Yuki

    Independente de quem fosse, todas as pessoas possuíam: tato, olfato, audição, paladar e visão.

    Algumas até acreditavam fielmente que existia um sexto sentido presente na vida de certos indivíduos, algo mais inconsciente relacionado a acontecimentos posteriores.

    Porém, havia algo que nenhum arcanista ou pesquisador descobriu; existia um sétimo.

    Nasci como um Súdito de Nômades, reino conhecido pelos maiores festivais de Valíria. A grande quantidade de competições impressionavam qualquer viajante.

    Nômades com tamanho tráfego de pessoas, eventualmente acabou se tornando um centro principal de treinamento para os caçadores.

    Aquele reino atrativo para guerreiros de baixo e alto calibre era palco para demonstrarem seu valor em combate, embora as vezes sem o intuito de adentrar na ordem.

    Naquela noite impiedosa, não sabia dizer se o que eu via era um sonho ou um pesadelo. Graças aquela influência de Nômades, Dominus nos encontrou.

    Com uma escuridão gélida e a ventania forte batendo na madeira apodrecida de casa, entrava junto a ela no nosso minúsculo quarto, o fedor dos cadáveres das últimas famílias ao lado.

    Sem água para nos hidratar, o frescor da maré salgada do oceano deixavam nossas narinas ainda mais debilitadas, a cada inspiração o ar parecia cada vez mais pesado.

    O som das ondas serenas na costa realçaram as batidas na porta, elas foram definitivamente como uma melodia de esperança.

    Mesmo sem força alguma, consegui me levantar e correr em sua direção.

    Cada passo que eu realizava, mais minha audição se perdia, meus músculos se afrouxavam e meu pulmão oscilava.

    Mas o que eu deslumbrei daquele lado da porta, não foi esperança. Como um semblante desgraçado, quem estava do outro lado, era o lorde dos caçadores.

    Imóvel, encarando meu estado deplorável enquanto era iluminado pelo luar imponente. Suas palavras foram breves:

    — Se ainda deseja salvar seu irmão, venha comigo.

    Também foram as únicas palavras que consegui compreender, meus ouvidos estavam abafados e minha visão se tornava quase totalmente turva.

    Mesmo com músculos atrofiados, pulmões sem ar algum e a visão do mundo a minha frente tirada de mim, ergui meu braço ao seu encontro.

    Não era o desejo de viver, a preocupação com nossos pais desaparecidos ou aquela fome e a sede destruindo cada parte do meu corpo.

    O que me deu forças foi ele, e somente ele. No fim, eu nunca me importaria em perder um braço, uma perna… ou mesmo minha vida; se fosse para salvar o Judi.

    Despertado, nosso ambiente era totalmente diferente. Um lugar belo, quente e aconchegante, aquele enorme local era nomeado de orfanato.

    Uma casa que possuía deveras crianças para todos os lados em uma moradia de madeira enorme. Nunca havíamos chegado tão perto de um recinto daqueles, era como se fosse um castelo de madeira.

    Judi rapidamente se aproximou das quatro crianças mais estranhas da casa, trigêmeos com dez anos de idade e uma garota tão velha quanto eu.

    A garota com seu longo cabelo ondulado escuro realçando na sua pele queimada, mostrava sempre um lindo sorriso em seu rosto. 

    Muito esperta, observava tudo ao seu redor, sempre parecendo estar pesando em algo. Muito curiosa, seus olhos meigos gritavam perguntas e sua fala as transmitia.

    Os trigêmeos eram quase idênticos em aparência e personalidade, maior forma de diferenciação entre eles eram suas pintas, uma na bochecha esquerda, outra na direita e uma na testa, sempre foram muito energéticos quase o tempo inteiro, irônico eles terem sido tão quietos naquele meio tempo.

    Eu e Judi éramos os únicos com nomes naquela casa, a maioria havia sido pega e trancafiada ainda muito novos. Todos estavam em situações semelhantes a nossa, sem pais, amigos ou outros familiares próximos.

