O silêncio que se seguiu ao fim da luta não era vazio.

    Era pesado.

    Na arena da recém-formada Guilda Scarface, dezenas de lutadores — novatos e veteranos — permaneciam imóveis, como se o tempo tivesse sido arrancado do mundo por alguns instantes. O corpo de Felix Sturmfang era levado pelos curandeiros, ainda respirando por um fio, enquanto Noah permanecia no centro da arena, imóvel, com o olhar distante.

    E então, como uma onda atrasada…
    as reações começaram.

    — Ele… ele derrotou o Felix.
    — Não só isso… ele poupou o Felix.
    — Um Rank E… não, isso é impossível.

    Os murmúrios se espalhavam como fogo em palha seca.

    Felix Sturmfang não era um nome pequeno. Assassino Rank B+, famoso por sobreviver a missões onde outros morreram, conhecido por sua Técnica da Monstrificação e por nunca ter recuado em uma luta justa. Muitos ali tinham certeza absoluta de que ele venceria.

    E ainda assim…

    — Aquele soco final… — murmurou Klaus Eisenblut, o cavaleiro Rank B, com o rosto pálido. — Se ele quisesse matar… Felix não estaria respirando agora.

    — Vocês sentiram isso? — Liselotte Krähe, a necromante Rank B, falou em voz baixa, os olhos brilhando com inquietação. — A aura dele… não era só morte. Era domínio. Como se tudo ao redor tivesse que aceitar a presença dele.

    Margarete Weiss, também necromante, engoliu em seco.

    — Eu já vi comandantes mortos… já senti a pressão de entidades além da vida. — ela apertou o próprio braço. — Mas aquele garoto… ele parecia algo acima disso.

    Do outro lado da arena, Otto Morgenstern, o feiticeiro Rank A, permanecia em silêncio. Seus olhos, experientes e calculistas, nunca haviam se afastado de Noah desde o fim da luta.

    — Interessante… — murmurou. — Ele não luta como alguém desesperado por poder. Ele luta como alguém que já tem poder demais.

    — Você está dizendo que ele se conteve? — perguntou Albrecht Eisenwald, o cavaleiro Rank A, cruzando os braços.

    Otto assentiu lentamente.

    — Do começo ao fim.

    Essa frase fez vários veteranos sentirem um frio na espinha.

    Entre os novatos, o impacto era ainda maior.

    Johann Blutmond, o mago Rank C, estava sentado no banco, as mãos trêmulas.

    — Eu… eu achei que fosse exagero. — ele murmurou. — Mas aquilo não foi uma luta. Foi um aviso.

    — Um aviso de quê? — perguntou Friedrich Nacht, Rank D, nervoso.

    Johann respondeu sem hesitar:

    — De que nós estamos competindo com algo que não deveria estar no mesmo nível que a gente.

    Bruno Falken, o assassino Rank C, riu nervoso.

    — Felix parecia uma presa. — ele balançou a cabeça. — E eu nunca vi o Felix parecer isso.

    Na arquibancada reservada aos civis convidados, o choque era misturado com algo diferente.

    Admiração.

    Medo.

    Gratidão.

    — É ele… — murmurou um dos homens salvos na Vila de Eidenfall. — O mesmo olhar… a mesma presença de quando ele enfrentou os Orcs.

    — Mas agora… — disse uma mulher, abraçando o filho. — Agora todo mundo viu.

    Hans estava de pé, respirando fundo, tentando organizar os próprios pensamentos.

    — Idiota… — repetiu para si mesmo, mas agora com um sorriso torto. — Você realmente não percebe o que causa nas pessoas, né?

    Ele olhou ao redor.

    Todos olhavam para Noah.

    Alguns com inveja.
    Alguns com medo.
    Alguns com respeito genuíno.

    E alguns… com ambição perigosa.

    No alto da arena, Ludolf Scar permanecia rígido, a expressão tensa.

    — Isso foi um erro… — murmurou para si mesmo. — Ou a melhor decisão que já tomamos.

    Arnulf, parado alguns metros atrás, sorria de forma quase imperceptível.

    — Interessante demais. — disse. — Um Ceifador que não age como Ceifador… e um poder que não pertence a nenhum Rank conhecido.

    Ele virou o olhar na direção do pai, o rei Reinhard, que observava em silêncio absoluto.

    — Pai… — Arnulf falou. — Esse garoto vai mudar o equilíbrio do Reino.

    Reinhard fechou lentamente os olhos.

    — Não. — respondeu. — Ele já mudou.

    No centro da arena, Noah finalmente se moveu.

    Sentia os olhares. Todos eles.

    Mas, por dentro, o que ecoava não eram aplausos ou murmúrios.

    Eram memórias.

    Gritos. Mortes. Conquistas silenciosas dos seus mortos espalhados pelo mundo.

    Ele levou a mão ao peito por um segundo… e então respirou fundo.

    Sem dizer uma palavra, começou a sair da arena.

    E enquanto ele se afastava, uma certeza se enraizava na mente de todos os presentes:

    O Teste de Admissão ainda não havia terminado.
    Mas, depois daquela luta…

    Nada mais seria o mesmo.

    O pátio lateral da arena estava estranhamente silencioso.

    Diferente do caos de vozes e emoções que ainda ecoavam do outro lado das arquibancadas, ali só havia o som do vento passando entre as bandeiras da Guilda Scarface. Noah estava encostado em uma coluna de pedra, os braços relaxados, os olhos meio perdidos — não em pensamentos, mas em memórias que ainda insistiam em sussurrar no fundo de sua mente.

    Foi então que passos apressados quebraram o silêncio.

    — Noah.

    A voz era tensa. Diferente do tom firme que Hans costumava usar quando estava em perigo real.

    Noah abriu os olhos devagar e virou o rosto.

    Hans estava ali, com o elmo debaixo do braço, o semblante sério demais para alguém que tinha acabado de sobreviver a um massacre dias atrás. Ele respirava fundo, como se estivesse se preparando para pular de um penhasco.

    — Você… — Hans começou, hesitou, e então falou de uma vez. — Você pode me dar algumas dicas?

    Noah arqueou levemente a sobrancelha.

    — Dicas? — perguntou, com calma. — Pra quê exatamente?

    Hans soltou uma risada curta, nervosa.

    — Pra não morrer.

    A sinceridade crua fez Noah encará-lo com mais atenção.

    — Meu próximo oponente é o Albrecht Eisenwald. — Hans continuou. — Cavaleiro de Rank A. O mais jovem de todo o Reino. Um monstro de armadura.

    Noah ficou em silêncio por um instante.

    Esse nome ele conhecia.

    — Então é ele… — murmurou.

    Hans assentiu.

    — Dizem que ele nunca perdeu um duelo justo. Defesa absurda, força monstruosa e uma técnica de espada que parece… inevitável. — Hans fechou a mão com força. — Eu não tenho chance se entrar ali do jeito que estou.

    Noah se afastou da coluna e ficou de frente para ele.

    — Você não está com medo de lutar. — disse. — Está com medo de morrer sem nem conseguir reagir.

    Hans engoliu em seco.

    — Exatamente.

    Por alguns segundos, Noah apenas o observou. Depois falou, direto:

    — O que você tem escondido?

    Hans arregalou levemente os olhos.

    — Como você…

    — Você luta como alguém que sempre está segurando algo. — Noah explicou. — Não é instinto. É escolha.

    Hans suspirou, derrotado.

    — Eu… — ele passou a mão pelos cabelos. — Eu consigo controlar o vento.

    Noah piscou uma vez.

    — Controle de vento?

    — Rajadas. Cortes de ar. Pressão. — Hans explicou. — Posso criar lâminas invisíveis, impulsos para aumentar velocidade, até explosões de vento concentrado.

    Noah ficou em silêncio por um segundo a mais do que o normal.

    — Isso não é pouco. — disse, sério. — Então por que nunca usou?

    Hans desviou o olhar.

    — Porque eu não controlo bem. — admitiu. — Se eu exagerar… posso perder o equilíbrio. Ou ferir alguém que não devia. — ele apertou o elmo. — Desde Eidenfall eu venho treinando escondido. Toda noite. Tentando não chamar atenção.

    Noah cruzou os braços.

    — Você estava se preparando pra morrer melhor, não pra vencer.

    Hans riu, sem humor.

    — Talvez.

    O vento ao redor pareceu reagir às emoções dele. As bandeiras tremularam com mais força, pequenas correntes de ar girando em torno de seus pés sem que ele percebesse.

