Capítulo 10 - O Rugido Antes da Tempestade
O ar da arena estava pesado, quase sólido.
Noah e Felix se encaravam à distância, ambos respirando fundo, os corpos marcados pelo confronto. O chão entre eles já não era mais uma arena — era um campo devastado, rachado por ossos, crateras e cicatrizes de raios.
— Eles ainda vão continuar…? — alguém murmurou na arquibancada, incrédulo.
Noah foi o primeiro a se mover.
Ele avançou em linha reta, Mini Foices girando em movimentos precisos. A foice esquerda vibrou, e ondas de oscilação explodiram pelo chão como pulsos sísmicos. Felix saltou, desviando por pouco, usando os raios para se impulsionar no ar.
No meio do salto, Felix estendeu as mãos.
— Rasgo Elétrico!
Relâmpagos se comprimiram e dispararam como lâminas. Noah cruzou as Mini Foices, erguendo uma barreira óssea reforçada com oscilação. O impacto fez a defesa rachar, mas não atravessar.
— ELE DEFENDEU?! — gritou um lutador veterano. — Aquilo destruiria um Rank C fácil!
Noah contra-atacou instantaneamente.
Da foice direita, projéteis de ossos foram disparados em sequência, rápidos como balas. Felix girou o corpo, desviando de alguns, deixando outros rasparem sua pele. Ele caiu rolando e se levantou num único movimento, já avançando de novo.
Pela primeira vez… a luta parecia realmente equilibrada.
Golpes trocados em alta velocidade. Socos que quebravam o ar. Garras elétricas colidindo com ossos endurecidos. Campos de força roxos sendo despedaçados por descargas cada vez mais violentas.
A arquibancada estava em êxtase.
— Eles estão no mesmo nível agora?!
— Não… — um veterano respondeu, tenso. — O Felix está… se adaptando.
Felix cravou as garras no chão e liberou uma descarga massiva. Os raios não explodiram — eles se infiltraram pelo solo, surgindo por baixo de Noah como serpentes luminosas.
Noah saltou para trás, mas uma delas o atingiu na perna. O impacto o fez deslizar vários metros, deixando um rastro profundo no chão.
— Peguei você… — Felix disse, sorrindo, os olhos brilhando de forma quase selvagem.
Ele se eletrocutou por dentro novamente.
Dessa vez, foi diferente.
Os músculos não apenas incharam — se compactaram, ficando mais densos, mais definidos. As garras cresceram, mais longas, mais afiadas, pulsando com energia instável. O ar ao redor de Felix começou a vibrar.
Hans estreitou os olhos na arquibancada.
— …isso não é só força bruta. — pensou. — Ele está forçando o corpo além do limite seguro.
Noah se levantou devagar, apoiando-se em uma Mini Foice.
— Você vai se destruir assim. — disse ele. — Ainda pode parar.
Felix riu.
— Agora eu entendi. — ele respondeu. — Você é forte… mas não é invencível.
Ele desapareceu.
Um clarão cortou a arena.
Felix surgiu atrás de Noah e acertou um golpe direto nas costas, uma descarga concentrada que explodiu como um canhão. Noah foi arremessado para frente, atravessando uma formação óssea e rolando violentamente até parar perto da borda da arena.
A multidão entrou em choque.
— O NOAH FOI ACERTADO EM CHEIO?!
— Ele está sangrando?!
Noah se levantou, lentamente. Um filete de sangue escorria do canto da boca.
Felix abriu os braços.
— Está vendo? — disse ele, a voz carregada de eletricidade. — Eu posso virar esse jogo.
Os raios começaram a convergir.
Não para fora.
Para dentro dele.
A aura elétrica de Felix se tornou opressiva, esmagadora. O céu artificial da arena escureceu, nuvens de energia se formando acima, girando em espiral.
Alguns espectadores começaram a recuar instintivamente.
— Ei… isso não estava no regulamento…
— Esse nível de energia… é insano!
Noah sentiu.
Sentiu o perigo real pela primeira vez.
Felix ergueu a cabeça, os olhos brilhando como dois relâmpagos vivos.
— Esse é o meu golpe mais forte. — ele disse, com um sorriso feroz. — E você vai aguentar… ou cair aqui.
Os raios rugiram.
A arena inteira começou a tremer.
E então—
O céu acima da arena deixou de parecer céu.
As nuvens de energia se comprimiram em um único ponto, girando como um funil de pura destruição. O som não era mais de trovão — era um urro contínuo, profundo, que fazia os ossos vibrarem por dentro.
Felix estava no centro de tudo.
Seu corpo flutuava alguns centímetros acima do chão, completamente envolto por eletricidade. As garras haviam se fundido aos braços, parecendo extensões naturais de carne e raio. Cada músculo pulsava como se fosse feito de luz condensada.
— RAIO DA MONSTRIFICAÇÃO… — ele gritou, a voz distorcida, quase não humana.
— FORMA SUPREMA!
O mundo pareceu parar.
Então, o raio caiu.
Não foi um simples relâmpago.
Foi uma coluna colossal de energia, larga como uma torre, descendo do céu direto sobre Noah. A luz foi tão intensa que muitos espectadores fecharam os olhos por instinto. Outros gritaram. Alguns caíram de joelhos.
A arena inteira foi engolida por branco e azul.
— ISSO É LOUCURA! — alguém berrou.
— ELE VAI MATAR O NOAH!
No centro do impacto, Noah reagiu no último instante.
Ele cravou as Mini Foices no chão.
A foice esquerda vibrou de forma absurda.
— Oscilação… Máxima.
Campos de força roxos surgiram à frente dele, um sobre o outro, como placas de vidro translúcido empilhadas. Cada camada vibrava, distorcendo o espaço ao redor. O ar se quebrou. O chão tremeu como se estivesse vivo.
O raio colidiu com a primeira barreira.
Ela se estilhaçou.
A segunda resistiu por menos de um segundo antes de explodir em fragmentos de energia roxa. A terceira começou a rachar, rangendo como vidro prestes a se partir.
Noah gritou, os dentes cerrados.
— NÃO… É… SUFICIENTE!
Ele reforçou a oscilação, o chão abaixo dele se partindo em círculos concêntricos. A arena parecia um epicentro de terremoto. Ossos surgiram do solo instintivamente, formando uma proteção adicional, mas foram vaporizados ao contato com o raio.
Mesmo assim… o ataque não foi totalmente detido.
O raio atravessou as defesas restantes e atingiu Noah em cheio.
O impacto foi brutal.
Seu corpo foi lançado para trás como um projétil, atravessando o ar, colidindo com o chão e rolando dezenas de metros até se chocar violentamente contra uma das paredes reforçadas da arena. A explosão levantou uma nuvem densa de poeira, pedras e energia residual.
Silêncio.
Um silêncio pesado, apavorado.
— …acabou? — alguém sussurrou.
Hans estava de pé, as mãos tremendo.
— Noah… — murmurou, sentindo um aperto no peito.
A poeira começou a baixar.
Noah estava de joelhos.
Seu corpo fumegava. A roupa estava rasgada, queimada em vários pontos. Marcas profundas de queimadura percorriam seu torso e braços. O chão ao redor dele estava vitrificado, transformado em algo parecido com vidro derretido.
Ele cuspiu sangue.
— …hahaha… — riu baixo, com dificuldade. — Esse… doeu de verdade.
Um murmúrio percorreu a arquibancada como uma onda.
— ELE ESTÁ VIVO?!
— Depois disso?!
Felix pousou lentamente no chão, respirando pesado. A eletricidade ainda envolvia seu corpo, mas de forma instável. Veias saltadas, músculos tremendo. Seu rosto estava tomado por um misto de êxtase e exaustão.
— Você… defendeu… — ele disse, incrédulo. — Nenhum Rank E… não… nenhum Rank B teria sobrevivido.
Noah se levantou com esforço, apoiando-se em uma Mini Foice. Suas pernas tremiam, mas ele permaneceu de pé.
Sua aura… estava diferente.
Maior.
Mais densa.
Mais escura.
Um espectador engoliu em seco.
— …quanto mais ele apanha… mais pesado o ar fica.
Alguns dos outros lutadores sentiram um arrepio real, primitivo. Algo que não vinha do raio, nem da força física.
Vinha de Noah.
— Você deu tudo nesse golpe, né? — Noah perguntou, a voz rouca, mas firme. — Dá pra sentir… seu corpo está no limite.
Felix sorriu, mesmo ofegante.
— Talvez. — respondeu. — Mas eu consegui te ferir. E isso já é uma vitória.
Noah ergueu lentamente a cabeça, o olhar agora sério, profundo.
— Então… — ele disse, enquanto a energia roxa das Mini Foices começava a pulsar novamente — é melhor você não ter mais cartas escondidas.
O vento na arena voltou a girar.
A poeira ainda não havia assentado por completo.
E todos sabiam:
A luta estava perto de acabar.
O silêncio que tomou a arena após o impacto do raio era sufocante.
Felix respirava com dificuldade, os joelhos levemente flexionados, o corpo ainda coberto por descargas elétricas instáveis. Cada inspiração parecia rasgar seus pulmões. O Raio da Monstrificação havia extraído tudo o que ele tinha — músculos, nervos e até sua própria essência estavam no limite.
Do outro lado, Noah permanecia de pé.
Ferido. Queimado. Sangrando.
Mas… inteiro.
A aura roxa e sombria ao redor dele não diminuía. Pelo contrário, ondulava como um mar profundo, pesado, quase consciente. Alguns espectadores sentiam náusea só de olhar. Outros tremiam sem entender o porquê.
— Isso… isso não é um Rank E… — murmurou um dos cavaleiros veteranos.
Hans cerrava os punhos com força.
— Noah… para… já chega… — pensou, mesmo sabendo que o amigo não podia ouvi-lo.
Felix riu fraco, cuspindo sangue.
— Então é isso… — disse, erguendo o olhar. — Você ainda consegue lutar… depois de tudo isso…
Noah deu um passo à frente.
O chão afundou sob seu pé.
— Felix. — sua voz não era fria, nem cruel. Era firme. — Eu já te pedi pra desistir.
— Cala a boca… — Felix respondeu, rangendo os dentes. — Não fala como se fosse misericordioso. Se você continuar… eu morro.
Noah parou.
Por um breve instante, sua aura oscilou.
— Eu sei. — ele disse. — É exatamente por isso que essa será a última vez que eu ataco.
Felix arregalou os olhos.
— …o quê?
As Mini Foices surgiram novamente nas mãos de Noah, materializando-se a partir de poeira sombria. A esquerda vibrava com a Oscilação. A direita pulsava com ossos, espinhos e estruturas se formando e se desfazendo ao redor da lâmina.
— Eu não vou te matar. — Noah continuou. — Mas vou acabar com essa luta.
Felix gritou, forçando o corpo além do limite.
— NÃO ME SUBESTIME!
Ele lançou tudo o que restava.
Relâmpagos explodiram de seu corpo em todas as direções, garras de raio avançando como feras selvagens. O chão se partiu sob seus pés enquanto ele avançava em uma última investida, gritando com tudo o que tinha.
— RAAAAAAAAAAH!
Noah não recuou.
Ele avançou também.
No instante do choque, a foice esquerda se ergueu.
— Oscilação: Campo Zero.
O ar quebrou.
Não foi uma explosão comum — foi como se o espaço tivesse sido esmagado. Um campo roxo transparente surgiu entre eles por uma fração de segundo… e então implodiu.
Felix sentiu todos os ossos do corpo gritarem ao mesmo tempo.
Seu ataque foi esmagado, distorcido, desfeito.
Antes que pudesse reagir, a foice direita de Noah se moveu.
— Domínio dos Ossos.
Espinhos ósseos surgiram do chão, do ar, de todos os ângulos — não para perfurar órgãos vitais, mas para imobilizar. Braços, pernas, tronco. Cada movimento de Felix era bloqueado, preso, travado.
— GAH—!
Noah apareceu à frente dele em um piscar de olhos.
Um soco.
Apenas um.
Mas não foi força bruta comum.
O golpe carregava Oscilação comprimida.
Quando o punho atingiu o abdômen de Felix, o impacto não o lançou para trás.
Ele o afundou.
O corpo de Felix se dobrou, o chão abaixo dele rachou como uma cratera. O ar foi expelido de seus pulmões. Sangue jorrou de sua boca, olhos e nariz ao mesmo tempo.
O silêncio voltou.
Felix caiu de lado, imóvel.
Por um segundo eterno, ninguém respirou.
— …ele morreu? — alguém sussurrou, aterrorizado.
Noah se ajoelhou ao lado dele, sentindo a pulsação fraca, mas existente.
Vivo.
No limite.
— Não. — Noah disse em voz baixa. — Ele vai viver.
As Mini Foices se desfizeram em poeira sombria.
Noah se levantou, o corpo ainda tremendo levemente — não apenas pelos ferimentos, mas pelas memórias ecoando em sua mente, vindas de seus mortos espalhados pelo mundo.
Ele olhou para o alto da arquibancada.
— A luta acabou. — declarou. — Ele não pode mais continuar.
Por alguns segundos, ninguém reagiu.
Então, a arena explodiu em vozes.
Gritos. Choque. Medo. Admiração.
Hans caiu de joelhos, aliviado.
— Idiota… — murmurou, rindo nervoso. — Você quase matou todo mundo do coração.
Enquanto curandeiros corriam para socorrer Felix, muitos perceberam algo assustador:
Noah não estava comemorando.
Não parecia orgulhoso.
Ele apenas… parecia cansado.
E todos ali entenderam, mesmo sem palavras:
Se ele quisesse,
a morte teria sido apenas um detalhe.
E isso… era o mais aterrador de tudo.

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