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    A pergunta solene de Jake ainda ecoava pelas arquibancadas, reverberando como um tambor de guerra nos rostos silenciosos de seus companheiros. Sua voz, calma, mas carregada de uma seriedade que raramente demonstrava, revelava um leve lampejo de inquietação — uma sombra tênue em seus olhos, que de outra forma permaneceriam firmes.

    Ele não estava tentando menosprezá-los.

    Na verdade, sua contenção tornou a preocupação que lhe escapou ainda mais lancinante. Ele examinou os rostos de seus companheiros — não com desprezo, mas com um medo oculto de que, apesar de tudo, talvez não conseguisse protegê-los para sempre do que estava por vir.

    Essa incerteza quase imperceptível tocou numa ferida. Para os guerreiros myrmidianos, orgulhosos e inflexíveis, e para Will e Asfrid — aqueles acostumados a se guiar por palavras e intuição — a dúvida discreta de Jake era como uma farpa sutil sob a pele. Não doía por ser estridente ou dramática, mas justamente por ser tão rara, tão fora do comum para aquele que sempre carregara o mundo nos ombros.

    Claro, Jake ainda era a montanha deles — inabalável, mais forte do que qualquer um deles, um fato que ninguém ousava contestar. Mas, por quatro longos anos, eles deram tudo de si para diminuir a distância, derramando sangue e suor apenas para provar que podiam ser mais do que um fardo. Perceber que, aos olhos de Jake, nada havia mudado foi como uma punhalada, atingindo o âmago do orgulho deles.

    Essa amargura, porém, foi uma faísca. A recusa em engolir sua dura “honestidade” acendeu uma chama dentro de todos eles. Nem dois segundos haviam se passado quando…

    “Eu lutarei primeiro.” Will, geralmente o mais diplomático e de voz suave entre eles, deu um passo ousado para a frente, com o maxilar cerrado em uma fria determinação que nenhum deles jamais vira.

    Enquanto falava, a gema esmeralda incrustada no centro de sua testa pulsava com um brilho sinistro e opalescente, projetando sombras distorcidas em suas feições. Uma aura ancestral e opressiva emanava dele — impossível de ignorar, primordial como uma tempestade.

    Aura de Dragão. Ou Poder de Dragão, como era conhecido nos incontáveis ​​mundos onde tais lendas ainda circulavam.

    Esse domínio inato sobre o Espírito e o Poder da Alma podia inspirar admiração e temor igualmente, uma força tão tangível que o ar crepitava com estática. Em níveis mais elevados de maestria, podia aumentar não apenas a coragem, mas também os atributos físicos brutos e a percepção. O paralelo com a infame Aura de Lumyst era quase inexplicável — mais um mistério para os estudiosos desvendarem.

    Contudo, a demonstração de poder de Will foi imediatamente engolida pela pressão espiritual concentrada que fervilhava nas arquibancadas. Ali, entre os melhores dos melhores — jogadores e nativos — sua aura mal teve tempo de se dissipar antes que dezenas de intenções rivais detonassem, colidindo acima de suas cabeças como uma sinfonia de trovões.

    “Não, eu que vou lutar.” Asfrid interrompeu, com um tom seco e uniforme, mas sua energia vibrava com uma intensidade que desmentia sua aparente indiferença. Ela não era subestimada dessa forma há anos, e isso a magoava profundamente.

    Os myrmidianos irromperam em fúria, suas vozes se sobrepondo em um coro dissonante enquanto cada um lutava para ser escolhido. Para eles, não se tratava apenas de orgulho — era a própria essência de sua honra. Ter sua determinação questionada por seu líder era o insulto supremo, uma ferida em sua identidade.

    Mas ninguém levou isso tão a sério quanto as irmãs gêmeas, Enya e Esya — especialmente Esya. Ao contrário dos outros, Jake a havia salvado mais de uma vez, e cada vez isso deixou uma cicatriz em sua autoestima que ela passou anos tentando curar.

    Esya acreditava ter enterrado aquela sensação sufocante de impotência, aquela incômoda insignificância. Mas hoje, enquanto as dúvidas de Jake a atingiam em cheio, ela percebeu que aquelas velhas feridas nunca haviam realmente cicatrizado.

    A pessoa para quem ela mais queria provar seu valor ainda a via como uma boneca de porcelana, sempre precisando ser salva. A humilhação era quase física — um calor subindo pelo seu pescoço.

    “Eu vou lutar primeiro, e ninguém vai me parar.”

    Suas palavras cortaram a tensão, firmes e inflexíveis, congelando todo o grupo no ar. Até mesmo Enya a encarou boquiaberta, estupefata.

    Os olhos de Esya encontraram os de Jake — ferozes, quase acusadores, como se o desafiassem a contradizê-la. Ela falou com um veneno silencioso, cada palavra carregada de desafio:

    “Eu não vou perder.”

    Pela primeira vez, uma rachadura apareceu na máscara pétrea de Jake. Sua preocupação permanecia, mas algo dentro dele mudou, cedendo à força da determinação dela.

    Agora, o ônus da prova havia mudado. Cabia a ela provar que ele estava errado — ser mais do que um estorvo, tornar-se uma arma para os Nerds Myrtharianos em vez de uma mera espectadora protegida.

    Jake a observou novamente. A mudança era inegável.

    Cinco anos atrás, ela fora uma princesa ingênua, com longos cabelos rosados, maquiagem impecável e vestidos delicados. Agora, seus cabelos estavam despenteados, cortados na altura dos ombros, seu rosto despido e endurecido, todo vestígio da antiga vaidade consumido pela experiência. Vestida com uma armadura improvisada de Artefato de Éter de Bronze, espada em punho, ela irradiava a competência silenciosa de uma sobrevivente. A única constante — aqueles inconfundíveis olhos rosados, cuja inocência fora substituída por um brilho predatório.