    Noah notou.

    — Você sente o vento como extensão do seu corpo? — perguntou.

    Hans franziu a testa.

    — Mais ou menos. Às vezes parece que ele responde sozinho… às vezes parece que vai me rasgar por dentro.

    Noah assentiu lentamente.

    — Então escuta bem. — ele disse, aproximando-se. — Albrecht Eisenwald é uma muralha. Se você tentar quebrar de frente, vai morrer. Se tentar fugir, ele vai te alcançar.

    Hans sentiu o estômago apertar.

    — Ótimo… então o que eu faço?

    Noah encarou seus olhos.

    — Use o vento não pra atacar. Use pra ditar o ritmo.

    Hans piscou.

    — Ritmo?

    — Cavaleiros vivem de estabilidade. — Noah explicou. — Postura firme. Base sólida. Controle do campo. — ele fez um gesto com a mão. — Tire isso dele.

    — Como?

    — Rajadas curtas. Irregulares. — Noah falou. — Não tente cortar. Empurre. Desequilibre. Faça ele errar um passo. Um só.

    Hans respirava com dificuldade agora.

    — E quando eu tiver essa abertura?

    O olhar de Noah ficou mais sério.

    — Aí você não pensa. — disse. — Você confia no vento.

    Hans ficou em silêncio.

    Por um momento, algo profundo passou por sua mente. Algo antigo. Um eco distante que ele não compreendia.

    — Noah… — ele falou baixo. — E se eu perder o controle?

    Noah colocou a mão no ombro dele.

    — Então lute para recuperar. — respondeu. — Mas não se esconda. Porque se você entrar naquela arena negando quem você é… Albrecht não vai te poupar.

    Hans fechou os olhos por um instante.

    Quando abriu, havia algo diferente ali.

    — Obrigado. — disse. — Mesmo que eu perca… não vou morrer como um figurante.

    Noah deu um meio sorriso.

    — Boa resposta.

    O chamado para a próxima luta ecoou distante pela arena.

    Hans colocou o elmo, o vento ao redor dele girando um pouco mais forte do que antes.

    E enquanto caminhava em direção à arena, Noah pensou, em silêncio:

    Se ele sobreviver a essa luta…
    Hans não será mais apenas um guarda.

    A noite já tinha caído sobre o Reino de Scavenger.

    A nova casa de Noah ficava em uma área mais silenciosa, próxima às muralhas internas do reino. Não era luxuosa, mas era sólida — paredes de pedra, vigas de madeira bem trabalhadas, espaço suficiente para viver sem chamar atenção. Ainda assim, o lugar carregava uma pressão estranha, como se algo ali nunca estivesse realmente em repouso.

    Noah estava sentado à mesa, com alguns livros espalhados à sua frente. Velhos. Empoeirados. Alguns escritos à mão, outros impressos com tinta quase apagada. Símbolos arcanos, ilustrações de criaturas deformadas, diagramas de energia que não se pareciam em nada com mana comum.

    Ele virou mais uma página quando ouviu batidas na porta.

    Três batidas. Firmes. Conhecidas.

    Noah fechou o livro.

    — Entra, Hans.

    A porta se abriu devagar.

    Hans entrou ainda com a roupa de treino, o rosto sério, carregando aquela mesma inquietação que vinha crescendo desde a conversa anterior. O vento dentro da casa pareceu reagir à presença dele, fazendo a chama da lamparina tremular levemente.

    — Eu… — Hans começou, fechando a porta atrás de si. — Desculpa aparecer de novo assim.

    Noah fez um gesto para que ele se sentasse.

    — Se você veio até aqui, não é por curiosidade. — disse. — O que sentiu agora?

    Hans passou a mão pelo braço, como se estivesse tentando se livrar de algo invisível.

    — Quando lutei hoje… — ele falou devagar. — Teve um momento em que não parecia mais eu. O vento não estava só obedecendo. Ele… queria mais. — ele ergueu o olhar. — Queria destruir.

    O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos.

    Noah não pareceu surpreso.

    — Então já começou. — murmurou.

    Hans franziu o cenho.

    — Começou o quê?

    Noah se levantou, caminhou até a estante e puxou um dos livros mais grossos. A capa era negra, sem título, apenas um símbolo distorcido gravado em relevo.

