“MEOW-MIAU-MEOW…!”

    Ao amanhecer, Noah, acompanhando o sol que nascia do outro lado da janela, não pôde ficar mais do que surpreso ao se ver amarrado em uma cadeira pelos seus pulsos e pernas, nos quais mal conseguia mover alguns míseros milímetros do lugar. Por mais que tentasse, não era capaz de se soltar.

    — Que merda de lugar é esse? — se perguntou, olhando desesperado em volta, para o que lhe parecia uma cozinha mal construída.

    — Para que todo esse barulho tão cedo? — perguntou o homem alto, forte e feio, que se demonstrava claramente sonolento. — Eu tô querendo dormir aqui.

    — O que você pretende fazer comigo? Se é dinheiro que você quer, então vou logo lhe avisando que não tenho nada e nem família para pagar pelo resgate.

    — Não quero nenhum centavo seu! — afirmou o sequestrador.

    — E então… o que você quer comigo? — perguntou, perturbado.

    — Você não tem nada que eu queira, mas quando eu vi um estranho andando pela comunidade, todo acabado, eu pensei que poderia nos causar problemas, então, no momento em que tive a oportunidade, eu te trouxe aqui. Foi muito mais fácil do que pensei, você sequer ameaçou acordar, eu não precisava nem ter me dado o trabalho de cobrir a sua cabeça com o saco de pão e de amarrá-lo. Você tem um sono feito de pedra, isso pode ser bem perigoso!

    — Mais que porra, me solta, eu só vim para esses lados por que precisei me esconder em algum lugar, não tive outra escolha. Eu vou embora daqui logo em que você me soltar dessa cadeira — explicou—se.

    — E para que eu faria isso?

    — Por favor — pediu, desesperado —, eu preciso ajudar a minha mãe, não tenho tempo a perder ficando preso com alguém como você.

    — Está buscando a pessoa desta carta, que achei em seu bolso? Quem te deu isso? — contestou, ao lhe mostrar a carta aberta.

    — E o que isso te importa?

    — Me responda, senão continuará preso nessa cadeira! E a essa hora eu acredito que você queira ir ao banheiro.

    — Tá, eu entendi — cedeu. — Duas amigas minhas me deram essa carta, antes de irem embora, me disseram que a pessoa desse número me ajudaria a cuidar da minha mãe no lugar delas e me ajudar também.

    — Sabe o nome dele?

    — Eu nem cheguei a ver a carta, então eu não tenho a menor ideia de quem seja! Isso era tudo o que eu sabia, agora me solta — exigiu.

    — Qual é o nome das garotas?

    — Tico e teco.

    — Muito bem, eu irei te soltar, mas você não irá a lugar nenhum sem mim, até porque, você não tem pra onde ir mesmo.

    — Como assim? — perguntou, confuso.

    — Eu fiquei bem surpreso quando encontrei essa carta em seu bolso, enquanto estava te revistando, aqui tem o número da pessoa que você deveria ligar e, ao invés de ter o nome da pessoa logo abaixo, está o apelido, “Chefinho”.

    — E o que tem de errado nisso?

    — Esse é um apelido meu, dado por uma velha amiga, que se casou há alguns anos, e que somente esse mesmo casal conhecem, falo da Giulia e André, que entraram em contato comigo ontem para ajudar um amigo delas que ligaria para mim

    — Se você sabia que era eu esse tempo todo, então porque fez tudo isso?

    — Porque elas podem confiar em você, mas eu não! Eu não te conheço.

    — Isso… faz bastante sentido. Ao menos pode me desamarrar agora? Eu quase não sinto minhas mãos!

    — Sim.

    Mesmo usando uma faca para tirá-lo dali, levou um tempo para que conseguisse cortar todas as resistentes cordas, que estavam muito bem presas.

    — Obrigado — agradeceu Noah, coçando os seus pulsos que não paravam de arder.

    — Não me agradeça à toa, ou melhor, não me agradeça nunca, isso que estou fazendo não vai sair de graça.

    — Vai criar raízes de tanto esperar o dinheiro cair na conta — caçoou.

    — Não estou falando de dinheiro, cobro os meus favores com outros favores.

    — Saquei.

    “GRRRRROU…”

    — Se está com fome, tem pão dentro do microondas e margarina na geladeira — avisou Chefinho, após ouvir a barriga de Noah roncar.

    — E você vai me “cobrar” por isso também?

    — Estou apenas te oferecendo.

    — Nesse caso, obrigado.

    — Vou pegar os pratos e talheres.

    — Fala aí… Essa casa é sua mesmo ou é somente um esconderijo? — perguntou Noah, curioso, enquanto vasculhava a geladeira em busca da margarina.

    — É minha! Porque?

    — Diferente do seu jeito agressivo e nada convencional de conhecer alguém, eu prefiro um método mais tranquilo — contou.

    — Faça como quiser, só não complique as coisas.

    Tudo naquela casa era simples e nada atrativo aos olhos de quem visse, sequer a marca da margarina era algo atrativo, muito menos o pão, que parecia quase com uma torrada de tão seco que era.

    E apesar de ser bem difícil de mastigar e engolir aquele pão, Noah estava com tanta fome que até aquilo estava mais gostoso do que o habitual, era o resultado de ter passado tanto tempo sem comer direito.

    Durante todo esse tempo, só o que se podia ouvir dentro daquele ambiente era os dois comendo, não conversaram, tornando o clima entre os dois algo bem desconfortável e desanimador.

    — Como foi que você conheceu a Giulia? — perguntou Chefinho, ao terminar de tomar o seu café, que pegou de sua garrafa térmica, tentando quebrar a tensão no ar.

    — Acho que você esqueceu de me amarrar na cadeira e falar em um tom ameaçador — zombou.

    — Esqueça isso — disse, não gostando do sarcasmo.

    — Meio difícil.

    — Desde que você não tente me apunhalar pelas costas, não farei nada — contou.

    — Bom saber… Mas por que disso do nada?

    — Só estou tentando entender o que tem de tão especial em você, para estarem a te ajudarem tanto a se safar dessa, afinal, pelo que entendi, parece que está tudo em torno de você. Elas te protegem como se fosse o filhotinho delas — disse com certo tom de inveja.

    — Bem, é culpa minha ter iniciado uma busca tão longe da realidade que conhecia.

    — E então…? Como foi que você as conheceu? Elas me falaram muito sobre você na última vez em que as vi!

    — Quando eu estava no final do ensino fundamental, eu fazia muita merda, não tinha um futuro, ainda mais com as pessoas com quem eu andava. Um dia, eu e meus “amigos” de escola, estávamos roubando calotas de carros, e, por ironia do destino, um desses carros acabou por ser o da Giulia, foi então que, pro meu azar, ou sorte, levando em conta tudo o que vivenciei com elas depois, André apareceu bem atrás de mim e me agarrou enquanto todos os outros fugiam, eles sequer tentaram me ajudar, porém, ao invés de me dar a maior surra, ou, por motivos óbvios, chamar a polícia, me levou até a sua casa, antes de terem a cafeteria. Fomos conversando o caminho todo. No início me mantive “arisco”, digamos assim, porque não conseguia parar de pensar no pior que podia me acontecer. André fez várias perguntas sobre mim para tentar me fazer falar, mas passei o caminho todo sem abrir a boca, e ao chegar em sua casa, encontrei com a Giulia. Pela aparência dela, achei que fosse tranquila…

    — Grande erro.

    — Eu aprendi isso da pior forma, ela me bateu por tentar roubar as calotas de seu carro! De qualquer forma, elas me acolheram, me contaram histórias, me mostraram uma forma diferente de ver o mundo e escolher em quem confiar. Além disso, nós nos divertimos de verdade, principalmente fazendo o que não devíamos. Elas me ensinaram muito, tudo o que eu não deveria aprender elas me ensinaram e o que eu precisava aprender também — contou. — E quanto a você?

    — Conheço a Giulia desde que eu era pequeno, amigos de infância, então não lembro exatamente como a conheci, mas eu lembro de que ela sempre foi explosiva, fiel e, ainda que não parecesse, muito amável, ao menos com quem ela confiava, além de atlética, um completo oposto da maioria das garotas, tanto que não se encaixava em nenhum dos grupos que as meninas formavam, ficava sempre entre o meu grupo de amigos, e ela era a mais estressada do grupo, puxar briga com ela sempre foi um erro. As pessoas a xingavam de tudo, e a tratavam como uma puta por causa de sua roda de amizades, mas mal sabiam que ela era lésbica, já eu descobri isso levando o maior fora que já levei na vida, a peste riu da minha cara por não ter percebido que ela gostava de garotas, e isso virou um segredo nosso por um bom tempo, afinal, as pessoas tinham bas-tante preconceito naquela época.

    — Não é como se esse preconceito tivesse deixado de existir — comentou.

    — Mas não é tão intenso como antes. Elas chegaram a contar como se conheceram?

    — Na verdade, não.

    — É uma história engraçada, elas…

    De repente, interrompendo o fluxo da conversa, ouviram um alvoroço iniciar-se ao lado de fora da casa. Eram os mesmos policiais que perseguiam o Noah, invadindo a comunidade, deixando os moradores em pânico.

    As mães corriam para trazerem seus filhos para dentro de casa e então trancavam as portas e janelas, os estabelecimentos fecharam e barricadas com tudo o que tinham era feito para impedir que alguém entrasse e que balas perdidas atingissem alguém.

    Aquele era um pesadelo que não parecia que acabaria tão cedo quando os tiras e os traficantes ficaram cara a cara, porém, apesar de estarem cercados, os dois, e únicos policiais ali, não pareciam ter um pingo de medo das armas apontadas para suas cabeças, prontas para disparar.

    — Eles são loucos de virem até aqui sozinhos! — comentou Chefinho.

    — Tem algo de errado com eles — disse Noah, inquieto. — Precisamos sair daqui, agora.

    — Vamos sair pelos fundos.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota