Capítulo 42: Arquivos Mortos
O som das máquinas finalmente morrera. A grande fábrica cinzenta, agora transformada em um necrotério, fora interditada pela Guilda.
Assim que o sol desceu de seu pico, a equipe médica da guilda resgatou os feridos e os direcionou à sede.
Comparados aos reféns, os ferimentos dos três eram superficiais. Dhaha e Daten estavam cobertos de arranhões, hematomas e seus corpos estavam exaustos. Já Mirena, lidava com uma fratura leve em uma das costelas, cada respiração a fazia lembrar do soco de Belmorth.
Os olhares dos sobreviventes caíram sobre eles durante o trajeto. Não havia malícia ou julgamento, apenas sorrisos de agradecimento e lágrimas de alívio. Eles haviam se tornado os heróis daquela cidade caída.
Thalwara os acompanhava dentro da carroça a vapor, mas sua mente mergulhava em águas turvas. Ela pensava na insígnia que encontrou, nos reféns escolhidos a dedo e, principalmente, naquele rosto cínico sob a luz dos raios.
“Não tem como ser ele…”, repetia para si mesma, como um mantra para se forçar a acreditar.
Ao chegarem na sede, os paramédicos agiram com precisão, carregando os feridos para a ala de tratamento. Thalwara permaneceu em um silêncio enquanto via os três atravessarem as portas duplas.
— São apenas ferimentos leves. Eles estarão de pé em duas horas — relatou uma das paramédicas, ao entregar um relatório à vice-líder.
— Obrigado pelos seus serviços. Todos serão recompensados — respondeu Thalwara, com uma mesura automática.
— Não se preocupe, é o mínimo que posso fazer. — A mulher tocou suavemente o braço de Thalwara. — Minha filha estava entre os reféns, eles salvaram a vida dela.
A vice-líder apenas acenou, incapaz de formular uma resposta à altura da gratidão daquela mãe. Ela se retirou e, em poucos minutos, já estava no prédio de arquivos, cercada por muito papel velho e mofo.
— Onde está… tenho certeza de que estava aqui… — murmurava, ao puxar uma caixa e quase a revirar do avesso no chão de madeira.
Algumas batidas ecoaram na porta. Syndona, a gelariana alta e de olhos estrelados, encarava a amiga com os braços cruzados e a testa contraída.
— O que você estar procurando? — perguntou ela, enquanto passava os olhos pela papelada.
— Um arquivo… preciso confirmar uma coisa — Thalwara respondeu sem olhar para trás, puxando outra gaveta com urgência.
A gelariana adentrou a sala a passos lentos. Seus olhos começaram a exalar um carma suave, revelando a preocupação genuína que sentia.
— Você sempre ser alguém viciada em organização. — Syndona parou diante da amiga. — Nunca ia ser normal ver você jogando papéis para todos os lados como uma ventania.
Syndona abaixou-se e começou a recolher os documentos espalhados. Seus movimentos eram calmos e delicados, ela dispensava discursos da amiga para oferecer ajuda.
— O que você… — Thalwara tentou protestar, mas foi cortada pelo gesto firme da amiga.
— Te ajudando. Isso estar mais desorganizado que meu quarto. E você lembra como meu quarto ser uma zona…
— Mas, Syn…
— Sem “mas”, Thal! Você encher o saco quando eu não arrumo minhas coisas. Enfim a hipocrisia, não ser?
Um riso escapou pelo nariz de Thalwara, o gelo da tensão havia se rachado. Ela deu alguns tapas leves no próprio rosto para acordar e começou a organizar as caixas já revisadas.
Não demorou para que terminassem de empilhar tudo. Syndona cruzou os braços novamente e encarou a douradiana com uma seriedade não normal.
— Então? — disse ela. — O que estamos procurar?
— “Estamos”? — Thalwara arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— Sim. Pra você estar desse jeito, deve ser coisa importante. Ou pior: meu imposto de renda.
— O quê? Não! — Thalwara quase sorriu novamente.
— Então? O que ser?
A douradiana levou a mão à face. As palavras estavam presas em sua garganta, dando nós que a impediam de falar com clareza.
— No meio… da missão, eu… eu… — tentou Thalwara, mas a voz falhou miseravelmente.
Syndona coçou o queixo, pensativa, e soltou uma das conclusões mais sérias de toda sua vida:
— Você se endividou pra um vendedor de pastéis?
Ou quase.
— Claro que não! — gritou Thalwara, o rosto ficando vermelho como pimenta. — Como raios você chegou nessa conclusão, Syn?!
— Bom… Você mexer em documentos de membros, estar preocupada e não conseguir nem falar. — Syn estalou os dedos. — Com certeza dívida de jogo ou de pastel.
— Não é! — A douradiana oscilava entre a raiva e o riso. — E por que um vendedor de pastéis?
— Nunca duvide de um pasteleiro baixa-engrenoriano. Eles ser muito bons com negócios e juros — concluiu a alta, com um olhar mortalmente sério.
Thalwara rendeu-se. Soltou um riso teatral e doce, sentindo a armadura verde em seus corpo ficar mais leve. Era como se o peso de seus ombros nunca tivesse existido.
Syndona riu junto, satisfeita por ter cumprido seu papel de para-raios para a angústia da amiga. Quando os risos cessaram, a seriedade voltou ao ambiente.
— Durante a missão, eu encontrei um dos membros do culto de Nazhur… — Thalwara ajustou a postura e entrelaçou os dedos, que insistiam em tremer.
— Então eram eles mesmo… Caso vai ficar mais perigoso agora — suspirou Syndona, em tom entristecido.
— E… ele era idêntico ao Aldric.
Os olhos de Syndona se arregalaram. Ela levou a mão à boca, enquanto seu cérebro tentava processar a impossibilidade daquela frase.
— Mas como…? — a voz da gelariana saiu trêmula pela primeira vez. — Aldric não faria coisa dessas… Ele era um de nós.
— Por isso estou procurando o arquivo dele… Preciso saber o que aconteceu de verdade.
O rosto de Thalwara fechou-se em um olhar de luto. Syndona deu um suspiro longo, preparou-se e encarou as estantes da sala de arquivos.
— [Auglind]! — ordenou a gelariana. Sua voz ressoou como um trovão entre as paredes pequenas do prédio.
O carma ao redor dela oscilou violentamente. Seus olhos, antes azuis e calmos, brilharam na forma de dezenas de estrelas, suas pupilas dilataram-se como um céu negro.
Para Thalwara, o mundo continuava igual, mas para Syndona, o mundo se partiu em milhares de camadas de ações, como se tivesse caminhado até cada arquivo, mas todos ao mesmo tempo.
Ela processou datas, missões e nomes de membros ativos e falecidos. Para sua surpresa, o arquivo procurado não foi encontrado.
Quando fechou os olhos, Syndona cambaleou e teve que se apoiar na barra da porta. Estava ofegante, as veias saltadas no rosto e as escleras tingidas de um vermelho claro.
— Syndona! — Thalwara correu para amparar a amiga.
— Eu tô bem… só parecer que um caminhão passou por cima de mim — respondeu a maga, piscando rápido para recuperar o foco. — Eu olhei tudo…
— Você usou sua magia para isso?! — Thalwara passou da preocupação para a bronca em segundos. — Você sabe que quanto mais previsões você vê, mais você se machuca!
— Tenho má notícia, Thal…
— Outra?!
— O arquivo não está aqui. É como se… Aldric nunca tivesse existido para a Guilda.
A frase atingiu a douradiana como um martelo. Os olhos de Syndona nunca se enganavam.

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