O som do Golpe: Aberração ainda ecoava na arena.

    Sete cortes.

    Sete sentenças.

    Hans permanecia de pé.

    Mas seu corpo…

    Estava fatiado.

    Cortes profundos cruzavam seu peito, suas pernas, seu ombro restante. O sangue escorria em fios grossos, manchando o chão em vermelho escuro.

    O silêncio tomou conta do estádio.

    Hans respirava com dificuldade.

    Mesmo assim…

    Ele sorriu.

    Virou o rosto, procurando alguém nas arquibancadas.

    — …Foi bom te conhecer, Noah.

    A voz saiu fraca.

    Mas sincera.

    Os olhos de Noah Kraus se arregalaram.

    — NÃO! Ainda dá pra encerrar! DESISTE! A luta acaba se você desistir!

    Hans fechou os olhos por um segundo.

    Depois os abriu.

    — Cala a boca…

    Sua voz saiu mais firme.

    — E para de tentar me salvar.

    Ele virou o rosto para o cavaleiro à sua frente.

    — Termina isso, Albrecht.

    A arena inteira prendeu a respiração.

    Albrecht Eisenwald caminhou lentamente até ele.

    Sem pressa.

    Sem emoção.

    — Você lutou bem.

    Ele ergueu a espada.

    Nenhuma técnica nomeada.

    Nenhum espetáculo.

    Apenas um golpe comum.

    Seco.

    Direto.

    A lâmina atravessou o torso de Hans.

    O som metálico ecoou.

    O impacto fez o corpo dele inclinar para trás.

    Seus olhos perderam o foco.

    Seu corpo começou a cair.

    A gravidade o puxou.

    O chão o esperava.

    Mas…

    Ele não caiu.

    Algo segurou seu corpo.

    Não.

    Algo o levantou de volta.

    O ar mudou.

    A temperatura caiu.

    O sangue no chão começou a vibrar.

    Uma energia surgiu do corpo de Hans.

    Primeiro como uma névoa.

    Depois como fogo.

    Uma aura vermelha misturada com preto começou a envolver seu corpo.

    Densa.

    Pesada.

    Avassaladora.

    A pressão espiritual esmagou a arena inteira.

    Até mesmo alguns lutadores de Rank A recuaram instintivamente.

    Albrecht franziu o cenho.

    — …O que é isso?

    A aura crescia.

    Era maior.

    Mais violenta.

    Mais opressora do que a de muitos Ranks A.

    O chão começou a rachar sob os pés de Hans.

    O sangue parou de escorrer.

    Os cortes começaram a fechar lentamente.

    Seus olhos, antes opacos…

    Se tornaram completamente negros.

    Com um brilho vermelho no centro.

    Noah sentiu o coração travar.

    — Hans…?

    Mas a presença que estava ali…

    Não parecia mais Hans.

    A cabeça dele se inclinou levemente para o lado.

    Um sorriso diferente.

    Mais amplo.

    Mais antigo.

    E então—

    Uma voz ecoou.

    Grave.

    Imponente.

    Não vinha apenas da boca dele.

    Parecia ecoar de todos os lados ao mesmo tempo.

    Finalmente…

    A aura explodiu para o alto como uma coluna de fogo carmesim.

    O público ficou paralisado.

    Albrecht apertou o cabo da espada.

    Pela primeira vez…

    Ele parecia sério de verdade.

    E no centro da arena…

    Hans ergueu a cabeça.

    Mas não era mais apenas ele.

    Algo havia despertado.

    E aquilo…

    Estava feliz por ter acordado.

    A aura vermelho-negra pulsava como um coração recém-desperto.

    Os cortes no corpo de Hans começaram a se fechar.

    Não lentamente.

    Não naturalmente.

    Mas violentamente.

    Carne se reconstruindo.
    Sangue sendo puxado de volta.
    Tecidos se regenerando como se o tempo estivesse retrocedendo.

    Em questão de segundos…

    Não havia mais ferimentos.

    Nem cicatrizes.

    Nem sinais da batalha.

    Hans — ou o que quer que estivesse ali — ergueu os ombros, testando o corpo como alguém que veste uma roupa nova.

    E então a entidade começou a rir.

    Um riso profundo.

    Ecoando na arena inteira.

