos para trás.

    — Não, não… — Ela pensou em uma pergunta e bateu o caderno de desenhos algumas vezes na cabeça. — Quantos anos você tem mesmo?

    — 19 anos, ué.

    — Ok, então tudo bem. — Ela virou o caderno para ele e começou a passar por algumas páginas. — Se achar isso bizarro só finge que não viu e seguimos com nossas vidas

    Conforme cada página era passada, Jeremiah constatou que todos os desenhos se tratavam da mesma coisa: ela. Dezenas de desenhos da Charlotte feitos de maneira impecável e em várias posições. Em algumas páginas, artes dela nua em poses sugestivas.

    — Por que desenha essas coisas?

    — Eu me amo muito. — Fechou o caderno e desviou um pouco o olhar. — Preciso de mais motivos para apreciar minha própria existência?

    — Ah, se isso te deixa feliz, só continua e não liga pra opinião dos outros. Cê desenha bem, muito bem pra falar a verdade.

    Jeremiah pegou a máscara de volta e a manteve na mão esquerda. Charlotte parecia olhá-lo de forma atenta por não ocultar o rosto; era por sua semelhança facial com Beare.

    — Falando nisso de idade, quantos anos você tem agora?

    Charlotte deu um risada sem graça e respondeu: — 20, tenho 20, tá?

    — Você tá mentindo! Você é bem mais velha do que eu!

    — Bem mais velha é sacanagem de dizer! — Bateu na cabeça dele com o caderno. — E-Eu tenho 20 e ponto final…

    — Sai dessa, você já era adolescente quando eu era criança! Não tem só 20 não!

    — Para! — respondeu, estridente. — Ninguém me leva a sério quando sabe a minha idade de verdade… Eu pareço ter 20, então tenho e acabou! Arghhh, até fazem parecer que só gente muito nova pode ser estranha e excêntrica!

    — Cê tá se chamando de estranha?

    — Eu tô! — respondeu, choramingando e inconformada, fazendo beicinho.

    — Calma, calma! — Jeremiah não entendeu a reação exagerada e começou a rir.

    — Tanto faz, só me segue… — A elegante e estranha mulher começou a correr para fora do beco.

    — Me espera!

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