    Não entendia naquela época o que realmente era aquele lugar, porém, depois de tanto tempo trancafiado em naquela gaiola de madeira, finalmente compreendi; nós estávamos em um laboratório.

    Afastado e escondido, não existia civilizações ao seu redor. A comida mesmo era um mistério, abundante e não dava sinais de falta… mesmo sem nenhum animal por perto.

    Ainda assim, o detalhe mais importante e perturbador, nenhuma criança naquela casa por mais esperta conseguiria decifrar; sem nenhum animal nas redondezas uma coisa era certa; nós éramos as cobaias.

    Sair não era uma opção, afinal, existiam monstros horríveis lá fora. Todos tinham medo de sair e serem comidos vivos ou até se tornarem brinquedos de demônios.

    Mas estava tudo bem, contanto que seguíssemos todos os protocolos dos homens de jaleco branco sem tardar ou falhar, os demônios permaneceriam apenas lá fora.

    Aquelas aberrações contadas por todos me causavam calafrios a noite, mas os mistérios sem respostas do orfanato me traziam sentimentos ainda piores.

    A cada cerca de três dias, algumas crianças sumiam e outras mais novas apareciam.

    Basicamente sempre a mesma história, diziam felizes que logo suas famílias se juntariam a eles na grande casa.

    Claro… qualquer Nullu gostaria de comida e moradia para sua própria família, seria como um presente divino, um sonho realizado.

    Talvez eu deveria ter me importado mais; parado e pensado direito. Mas a verdade era que na minha cabeça… enquanto não fosse meu irmão ou meus amigos, eu não me importaria.

    Entretanto, não existia meios de fugir do inevitável. Ao completar um mês naquele maldito lugar, o que eu mais temia ocorreu.

    Em uma noite com névoas densas perante as janelas; nós fomos os escolhidos.

    Levados por uma enorme escada quase sem fim em direção ao subterrâneo, onde nos deparamos com um subsolo exuberantemente branco.

    Cada pedaço do lugar brilhava tanto que respondia a dúvida em nossas mentes referente as máscaras escuras sem semblante dos homens de jaleco.

    Todos os escolhidos foram separados em duplas para diversas salas espalhadas pelo local. Não conseguíamos ver do lado de fora, a porta abria e se fechava sem deixar rastros, tornando a sala um cubo branco por completo.

    Havia uma iluminação que estava saindo diretamente das próprias paredes, uma luz forte e reluzente que iluminava toda aquela sala.

    Todavia, existia um problema maior que o quarto branco e a luz desconhecida; Judi, não estava comigo.

    Meu parceiro na gaiola era um garoto quieto e estressado, com punhos serrados e machucados por brigas dentro do orfanato.

    Parado, ansioso e pensativo. Mentia para mim mesmo que enquanto fizéssemos o que eles pedissem, logo estaríamos com nossos amigos novamente.

    Confusos dentro do claro vazio, os sons começaram. Gritos espalhados de várias direções aumentando como se estivessem se aproximando.

    Junto aos gritos agoniantes, hora ou outra se escutava estalos de algo se partindo do outro lado da parede.

    Imagens perturbadoras percorriam minha mente, clamava aos Deuses para não termos o mesmo destino que os outros Nullus da costa de Nômades.

    Eles começavam a nos alcançar, pouco a pouco, eu sabia, o fim da minha vida se aproximava.

    Enquanto os gritos e estalos se aproximavam, ajoelhei em frente a parede branca e lamentando meus últimos momentos, rezei com todas as minhas forças.

    — Por favor… me levem se desejarem, mas… poupem meu irmão.

    Nunca saberia se algum Deus minhas preces ouviu, afinal, os barulhos haviam cessado.

    O garoto impaciente antes com as mãos nos ouvidos, começava a bater em todos os cantos das paredes.

    Um chiado baixo vindo do teto surgiu, e aos poucos ele diminuía suas batidas, estava parando gradativamente enquanto suas pernas perdiam as forças.

