Capítulo 139 | Caçadora
O herói contraiu os músculos do braço direito e canalizou a energia bruta do seu poder de campeão para a arma.
Uma luz verde e contínua cobriu o metal danificado. Teseu firmou as botas na terra da via e correu em linha reta contra o animal.
O leão ergueu a pata dianteira direita e executou um ataque rápido de cima para baixo.
Teseu não recuou.
Inclinou o tronco para a esquerda, evitou as garras por poucos centímetros e desferiu uma estocada frontal de baixo para cima.
Ele direcionou a ponta brilhante da espada para o espaço estreito entre o segundo e o terceiro dedo da pata da criatura. Nesse local exato, uma das flores necróticas estava enraizada.
A lâmina rasgou a base do caule da planta, esmagou as pétalas negras e penetrou na carne desprotegida da pata, até colidir com a estrutura óssea do leão. O avanço do metal parou subitamente.
A força de Teseu não foi suficiente para perfurar ou quebrar o osso da besta.
Ela ignorou o ferimento e a espada cravada na sua carne. A criatura utilizou o movimento do próprio ataque para atirar a sua massa corporal contra o garoto.
O impacto arremessou o herói para trás. Ele caiu de costas na estrada e os seus dedos soltaram o cabo da espada.
A criatura avançou um passo e desceu a mesma pata ferida diretamente sobre o centro do peito de Teseu. O peso colossal da criatura pressionou as costelas do garoto contra o solo pedregoso. A imobilização foi total.
A mandíbula do leão abriu-se por cima do rosto de Teseu, expôs os dentes pontiagudos e um odor a carne em decomposição misturado com o líquido escuro segregado pelas plantas parasitas que parecia doce em excesso.
De repente, algo atingiu a orelha esquerda do leão.
A fera virou o pescoço na direção do impacto.
Plutarco estava de pé no meio da via com outra pedra do tamanho de uma maçã na mão direita. Suas pernas tremiam de forma visível e gotas de suor escorriam pela sua testa.
— Largue-o e venha até mim! — gritou Plutarco. A sua voz falhou no final da frase. — Eu sou o verdadeiro oponente aqui! Eu sou o mais forte dos três!
O leão fixou os olhos em Plutarco por três segundos, que com a boca trêmula e joelhos vacilantes, encarou de volta. Ignorou-o, virou o rosto novamente para Teseu e baixou a cabeça para concretizar a mordida.
Um som agudo de tensão de corda e deslocação de ar soou na margem direita da estrada. Uma flecha de haste de madeira escura surgiu da linha das árvores.
A ponta de ferro atingiu o centro exato da maior flor negra localizada na testa do leão.
O impacto físico estilhaçou o cálice da planta. O líquido escuro espirrou para o ar e manchou a pelagem dourada da fera.
O leão soltou o peso de cima de Teseu e recuou um passo. A besta balançou a cabeça de um lado para o outro e abriu a mandíbula.
Uma segunda flecha surgiu do meio das árvores e partiu outra flor na base da orelha direita do animal. De seguida, uma terceira, uma quarta e uma quinta flecha rasgaram o ar numa sequência rápida.
As hastes de madeira vibravam com a força do movimento contínuo. Todas as flechas atingiram os alvos com precisão.
Os disparos destruíram as flores necróticas no crânio e na juba do animal sucessivamente. As pontas de metal embatiam no couro e aniquilavam a estrutura das plantas parasitas sem causar ferimentos na pele invulnerável do leão.
Surgiam de várias direções, o que deixou a besta atordoada.
A fera debateu-se na estrada de terra e sacudiu a cabeça. Mais flechas vinham em sequência.
De repente, virou o corpo na direção de Plutarco e tentou dar um passo à frente. As pernas do animal tremeram e cruzaram-se umas sobre as outras.
Teseu apoiou as palmas das mãos no chão pedregoso e tentou erguer o próprio tronco. Os músculos dos seus braços falharam devido à exaustão física e ele voltou a deitar as costas na via.
O leão ergueu o tronco sobre as duas patas traseiras e movimentou as garras dianteiras no ar.
Plutarco, paralisado, assistia sem conseguir fazer com que seus trêmulos joelhos o obedecessem.
No segundo seguinte, a tensão muscular abandonou o corpo da fera. O animal de três metros tombou para o lado direito.
A criatura colidiu com o solo, levantou poeira e ficou completamente estática e em estado de inconsciência.
As flores destruídas pelas flechas, antes presas ao couro, murcharam e transformaram-se em pó escuro sobre a pelagem dourada.
Plutarco observou no chão boquiaberto as flechas quebradas. Um líquido amarelado banhava cada uma delas. A pedra que ainda segurava caiu de sua mão.
O cronista correu até Teseu, agarrou o braço direito do herói e puxou-o para cima. Teseu ficou de pé, com a respiração acelerada, e apoiou o peso do próprio corpo nos joelhos. Ele olhou para a criatura no chão e então para a própria espada.
Com dificuldades, ficou de pé e caminhou até a criatura com a espada em mãos. Se usasse mais um pouco do seu poder, agora com direcionamento, poderia finalizar a fera de vez.
Ergueu a espada e respirou fundo.
Seus olhos percorreram o corpo da besta. As flores quebradas ao longo do corpo e a forma como a fera parecia dormir tranquilamente agora. Suas veias negras das plantas enraizadas haviam desaparecido.
Ele hesitou. A espada desceu e cravou no chão abaixo dele enquanto seus joelhos cediam à exaustão mais uma vez.
Uma nuvem longa cruzava o céu, e bloqueou o Sol por um longo minuto. A manhã pareceu sombria.
Os galhos dos arbustos na margem direita da estrada moveram-se.
Uma figura vestida com roupas de caça de couro escuro pisou na terra da via. Ela segurava um arco longo de madeira na mão esquerda. A aljava presa às suas costas continha várias flechas idênticas às disparadas.
A mulher caminhou com passos firmes até ao centro do caminho e parou a cinco metros de Teseu e Plutarco. Então, levantou a mão direita e puxou o capuz para trás.

Os olhos trêmulos do garoto custaram a enxergar com clareza o rosto. Enfim, quando conseguiu, ficou paralisado.
— Calixto…
Ela encarava o garoto em silêncio com o queixo empinado.
— Vocês fizeram um bom trabalho contra a besta.
O tom de voz dela sequer demonstrava cansaço ou alteração pelo combate.

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