Capítulo 33: Entremeio
Perambularam pela cidade por mais algumas horas. Era como caminhar em um labirinto de ratos, só que muito maior e com assassinos em algumas esquinas.
As notícias sobre o ataque à casa abandonada e sobre o porão carbonizado espalharam-se como fogo em um palheiro. As ruas agora fervilhavam com mercenários de aluguel, todos caçando a mesma recompensa.
— Então Belmorth tem poder e influência para contratar tantos assim. Isso vai ser um problema… — murmurou Mirena, enquanto o grupo se espreitava por uma viela vazia.
“Se as coisas ficarem impossíveis, eu vou ter que usar ela…”, pensou ela, sentindo uma pontada de angústia ao tocar o braço metálico.
Souberam que estavam perto quando Daten gesticulou para que parassem. À frente, erguia-se a silhueta imponente de uma das maiores fábricas de Rubrae, cercada por caixotes.
Carros de carga, movidos a engrenagens e cristais de carma, agora estavam sendo usados aos montes. Eram invenções ardenterianas usadas para o transporte massivo de armamentos.
Aquela era a forja principal de armas brancas e balestras. As ferrarias artesanais da Baixa-Engrenora não tinham como competir com aquele avanço industrial predatório.
Os punhos de Daten cerraram-se ao ver o complexo metálico, o desconforto veio em seguida e cresceu no peito.
— A gente tem que entrar lá — sussurrou a criança, ao avaliar cada sentinela e saída de vapor.
— Como é? — Mirena segurou o tom de surpresa, olhando para a fortificação vigiada.
— Já estamos na Rua Sessenta e Nove. Eles trazem as pessoas para dentro desse complexo, e eu garanto que não é para oferecer emprego.
— Ainda assim! Como você planeja invadir um lugar que fabrica as próprias armas dos guardas?
Daten ignorou o ceticismo dela e focou nos veículos. Um dos carros de carga estava parado próximo à parede lateral.
Bastou uma olhada na determinação de Dhaha, e a lembrança da luta que tiveram, para que o garoto tomasse sua decisão final.
— Tão vendo aquele carro? Logo acima, na parede, tem uma janela de manutenção que leva pro subsolo — explicou ele, sem sair das sombras. — Eles não vão nos ouvir, por causa das máquinas. É só ser rápido.
— Parece um plano sólido para mim — Dhaha já estava alongando os músculos.
— Parece uma loucura suicida! Vocês querem invadir uma fábrica de armas? Eles têm armas! — esbravejou Mirena, em um sussurro furioso.
— E nós também temos as nossas — Dhaha devolveu com um sorriso confiante, um contra-argumento que Mirena detestava por ser verdade.
— Três… — Daten começou a contagem regressiva, ignorando os protestos da maga.
— Vocês dois só podem ter serragem no lugar do cérebro, não é possível… — Mirena tentou segurá-los pela gola, mas o ímpeto era imparável.
— Dois… — continuou Dhaha, o carma já a fluir por suas pernas.
— Um… JÁ! — Daten saltou entre os caixotes com a agilidade de um felino.
Seu corpo pequeno era perfeito para desaparecer entre os canos externos.
Dhaha seguiu logo atrás, praticamente arrastou Mirena, que praguejava mentalmente em três línguas diferentes enquanto corria.
Milagrosamente, cruzaram o pátio sem atrair a atenção dos guardas.
Os dois homens sorriam vibrantemente, como se estivessem em um parque de diversões, enquanto Mirena sentia sua adrenalina beirar o colapso nervoso.
Subiram sobre o container do carro alvo. A janela de manutenção estava a um palmo de distância, era uma solução parecia ridiculamente fácil.
“Não é possível que essa ideia idiota vá funcionar!”, pensou Mirena, incrédula com a sorte do grupo.
— Ei! Vocês três aí! — gritou um operário robusto, de bigode saliente, que se aproximava com passos pesados.
O sangue do trio gelou. Instintivamente, jogaram-se no chão sobre o metal frio do container, para sumir de vista.
“Eu não sei se fico feliz por estar certa ou triste por ser presa por invasão!”, lamentou-se a ardenteriana, amaldiçoando a própria intuição.
O trabalhador aproximou-se, o rosto vermelho de fúria e as veias do pescoço sobressaltadas. Daten respirava pesado, mas seu olhar estava fixo, quase nostálgico.
— Eu já não falei para vocês três não ficarem jogando truco no horário de serviço?! — O homem berrou, ao bater em uma mesa próxima onde outros operários matavam tempo.
— Desculpa, chefe! É que o Elias apostou um encontro com a irmã dele! — choramingou um operário gelariano, enquanto apontava para um colega barrigudo.
— Não ligo para as apostas de vocês! Voltem para as prensas agora! — ordenou o supervisor, furioso.
Mirena fechou os olhos por um segundo. A sorte daquele grupo era uma força da natureza que desafiava qualquer lógica.
Aproveitando a distração, saltaram pela janela. Deram de cara com um corredor de tijolos cinzentos, estranhamente limpo e silencioso.
O piso de madeira polida contrastava com a sujeira da fábrica lá fora. O local parecia um anexo administrativo.
— Ufa… deu certo de novo! — Daten comemorou com soquinhos no ar, antes de recuperar a postura séria. — Por aqui. Esse corredor dá acesso direto ao subsolo, até onde eu sei.
— Espera… me deixa… respirar — Mirena ofegava, apoiada na parede cinzenta. Era uma overdose de adrenalina.
Dhaha, por outro lado, já fazia polichinelos leves para manter o sangue quente. Sua energia parecia realmente inesgotável.
— Quando chegarmos lá embaixo, qual o plano? — perguntou a maga, recuperando o fôlego e a razão.
— Procurar os reféns, neutralizar os cultistas e sair vivos — Dhaha resumiu. — Já enfrentamos coisas piores que guardas de fábrica, não?
Enquanto a dupla falava, Daten andava em círculos, a testa franzida em uma preocupação que ele não conseguia mais esconder.
Mirena notou a incerteza no rosto do garoto, algo não batia. Tudo estava certo demais, e o conhecimento de Daten era específico demais para uma criança de rua.
— Daten… — a voz de Mirena saiu gélida.
O zumbido sutil do carma ativando seu braço mecânico cortou o silêncio.
— Como você sabia sobre essa janela? E sobre o acesso ao subsolo? — Ela o encarou com um olhar que exigia a verdade.
Daten congelou. Levantou as mãos devagar e perdeu o semblante confiante.
— Eu trouxe vocês aqui… porque tenho um assunto inacabado com esses caras — confessou ele, de cabeça baixa. — Eu sabia que eles levavam as pessoas pra cá porque… porque foi pra cá que eles levaram a minha irmã
As armas da dupla baixaram instantaneamente. O “ladrão” da Baixa-Engrenora desapareceu, dando lugar a um irmão desesperado e chorão.
— Eu já invadi este lugar antes, mais de uma vez… — continuou Daten, com as palavras emboladas. — Mas nunca passei do subsolo. Eu bati em muitas paredes até achar essa brecha.
Os três ficaram em silêncio, não precisavam de explicações para o óbvio.
— Eu quero acabar com esses caras, mas eu sei que não consigo sozinho. Eu sou fraco — ele admitiu, e curvou-se em uma súplica silenciosa. — Sei que sou suspeito e que não têm motivos para confiar em mim… mas… mas eu preciso de ajuda… Por favor…
Mirena e Dhaha se entreolharam. A Baixa-Engrenora não era apenas um covil de criminosos, era um lugar cheio de pessoas quebradas tentando se remendar.
Dhaha deu um passo à frente. Sua decisão foi tomada antes mesmo de Daten terminar de falar.
— Não temos tempo para indecisões, e eu detesto ver crianças chorando — disse o douradiano, ao pousar a mão sobre o cabelo espetado do garoto.
“Ele deve ter a tua idade”, pensou Mirena, quieta no canto dela.
— Não se preocupe, Daten. Eu sou o herói que vai trazer sua irmã de volta para casa!
Daten caiu de joelhos, as lágrimas que segurara por meses finalmente escaparam. Mirena suspirou e aceitou que a lógica foi derrotada pelo coração de Dhaha mais uma vez.
— Temos reféns para resgatar — Dhaha sacou sua espada, a lâmina refletindo a luz fria do corredor.
— E cultistas para chutar para fora de Engrenora! — completou Mirena, ao canalizar o carma em seu braço.
Daten limpou o rosto com o antebraço e sentiu a esperança voltar com a força de um soco. Ele não venceria Belmorth sozinho, mas com eles, isso parecia possível.
Acima deles, dispositivos de transmissão refletiam cada detalhe para a sala de Belmorth, e o senhor da fábrica acompanhava tudo com um prazer doentio.
— Então o ratinho trouxe amiguinhos dessa vez… — murmurou o pálido mago, ao acariciar a criatura de carne ao seu lado.
Um som de choque elétrico ecoou na sala escura. Três pares de olhos artificiais brilharam no breu.
— Ainda não, [Carnoféx]… — disse ele com um sorriso perturbador. — Deixe que eles brinquem um pouco mais antes do abate.
O jogo de gato e rato acabava de subir de nível.

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