    Em seguida da queda do garoto o ar pareceu mais pesado. Pouco a pouco a sonolência me dominava.

    Com minha visão quase tomada pela escuridão, deslumbrei aqueles de jaleco branco e sem face em seus rostos entrarem na sala branca.

    Quase apagando completamente, um líquido estranho enfiaram em meu braço, enquanto sentia algo penetrar no meu ouvido, gatinhando bem de vagar.

    Em diante, sempre a mesma coisa, não conseguia recordar.

    Não lembrava de nada que aconteceu depois da entrada dos homens de jaleco.

    Minhas memórias sempre me levavam para o mesmo lugar.

    Largado acima de uma muralha gigantesca que beirava um habitat montanhoso. 

    Meu corpo estava diferente, pele antes mais queimada estava pálida e cada membro ou região estava muito quente.

    Confuso e diante daquelas montanhas levemente alaranjadas, passei a ouvir vozes em diversas direções, tantas que não compreendia meus próprios pensamentos.

    Todos os tipos de conversas mais variadas possíveis, risos, choros, gritos, cochichos, todos com tons diferentes martelando minha cabeça.

    Um enorme frio na espinha era o que eu sentia, elas não paravam e eu nem ao menos sabia de onde vinham. Perante as vozes desconhecidas, levantei minha cabeça e observei meu arredor.

    Não tinha ninguém perto de mim. As vozes não viam de fora, mas sim, de dentro da minha cabeça.

    Estava totalmente aparado em um lugar que eu nunca tinha visto e com vozes brigando dentro da minha mente.

    Com as lágrimas salgadas escorrendo, fechei meus olhos diante daquela madrugada sombria. Não havia me restado mais nada.

    Com os risos, gritos e xingamentos aumentando, não sabia dizer se eram meus ou de outros.

    De repente, um abraço. Meus olhos não enxergavam, porém, meu corpo não mentia.

    Eu sentia cinco pessoas me abraçando firmemente. Um sentimento acolhedor e caloroso que me acalmava rapidamente.

    As lágrimas secavam, meu corpo não tremia, as vozes diminuíam. Iluminados pela luz da lua presente, minha família foi revelada.

    Meu irmão apertava minha mão bem forte, os trigêmeos abraçavam juntos minha barriga, enquanto a garota usando meu ombro como apoio, acariciava minha cabeça cantando algo que eu não compreendia.

    Eu os enxergava, os sentia, ouvia suas vozes, porém, eles eram diferentes… seus corpos estavam transparentes. Mas ao mesmo tempo, igualmente sólidos.

    A parecia sorrir e o mundo parar enquanto a canção ressoava. Comigo, Judi, Liria, Scott, Shed e Styl, eles eram meu lar e refúgio naquele pesadelo constante.

    Como todas as outras vezes, acordei com meus olhos marejados. Deitada em meu ombro, estava Liria me encarando pacientemente.

    Ela sorriu para mim e se virou murmurando algo.

    Olhando pela carroça, Karla estava roncando, Wally se encontrava no fundo fazendo desenhos, Soltrone dormia com suas asas à sua volta em uma espécie de casulo e Akiris estava sentado próximo as rédeas.

    Nós passamos a noite no castelo de Dracaries, e próximo ao amanhecer partimos em uma carroça comum.

    Não consegui dormir bem no dia anterior graças a aquele maldito pesadelo, sonhar com seu passado era o pior tipo de repouso que alguém poderia ter. 

    Deslumbrando o céu ainda escuro perante a lua, sentia Liria me beliscando.

    — Não está esquecendo nada? — perguntou com uma expressão irritada.

    Pegava-me pensando sobre o que ela poderia estar falando, todavia a cada segundo ela aumentava gradativamente a força.

    — Bom dia, Liria! Bom dia!

    Liria soltou minha coxa, se espreguiçou um pouco e deitou mais uma vez para o outro lado.

    — Parece até um gato. — susurrei a mim mesmo.