    — Após tantos anos… finalmente!
    FINALMENTE! HAHAHAHAHAHA!

    O chão tremeu.

    A aura se expandiu ainda mais, esmagando a respiração de todos os presentes.

    — Finalmente eu posso… estragar esse mundo.

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    Albrecht manteve a espada erguida, mas seus olhos estavam atentos. Calculando.

    — Quem é você?

    A entidade virou lentamente o rosto para ele.

    Os olhos negros com o brilho carmesim fixaram-se no cavaleiro.

    — Eu?

    Um sorriso torto se abriu.

    — Eu sou quem vai causar a sua morte, Albrecht Eisenwald.

    O nome dele ecoou de forma distorcida.

    Albrecht engoliu seco.

    Instintivamente.

    Como alguém que, pela primeira vez em muito tempo… temia pela própria vida.

    Mas ele não hesitou.

    — Tsc.

    E avançou.

    Explodiu para frente com tudo.

    Velocidade máxima.

    Espada apontada direto para o pescoço da entidade.

    A lâmina cortou o ar—

    Mas a entidade apenas inclinou levemente o corpo.

    O ataque passou a centímetros.

    Elegante.

    Simples.

    Humilhante.

    Albrecht girou para um segundo golpe.

    Falhou de novo.

    A entidade nem parecia estar lutando.

    Parecia… brincando.

    Então ela estendeu a mão direita.

    A aura concentrou-se na palma.

    O ar começou a distorcer violentamente.

    O chão rachou ao redor.

    Até Albrecht sentiu o instinto gritar para recuar.

    A entidade sorriu.

    Arranhão.

    Nada aconteceu.

    Silêncio.

    A aura dissipou da palma.

    Nenhuma explosão.

    Nenhuma técnica.

    Nenhum ataque.

    A entidade olhou para a própria mão.

    Franziu levemente o cenho.

    — …Hm.

    Depois soltou uma risada baixa.

    — Pelo visto… eu não tenho meus poderes originais nesse corpo.

    Ela fechou a mão lentamente.

    A aura ao redor começou a se estabilizar, mas ainda esmagava o ambiente.

    — Terei que ir atrás dos meus fragmentos.

    Os olhos dela voltaram para Albrecht.

    — E você…

    Um sorriso cruel.

    — Vai servir como aquecimento.

    A pressão espiritual voltou a crescer.

    E dessa vez…

    Não parecia um simples despertar.

    Parecia o início de algo muito maior.

    A pressão da aura vermelho-negra continuava esmagando a arena.

    Não era apenas poder.

    Era intenção.

    Malícia.

    Algo antigo respirando depois de séculos.

    Nas arquibancadas, o caos começou.

    — ENCERREM A LUTA!
    — ISSO NÃO É MAIS O HANS!
    — ISSO É ILEGAL!

    A voz de Noah Kraus foi a que mais se destacou.

    — JUIZ! TERMINA ISSO AGORA!

    Outros lutadores também se levantaram. Alguns de Rank B. Outros de Rank A.

    Todos percebendo a mesma coisa.

    Algo estava errado.

    Muito errado.

    O juiz, suando frio, apertava os papéis com mãos trêmulas.

    Mas sua voz, mesmo instável, ecoou pelo sistema mágico da arena:

    — S-segundo as regras do torneio…
    — A luta só pode ser encerrada à força quando um dos lutadores declarar desistência.

    Silêncio.

    — Enquanto ambos permanecerem de pé… a luta continua.

    Um arrepio percorreu as arquibancadas.

    Noah cerrou os dentes.

    — Isso não é mais uma luta!

    Mas no centro da arena…

    A entidade sorriu.

    — Interessante…

    Ela inclinou o pescoço lentamente.

    — Então até as regras estão presas aqui.

    Albrecht respirava com dificuldade.

    Ele podia sentir.

    Aquilo não era apenas energia monstruosa.

    Era algo que ultrapassava classificação.

    Ultrapassava ranking.

    Ele ajustou a postura.

    Concentrou toda sua energia restante.

    E então—

    A entidade desapareceu.

    Não.

    Ela simplesmente deixou de estar onde estava.

    Albrecht mal teve tempo de mover os olhos.

    Ela já estava à sua frente.

