A casa não era tão pequena quanto Noah havia imaginado, porém, cada cômodo parecia ter sido feito depois da casa ter sido construída, eram todos mal estruturados e perigosos, a qualquer momento parecia que tudo aquilo iria desabar conforme subia os tortos degraus.

    O segundo andar era ainda pior, lhe dava a impressão de que as casas estavam tentando se unir em um único e enorme desastre.

    No quarto não tinha nenhuma porta para que eles pudessem fugir e a janela os levavam para uma gigantes queda, fazendo Noah questionar o Chefinho sobre o motivo de terem subido até ali, no entanto, ele não lhe respondeu, apenas continuou a tocar na parede e então, ao, aparentemente, encontrar o que estava a procurar, o Chefinho a arrancou do lugar, ela estava apenas encaixada, surpreendendo o Noah que não esperava por isso.

    — Isso te responde? — perguntou Chefinho, com o pedaço da parede em mãos.

    — Com certeza!

    Só que ao ver o que tinha do outro lado, Noah se deparou com o telhado de outra casa, entendendo no mesmo instante o que teria que fazer, mas, ainda assim, Noah contestou o Chefinho.

    — Você espera que eu pule em outra casa, a essa distância? Além disso, o telhado não me parece nem um pouco resistente.

    — A intenção é atravessarmos o telhado! E é seguro do outro lado, confia.

    — Pula você primeiro então — disse dando espaço para ele passar.

    — Claro — concordou, após entregá-lo o pedaço da parede. — Te vejo lá embaixo.

    E então pulou antes que Noah pudesse perguntar o que havia do outro lado do telhado.

    — Tudo bem, você consegue! — disse indo até a beirada, porém, não conseguindo ver o que havia do outro lado.

    “AAAAAAARGG….!”

    Foi ao ouvir os incansáveis gritos de desespero vindos de onde os policiais estavam que ele criou coragem para pular, caindo na rede do outro lado. A casa era falsa.

    — Então é isso o que tinha desse lado — disse Noah, com dificuldades para descer.

    — Eu disse para confiar em mim — falou em um tom de segurança enquanto olhava, por precaução, o que havia do lado de fora.

    — Tá certo, me desculpa… Para onde vamos agora?

    — Estão fazendo uma competição de funk daquele lado, tem muita gente lá ainda, mas logo vai acabar, então temos que ser rápidos se quisermos sumir.

    BANG—BANG…!”

    — A situação está ficando feia! — disse Chefinho, ao ver brevemente o local do tiroteio. — Temos que dar no pé, agora.

    Com cautela, correram até o local do show, onde o estrondoso som das caixas acústicas ocultava os disparos à medida que se aproximavam, contudo, quando no meio da multidão, foram pegos pelas costas por alguém encapuzado, que, após fazê-los ficarem em silêncio, os levaram para um beco.

    Noah, facilmente, reconheceu o capuz que tampava o rosto da misteriosa mulher, era a mesma pessoa que viu quando esteve na construção do prédio da Game-Fox. E então, quando estavam fora da vista de todos, o Chefinho desmaiou.

    Foi tudo tão rápido que Noah sequer conseguiu ver o que aconteceu. Só o que conseguiu ver foi ela o deixando sentado no chão, com as costas escoradas na parede.

    — Você vem causando muitos problemas, Noah — disse a mulher, calmamente.

    — Quem é você?

    — Não reconhece a minha voz? Sou alguém que vem te observando há muito tempo!

    — A secretária!? — pensou em voz alta, em dúvida.

    — Bingo…! — afirmou tirando o capuz.

    A aparência lembrava a secretária com quem sempre pegava a grana das fotos que ele vendia para o jornal, mas não diria que era a mesma pessoa.

    Nisso, ele se recordou da pessoa com quem trombou no dia anterior; sem dúvidas era a mesma mulher à sua frente, com seus cabelos presos com alguns fios esbranquiçados e sua pele ligeiramente enrugada, que a fazia parecer ter por volta de seus trinta anos de idade, além de ser muito bonita.

    Ao mesmo tempo em que parecia ser uma mulher extremamente madura, os seus traços eram bem delicados, como se o próprio corpo tentasse retardar o envelhecimento, causando um certo desequilíbrio das proporções de seu rosto, pois, dependendo de como a olhasse, ela podia parecer mais velha ou mais nova, sendo difícil deduzir a sua idade.

    — O que eu fiz de tão ruim para vocês estarem atrás de mim? — contestou, inquieto. — Eu sou apenas um jornalista desempregado que tenta ganhar algum dinheiro como freelancer, que tira algumas fotos e as vende junto da notícia. Basicamente eu não passo de mais uma pessoa normal no mundo!

    — Tem razão, e isso é o que me deixa ainda mais frustrada! Como é que alguém sem importância, que se sumisse não faria diferença no mundo, me deu tanto trabalho, a ponto de me obrigar a pesquisar toda a sua vida, a passar meses observando você no dia a dia. Como alguém como você, um ex-arruaceiro, alguém que nunca teria futuro com o histórico que tem, conseguiu tantas informações confidenciais, imagens que pessoas jamais deveriam ver, apesar da maioria dessas coisas serem falsas, o pouco que tinha de veracidade foi o bastante para nos obrigar a mandar alguém ir em rede nacional falar que tudo era falso. Então quero que você me diga, como que um Zé ninguém como você, nos causou tantos problemas, a ponto de ter a cabeça marcada para morrer?

    — Então porque eu ainda estou respirando?

    — Porque você não é normal.

    — O que quer dizer com isso? — perguntou, estranhando a fala dela.

    — Se você fosse normal, não teria insistido nessa ideia de super-humanos, sobre uma coisa que viu quando estava bêbado, teria aceitado que se tratava de algo irreal em comparação a sua realidade, teria pensado em uma desculpa para o que viu e então seguido com a sua vida normalmente. Se você fosse normal, não faria tudo o que vi você fazer até então por tão pouco, só porque precisava do dinheiro. Gente normal já teria desistido de tudo. Eu não sei qual é seu conceito de normal, mas para mim você não é nem um pouco normal.

    — Tá, eu não sou normal, mas, me diga, que diferença isso faz agora? Se você vai me matar — disse com um tom que demonstrava que já havia desistido.

    — Realmente é difícil de acreditar, afinal, você não passa de um merdinha fracassado na vida…

    — Uau… Valeu… Muito obrigado pela sua sinceridade — disse, sarcasticamente.

    — Ainda assim… — continuou, ignorando o fato dele ter interrompido —, após presenciar suas batalhas, eu vi um certo potencial em você! Afinal, é preciso ser louco para que a pessoa escolha seguir por esse caminho, que é pior do que o de um recruta que está iniciando no exército, além de perigoso. Então eu te pergunto, qual que é a sua escolha? Seguir com essa vida miserável, então fingirei que nada aconteceu e irei embora, só que antes me certificarei de que você apague o seu blogue e viva como se nada tivesse acontecido, mas não posso prometer que a sua cabeça deixará de estar marcada para morrer depois disso, pois não sou a única atrás de você, como acredito que já tenha percebido, ou você fará a escolha que mudará toda a sua vida, vir comigo — falou estendendo sua mão para ele —, para vivenciar um mundo que é, sem sombra de dúvidas, completamente diferente e mais fascinante do que o seu?

    — E quanto a minha mãe? Moça? — questionou de maneira educada, apesar de suas expressões mostrarem o contrário.

    — Ela terá todo o nosso suporte. E o meu nome é Kelly.

    — Se for assim, então aceito ir com você… — disse apertando a mão dela, apesar de estar claramente receoso.

    — Ótimo. Agora me ajude a levar esse cara de volta para casa dele.

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