    Na verdade, ambas as irmãs haviam mudado de maneiras que Jake mal conseguia compreender. Talvez fosse hora de acreditar nelas — de verdade.

    “Muito bem… Esya, você lutará primeiro. Enya, você será a próxima, caso Mani não encontre uma desafiante à altura. Will, você será o terceiro”, declarou Jake finalmente, soltando um longo suspiro que nem percebera estar prendendo. “Quanto a você, Asfrid…”

    “Sim?”, respondeu ela, mal disfarçando a expectativa.

    “Não adianta mais fingir. Eu sei que seu Núcleo de Lumyst Espiritual alcançou o estágio de Santo. Esses duelos entre Lordes Radiantes não são dignos de você.”

    A antiga sacerdotisa Eltariana não se irritou com a exclusão implícita. Pelo contrário, um leve sorriso de satisfação surgiu nos cantos de sua boca. Tudo o que ela sempre quisera era respeito à altura de seu verdadeiro valor.

    “Entendido”, respondeu ela, endireitando a postura com um orgulho silencioso.

    Jake não mencionou que Will também quase havia alcançado esse nível com seu Núcleo de Lumyst da Vida. A profundidade do poder dos dragões era um abismo sem fundo, especialmente para alguém com uma única afinidade com a perfeição — ao contrário de Jake, cujas habilidades se estendiam por muitas disciplinas.

    Mas Will era diferente. Ele não era um lutador puro, e Jake ainda não tinha como avaliar seus limites com precisão sem vê-lo em ação. Além disso, a cautela de Will beirava o lendário.

    No instante em que Jake pediu voluntários, ele se apresentou, apesar de seu nível de cultivo já estar acima dos requisitos. Para não deixar rastros, ele até usou uma técnica secreta de camuflagem, ocultando parte de seu poder — um detalhe que não passou despercebido por Jake. Foi uma atitude digna de respeito por si só.

    Com a formação definida, Esya não perdeu tempo. Com os músculos contraídos, ela saltou por cima da borda das arquibancadas num único pulo que desafiava a gravidade, descrevendo um arco de vários quilômetros no ar para aterrissar quase imperceptivelmente no centro da arena. Sua entrada foi uma silenciosa resposta às entradas exibicionistas de Crunch e Lorde Fênix — ali estava a elegância, destilada em movimento.

    No centro da arena, seu oponente — invocado pelo Conclave Radiante — permanecia imóvel, sua presença como um buraco negro. A Lumyst que emanava dele não era apenas escuridão; era aniquilação, engolindo ar e pedra, drenando o mundo de toda cor.

    Esya acenou com a cabeça, num gesto quase brincalhão.

    “Por favor, não morra tão rápido”, murmurou ela, juntando as palmas das mãos num breve gesto de oração irônica antes de assumir sua posição de batalha.

    O Guerreiro da Luz, com quase sete metros de altura, encarou-a com um olhar inexpressivo e sem alma — tão frio que ela se perguntou se ele sequer estava vivo em qualquer sentido que ela compreendesse.

    De repente, tudo explodiu. Num instante, Esya estava provocando-o; no seguinte, um martelo de guerra titânico rasgou o ar, sua sombra pairando tão perto que ela podia sentir o cheiro do metal e do ozônio em chamas.

    Seu sorriso congelou. Instinto e treinamento se uniram — ela invocou uma barreira de chamas escarlates bem a tempo, enquanto a arma caía com a força de um meteoro. O fogo desapareceu instantaneamente, extinto por uma onda de energia destrutiva, negra como tinta, que estilhaçou o chão e propagou uma onda de choque ensurdecedora pelas arquibancadas. A força foi tão brutal que quase fez seus joelhos cederem; um lutador menos habilidoso teria sido vaporizado imediatamente.

    Na plateia, Will, Enya e os outros permaneceram imóveis, o horror estampado em seus rostos enquanto a onda de choque os atingia. Um nó de pavor os apertava no estômago — será que Esya realmente tinha morrido diante de seus olhos? Por um instante, o mundo prendeu a respiração.

    Mas então ela estava lá, reaparecendo na extremidade oposta da arena — sem fôlego, machucada, com o suor escorrendo pela testa, mas viva. Um alívio atingiu seus amigos como uma onda avassaladora, as mãos se fechando sobre os corações acelerados. Por um instante, eles acreditaram no pior. Mas Esya não se deixava abater tão facilmente.

    Ironicamente, Jake — aquele que mais duvidara dela — foi o único que nem sequer hesitou. Se Esya tivesse morrido de forma tão lamentável, logo de cara, todas as lições que Xi tentara lhe incutir sobre confiança e trabalho em equipe teriam desaparecido como fumaça.

    Sem que ele soubesse, no recôndito de sua mente, Xi soltou um suspiro trêmulo e invisível. Ela mal conseguira se conter para não gritar quando Esya conseguiu escapar no último segundo. Ninguém jamais imaginaria que a pessoa mais nervosa da arena sequer era de carne e osso.

    Graças aos deuses, Esya sobreviveu ao ataque inicial, provando que a fé de Xi não era infundada. Mas agora, restava a parte mais difícil: provar, para todos e para si mesma, que não era mais a nobre frágil que fora um dia.

    Mas o destino tem um senso de ironia cruel. Algumas lições vêm envoltas em dor. Essa luta abriria os olhos de Jake — quer ele quisesse ou não — e nem todas as revelações seriam bem-vindas.

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