    Ajeitando-me para sentar, percebi o silêncio predominante lá fora, não parecia existir movimentação alguma.

    Desde que entramos em Dracaries tudo era mais silencioso, não ouvia brigas ou correntes pelo reino.

    Perante a estrada, somente as rodas da carruagem junto as folhas das árvores balançando com a forte ventania era o que se escutava.

    Colocando meus pensamentos em ordem, lembrei de fato o reino em que nos encontrávamos.

    Dracaries era o reino mais orgulhoso de toda Valíria.

    Há gerações que seu governo só poderia ser liderado pelo mais notável e inteligente guerreiro da atual geração, tornando os caçadores simples estranhos pelegrino. Mesmo o reino fazendo fronteira com a grande muralha.

    Ainda assim, quem comandava o reino mais envaidecido de Valíria era a escória para a humanidade, um Nullu.

    Talvez fosse por ser um rei Nullu ou por aquele sentimento estranho que ele passava, mas meus irmãos sempre estavam de olho nele.

    Todavia ele não era a única incógnita daquele bando, todos nós éramos deveras opostos.

    Karla uma mulher com parafuso a menos, Soltrone silencioso e selvagem, e o Wally, bom, ele era apenas um garoto comum… um garoto comum, e estávamos o levando até a ilha…

    Ele não tinha preparo algum para ser caçador, pelas suas perguntas e reações, ele mal aparentava saber sobre arcanismo.

    Com certeza não passou por Nômades e nem possuía um treinamento adequado, mesmo assim, Dominus veio pessoalmente busca-lo.

    Bahamut ficava bem longe da grande muralha e não era conhecido por nenhuma imigração ou ninho de monstros. Então, por que estávamos levando um garoto como aquele para a ilha dos caçadores?

    Logo, a única opção que havia sobrado era proteção. Precisávamos proteger aquele garoto por algum motivo, um motivo que preocupava até mesmo Dominus.

    Os cavalos cessavam seu calvagar, até finalmente a carroça parar. Aparentávamos termos chegado. 

    Levantei para olhar a frente das rédeas, como esperado, enxergava um porto. Diversos barcos atracados até onde minha vista alcançava.

    Diante daqueles barcos existiam algumas barracas de madeira com placas de comida ou equipamentos desenhados nelas.

    Akiris se levantou, virou-se e caminhou em nossa direção. De frente com Karla ele realizou petelecos em sua testa até ela finalmente começar a acordar. Após, seguiu até o pano no fundo da carroça e o abriu.

    Uma claridade alaranjada absurda batia em meu rosto, ainda não havia amanhecido completamente.

    Observando Liria ainda sentada, estendi minha mão para ela.

    Em pé, ela aparentava sorridente, claramente ansiosa para sair da carroça. Seguindo sua vontade, comecei a sair logo atrás de Akiris.

    Olhando de relance para trás, enxerguei Karla tentando acordar Soltrone ainda encasulado e Wally arrumando alguns livros na sua pequena bolsa.

    — Você já tinha visto um porto comercial, Yuki? — Liria me perguntou com seus olhos radiando de curiosidade.

    — Não… acho que nunca. — esclareci voltando meus olhos a ela.

    Ao descer da carruagem, caminhei para o lado esquerdo. Passando pela traseira.

    Embora o horário, já existiam muitos barcos e várias barracas sendo quase abertas, entretanto, um detalhe tomou minha atenção completamente.

    O que enxerguei paralisou meu corpo completamente, as diversas pessoas ali presentes, eram Nullus.

    Eles não estavam acorrentados, machucados ou debilitados, apenas trabalhando normalmente. Não existia roupas de trapo, corpos imundos ou mesmo tristeza em seus olhos, eles não demonstravam medo algum…

    — Yuki… a maioria dessas pessoas… não são Nullus? — Liria apontando para frente se mostrava tão confusa quanto eu.

    — Sim… é o que parece Liria.

    O raiar do sol iluminando o porto pelas nossas costas realçava o conto de ninar de todas as crianças de pele queimada por Valíria.

    — Todos os lugares que você já passou, encaravam você só de verem seus olhos — Liria relembrou enquanto sorria.

    — Então… por quê? Por que ninguém nos contou que um lugar assim existia, Yuki? — ainda sorrindo, lágrimas começaram a escorrerem de seus olhos.

    Ninguém imaginaria que em algum lugar de Valíria aquilo seria possível.

    Quando chegamos em Dracaries não vimos nenhuma tenda, nenhuma corrente ou sequer ouvimos o som de um chicote, não existiam sinais de zonas de concentração.

    Naquele momento eu tinha entendido… o motivo de um Nullu ser chamado de rei perante aos Ominidianos.

    Karla e Soltrone passaram por mim seguindo o chamado de Akiris, Wally e nós éramos os únicos ainda próximos da carroça.

    Entrelaçando minha mão direita junto a esquerda de Liria, tentando manter minhas lágrimas guardadas, caminhei até o barco observando como o mundo realmente deveria ser.

    A bordo do barco conseguia ver melhor sua estrutura, ele era relativamente pequeno, existia apenas uma cabine onde possivelmente caberia somente o motorista e no máximo mais duas pessoas.

    Uma vela mestra no pilar central do barco e as suas bordas para apoiar-se nas beiradas.

    Terminando de subir a rampa escutei cochichos de Wally sobre arcanismo e Primordiais, parecia muito interessado particularmente nos Primordiais de Energia.

    Recordei-me por um momento de um livro raro encontrado em uma masmorra que explorei junto a outros caçadores, ele especificava a especialidade dos dois Primordiais daquele exato Elemento.

    Aska era especializado em velocidade, sendo o mais rápido de todos os Primordiais, enquanto Shyn era especializada em algo chamado gravitatis e uma tal arte espacial.

    Por mais que eu pesquisasse sobre, nunca entendi direito o que estava registrado sobre a Shyn, e nem podia mais averiguar sobre o livro já que Dominus o confiscou.

    Dentro do barco, rapidamente todos se separaram, Soltrone se deitou na vela mestra, Wally foi para dentro da cabine, Akiris estava junto a Wally explicando provavelmente nosso destino ao marinheiro, e Karla apagou outra vez próximo ao mastro da vela.

    Chegando nos fundos da cabine, sentei junto a Liria, observando o oceano e apreciando a paz que ao menos aqueles Nullus conquistaram.

    — Você acha que um dia Valíria será igual? — Liria questionou ao se deitar em meu colo.

    — Eu não sei, Liria… Ominidianos não vêem os Nullus como iguais.

    — Eu sei… nós sabemos. Mas, mesmo assim… tem que ser possível, basta olhar pra eles.

    O laboratório me marcou profundamente… seja lá o que eles realizaram me fizeram deixar de ser um Nullu por completo.

    Meus olhos não eram mais pretos como meus iguais, eram olhos de Híbridos com afinidade ao Elemento de Espírito.

    Ainda assim, os Ominidianos não me viam como igual, nem perto disso. Eles se mostravam enojados quando algum tipo de Híbrido aparecia.

    Mesmo sendo mais comum nos tempos atuais, ainda era relativamente difícil encontrar alguma pessoa que também tivesse sangue Nullu nas veias perambulando fora da concentração.

    Com aquilo em mente e de acordo com meus irmãos, todas as outras crianças daquele lugar estavam mortas ou talvez a deriva pela grande muralha.

    Em um primeiro instante, quando Soltrone foi trazido por Dominus aos caçadores, acreditei mesmo que fosse meu parceiro de cela.

    Mas Soltrone nunca falava sobre o passado, e obviamente, aquele garoto encrenqueiro do orfanato não possuía asas.

     — Liria, não acho que podemos criar esse oásis… mas acredito que ao menos, podemos ajudar quem possa.

    Ela permaneceu em silêncio com os olhos fechados por alguns segundos, era sempre impossível dizer o que aquela mente brilhante pensava.

    Deitada, começava a apertar levemente minha coxa até que bruscamente se levantou e disse:

    — Já entendi! Ta! Ta! Ta!… Judi quer te ver — informou-me com um rosto irritado.

    Antes que eu pudesse falar, Liria me agarrou em um forte abraço, onde a cada segundo seu corpo ficava cada vez mais gelado; quando pisquei, eles haviam trocado. Quem estava comigo era Judi, meu irmão mais novo.

    Judi tinha um cabelo curto, liso e escuro. Sombrancelhas mais grossas que as minhas, um sorriso gigantesco e olhos brancos como os outros quatro.

    A diferença de tempo entre mim e Judi era alta, mas ele cresceu muito desde o orfanato… tudo aquilo já fazia um ano…

    — Você demorou! — Judi aparentemente irritado gritou ao se soltar.

    — Desculpa nós… estávamos conversando sobre seu presente de aniversário.

    — Mentiroso.

    — É a verdade, seu aniversário é na semana que vem, se esqueceu?

    — Claro que não, eu tenho a melhor memória da família — Judi afirmou rindo com seus olhos fechados.

    — Queria muito saber de onde ele tirou isso — cochichei para o outro lado.

    — Estamos voltando pra ilha? — questionou ao abrir os olhos.

    — Sim, Judi, lembra o nome dela?

    — Claro, o nome era… hum, era…

    Ele nitidamente não se lembrava do nome da ilha.

    — Ilha Venatorum, Judi. — auxiliei-o cutucando seu nariz.

    — Isso! Eu tava só te testando. — proclamou retirando meu dedo de seu nariz.

    — Mesmo? Então me conta, por que ela ganhou esse nome?

    — Pera!… isso eu lembro… foi porque algum Dominus deu o nome de Ordo Venaseilaoque. — respondeu confiante.

    — Ordo Venatorum.

    — Exato! Dez pontos pra você! Chamavam ela de Ordo Venaruntum porque significava ordem dos caçadores naquela língua estranha, aí mudaram para Ilha Venaruntum.

    — É… claro.

    Provavelmente eu deveria ignorar a pronuncia e apenas me contentar com o fato dele lembrar do motivo.

    Judi se virou, aproximou-se da beirada e se apoiou olhando para o mar.

    — Eu não gosto daquela ilha.

    — Por quê?

    — Lá não existe diversão, somente pessoas preocupadas e tristes andando sem rumo por todo lugar.

    — Os caçadores? — perguntei me levantando.

    — Eles também, mas aqueles moços do outro lado são iguais também. Eles apenas reclamam como deveriam ter aproveitado mais a vida, como tudo agora é pacato… e alguma outra palavra difícil. — esclareceu apoiando seu queixo na borda.

    — Muitos deles não queriam nada disso, Judi, eles tinham sonhos que queriam realizar, pessoas para cuidar, vidas para viverem, mas não conseguiram. Por isso eles apenas se lamentam.

    — Eu sei… por isso não gosto da ilha, ela é chata. Prefiro quando você sai explorando outros lugares. 

    — Eu também, é divertido né? — perguntei me aproximando e acariciando seu cabelo.

    — À beça! Quando qualquer um dos trigerios ou a Liria voltam, eles contam várias histórias de como ajudaram você nas batalhas, eu sempre fico empolgado. — clamou se levantando.

    — Entendi, então você quer me ajudar em combate não é? Quando você se tornar beeem grandinho, tenho certeza que irá ter um poder mega forte pra me emprestar.

    — Você acha?! — Judi perguntou exageradamente entusiasmado.

    — Pode apostar! Já que você está tão animado, por que não me deixa falar com os gêmeos enquanto você aperfeiçoa seu poder?

    — Beleza! eu vou chamar os três, não sai daí. — Judi pediu se afastando um pouco.

    — Afirmativo capitão! — afirmei ao realizar pose para marchar, caminhar para trás e me sentar.

    Judi começou a desaparecer em meio ao horizonte, seu sorriso foi a última coisa que vi até minha visão ser tomada pelo oceano, quando então, escutei.

    — Apreciando a paisagem?

    Olhei para trás instintivamente, encontrei um garoto com um topete ruivo deitado sobre a cabine, com sua cabeça caída para mim ele disse:

    — Do outro lado.

    Em seguida, alguém puxou minha bochecha. Outra vez eu me virei, deparando-me com outro garoto ruivo.

    Aquele possuía um grande cabelo solto balançando junto ao vento, seus olhos brancos definitivamente não combinavam com seu cabelo e sua pinta na bochecha direita provava que ele era o Shed.

    A minha direita enxerguei Styl, o mais tímido dos três. Ele não gostava muito da pinta em sua testa graças as piadas do Scott.

    Styl tinha um cabelo curto, seco e ondulado que sempre estava jogado para algum lado.

    — Do que você precisa, Yuki? — Scott perguntou se apoiando em meu cabelo.

    — Me digam… quando olham para o garoto de olhos amarelos… o que vocês sentem?

    Em minha pergunta, Shed e Styl mudaram suas expressões, senti Scott se afastando do meu cabelo e depois se aproximando de seus irmãos. Ele me olhou e respondeu:

    — Não sei como explicar isso pra você.

    — Imaginei, tem algo nele que é muito estranho; essa sensação… esse calafrio.

    Junto a todas aquelas sensações que surgiram na arena e se intensificaram após aquele urso caótico, também existia o fato de que Dominus queria proteger o garoto.

    — Você não enxerga, Yuki? — Styl perguntou.

    — Enxergar o que?

    — Ele é sobreposto por ele mesmo — explicou Shed.

    — Sobreposto?

    — É como se eu, Styl ou o Scott estivéssemos no mesmo espaço, dois corpos em uma sincronia perfeita, como… como… uma fusão, é, uma fusão.

    — Isso, mas tem mais, os olhos do segundo garoto são diferentes, eles brilham forte como uma chama amarela que percorre por todo o seu olho. Tipo, todo o seu olho mesmo — Scott adicionou a explicação passando a mão nos olhos e olhando para Shed.

    — Mas o pior é quando os olhos se abrem, aquela coisa espalha uma corrente de energia gigantesca, aquilo é uma aberração.

    — Caçadores foram feitos para caçar aberrações, Scot…

    Antes de terminar de falar, Scott se aproximou e segurou na gola da minha camisa com sua cara completamente fechada.

    Sem riso ou sorriso, não tinha nenhuma piada ou brincadeira, ele estava receoso; apavorado de verdade. Encarou-me como se vasculhasse a minha alma e afirmou:

    — Ninguém pode contra aquilo, nem mesmo Dominus deve ser capaz. Aquela coisa acompanhando o menino só pode ser uma coisa, um demônio de verdade.

    Scott me soltou, realizou alguns passos para trás, olhou para o mar e pediu:

    — Não nos deixe morrer de novo, Yuki.

    O tempo de minha família já havia chegado ao fim no orfanato, embora eu não quisesse aceitar, apenas eu tinha restado.

    — Scott… o que vai acontecer com vocês se eu…

    Ele virou novamente em minha direção e se agachou em minha frente.

    — Apenas eu e Liria percebemos, mas você ainda está vivo porque nossas existências alimentam a essência do seu afínuo, mas se você morrer outra vez… acho que vai ser de vez. Tanto pra você, quanto pra gente.

    Scott se levantou, voltou aos seus irmãos e acariciou o cabelo de Styl, enquanto Shed imitava irritado os cochichos dele.

    Ele estava certo, minha vida não era mais somente minha. Eu estava carregando os sonhos, ambições e esperanças de toda a minha família.

    Precisava protege-los, mas para os proteger eu precisava descobrir os segredos de Dominus. Tanto sobre a marca, quanto o motivo de um Híbrido ser tão forte.

    Assim… ninguém tiraria minha família de mim outra vez.

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