    Velocidade absurda.

    Sem preparação.

    Sem anúncio.

    Um único soco.

    BOOOOOOOM!!

    O impacto foi direto no peito.

    Parte da armadura sagrada de Albrecht estilhaçou no mesmo instante.

    Fragmentos metálicos voaram pela arena.

    O cavaleiro foi lançado vários metros para trás, deslizando pelo chão até abrir uma cratera.

    Silêncio absoluto.

    Albrecht cuspiu sangue.

    Olhou para o próprio peito.

    A armadura — feita para resistir a técnicas nomeadas — estava rachada.

    Quebrada.

    A entidade caminhou lentamente até ele.

    Passos calmos.

    Dominantes.

    — Achei que você seria mais forte…

    Ela inclinou levemente o rosto.

    Os olhos vermelhos brilhavam com desprezo.

    — Caro Cavaleiro.

    Albrecht sentiu o coração bater mais rápido.

    Pela primeira vez…

    Ele não estava lutando para vencer.

    Estava lutando para sobreviver.

    E todos na arena perceberam.

    Aquilo não era mais uma batalha de torneio.

    Era o prenúncio de um desastre.

    Albrecht cuspiu o sangue no chão.

    Seus olhos não tinham mais arrogância.

    Apenas determinação.

    Se ele hesitasse… morreria.

    Ele cravou a espada no chão por um segundo, estabilizando a respiração. A energia dele começou a subir violentamente, comprimindo o ar ao redor.

    — EU AINDA NÃO CAÍ.

    A armadura rachada brilhou.

    Mesmo danificada, ainda carregava o orgulho de um cavaleiro de alto nível.

    E então ele avançou.

    Não foi um simples ataque.

    Foi tudo.

    Velocidade máxima.
    Força total.
    Sem reservas.

    O chão explodiu sob seus pés.

    A lâmina cortou o ar em dezenas de trajetórias quase invisíveis.

    Um corte horizontal.

    Outro vertical.

    Estocadas rápidas mirando garganta, coração, joelhos.

    Era uma tempestade de aço.

    Mas a entidade…

    Suspirou.

    E deu um passo para o lado.

    Um corte passou.

    Ela inclinou o corpo.

    Outro errou por milímetros.

    Ela girou levemente.

    A espada raspou apenas a aura.

    Albrecht aumentou a velocidade.

    Gritou.

    Desferiu um golpe descendente capaz de dividir o chão ao meio—

    A entidade simplesmente deu meio passo para trás.

    A lâmina cravou na arena.

    Falhou.

    Ela bocejou.

    — Que previsível.

    Albrecht girou o corpo para um ataque de retorno.

    A entidade inclinou o pescoço para o lado, deixando a lâmina passar a centímetros do rosto.

    E começou a falar.

    Como se estivesse contando uma história.

    — Primeiro… vou quebrar este torneio.

    Ela se moveu para trás com um deslize leve, desviando de outra sequência de ataques.

    — Depois… as cidades ao redor.

    Um giro.

    Outro corte falhou.

    — Os reinos.

    Ela passou por dentro da guarda dele, sem tocar na espada.

    — As muralhas.

    Albrecht tentou um soco com a mão livre.

    Ela segurou o punho dele com dois dedos.

    Sem esforço.

    — Os heróis.

    Ela soltou.

    O empurrou para trás com um toque.

    — E por último…

    A aura vermelho-negra começou a pulsar mais forte.

    — O próprio conceito de ordem.

    Albrecht rugiu e liberou uma explosão de energia para afastá-la.

    A onda de choque varreu o chão.

    Mas quando a poeira baixou…

    Ela estava atrás dele.

    — Você é determinado.

    Ela inclinou o rosto perto do ouvido dele.

    — Eu gosto disso.

    Albrecht girou instintivamente com a espada—

    Mas ela já não estava mais lá.

    A entidade reapareceu alguns metros à frente, andando de costas, sorrindo.

    — Continue.

    Ela abriu os braços.

    — Me entretenha enquanto ainda pode.

    E pela primeira vez na vida…

    Albrecht Eisenwald parecia pequeno.

    Não porque fosse fraco.

    Mas porque estava lutando contra algo…

    Que nem sequer estava tentando.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota