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    No último capítulo

    Um som agudo de impacto metálico ecoou pela estrada. A espada escorregou pela superfície do couro, sem perfurar a pele e sem cortar um único fio de pelo.

    Teseu emendou outro golpe com o giro da empunhadura em um arco na direção contrária ao anterior. A espada resvalou como se encontrasse uma parede.

    O leão abriu a mandíbula e projetou o pescoço para a frente para uma mordida.


    Teseu baixou o tronco e deu um passo rápido para a esquerda. 

    Aproveitou a proximidade e aplicou uma estocada direta contra a articulação da pata dianteira da criatura. A ponta da espada bateu contra a pele rígida. 

    O impacto enviou uma vibração que subiu pelo braço de Teseu e causou dormência nos seus dedos.

    A lâmina não deixou qualquer marca.

    A fera girou o corpo e executou um ataque rápido e horizontal com a pata direita. Teseu tentou recuar, inclinando as costas para trás. As garras espessas do leão atingiram o ombro direito do herói. 

    O golpe rompeu as tiras de couro que prendiam a ombreira da sua couraça e arrancou a placa de bronze com violência.

    A garra passou a milímetros da garganta de Teseu enquanto a ombreira caia no solo pedregoso. 

    O peso do ataque fez Teseu perder o equilíbrio e cair de joelhos na estrada.

    — Que força, guh — O rapaz grunhiu apoiado com a espada no chão.

    Licaão estava de pé a poucos metros de distância. Ele pressionava o ferimento aberto no braço esquerdo com a mão direita. O sangue fluía por entre os seus dedos e pingava na poeira. Ele olhou para Teseu ajoelhado. 

    — Liberte o meu selo! — gritou.

    Teseu olhou para o rei. Ele manteve a espada erguida. O herói observou as flores necróticas a pulsar na cabeça do animal e hesitou.

    O leão contraiu os músculos das patas traseiras para saltar sobre Teseu.

    Licaão correu e atirou o próprio corpo contra o flanco da besta. Envolveu o pescoço largo do animal com os dois braços e aplicou todo o seu peso num esforço para imobilizar a fera contra o solo. 

    O leão sacudiu o corpo inteiro num movimento brusco e chacoalhar violento. Licaão perdeu o apoio dos pés. A fera ergueu o tronco e arremessou o homem.

    Ferido, Licaão foi projetado pelo ar até à margem da estrada e chocou-se contra uma carroça de madeira abandonada junto à encosta. As tábuas secas estilhaçaram-se com o impacto das suas costas.

    Ficou estendido no chão, a tossir e segurar as próprias costelas, com dificuldades para respirar.

    A besta parecia ter acordado para outro alvo. Virou o corpo lentamente e começou a caminhar na direção dos restos da carroça, preparando-se para finalizar Licaão. 

    Teseu apertou o cabo da espada rachada. Ele observou a aproximação do animal e reconheceu a sua completa impotência, incapaz de infligir qualquer dano através dos seus próprios ataques físicos.

    Teseu cravou a ponta da sua espada na terra batida da estrada. Ele focou a sua energia e invocou o seu poder. Vinhas grossas e de coloração verde-escura brotaram do solo em redor dos destroços da carroça. 

    As plantas esticaram-se e envolveram os braços e as pernas de Licaão. A energia vital fluiu das vinhas diretamente para o corpo do selvagem.

    Durou um instante.

    A estrutura óssea de Licaão produziu ruídos secos de estalos. 

    Seu corpo expandiu em largura e altura. A pele rasgou os restos da sua roupa. Uma pelagem negra e densa cresceu de forma acelerada sobre a sua derme. O rosto alongou-se e transformou-se no focinho de um lobo gigante. 

    O ferimento aberto no seu braço esquerdo fechou em poucos segundos. As lesões nas suas costas desapareceram sob os novos pelos.

    O lobo negro saltou e colidiu com o leão dourado no meio da via. As duas feras rolaram pelo chão, a levantar poeira e pedras soltas.

    Licaão usou as suas garras para golpear o flanco do leão.

    As unhas rasparam na pele invulnerável e produziram um som de fricção contra rocha.

    Teseu correu na direção das duas feras. Ele espalmou as mãos no chão e comandou as vinhas. 

    As cordas vegetais rastejaram e enrolaram-se nas quatro patas do leão, então tracionaram os membros do animal contra o solo para tentar imobilizá-lo e auxiliar Licaão.

    — O pescoço, Licaão! — gritou Plutarco, escondido atrás da rocha. — É a besta de Héracles! A pele não sofre dano! Ele precisa de ser sufocado!

    Licaão ouviu o cronista. O lobo avançou, suportou uma patada frontal no peito e passou os dois braços musculosos em volta da garganta do leão. Ele travou as mãos atrás do pescoço da fera e contraiu os músculos das costas. 

    Apertou a traqueia da criatura.

    O leão debateu-se sob o aperto. A pressão no pescoço diminuiu a frequência dos seus movimentos. No entanto, as flores negras presas ao crânio e à juba da fera reagiram à ameaça.

    Os botões arroxeados abriram em simultâneo. As plantas expeliram uma nuvem espessa de esporos roxos diretamente contra o focinho de Licaão. O lobo inalou a substância. 

    Os seus olhos amarelos perderam o foco no mesmo instante. A força nos seus braços desapareceu. As mãos de Licaão soltaram o pescoço do leão. O lobo tombou para o lado. 

    Seu corpo enorme bateu na terra e ficou totalmente relaxado e imóvel. Ele perdeu a consciência.

    Livre do sufocamento, o leão puxou as quatro patas para perto do corpo. As vinhas de Teseu esticaram até ao limite e arrebentaram com sons de cordas a partir. A fera levantou-se. 

    O leão ergueu a pata dianteira e pisou com todo o seu peso no peito do lobo desacordado. As costelas de Licaão foram esmagadas contra o solo pedregoso.

    A poeira abaixou enquanto a fera retirava a pata de cima de Licaão e virava a cabeça na direção de Teseu.

    O garoto observou o corpo imóvel do rei manchado de sangue e pó. Uma raiva intensa preencheu a sua mente. Ele caminhou dois passos e apanhou a sua espada caída.

    A lâmina de bronze exibia pequenas rachaduras nas bordas e a ponta estava amolgada devido aos golpes sucessivos contra o couro invulnerável da fera.

    O herói contraiu os músculos do braço direito e canalizou a energia bruta do seu poder de campeão para a arma. 

    Uma luz verde e contínua cobriu o metal danificado. Teseu firmou as botas na terra da via e correu em linha reta contra o animal.

    O leão ergueu a pata dianteira direita e executou um ataque rápido de cima para baixo. 

    Teseu não recuou. 

    Inclinou o tronco para a esquerda, evitou as garras por poucos centímetros e desferiu uma estocada frontal de baixo para cima.

    Ele direcionou a ponta brilhante da espada para o espaço estreito entre o segundo e o terceiro dedo da pata da criatura. Nesse local exato, uma das flores necróticas estava enraizada. 

    A lâmina rasgou a base do caule da planta, esmagou as pétalas negras e penetrou na carne desprotegida da pata, até colidir com a estrutura óssea do leão. O avanço do metal parou subitamente.

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