Karlamitas 

    A humanidade não tinha vontade, nem muito menos cara de pau. Queriamos colheita farta? Rezávamos. Precisávamos de saúde? Orávamos. Desejávamos dinheiro? Louvávomos.

    O normal ao se pensar em Primordiais era sentir: esperança, sentido, amor. Mas a verdade era que os Primordiais estavam cagando para todos nós. 

    Eles não deixavam seu campo florido quando rezava, eles não te entregavam saúde quando orava, eles não compartilhavam seu dinheiro quando você os louvava. 

    Então eles e seus governos que se fodam! No fim, os primordiais eram apenas pessoas qualquer que receberam poder demais.  

    Eu havia nascido há muito tempo, um século e meio ou dois, não sabia mais dizer. Minhas memórias já haviam se tornado vagas, somente certas coisas lembrava com clareza. Minha mãe era uma Nullu, enviada para Nação do Caos por sua enorme beleza.  

    Sua utilidade e importância era igual a de um objeto qualquer, facilmente substituível.

    Ela vivia sempre escondida, mas não em vielas ou campos de concentração onde outros Nullus residiam, mas em um enorme e exuberante castelo. Mesmo local onde aconteceu meu nascimento.

    Meu pai pouco eu via, nossos dias inteiros se resumiam a um quarto numa alta torre isolada do castelo, definitivamente uma gaiola para um passarinho. 

    Não podíamos sair por “pedido” de meu pai, ordens aquelas que minha mãe sempre tentava defender.

    Em um fatídico dia como qualquer outro na torre, quando uma mulher com vestimentas avermelhadas apareceu no quarto.

    Ela Passou pela enorme porta e caminhou em nossa direção, para mim, um leve sorriso, mas para minha mãe; ela encarou com nojo.  

    Agarrou seu cabelo e a levantou acima do chão, tirou-me de seus braços, e se distanciou para a abertura da torre.

    Minha mãe nem sequer resistia… ela parecia não ter vontade alguma de fugir.  

    Em frente aquele sol e brisa forte a mulher vermelha fechou sua expressão, soltou minha mãe e uniu suas mãos; próximas, mas não juntas. 

    O que surgiu em minha frente era uma grande esfera pulsante e vermelha, ela era bela, reluzente… poderosa.

    Aquela esfera me chamava, ansiava, clamava por mim. Sorridente, era assim que se encontravam tanto eu, quanto a mulher de vermelho. 

    O som da esfera havia tomado meus ouvidos, como uma espécie de música dentro da minha cabeça. Em meio a melodia, aquela grande esfera caótica… foi solta no peito de minha mãe. 

    Tudo naquele mísero pedaço da masmorra explodiu. Ela, a janela, as pedras.

    O que estava perto da mulher vermelha voou para frente abrindo um buraco enorme onde o sol gigante batia em meu rosto.  

    O som das pedras caindo e meus batimentos acelerados ficaram totalmente enraizados em minha mente.

    A mulher vermelha ainda sorridente pegou minha mão e me guiou pelas grandes escadas.  

    Descemos ouvindo nossos passos ecoando pela masmorra, degrau por degrau, até chegarmos ao solo.

    Do lado de fora, eu caminhei bem ao lado do cadáver de minha mãe.  

    Seus lindos cabelos escuros e sua pele morena se misturaram com os destroços e aquela imensa poça de sangue… Sim, aquela expressão, que maldita expressão era a que eu estava vendo em seu rosto… alívio.  

    Pouco tempo fiquei na Nação de Caos após a morte de minha mãe.

    No dia seguinte, fui acorrentada em um barco e entitulada como mercadoria para os Súditos de Valíria.  

    Mas por sorte, ou quem sabe destino, em nossa parada final uma rebelião foi ocasionada, dando possibilidade para minha fuga. 

    Peguei a primeira coisa que tivesse valor em minha frente, amarrei com alguns panos em minhas costas e corri até não aguentar mais.  

    Pés cortados, pulmão sem ar e barriga vazia, minha queda foi breve.

    Desmaiada e sem forças, já nem sabia onde estava.

    Eu me encontrava suja, pálida e morrendo tanto de fome quanto de cede, todavia, ao menos não estava sozinha. Um monte de ferro com o nome “Anarquia” gravado em sua empunhadura estava comigo. 

    Com meus olhos fechados, Anarquia era a única coisa que eu podia abraçar ou sentir algum calor, eu tinha certeza que aquele momento, seria meu fim.

    Nos meus aparentes últimos momentos, relembrei os tempos na Nação de Caos com minha mãe.

    Sua mania de observar e nomear cada pássaro diferente que brotava todas as manhãs era encantadora.

    Mesmo quando ela se encontrava com meu pai a força após usar os nomes e histórias para me fazer cair em um sono profundo.

    Quanto mais eu lembrava, quanto mais as imagens se fortaleciam em minha cabeça, mais eu rezava… por favor, deixe-me a esquecer.

    Mas quando o brilho do sol beirou minha pele, senti os braços de alguém em meu corpo.

    Com os segundos se passando, aos poucos conseguia abrir meus olhos.

    Um homem muito estranho me acolheu, seu nome era Phin. Um jovem de cabelos enrolados escuro que realçavam seus olhos Genasis azuis. 

    Naquela época ele acabava de perder sua irmã em um confronto com Wallpurg o fazendo se aposentar de vez dos campos de batalha, talvez exatamente por aquele motivo, ele havia demonstrado tamanha empatia por mim. 

    Com Phin, não apenas sobrevivi, mas também me desenvolvi. Aprendi diversas coisas sobre a vida, os Deuses e nosso afínuo, eu acabava de deslumbrar o outro lado do mar.

    O jovem Phin apenas vivia sua vida pacata e rotineira em Jurys Wolf, um reino conhecido pelos seus caninos elementares, leais e mortais.

    Ele voltava de sua patrulha, fazia a comida, acariciava seu coiote e me ensinava tudo sobre Valíria.  

    Com o passar dos anos eu crescia e Phin envelhecia, meu processo de crescimento foi consideravelmente mais lento que das outras crianças, embora eu não soubesse o motivo; até outra vez um fatídico dia chegar em minha vida. 

    Phin voltou animado para casa, carregando de baixo do braço um livro sobre nossos tão amados pais e salvadores, os Primordiais.  

    Até aquele momento eu era como as outras pessoas, louvava meus deuses.

    Quando Phin abriu e me contou sobre cada um dos oito Primordiais, o meu chão simplesmente se abriu. 

    As peças finalmente haviam se encaixado, meu pai… era Vlouthier, Primordial do Caos.  

    Meu mundo desabou. Sem pai, sem mãe e agora sem algo para seguir, nem mesmo fé havia restado. 

    Eu tinha percebido o que todos se negavam a enxergar… nunca existiria salvação para nós. Pois, Deuses não deveriam andar entre os mortais.  

    Com tamanho desprezo, jurei, daquele momento em diante, eu iria viver apenas para destruir a vida de qualquer Primordial que eu tivesse a mísera chance. Não importasse quanto tempo demorasse ou o que me custasse.  

    Após a morte de Phin, acabei indo parar em Eques Dracaries, um reino que ficava cada vez mais forte em poder militar.

    Naquele mesmo reino foi onde conheci, Akiris. No início, aparentava ser apenas mais um Nullu qualquer, porém, ele tinha algo diferente. Além de seu cabelo prateado, era forte, não envelhecia, e também a merda do rei. 

    Mas mais do que tudo aquilo, os seus olhos; eles ardiam, sempre estavam pegando fogo. Ele tinha a vontade que faltava em todos os outros.

    Quando menos percebi, eu já andava ao seu lado; pois nosso propósito era o mesmo; foder com a vida dos Primordiais!

    Após reprisar o passado outra vez, finalmente abri meus olhos.

    Minha cama era horrivel, conseguia sentir minha coluna clamando por socorro.

    Aquela cama com madeiras frágeis e as gorduras impregnadas nos cantos das paredes só mostravam como aquele lugar era barato. O nanico era um rei, a merda de um rei, e nem ao menos pagou uma boa taverna, credo. 

    — Menino Wally não está aqui. — soltei em voz alta após vasculhar o quarto com os olhos.

    Eu me levantei, espreguicei-me e comecei a colocar minha armadura. Demorei alguns minutos verificando todos os meus compartimentos e equipamentos que ainda estavam salvos da batalha. 

    Caminhando até o lado de minha cama, peguei minha fiel companheira, Anarquia. Ela estava bem limpinha e sem cheiro algum, o que era uma pena, aparentava mesmo estar implorando para fazer uma festinha.

