Capítulo 28: Face Falsa
Engrenora era um reino vasto e, para muitos, revolucionário. A maioria dos olhos se voltava apenas para a beleza reluzente do cobre.
As ruas limpas de Alta-Engrenora, as fábricas de máquinas e o progresso contínuo eram o orgulho da nação. Mas toda moeda tem dois lados, e Engrenora não era exceção.
Enquanto o topo brilhava em luxo, o lado esquecido definhava sob o nome de Baixa-Engrenora.
Ali, o cenário era cinza, sufocado por nuvens negras de fumaça. O lixo era apenas um detalhe cotidiano, ele tomava conta das calçadas.
Fábricas de armas rodeavam cada esquina, expelindo fuligem e miséria. Quem vivia no topo preferia ignorar a feiúra e o retrocesso evidente.
Na base dessa pirâmide de detritos estavam os cidadãos comuns, forçados a uma existência de migalhas e pobreza extrema
Trabalhavam como operários em condições subumanas, roubavam para não passar fome e morriam como o lixo que os cercava.
Lutavam por qualquer resto, mesmo que para isso precisassem passar por cima dos cadáveres de seus próprios vizinhos.
Acima dessa massa de sofredores, reinavam os mercenários e os magnatas. Uma milícia impiedosa composta por assassinos e mentirosos.
Eles eram os cães de guarda de um sistema feito para uma única finalidade: tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.
E no topo dessa orquestra, no subsolo de uma gigantesca fábrica de armas, estava Belmorth Rubrae.
Belmorth era um humano conhecido publicamente como um visionário filantropo, mas na verdade, ele não tinha coisa alguma de generoso
O homem era tão alto que sua mera presença chegava a ser intimidadora para qualquer um que cruzasse seu caminho.
Sua pele era de um branco pálido, quase cadavérico. As olheiras profundas e roxas delatavam noites infinitas de sono sacrificado.
O cabelo loiro e encaracolado descia perfeitamente até a altura da orelha, estava sempre impecavelmente limpo e hidratado.
Suas roupas transbordavam uma elegância militar e aristocrática. Portava uma camisa militar preta adornada por uma gravata branca. Uma cartola repousava sobre sua cabeça e as calças de brim branco eram tão alvas quanto as paredes do seu escritório.
Ele finalizava o visual com um par de sapatos de grife, cujo brilho contrastava com o chão sujo de óleo da fábrica.
Belmorth caminhava pelos corredores metálicos com a confiança de um rei.
Cumprimentava os funcionários que encontrava pelo caminho, e os operários devolviam o gesto com sorrisos forçados e olhos cheios de medo. Sabiam quem ele realmente era.
Um operário idoso e visivelmente cansado da fumaça aproximou-se com cautela. Tinha o peso das más notícias nos ombros.
— Senhor? — chamou o velho, com a voz falha.
— Sim? Alastor, estou correto? — Belmorth respondeu com uma voz aveludada, sem parar de caminhar.
— Sim, senhor. Tenho notícias urgentes a reportar — o idoso pigarreou, tentando manter a postura.
— Oh, meu caro Alastor! Entenda uma coisa: não existem notícias boas ou más. Existem apenas fatos — o nobre sorriu.
— Bom… tivemos outra invasão ontem pela noite em um dos nossos depósitos externos — Alastor soltou de uma vez.
— Isso é uma má notícia — Belmorth caiu na própria contradição sem hesitar. — O que houve? Levaram o estoque de pólvora?
— Não, senhor. Nada foi roubado dos armazéns principais.
— Foi aquele bando de lunáticos do Culto de Nazhur novamente? — o magnata franziu a testa, ao parar por um segundo.
— Foi aquele garoto de novo, senhor. O Stajäger.
— Ah… apenas jogue-o para fora. Ele é persistente, mas não me interessa no momento — Belmorth deu de ombros.
— Mas senhor… ele causou danos estruturais e…
— Sem “mas”, Alastor. Tenho visitas importantes hoje e estou extremamente ocupado — cortou ele, de volta à caminajda
Ele acelerou o passo e deixou o velho operário para trás, com seus relatórios ignorados e seus deveres exaustivos.
“Aquele Stajäger… já é a sétima vez. O que aquele pivete acha que vai encontrar?”, pensou o nobre com desdém.
Ele seguiu pelos corredores labirínticos até chegar à sua porta. A placa de metal polido anunciava: Belmorth Rubrae.
O escritório era um santuário de luxo em meio ao caos industrial. O piso de madeira era macio, coberto por tapetes caros.
As paredes eram trabalhadas com tijolos de qualidade e tinta fresca. Quadros abstratos e vasos de flores decoravam cada canto.
Ao centro, uma mesa tripé esculpida com pompa servia de palco para um jogo de chá de porcelana branca e pires polidos.
Belmorth sentou-se em uma das cadeiras estofadas e serviu duas xícaras com movimentos graciosos e lentos.
— Prefere com ou sem açúcar, meu Signore? — perguntou ele, encarando a escuridão densa que se formava no canto.
As trevas se moldaram como um animal selvagem, delas emergiu o mago aberrante: o necromante de Eldon.
— Dispenso o chá — a voz do morto-vivo ecoou, seca e gélida. Ele já estava sentado na cadeira oposta.
O cheiro que emanava dele era de carne em decomposição avançada, pedaços de sua pele descolavam da estrutura óssea.
As costuras grosseiras que mantinham seu rosto unido pareciam prestes a ceder, ele mantinha o olho esquerdo fechado com esforço.
— Fico lisonjeado em recebê-lo, meu Signore — Belmorth continuou, agia como se não estivesse diante de um cadáver ambulante. Sua voz era calma, quase sedutora. — Em que posso ser útil para o meu amado Sig…?
— Poupe-me dos elogios vazios, Belmorth — o necromante cortou a frase como uma lâmina afiada. — Quero o relatório da pesquisa.
O magnata não perdeu a postura por um segundo sequer. Tirou papéis do bolso interno do terno e ergueu sua xícara.
— Claro. Tivemos avanços excelentes sobre como atrair as sombras. Os frutos de carma são iscas realmente eficazes.
— E o processo de transporte? Quantos portadores você conseguiu estabilizar? — o morto-vivo exigiu, cada palavra que saia de sua boca pesava como chumbo.
— Conseguimos mover mais da metade com sucesso. O restante… bem, digamos que “se perdeu” no caminho. — Belmorth bebericou o chá. — Parece que quanto mais compatível o portador é com o carma, mais tempo o Vagante resiste.
— “Se perdeu”? Você quer dizer que essas aberrações estão soltas pelas ruas da cidade agora?
— Infelizmente. Mas isso é realmente um problema para o seu plano, meu Signore? — o nobre perguntou com um brilho de admiração.
— Nem um pouco. Eu já possuo a quantidade de carma necessária para o ritual principal. Estou apenas coletando sobras agora.
— Entendo. Fabuloso — Belmorth sorriu. — É sempre um prazer testemunhar tamanha eficiência e inteligência.
— E quanto aos efeitos colaterais nas cobaias humanas? — o necromante ignorou o elogio novamente.
— O melhor experimento durou cerca de seis meses. Era um dos aventureiros da guilda de elite… acho que se chamava Aldric.
— O povo desta cidade reagiu conforme o esperado? Houve alguma resistência imprevista ao processo?
— Os habitantes de Engrenora apresentaram baixa rejeição inicial. Apenas alucinações e hostilidade extrema. O padrão de sempre.
Belmorth levou a xícara à boca mais uma vez.
— Vir para cá foi uma ideia brilhante. O meu Signore é realmente um gê…
O braço direito do nobre voou repentinamente contra a parede, tingindo o papel de parede branco de um vermelho vivo e quente.
— Eu disse para ser direto — o necromante avisou, sem sequer mudar o tom de voz.
— Minhas profundas desculpas, meu Signore — Belmorth curvou-se em uma mesura, ignorando o sangue que jorrava de seu ombro.
— Cure-se logo. Tenho outros assuntos pendentes. Você conseguiu o que eu pedi para o ritual final?
— Mas é claro. Tudo pelo meu amado Signore — o homem deu alguns passos para trás, aproximando-se do braço caído no chão.
Ele estalou os dedos da mão que lhe restava.
— [Carnoféx]!
Aquela palavra ecoou como um estrondo e tornou o ar mais pesado. Algo se aproximava, e era algo terrível.

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