Índice de Capítulo

    Calixto abaixou o arco longo e olhou para o corpo do Leão de Nemeia estirado no chão. Depois, ela fixou os olhos em Teseu. A respiração do garoto ainda estava acelerada devido ao esforço da luta.

    — Vocês fizeram um bom trabalho contra a besta.

    O tom de voz dela sequer demonstrava cansaço ou alteração pelo combate.

    Teseu observou o rosto da mulher. Ele notou os traços familiares, as marcas de sol na pele e a postura reta. 

    — Calixto…

    Ela caminhou até o rapaz e estendeu as mãos. Ele retribuiu o gesto e se levantou enquanto Plutarco ao seu lado observava com interesse.

    Mesmo com ele de pé, a mulher não o soltou de imediato. Ela apertou os bíceps do garoto com os dedos, avaliando a rigidez dos músculos. 

    — Você cresceu. — Ela parecia curiosa. — Essa armadura parece apertada.

    Teseu concordou com um movimento de cabeça e abraçou Calixto. Ela retribuiu o abraço, passando os braços pelas costas da couraça dele, e logo o soltou. Teseu deu um passo para trás e observou a vestimenta dela.

    Calixto vestia uma saia de tiras de couro escuro e curto que descia apenas até a metade das coxas e deixava as pernas expostas. Uma clâmide de tecido grosso estava presa ao ombro direito por um pino de bronze, formando o capuz que ela acabara de puxar para trás. 

    O tronco dela era protegido por uma armadura de peça dupla de couro endurecido que cobriam as costas e o peitoral amarradas nos flancos por cordões grossos.

    Nos pés usava sandálias rústicas e caneleiras presas por longos cordões de couro amarrados logo abaixo dos joelhos.

    — Você está usando roupas diferentes. Não se parecem com as que conseguimos nas minas. — Teseu apontou para a armadura de couro dela.

    — É o uniforme dos soldados do assentamento — Calixto respondeu, alisando a frente da couraça com a mão livre. — Eu abandonei as roupas velhas no dia em que fundamos a cidade.

    Plutarco aproximou-se dos dois. O cronista coçou o nariz e puxou um rolo de pergaminho limpo e um pedaço de carvão de dentro da sua bolsa. Olhava para Calixto com os olhos interessados.

    — Você é a grande Calixto? — Plutarco perguntou, posicionando o giz sobre o papel. — A caçadora das histórias do jovem Teseu? Aquela que foi presa aos dez anos por caçar o lobo de um nobre?

    Calixto olhou para Plutarco e depois para o pergaminho. 

    — Sim, esse é o meu nome.

    Plutarco começou a escrever de forma rápida.

    — Impressionante. E qual é a sua técnica principal com o arco? Você calcula a velocidade do vento antes de atirar ou age apenas por instinto puro?

    — Eu olho para o alvo e solto a corda — Calixto respondeu de forma direta e um pouco impaciente.

    — Instinto, então. — O escriba anotou com fervor.

    A mulher o varreu com os olhos de maneira curiosa.

    — E você? — Perguntou.

    O homem ergueu os olhos de suas anotações por um instante, como se não entendesse a questão.

    — Enfrenta leões com pedras desde que idade?

    Plutarco sorriu, sem jeito, e coçou o nariz com o giz entre os dedos.

    — Sou Plutarco. E hoje foi a minha primeira vez.

    Calixto sorriu em resposta.

    O som de passos pesados arrastando-se na terra interrompeu a entrevista. Teseu, Calixto e Plutarco viraram a cabeça na direção da carroça destruída.

    Licaão caminhava até eles. Estava na sua forma humana.

    O corpo de Licaão estava coberto por poeira cinza e manchas de sangue seco. Ele mancava da perna esquerda, dobrando o joelho a cada passo para evitar apoiar todo o peso no pé machucado.

    Estava nu e sem qualquer vergonha disso.

    Parou a poucos metros do grupo e levantou o queixo enquanto dilatava as narinas, puxando o ar repetidas vezes. Os olhos dele focaram em Calixto.

    — O cheiro… — Licaão apontou o dedo indicador para a caçadora. — Era você escondida nas árvores perto do nosso acampamento ontem à noite. 

    Calixto franziu a testa e olhou o corpo nu de Licaão de cima a baixo. 

    — Você está me cheirando? — Ela virou o rosto para Teseu e apontou para Licaão com a mão retraída. — Por que você está viajando com um velho tarado nu, Teseu? E onde está Hermes?

    Licaão cerrou os dentes e cruzou os braços na frente do peito.

    — Eu não sou um velho tarado — Licaão falou alto. — Eu sou um rei.

    Calixto ignorou a fala de Licaão e manteve os olhos em Teseu, aguardando a resposta sobre o antigo companheiro de batalha. 

    — Nós nos separamos — Teseu explicou. — Hermes seguiu outro caminho. Os meios dele divergiam dos meus.

    A mulher inclinou o rosto para o lado com curiosidade e novamente se virou para Licaão.

    — Eu vi vocês na estrada ontem. — Calixto disse. Depois, ela olhou novamente para Teseu. — Reconheci a sua armadura, Teseu, mas algo me parecia estranho. Por isso, resolvi manter a distância e acompanhar os passos de vocês de perto para avaliar a situação antes de me aproximar. 

    Ela começou a caminhar em volta do garoto que acompanhava seus movimentos com os olhos inquietos.

    — Imaginei que fosse outro dos nossos, não… você. — Seus olhos pareciam incomodados ao notar o nível de desgaste do equipamento do rapaz.

    Calixto sorriu de canto na frente do rapaz.

    — Acho que devia dar um jeito de trocar esse equipamento. Conheço alguém que pode ajudar.

    — Entendo — Teseu respondeu com um sorriso sem jeito. — Eu seria muito grato.

    Apesar de dizer isso, seus olhos desceram para a espada quebrada. O olhar tornou-se triste de repente, pesaroso. Era a última lembrança que ele carregava de sua vida de um ano atrás.

    O homem de cabelos brancos e sorriso jocoso veio a sua mente em um instante. Ele sorriu, melancólico.

    “Desculpe-me, meu amigo.”

    — Agora, se me permitem, o rei precisa vestir as próprias roupas — Calixto completou, apontando para o pelado.

    Licaão grunhiu.

    — Ei, velho, tem algo que possa me emprestar?

    Plutarco demorou a perceber que era com ele que o homem falava. Coçou o queixo com a base do estilete que segurava e pensou.

    — Hum, bem. Acho que tenho um Quíton cinza. — Ele franziu os lábios. — Mas provavelmente ficará pequeno para você.

    — Que seja. — Licaão resmungou com a mão estendida. — Dê-me logo.

    Em pouco, estava vestido com o tecido do colega. O que era para ser uma túnica só cobria até pouco acima dos seus joelhos. 

    Os ombros enormes e largos esticavam o tecido e ainda assim deixavam espaços que mostravam a pele por baixo próximo das axilas. Licaão olhava a si próprio como dava, por cima dos ombros e também na frente. Parecia contrariado.

    Teseu olhou para o leão desacordado e depois para Calixto. — Nós estamos indo em direção ao sul. Nós vamos passar por Nova Arcádia.

    — Nova Arcádia? — Calixto ergueu uma sobrancelha. 

    Teseu acenou positivamente.

    — Que coisa. Vocês estão indo para o nosso assentamento, então. 

    Licaão se aproximou, interessado na conversa.

    — Assentamento? Você sabe algo sobre Nova Arcádia?

    Calixto ajeitou a aljava nas costas e fitou o selvagem com um olhar incomodado.

    — Claro que sei. Eu vim de lá.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota