Capítulo 34: Dutos de Latão
Sem tempo para lágrimas ou hesitações, Daten guiou a dupla pelo corredor. O caminhar dos três era rápido, mas carecia de qualquer sutileza.
Não demorou para que a presença deles fosse notada. Atraíram a atenção de sete guardas que faziam a ronda do andar, homens armados com bestas e armas.
— Ei, vocês! Parados! — ordenou um dos seguranças, sacando uma clava que zumbia com carma instável.
— A gente abre caminho, [Metalóxis]! — Dhaha rugiu, ao transformar sua arma em uma lança longa
Ele avançou como uma locomotiva desgovernada e atropelou os guerreiros. As placas metálicas das armaduras não eram páreo para o impacto do Guerreiro de Aço.
A lâmina atravessava as defesas com facilidade, enquanto o cabo da lança nocauteava aqueles que tentavam flanqueá-lo.
Mirena cuidava dos que sobravam. Seus golpes não tinham a força bruta do parceiro, mas possuíam mais precisão, atingiam nucas e plexos solares.
Em poucos segundos, não sobravam guardas conscientes no corredor. Daten observava a cena boquiaberto e, por um momento, pensou que poderiam ter entrado pela porta da frente.
Logo ele espantou o pensamento. Sabia que a quantidade de seguranças na entrada principal era surreal, um exército que nem mesmo eles venceriam sem esforço.
Chegaram a uma escada, mas Daten gesticulou para que não descessem. O garoto tomou a frente e dedilhou os tijolos da parede.
Ao apertar uma sequência específica de blocos, o som de engrenagens pesadas e metal rangendo reverberou pelo corredor.
Uma porta oculta deslizou e revelou o fosso de um elevador, os olhos inquietos de Daten confirmavam que aquele era o limite de seu mapa mental.
Dhaha não esperou a cabine. Com um olhar sério, saltou diretamente no fosso enquanto cobria o corpo com uma aura pálida de carma para amortecer a queda.
Mirena encarou o amigo despencando como um louco e preferiu a via diplomática: apertou o botão e esperou pelo elevador junto com Daten.
No subsolo, a estética mudava bruscamente: as paredes eram de metal preto e canos de gás sibilantes, e o piso de uma pedra branca maciça.
Lá embaixo, Dhaha já estava de pé. A raiva era como combustível, mas a justiça por aquela criança era a única coisa que mantinha sua sanidade no lugar.
Ele moldou a lança em um martelo colossal e fitou os guardas à frente. Eram menos de dez, mas desta vez, o douradiano não parecia disposto a poupá-los.
— Vamos começar! — Ele avançou, movido pelas imagens das pessoas que sofriam acima de suas cabeças enquanto Rubrae lucrava.
Os guardas usavam armaduras completas, mal pareciam humanos sob as placas rígidas e escuras.
Os golpes de Dhaha rachavam o metal como se fosse vidro de má qualidade, enquanto arremessava os sentinelas contra as paredes de aço como bonecos de pano.
O elevador chegou ao fundo com um tinido metálico. Mirena e Daten saltaram para se juntar à festa que Dhaha iniciara.
Mirena não perdeu tempo: arrancou um cano de aço solto e golpeou um guarda na nuca.
— Entrada triunfante, hein? — brincou Dhaha, girando o martelo sobre o ombro.
— Disse o homem que preferiu cair no fosso de um elevador — devolveu ela, enquanto limpava a fuligem do colete.
Um dos guardas, um tipo sádico que reconheceu Daten, saltou sobre o garoto com uma sequência pesada de estocadas de espada.
— Então você trouxe ajuda desta vez? Desistiu de ser o herói solitário do lixo? Hahaha! — o homem riu tão alto que ecoou. — Você quer é um convite direto pro cemitério.
Daten recuou, mas não havia medo em seus olhos pretos, ele observava o ritmo do oponente.
Os golpes do guarda eram pesados, mas lentos demais para quem cresceu fugindo de ladrões e cobradores na Baixa-Engrenora. O atraso se acumulou até formar uma brecha.
O ardenteriano avançou com uma estocada rápida na boca do estômago do adversário. O homem caiu de joelhos, o fôlego roubado pelo impacto.
— Vou te dizer onde você enfia esse seu convite — Daten finalizou, com um golpe lateral que nocauteou o humano instantaneamente.
O garoto retornou para a luta, não seria um sádico qualquer que o impediria de ver a irmã novamente.
Mais guardas surgiram ao final do corredor, mas estes portavam escudos de torre, bestas pesadas e lanças longas. A resistência estava se organizando.
— Eles não acabam nunca?! — esbravejou Dhaha, ao esmagar o escudo de um sentinela com um impacto que fez o chão vibrar.
— São esses caras que me deram uma surra nas outras vezes. Tá lotado igual taverna em noite de festa! — Daten gritou, com um golpe em arco.
Mirena usava o cano improvisado para adormecer forçadamente os guerreiros, anos de viagem e perigos pelo continente ensinaram truques que ninguém imaginaria serem necessários.
Os soldados de curto alcance eram derrubados, mas os atiradores ao fundo começaram a preparar as setas com carma.
— Mirena! Cuidado! — alertou Dhaha, ao ver um dos soldados mirar a besta diretamente no flanco da maga.
A mulher ameaçou tirar algo de seu colete, mas hesitou por uma fração de segundo.
“Não, eu só tenho uma chance”, pensou ela.
O atirador disparou. A seta de carma zumbiu pelo ar, na direção da costela de Mirena enquanto ela tentava girar o corpo para se proteger com o braço mecânico.
“Não vai dar tempo”, ela percebeu, enquanto via o projétil se aproximar em câmera lenta.
Mas algo parou a flecha antes do impacto. Daten havia saltado na frente, com seu bastão de ferro em um movimento desesperado.
— Eu posso ser pequeno, mas não sou metade! Cai dentro, atiradorzinho de merda! — urrou o garoto, ao avançar contra a linha de fundo.
Mirena não sabia se agradecia ou se dava um sermão pela boca suja do menino. Ela preferiu focar no combate.
Ao perceber a desvantagem contra a força bruta do trio, os guardas começaram a recuar. A balança de poder estava completamente em favor dos invasores.
Dhaha, agora com duas grandes manoplas metálicas, decidiu encerrar a disputa.
Ele saltou sobre a multidão, chocou a cabeça de dois guardas, prensou um terceiro contra a parede e finalizou o último com um suplex que rachou o piso branco.
O silêncio voltou ao subsolo, quebrado apenas pelo chiado dos canos. Mirena olhou ao redor, confusa com a facilidade da vitória.
— Isso não foi… fácil demais? — ela se perguntou, com uma pulga atrás da orelha.
— Tomem cuidado. Podem aparecer mais a qualquer momento — Dhaha disse, transformando as manoplas em uma espada e guardando-a.
O espadachim avançou, seguido por uma criança impaciente, Daten. Mirena vinha por último, atenta a coisa estranha que pudesse aparecer.
Seguiram as lamparinas até darem de cara com uma porta colossal moldada em aço. A maçaneta era circular de giro e portava números de zero a nove.
— Parece que precisamos de uma senha. Você sabe a combinação, Daten? — perguntou Mirena, ao girar o mecanismo sem sucesso.
— Acho que não. Não lembro de nada disso nas minhas outras tentativas — o garoto respondeu. — Dhaha, você não consegue moldar essa coisa?
— Eu até conseguiria, se isso não fosse aço — o douradiano explicou, tocando a superfície fria. — [Metalóxis] só funciona em metais puros ou ligas específicas.
— O aço não é um metal? — Daten perguntou, confuso.
— Quase. É uma mistura de ferro e carvão. Tem carvão demais aqui para eu conseguir usar minha magia.
— Uma porta convenientemente colocada… — Mirena praguejou, ao perceber o nível da preparação de Rubrae.
— Então como a gente resolve? Esperamos os cabeças de lata acordarem e pedimos por favor? — Daten andava em círculos, a impaciência transbordava em gestos bruscos.
— Eu posso tentar resolver a combinação por lógica, mas vai levar um tempo… — Mirena começou, mas Dhaha já tinha outra ideia.
Ele sacou o martelo, recém-formado, com as duas mãos no cabo. A confusão tomou conta do rosto dos outros dois.
— Você não disse que sua magia não moldava aço? — Daten questionou.
— E ela não molda.
— Então…?
Dhaha não respondeu. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou o carma fluir por seus músculos. Seu corpo brilhou com aquela típica aura pálida.
— Ele não vai…? — Daten não acreditava no que via.
A primeira martelada ecoou como um trovão no subsolo, e deixou um amassado profundo na porta densa.
— Ele vai… — Mirena aceitou o destino.
A segunda martelada veio ainda mais forte, seguida por uma sequência rítmica de baques. Era como uma pintura abstrata: ninguém entendia o motivo, mas o resultado era inegável.
A porta de aço não durou muito sob a força bruta do douradiano, ela foi reduzida a escombros retorcidos e pedaços de metal inútil.
— Pronto — disse Dhaha, enquanto limpava o suor da testa com o antebraço e a cara mais deslavada do mundo. — Acertei a senha.

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