    Acoplei-a minha armadura e caminhei em direção até a por…  

    — Está na hora. — o quarto falou comigo.

    — Ah sim, sim, está na hora… — fui correndo imediatamente até a porta.

    Peguei a Anarquia e me virei rapidamente para trás com minha amada posicionada, mas… não via ninguém.

    — Quem eu conheço que pode sumir e aparecer a qualquer momento?… Dominus?… Naah, ele nunca faria isso. — recarreguei a Anarquia enquanto sorria sozinha. 

    Abrindo a porta de costas para a maçaneta, observei mais uma vez o quarto; ele estava vazio mesmo. A leve presença surgiu e desapareceu logo em seguida de sua fala. 

    Por via das dúvidas caminhei em direção as escadas olhando e mirando para todos os ângulos possíveis em meu campo de visão. Não via ninguém, finalmente, suspirei aliviada. 

    — Acho que se alguém tivesse saído do quarto agora, ele com certeza não voltaria para casa. — guardando minha Anarquia, continuei meu caminho.

    Virada para a escada, no último degrau, consegui enxergar uma carroça simples parada na frente da taberna.

    Fechando a porta da taberna, acenei para o velho dono do lugar que encarava uma carta com o símbolo dos caçadores em seu balcão.

    — Meus pêsames. — prestei condolências com minhas mãos juntas em prece

    Nas rédeas de uma carroça coberta, encontrei o garoto esquizofrênico olhando e conversando com seu lado direito, coitado, maluquinho. 

    Abrindo o pano e entrando na carroça, encontrei, Akiris, menino Wally e o outro caçador, todos sentados. 

    Mesmo que seu odor de sangue me incomodasse um pouco eu acabei sentando ao lado do caçador mais ao canto da carroça. 

    — Poderia pelo menos ter tomado um banho. — susurrei com a cabeça virada para outro lado. 

    O nanico do Akiris estava perdido em pensamentos e o menino Wally inquieto igual um cordeirinho assustado, único naquele momento que eu conseguiria conversar era o próprio fedorento caçador caladão. 

    Observando mais um pouco, notei algo estranho na lâmina de sua foice, ela estava brilhando! Um vermelho vibrante muito parecido com o monstro que enfrentamos.  

    Aquele brilho me atraía, ele clamava por mim, sem dúvidas, aquilo era uma arma encantada em Caos! E o melhor, o encantamento não havia sumido! 

    Peguei um pequeno pedaço do assento retangular da carroça e aproximei na lâmina. Instantaneamente a madeira queimou na minha mão. Não conseguia tirar o sorriso do rosto, eu queria muito pegar aquela foice.  

    Aproveitando que o caçador estava focado no menino Wally, estendi minha mão esquerda para tocar na lâmina, mas a asa do caçador bateu na minha mão. Eu tentei mais uma vez, e o mesmo aconteceu.

    — Vamos ficar aqui dentro por muito tempo, ao menos me deixe tocar! 

    Ele continuava focado no menino Wally, de uma forma que começava até a me assustar. 

    — Vai, Querubim, só um dedinho. — implorei com as mãos em forma de prece outra vez.  

    Sem respostas, percebi o menino Wally pairando sua visão sobre mim. 

    — O que é um Querubim? 

    Akiris o olhou de canto com uma expressão surpresa, assim como eu ele devia imaginar que o menino Wally ficaria com pesadelos constantes com aquele monstro.

    — Ora, ora, menino Wally, você não sabe? — com um enorme sorriso virei meu rosto para cima. 

    Ele não esboçou nenhuma reação, ficou completamente neutro igualzinho ao Akiris… credo. 

    — Meu caro, Wally, Querubins são pequenos monstros com asas que possuem um poder hipnotizante, mas você sabe para que? 

    — Não… eu não sei. 

    — Para devorar você ainda vivo! — gritei com meus braços imitando um urso. 

    Com um sorriso menor eu abaixei meus braços os movendo em direção ao Caçador fedorentão. 

    — Olha todo esse sangue na roupa e na boca. 

    Levantei minha mão esquerda em direção a lâmina… Saco! Novamente sem sucesso. 

    — E essa asa nas costas. Igualzinho né?

    Wally parou de me olhar e voltou sua visão para a madeira da carroça. Ele não sorriu, nem se surpreendeu muito, mas ao menos desapareceu aquele seu olhar abatido.

    Haviam se passado séculos, realmente achava que tinha superado… mas ainda odiava aquele olhar morto de merda.

    No decorrer do caminho eu tentei, tentei, e tentei tocar na lâmina sempre quando Querubim estivesse desprevenido… em todas falhei. Suas asas eram sempre rápidas demais, mas que porra!  

    Após um tempo muito proveitoso daquele puta silêncio desconfortável, onde apenas o cavalgar dos cavalos soavam por nossos ouvidos, eu estava prestes a realizar outro bote em minha preciosa presa vermelha quando a carroça de repente aumentou bruscamente a velocidade.   

    Caminhando até os fumdos e abrindo o pano, atrás de nós existiam seis homens a cavalo imbuindo espadas, onde dois deles eram arqueiros preparando sua respectiva boas-vindas. Que azar daqueles ladrões, eles não possuíam bom dedo para carroça.  

    Fechei o pano e a festa logo começou, as flechas penetraram o pano da carroça deixando brechas para a luz passar e auxiliar na mira dos atiradores.

    Santo Caos eles realmente estavam precisando da sua ajuda, cacete! Eles atiravam mal para caralho!  

    Querubim mal se importava com a situação, menino Wally parecia quase estar perto de um colapso, ficava repetindo coisas como: “ele vai me pegar, ele vai me pegar” e blá, blá, blá, blá, puta moleque fresco. 

    Já o garoto esquizofrênico estava muito preocupado, ele não parava de perguntar ao vento o que fazer.  

    Pera, pera, pera, pera, pera ai! Era ali! Aquela era minha hora de brilhar. 

    — Fazer o que não é! Acho que vou ter que salvar o dia mais uma vez!  

    Estralei meus ombros e pescoço, com meu lindo sorriso no rosto, puxei o pano da carroça e sai para fora outra vez. 

    — Podem vir! É Assim que eu gosto! 

    Eles me pareceram confusos e enojados, não entendi. Sinceramente, achei… não, eu tinha certeza que minha voz estava maravilhosa, mas aparentemente eles não pensaram o mesmo.

    Procurando minha afirmação, fechei um pouco o o pano já bem destruido e olhei para trás, Querubim e Akiris estavam me encarando perplexos. 

    — Que foi?  

    Nenhum deles me respondeu, povinho sem educação. Prestes a virar meu corpo de volta para o pano escuto um barulho passando a poucos centímetros do meu ouvido direito; era uma flecha. Passou raspando e atingiu a madeira mais a minha direita. 

    Eu conseguia escutar o cavalgar dos bandidos ficando mais alto, carregar uma carroça estava nos deixando em desvantagem.  

    Vamos ter que resolver isso de uma forma mais civilizada. Virei-me completamente e abri o pano outra vez.

    Entretanto, ele se rasgou completamente e voou para fora da carruagem em um piscar de olhos. 

    O grande, reluzente e todo poderoso sol revelou um dos homens espadachins bem a minha frente!  

    Ele golpeou com sua espada mirando certamente minha cabeça. Inclinando meu corpo para trás, consegui desviar de seu golpe por um fio, aqueles arrasa carteiras estavam rápidos demais. 

    Mantendo meu equilíbrio e permanecendo de pé, percebi que sua colega de profissão havia ficado presa na madeira a minha esquerda. 

    — Aí! Na próxima, avisa!

    O pequeno ladrão fazia muita força para retirar sua espada da madeira, pois então, pensei: talvez ela fosse muito importante para ele me ignorar tão abertamente. Como uma boa Súdita do Caos, eu iria ajudá-lo.

    — Relaxa, eu te ajudo — acalmei ele com um ar confiante.  

    Com uma mão apoiada na parte interna da carroça e a outra no peito do indivíduo, eu o empurrei com toda minha força. 

    A queda de seu cavalo o fez sair rolando e gemendo de dor por longos segundos, uma das visões mais calorosas que eu tinha visto naquela semana!

    — Que saudade de bater em babaca escroto.

    Como uma boa Súdita que eu era, acenei sorrindo para os outros cincos restantes.

    Os dois arqueiros não aparentavam terem entendido minhas intenções, eles preparavam outras flechas para atirar em direção a minha cabeça. 

    Com o próximo disparo, joguei-me de uma vez para trás, Caos, aquilo foi por um triz!

    Milagrosamente o esquizofrênico ainda não tinha sido atingido… aqueles arqueiros acabavam de cair em meu conceito. 

    — Yuki, separe a carroça em duas! — nanico gritava com o esquizofrênico. 

    — Espera aí, aquela merda azul mais cedo era isso?! — questionei totalmente jogada sobre a madeira.

    — Eu posso tentar, mas preciso me concentrar! — gritou o esquizofrênico.

    Sério? Até ele me ignorando?… Só podia ser piada. O nanico se levantou, observou os nossos perseguidores, e então voltou sua atenção para mim. 

    — Karla, já sabe o que fazer. 

    Olhei para Akiris, sorri e comecei a comemorar ainda deitada. 

    Já em direção ao esquizofrênico, ele se tornou automaticamente o novo alvo fácil dos arqueiros à espreita. 

    Uma rápida flecha surge dentro da carroça… caralho! Aquela foi quase. Por um triz a flecha não acertou a cabeça de Akiris; Incrível, eles estavam melhorando a pontaria!  

    Girei-me ainda deitada e gatinhei até o final da carroça, ainda abaixada comecei a preparar um de meus explosivos.

    Retirei de minha bolsa um objeto esférico com diversos fragmentos de metais ao redor de seu corpo circular. 

    — Agora é pra valer! — clamei minha declaração de guerra junto ao ato de jogar o explosivo. 

    Três homens com seus reflexos afiados se afastaram da minha granada simples, mas os outros dois continuaram em linha reta, recebendo a explosão em cheio. 

    BUUM! Aquilo era música para os meus ouvidos. A explosão só não foi mais alta que os seus imensos gritos de dor que cessavam com a distância que crescia rapidamente entre nós.  

    Havia sobrado dois com espadas e um arqueiro. Olhando para trás, percebi que Akiris ja tinha conseguido tomar as rédeas.

    Virando-me de volta, encontrei o arqueiro chorando enquanto preparava uma flecha encantada em Espírito.  

    Saquei minha escopeta e posicionei meu braço para me proteger da flecha. Eu acertei! Mirou direto na minha cabeça, que decepção.

    Com minha amada Anarquia posicionada em direção ao arqueiro, um outro ladrão se colocou no caminho e levantou uma proteção de Essência com seu braço esquerdo; coitadinho, eu não estava usando arcanismo. 

    — É hora da mestra mostrar como se faz — cochichei posicionando meu dedo no gatilho. 

    Disparei com a Anarquia entre o pescoço e a cabeça do indivíduo com espada. O barulho exagerado dessa escopeta assustaria até mesmo uma horda de monstros, seus fragmentos de Caos eram mais rápidos que um raio, ela era de fato a mais pura perfeição.  

    O jorramento excessivo de sangue fez o ladrão cair de seu cavalo, e os dois que sobraram pareciam completamente irados. 

    Por uma sorte inacreditável o arqueiro que milagrosamente não havia caído, apenas estava banhado de sangue do seu próprio companheiro enquanto ruía seus dentes, sem ferimento nenhum, que saco.

    Ele preparava outro disparo, enquanto o ladrão de espada se aproximava esperneando igual um animal selvagem. 

    Já apontando a Anarquia para ele, escutei a voz do Yuki. Eu enxergava uma silhueta azul cobrindo meus pés, silhueta aquela que se separou da gente com os ladrões seguindo a mesma.  

    Mesmo que fosse uma ilusão… como não perceberam qual era a verdadeira?… Bom, dane-se. Eu não entendia nada de Espírito. 

    — Seus novatos! — gritei recarregando a Anarquia.

    Virei-me, guardei minha amada, fechei o mais novo e moderno pano imaginário da carroça e me sentei no lugar de Akiris. 

    — Quando o Querubim dormir, eu com certeza pego essa foice — susurrei olhando para os meus pés. 

    Akiris estava diminuindo a velocidade aos poucos, pelo visto já estávamos próximos do castelo. Santo Caos, finalmente. Já tinhamos despistado eles a um bom tempo.  

    Para minha felicidade a carroça havia parado. Em minha frente já era possível enxergar uma parte da frente do castelo pelo lado das rédeas. 

    — Ainda bem que chegamos, eu não aguentava mais ficar sentada — espreguicei-me enquanto desabafava. 

    Antes mesmo até de Akiris eu me levantei e fui saindo da carroça. No lado de fora, respirei fundo despreocupada, depois de longos meses finalmente eu tinha retornado.

    Eu tinha esquecido como o castelo era enorme, que tipo de nobre possuía dois muros um interno e um externo? 

    O primeiro era na entrada que circulava a área em volta do castelo, e o segundo era o que estávamos sem contar o muro do próprio castelo, a distância do primeiro muro para o segundo era bem considerável, cerca de cinco minutos correndo sem parar. 

    Akiris dizia que facilitava acertar com flechas, explodir com armadilhas ou magia qualquer inimigo que aparecesse.  

    Mas o interior me impressionava toda vez, biblioteca, quinze quartos, refeitório, uma arena gigante, armazém e blá, blá, blá, Akiris tinha até um escritório. 

    Enquanto girava relembrando sobre o castelo, alguns guardas de ronda caminharam até nós, todos encaravam muito o Querubim, coitadinho, já estava sofrendo preconceito.  

    — Eu te entendo Querubim, eu te entendo… comigo eles foram idênticos, que lástima. — confortei Querubim com um tapa em suas costas.

    Furtivamente levantei minha mão até a lâmina dele… ele não percebeu! O brilho parecia até reagir a minha mão prestes a encostar na lâmina. 

    Eu estava quase lá, finalmente… mas claro, as asas dele bateram na minha mão outra vez.

    Abaixei minha mão e soltei uma longa bufada. Uma hora eu conseguiria, olhei para o castelo e me afastei um pouco para frente.  

    — Se sintam à vontade, minha casa, é sua casa. 

    Mesmo de costas para eles eu conseguia sentir o olhar raivoso do Akiris direcionado em mim, sorri de nervoso enquanto acelerei meus passos até as grandes portas do castelo.  

    Abrindo-as, todos pareciam super animados e felizes em me ver. Muitos me encaravam com as mãos no rosto, outros choraram de felicidade, alguns deles até batiam nas paredes.

    Estavam tão animados em me ver que até se afastavam. Aproximei-me de um deles e realizei leves tapinhas em suas costas. 

    — Ooow, chorando de saudade? Que coisa mais fofa. 

    Sorrindo sem parar eu sai andando pelo corredor até a escada, cantarolando sem olhar para trás.

    Os corredores cor prata e os grandes tapetes vermelhos vinho que percorríam em cada corredor do castelo sempre se encontravam limpos, impressionante o empenho que eles possuíam na limpeza.  

    A maioria dos serviçais de Akiris eram todos Nullus, com exceção dos guerreiros e guardas escolhidos a dedo por ele, todos aqui o respeitavam de verdade… mesmo que ele fosse um nanico esquentadinho.  

    Subindo os degraus, cheguei ao segundo andar. Mais um corredor extenso com várias portas para tudo que é lado, comecei a caminhar procurando meu quarto. Eventualmente encontrando-o. 

    — Eles tiraram a placa com meu nome, puta sacanagem, Akiris.  

    Peguei minha anarquia e comecei a deixar minha marca, risquei a porta com o cano de ferro formando um grande ‘K’ em seu centro. 

    — Agora sim, estou em casa. 

    Entrei no quarto, cheiroso como sempre. O nanico fazia questão de usar uma planta que enchia o quarto com seus polens, assim ele podia apenas matar ou nocautear alguém dormindo com um veneno nas pétalas; Cruel.  

    Eu me joguei na cama encarando o teto totalmente exausta, nem sequer pensei em tirar minha armadura debilitada, somente fiquei parada observando o topo do quarto. 

    Só conseguia ficar imaginando o motivo de Akiris, Dominus e Querubim estarem tão interessados em Wally. 

    Nossa busca pelo garoto foi fundada por rumores, rumores sobre alguém com um alto Afínuo e muito importante para os Primordiais, claro, qualquer um pensaria em um Genasis, mas Wally era um Hibrido.

    Ainda assim, aquela energia assustadora estava lá, ela vinha e ia, surgia e desaparecia. Uma energia gigantesca e sinistra, mas… os olhos dele, por algum motivo aqueles olhos amarelos… estavam me dando calafrios. 

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