    Ele colocou o livro sobre a mesa entre os dois.

    — Nos últimos dias eu li algo que quase ninguém leva a sério. — Noah disse. — Porque a maioria morre antes de entender.

    Hans engoliu em seco.

    — Que tipo de poder é esse… meu vento?

    Noah apoiou as mãos na mesa.

    — Chama-se Energia Monstrificada. — respondeu.

    A palavra soou pesada no ar.

    — Energia… dos monstros? — Hans perguntou.

    — Exato. — Noah assentiu. — Não é mana. Não é bênção divina. Não é técnica aprendida. — seus olhos ficaram mais sérios. — É algo que sempre esteve aí.

    Hans sentiu um arrepio percorrer a espinha.

    — Todo ser humano… — Noah continuou — possui um monstro interior.

    O vento ao redor de Hans reagiu de forma brusca, fazendo papéis se moverem sozinhos.

    — Um reflexo primitivo. Instintos, desejos, medo, violência, ambição. — Noah explicou. — Em algumas pessoas ele dorme a vida inteira. Em outras… desperta.

    Hans apertou os punhos.

    — E quando desperta?

    Noah ergueu dois dedos.

    — Existem duas etapas.

    Hans prendeu a respiração.

    — A primeira é o Despertar do Poder. — Noah disse. — Nela, o monstro interior abre os olhos… mas não assume o controle. Você ganha acesso a uma habilidade ligada à sua essência monstruosa.

    — Como o meu vento… — Hans murmurou.

    — Sim. — Noah confirmou. — Nesse estágio, seus atributos não aumentam. Seu corpo não muda. Mas seu poder deixa de ser humano.

    Hans sentiu um misto de alívio e medo.

    — E a segunda etapa?

    Noah fechou o livro com um som seco.

    — O Despertar do Monstro.

    A palavra ecoou.

    — Nessa fase, o monstro não apenas desperta… ele tenta se fundir com você. — Noah disse. — Sua força pode aumentar dezenas de vezes. Sua velocidade, resistência, percepção… tudo explode.

    Hans sentiu o coração acelerar.

    — Mas… — ele hesitou. — Qual é o preço?

    Noah encarou-o diretamente.

    — O risco de nunca mais voltar a ser humano.

    O silêncio caiu como uma lâmina.

    — Muitos que despertam o monstro interior… perdem a consciência. — Noah continuou. — Outros se tornam criaturas guiadas apenas por instinto. Alguns acreditam que ganharam poder absoluto… quando na verdade foram devorados por ele.

    Hans sentiu um frio no estômago.

    — Então… não existe saída?

    Os olhos de Noah brilharam levemente.

    — Existe. — disse. — Mas quase ninguém consegue.

    Hans levantou a cabeça.

    — Como?

    Noah bateu levemente com o dedo na própria têmpora.

    — Entrando no subconsciente.

    Hans arregalou os olhos.

    — Dentro da própria mente… existe um espaço onde o monstro se manifesta de forma pura. — Noah explicou. — Não como metáfora. Como entidade.

    — E o que se faz lá? — Hans perguntou, mesmo temendo a resposta.

    Noah falou sem hesitar:

    — Você mata o seu monstro interior.

    O ar ficou pesado.

    — Matando-o… — Noah continuou — você não perde o poder. Pelo contrário. Você o domina. Libera o potencial máximo da Energia Monstrificada sem perder quem você é.

    Hans ficou em silêncio por longos segundos.

    — E se falhar? — ele perguntou, em voz baixa.

    Noah respondeu com franqueza brutal:

    — Então você deixa de existir.

    Hans fechou os olhos.

    Por um instante, algo profundo se mexeu dentro dele. Algo antigo. Algo que parecia sorrir no escuro.

    Quando abriu os olhos novamente, havia medo… mas também determinação.

    — Noah… — ele disse. — Se esse monstro dentro de mim acordar de vez…

    Noah colocou a mão sobre a mesa, firme.

    — Então esteja preparado para enfrentá-lo. — respondeu. — Porque fugir… só o deixa mais forte.

    Lá fora, o vento soprou com mais intensidade.

    E, em algum lugar profundo dentro de Hans, alguém ouviu aquela conversa…
    e começou a rir.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota