Capítulo 73 - Uma Nova Espada
Capital de Raptra, Rigel, 03/05/029, às 12:44.
Jeremiah e Charlotte continuavam sua caminhada por becos e vielas do segundo nível. Ele havia colocado a máscara de volta para não precisar segurá-la o tempo todo.
— Naquele dia em que atacamos a casa da sua família, nós estávamos atrás de respostas sobre o que seu irmão tinha feito, como conseguiu armas perigosas e vendeu para uma facção rival. A facção do meu pai, a Estrela da Manhã, fazia muito esse tipo de coisa. Tanto que a onda de assassinatos na fronteira e a crescente da violência causada por essa facção fez Daren Vogrinter, o reizinho xarope desse país, reformular todo o sistema carcerário desse lugar.
Charlotte concluiu: — Vincent Velgo anos atrás fez a organização ter um racha e se dividir em duas coisas: Estrela da Manhã Sul e a Norte. Por conta das discordâncias, muitos membros se separaram e foram parar em uma dessas partes. Eu fui uma das que seguiu com Vincent para me afastar do meu pai e daquelas pessoas horríveis que foram parar na ala norte. Por enquanto tudo que fazemos é manter uma oposição a meu pai, organizar novos membros e pensar em um plano para no futuro matarmos ele.
— Existe realmente algo que impede vocês de atacar? Faz muito tempo que você parece querer acabar com ele, então eu fico com umas dúvidas…
— Vincent é tão forte quanto Karl Cettuwals… A grande questão é que não existe como ter uma luta da proporção da força deles nessa cidade sem que aconteça um massacre enorme. — Charlotte apertou uma mão com a outra enquanto pensava. — Até o rei quer colocar fim no Fantasma da Fronteira, mas nunca agiu porque também não quer acabar matando milhares de inocentes como efeito colateral.
— Entendi… faz sentido que estejam tendo uma complicação tão grande pra fazer isso, já que levam essa parte em conta. — O loiro colocou a mão na bainha de sua espada. — Nunca pensaram em arrastá-lo para uma zona desabitada?
— Consideramos essa possibilidade há muito tempo, mas meu pai é extremamente cauteloso. Ele se estabeleceu no coração da cidade, usando a densidade populacional como escudo… Sabe que ninguém ousaria um ataque perto de tantos inocentes. Os filhos de Daren Vogrinter, ou ele mesmo, já teriam eliminado essa erva daninha persistente se não fosse por isso.
Charlotte parou abruptamente e olhou para os lados, logo mudando de direção para um beco à direita de onde estavam.
— O que foi?
— É por aqui que vamos conseguir sua espada.
Cruzaram mais becos e algumas ruas da cidade juntos. Por onde passavam atraíam olhares curiosos de diversas pessoas que tinham uma mesma questão em mente: “Quem é a pessoa mascarada caminhando com a filha do homem mais rico de Raptra?”. O sobrenome Cettuwals corria de boca em boca e a curiosidade se transformou em fofoca.
Em um beco afastado e suspeito, que parecia ser o lugar perfeito para cometer um crime, Charlotte apontou para uma loja muito bem escondida. Não tinha uma fachada chamativa ou um grande letreiro, apenas uma pequena placa dizendo que um ferreiro trabalhava ali.
Ao cruzar a porta pesada de ferro, foram atingidos imediatamente por uma onda de calor e por cheiro de carvão. Um barulho incessante e alto de batidas vinha de algum lugar lá dentro; um mecanismo movido a vapor era a resposta óbvia, o que explicava o odor de carvão impregnado no ar. O lugar era claro, iluminado por lâmpadas a gás.
Nas paredes, diversas prateleiras de aço guardavam espadas seguradas em suportes de madeira. Lâminas comuns, azuis, rosas, vermelhas, verdes, roxas e muitas outras variedades. No chão de pedra, alguns pedestais exibiam máscaras guardadas dentro de caixas de vidro, tão variadas quanto as espadas.
— Caramba…
— Jeremiah, antes de irmos conversar com ele, é melhor que eu te dê um aviso.
— O quê?
— O Yan foi amaldiçoado e, por culpa dessa maldição, ele fala umas frases meio estranhas e idiotas às vezes. Só releve e não pense muito sobre isso, ele é legal. — Charlotte apertou a bochecha dele, como se dando uma bronca para ele prestar atenção.
— Tá bom…
— Yan, sou eu, a Charlotte! — disse bem alto para ter certeza de que seria ouvida mesmo com a barulheira da oficina dele.
— Epa, calma aí que tô chegando!
O ruído contínuo da oficina foi interrompido pelo estalo da máquina sendo desligada. O som de chinelos batendo contra o chão indicava que ele vinha da oficina para a loja. Então, viram o ferreiro surgir atrás do balcão.
Yan vestia-se de forma simples e tinha cabelos cacheados pretos que desciam na altura do pescoço. Um padrão branco começava do topo de sua cabeça e se espalhava para o resto do cabelo como uma estrela de doze pontas. Tinha brincos ciano e um piercing no nariz. Ele subiu no balcão e sentou, exibindo uma expressão cansada.
— Boa tarde… — disse o mascarado, ainda olhando os itens nos arredores.
— Esse aqui é o Jeremiah. — Colocou a mão no ombro dele. — Eu não esperava vê-lo hoje, acho que você muito menos, mas o loirinho tá aqui!
— Caramba, a máscara que fiz pro moleque tá inteiraça! — O ferreiro não conseguia esconder sua empolgação, os olhos esmeralda brilhavam como os de uma criança animada. — Você cuidou bem dessa coisa, normalmente acabam estragando minhas máscaras em questão de meses por não colocarem Roha o suficiente nelas durante as lutas pra manter a resistência.
— Eu sempre tomei cuidado com isso, não dá pra eu lutar se a máscara quebrar.
Yan limpou o suor da testa e caminhou até Jeremiah para observar a máscara melhor. Tinham poucas imperfeições em sua estrutura, foi muito bem cuidada.
— Quando a Charlotte me contou de você e o motivo dela querer te dar uma espada e uma máscara, eu trabalhei nessas coisas com muito carinho. Espero que tenha te ajudado muito.
— Ajudou sim, se não fosse por ela eu já tinha morrido, então nem se preocupa em pensar se foi útil ou não — respondeu de forma descontraída antes de puxar a espada da bainha. — A máscara sobreviveu, mas essa coisa aqui não.
— Cacete… com quem que tu arrumou briga? Não são muitas vezes que vejo uma lâmina minha ficar tão detonada assim. — Yan arrancou da mão dele e começou a analisar melhor a situação.
— Foi uma amiga…
— Nossa, me apresenta ela depois?! — Charlotte parecia muito feliz com a ideia, mais do que Jeremiah conseguia entender.
— Uhum.
— Cara, acho que sua amiga quer te matar com trinta facadas pelas costas porque nada mais explicada isso aqui. — Yan deu uma gargalhada e jogou a espada de volta para o loiro, que pegou.
— Trouxe ele aqui por conta disso, ele precisa de uma espada nova. Está na cidade e vai acabar fazendo parte dos problemas daqui, então não quero que ele fique desarmado por aí.
— Sem problemas. — Deu de ombros e voltou em direção à oficina.
O barulho mecânico repetitivo voltou e o calor aumentou no ambiente novamente. Ambos esperaram por alguns minutos, conversando até que ele retornasse. Yan reapareceu na área do balcão com uma espada de lâmina amarela.
— Voltou… quase achei que tinha esquecido de nós e voltado a trabalhar — Charlotte disse num tom intencionalmente chato.
— É, é, é, madaminha. — Ele riu da tentativa de irritá-lo. — Tinha começado a fazer uma espada pra mim, essa coisa aqui.
O barulho enorme que fez quando foi largada no balcão deixava claro seu peso. A lâmina amarela era longa e cortando nos dois lados. Sua ponta era feita de Quartzo das Profundezas, o material capaz de ignorar Roha. A pureza do mineral era completa, o que significava que poderia ignorar totalmente até o Roha de uma divindade. Contudo, era uma área tão minúscula da ponta que não geraria mais que um corte de três centímetros de profundidade. Um detalhe totalmente situacional da arma, reservado apenas para ataques de estocada.
— Ei, pera lá, isso parece bom demais… Vai mesmo me dar isso? — disse, admirado pela qualidade do fio da lâmina, parecia cortar só de olhar.
— É claro, se eu ajudar as pessoas elas vão ser ajudadas, então vou te ajudar. — Yan cruzou os braços, orgulhoso.
“É desse tipo de frase que a Charlotte tinha falado? Achei que seria algo mais estranho, ele só falou algo mó óbvio.”
— Ahh… muito obrigado! — Jeremiah pegou a espada e sentiu seu peso exagerado. Utilizou Roha, em uma baixa quantidade, para conseguir carregá-la sem maiores dificuldades.
— Nem precisa agradecer, eu não ia precisar disso de qualquer jeito. Meus poderes não dependem de uma espada extremamente boa, me viro com o que tiver aqui.
— Yan, se isso foi muito caro para você, te dou uma compensação em dinheiro mais tarde. — Charlotte reconhecia o preço exorbitante que aquela pequena parte de Quartzo das Profundezas poderia custar.
— Foi caro, mas não vou morrer de fome não, tá tudo bem. — Ele caminhou pelo ambiente procurando uma de suas espadas que gostaria de utilizar, pegando uma roxa para si.
— Uma perguntinha: sabe onde foi parar o Vincent? Ainda não encontrei ele essa semana, só vi os gatos de estimação do Raman um tempinho atrás.
— Também não sei, esses dois nunca avisam nada pra ninguém. Eles devem estar fazendo alguma coisa na área mais rica do segundo nível. Vai ter certeza disso se começar a aparecer umas notícias de assassinato nas rádios.
“O irmão do Verion deve ser forte demais… Se ele tá no mesmo nível de força do Karl, eu fico até com pena de quem tá no caminho dele.”
Jeremiah agradeceu de novo pelo presente e Yan disse que ele não precisava falar tanto disso. Iriam acabar se vendo na base da Estrela da Manhã Sul a qualquer momento e ele não gostaria de ficar ouvindo isso toda hora. Jeremiah pediu uma nova bainha e saiu da loja com uma espada em cada lado.
“Esse cara é legal. Nunca tinha parado pra pensar que tipo de pessoa tinha feito minha espada, mas foi bom conhecer ele.”
— Vai mesmo ficar levando a espada quebrada por aí?
— Eu gosto dela, não vou abandonar assim.
— Tudo bem então. — Ela pensou um pouquinho antes de perguntar algo. — Você está com fome?
— Sim.
— Conheço um restaurante legal, vem comigo! — Ela correu na frente e Jeremiah a acompanhou na cidade.

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