— Argh! — Dhaha esfregou o braço pela enésima vez, os olhos arregalados enquanto caçava os insetos no ar. — Esses mosquitos são do tamanho de um pássaro! Por que ninguém avisou que a gente ia vir pro meio do mato?

    — Porque você parecia animado demais para fazer alguma pergunta — Mirena respondeu, ao desviar de uma raiz do chão.

    O rosto do douradiano ainda estava vermelho no lado direito, uma marca da porta que Syndona acertou nele horas atrás. 

    A gelariana caminhava na frente, os chifres ziguezagueantes cortando a vegetação como se fosse nada, e completamente imune aos mosquitos.

    — Bonito galo — Mirena cutucou, um sorriso surgia no canto da boca.

    — Pode virar marca registrada. Um herói tem que ter cicatriz — Dhaha bufou, enquanto esfregava a bochecha. — É algo impressionante!

    — Vai impressionar é o espelho quando você acordar amanhã.

    — Haha! Muito engraçada. — O sarcasmo do garoto era notável.

    A floresta ao redor era estranha. Árvores retorcidas, envelhecidas pela idade, e pedaços de pedra lascada espalhados pelo chão, como destroços de algum lugar.

    — Que lugar é esse? — perguntou Mirena, enquanto tocava uma coluna caída coberta de musgo. A superfície era fria, desgastada pelo tempo.

    A mulher alta parou e apontou para o horizonte, onde uma encosta rochosa emergia das árvores.

    — Nas ruínas da montanha, fica perto de Engrenora. Antigamente era um posto avançado, durante a era perdida.

    — Parece que destrui… — Dhaha tentou falar, mas engasgou com um mosquito. — Argh! Que gosto horrível!

    — Menos um mosquito para te picar — Mirena comentou, seca.

    — Isso não me ajuda!

    Dhaha cuspiu várias vezes, a cara de nojo tão exagerada que até Syndona virou pra olhar.

    — Muita guerra aqui, muita morte. Por isso carma ainda forte — a gelariana explicou, retomando a caminhada sem esperar os dois. — Você sentir?

    Mirena fechou os olhos por um segundo. O ar parecia mais denso, como se uma névoa se espalhasse por toda a área. Era até mais difícil de respirar.

    — Consigo sentir… — respondeu ela, baixinho.

    — Eu consigo sentir um cheiro forte, que nem naquela casa — Dhaha completou, enquanto coçava a nuca. — Mas isso me deu fome, esse mato não tem nada pra comer?

    — Depois. Primeiro iremos treinar.

    — Claro. Sempre depois.

    Chegaram a uma clareira enorme depois de mais alguns minutos de caminhada. O chão era de terra batida, cercado por pilares de pedra desmoronados e algumas árvores isoladas que teimavam em crescer no meio dos escombros. O sol batia forte no centro e iluminava o espaço como um holofote natural.

    A gelariana levantou a mão.

    — Parou. Treinar aqui.

    Mirena olhou em volta, confusa. O lugar era isolado, isso era verdade, mas também parecia antigo. Era realmente uma ruína.

    — Aqui? No meio do nada? Por quê? — perguntou ela.

    — Não tem lugar melhor pra treinar do que bom e velho matagal — A outra cruzou os braços, o sorriso enigmático no rosto azul claro. — Pouco visitado, ninguém vai incomodar. E carma forte ajuda.

    Ela caminhou até um tronco caído e sentou, as pernas cruzadas como uma professora em cátedra. O sol batia nos chifres dela, criando reflexos prateados.

    — Thalwara falou. Nós ter uma semana até o ritual.

    — A gente sabe — Mirena respondeu, o braço mecânico rangeu suavemente quando ela o ajustou.

    — Não sabe. — A mulher inclinou a cabeça, os olhos estrelados fixos neles. — Porque vocês estar fracos demais. Não vai poder estar na missão.

    Dhaha parou de coçar os braços. A expressão mudou na hora.

    — Fracos? Eu enfrentei um titã, uma aberração de carne e ainda tô de pé! Botei o Belmorth pra correr!

    — Estar de pé não significa estar pronto. — A gelariana ergueu o dedo, o gesto lento e didático. — Vocês sobreviveram. Não venceram.

    Mirena sentiu o peso sobre os ombros. Era verdade, Belmorth tinha escapado e o necromante ainda estava solto. 

    Eles só tinham apenas sobrevivido.

    — Eu cuidar de vocês essa semana — a alta completou, o sorriso voltando.

    Algo no tom de voz dela fez Mirena engolir em seco. Não era uma ameaça direta, mas também não era exatamente um convite amigável. Dhaha também sentiu o frio na espinha e ficou imóvel por um segundo.

    — Cuidar… como? — perguntou a ardenteriana, cautelosa.

    — Treinar, treinar e treinar. — Syndona bateu palmas, o som ecoou entre as pedras. — Até não aguentar mais. Depois, treinar de novo.

    — Parece… divertido? — Dhaha tentou, sem convicção alguma na voz.

    — Vai ser. Pra mim.

    A gelariana levantou do tronco e bateu as mãos para limpar a poeira. Os olhos dela brilharam por um instante, aquelas estrelas que dançavam em suas pupilas.

    — Treino de hoje: combate desarmado. Um golpeia com punho coberto de carma. Outro defende com carma para aumentar resistência.

    Mirena franziu a testa.

    — Dosagem…?

    — Sim. Controlar quanto carma usar. — A outra caminhou em volta deles, os passos lentos. — Se você usar pouco, defesa falha. Se usar muito, desperdiça energia. Fica cansado rápido e morre rápido.

    — Faz sentido — Dhaha concordou, com um balançar de cabeça.

    — Claro que faz. Eu que estar ensinando.

    A guerreira parou, pegou duas pedras do chão. Eram do tamanho de um punho, irregulares e pesadas.

    — Vou demonstrar. — Ela estendeu as pedras para eles. — Jogar em mim. Agora.

    Mirena segurou a pedra, mas hesitou. Olhou para Syndona, depois para a pedra, depois para a mulher de novo.

    — Você quer que a gente… atire em você?

    — Isso mesmo.

    — E se acertar?

    — Vai doer. — A alta deu de ombros, casualmente. — Mas não vai matar. Provavelmente.

    — Provavelmente? — Mirena repetiu, incrédula.

    — Tudo na vida tem risco. Até sair da ca…

    Dhaha não esperou o fim da conversa. Com um movimento rápido, ele arremessou a pedra com toda força que tinha. O projétil cortou o ar assobiando e acertou o ombro da gelariana.

    Uma nuvem de poeira levantou no impacto, e quando clareou, Syndona estava exatamente no mesmo lugar, ilesa.

    No ponto do impacto, um brilho pálido de carma ainda pulsava fraco antes de desaparecer como uma lamparina que se apaga.

    — Incrível! — Dhaha pulou no lugar, os olhos agora brilhavam mais que o normal. — Nem arranhou! Como você fez isso?

    — Canalização e Compressão. — Ela olhou para o próprio ombro, massageando de leve. — Usei carma suficiente pra absorver. No ponto certo e na hora certa.

    — E isto não doeu? — Mirena perguntou.

    — Doer, doeu. Mas passa.

    Mirena observava em silêncio, a pedra ainda na mão. O peso dela era totalmente diferente agora.

    “Ela quer que a gente aprenda dosagem… atirando pedras na própria tutora? Que tipo de método é esse?”, pensou Dhaha. “Gostei.”

    — Agora ser a vez de vocês. — A mulher alta apontou para o centro da clareira, onde o sol criava um círculo dourado na terra batida. — Vocês dois. Posição de combate.

    Dhaha avançou sem hesitar, os punhos cerrados e os olhos com aquele fogo dourado que era sua marca registrada. Os pés encontraram a posição naturalmente, como se tivesse nascido pra isso.

    Mirena largou a pedra no chão e respirou fundo. O ar da clareira entrou nos pulmões, fresco e denso ao mesmo tempo. Ela caminhou até o lado do amigo, e sentiu o braço mecânico ranger suavemente enquanto assumia a guarda.

    O sol batia nos dois.

    Syndona, sentada no tronco, observava com um sorriso selvagem, como se estivesse prestes a ver algo interessante de verdade. Os olhos estrelados brilhavam.

    — Vamos começar.

    A clareira ficou em silêncio. Se ouvia apenas o som do vento nas árvores retorcidas e a respiração dos dois combatentes.

    O duelo estava prestes a começar.

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