Capítulo 128: Coisas que não mudam
Naquele dia, ele percebeu que já havia cometido erros demais para voltar atrás, viveria e morreria sozinho, provavelmente caído numa vala ou assassinado por um ladrão que cobiçasse seus pertences.
O Bibliotecário
— AAAAAAAAAAAA…
BAM
Quando o objeto que estava voando atingiu a carroça carregada de feno, tudo foi atirado pelos ares, espalhando a comida dos equinos para todos os lados.
— O que você está fazendo, Li? — perguntou a mulher de cabelos azuis, olhando-o caído. — Está querendo virar um cavalo?
— ARRRRF
Levantando-se do monte de feno, ele finalmente conseguiu respirar.
— Você realmente é ruim nisso, não é mesmo?
— A senhorita fala como se fosse fácil!
Arqueando a sobrancelha, ela disse:
— Mas é fácil — estendendo a superfície das mãos para frente, ela levantou seus dedos e com eles fez um movimento circular, subitamente do ar uma linha de água se formou, seguindo a movimentação e percorrendo seus dedos sem tocá-los. — Viu?
— Pode me explicar mais uma vez, Lorena?
— Por que precisa que eu lhe explique de novo, Li? — retrucou. — Sabe muito bem que consegue falar minha explicação de trás para frente se quiser, até mesmo o manuscrito inteiro.
— Eu sei… mas pode ser que, se eu ouvir de novo, entenda alguma coisa diferente.
— Certo… pois bem… deixe-me tentar algo diferente… venha cá — disse ela, estendendo a mão.
Li a segurou e levantou-se do monte de feno.
— Agora sente-se.
— Onde?
— No chão mesmo, junte suas pernas e feche os olhos.
Mesmo estranhando, ele o fez, fechou os olhos e focou apenas na voz da mulher.
— Alguma vez já mergulhou embaixo da água, Jihan?
— Não…
— Certo, vou precisar que faça isso uma vez para entender o que estou prestes a explicar.
— Mas como vou fazer isso, senhorita… — Enquanto falava, abriu os olhos por instinto e foi interrompido por um tsunami de água que o atingiu com tudo.
Li tentou balançar os braços para sair por alguma direção, mas a água parecia o puxar para o seu centro.
— Pare de lutar contra a corrente, Jihan.
Ouvindo a voz de Lorena, ele se acalmou e prestou atenção na situação. A água havia se estabilizado no ar, sem encostar no chão, Li flutuava num quadrado como uma piscina flutuante.
— Agora, prenda a respiração e mergulhe.
Juntando ar em seus pulmões, afundou para o centro do bloco.
— Abra os olhos.
Relutantemente, ele abriu. A água, translúcida, curvava as ondas de luz, tudo que Jihan conseguia ver era o azul brilhante em contato com o sol.
— Balance os braços ao seu redor, Li.
Com facilidade, ele o fez, a água percorria os dedos de sua mão e a sua pele.
— Viu? Você consegue sentir tudo ao seu redor, está tocando seu corpo e retirando dele o calor, você consegue sentir isso acontecendo e consegue também ver a água… agora feche os olhos novamente.
Ele o fez.
— Mesmo sem vê-la, você ainda consegue sentir em seu corpo, as mesmas sensações, sem mudanças.
SNAP
Num estalar de dedos, a piscina flutuante caiu no chão, junto com o homem que estirou-se no solo. Lorena aproximou-se, olhando de cima.
— Agora, feche os olhos de novo.
Li o fez sem questionar.
— O Prana ao seu redor é como a água que tocava seu corpo, a diferença é que você não consegue vê-la ou senti-la da forma que sentia a água… mas está aí… está em todo lugar.
Depois de iniciar um treinamento árduo com Lorena, Li teve que recomeçar do zero seu entendimento sobre a energia do mundo. A primeira ordem da mulher foi esquecer tudo que ele havia aprendido, ele foi proibido de aplicar seu conhecimento sobre mana durante o treinamento.
Respirando fundo, tentou imaginar a Prana como a água.
— A Prana responde à sua Intentio, canalize sua vontade e faça-a dobrar de joelhos, coloque a maior quantidade de Intensio possível.
Em meio ao ar, acima do peito de Li, uma pequena esfera de água começou a se formar.
— Estou sentindo algo…
— Continue assim…
— No meu peito…
— Arrrr
Subitamente, uma criatura saltou para fora do peito de Jihan, como se nele houvesse um portal, e engoliu a esfera de água, lambendo ao redor de sua boca com uma língua que parecia de lagarto.
Lorena levou a mão ao rosto.
— De novo… achei que havia pedido para deixar essa coisa em casa.
— Desculpa… eu não consigo controlá-la — disse Li. — Mas, senhorita, Lorena, achei que de todas as pessoas você fosse a que mais se interessaria nela, já faz um mês e você nem pediu para encostar…
— Jihan, veja bem, eu tenho afinidade com espíritos. Dragões não são espíritos e são criaturas extremamente orgulhosas e egoístas.
— Waaaa — respondeu a criatura.
— Não fale assim dela.
— O que?
— Não falei com você, falei com ela.
— Você… consegue entender isso?
— Hm… não, claro que não.
Lorena respirou profundamente para não chutar a cabeça do homem aos seus pés.
— De qualquer forma, ela já te deu muitos problemas, por isso você esteve proibido de sair do meu lado no último mês.
— Eu sei, por que fazer isso por uma coisinha dessas? — disse ele, acariciando a criatura.
— Uma coisinha… sabe, não é da sua época, mas dragões adultos já devastaram reinos inteiros sozinhos, o único motivo dessa coisa ainda estar viva é que ela tem, por alguma razão, a habilidade de se esconder dentro de você…
— Baaaa
— Bem, pelo menos assim ela é fofa, já deu um nome?
— Ainda não sei… para ser sincero, não sei como ela nasceu…
Após o acontecimento no banquete, Li não teve tempo privado com o primogênito e a princesa, então não sabia se eles haviam contado a verdade ao Imperador ou não, dessa forma era melhor manter o silêncio até que soubesse.
“Eles haviam me dito que só era possível chocar o ovo com sangue de dragão… a única forma que consigo pensar é…”
— Senhorita Lorena!
Um homem de cabelos médios e estatura média, e cabelos e pele morena, se aproximou, chamando a Tenente.
— Oh, Malik, precisa de algo?
— Não, senhora, o líder de equipe me pediu para lhe passar uma mensagem, o Líder de Equipe Li Jihan está livre para andar enquanto supervisionado por alguém de patente maior.
— Ah… achei que era uma boa noticia…
— Hm? Você não ficou sabendo? — perguntou Lorena.
— De que?
— Não é de se espantar, visto tudo que aconteceu após o banquete… por causa disso, mal tivemos tempo hábil para seu treinamento… — sussurrou enquanto reclamava. — De qualquer forma, Matheus foi promovido recentemente.
— Promovido!?
— Sim, ele agora é um Tenente!
— Quer dizer que…
— Sim, pode ir ver seus amigos, mas lembre-se de se apresentar aqui amanhã no mesmo horário e não se esqueça de treinar sozinho, sinto que tivemos um ótimo avanço hoje!
Li rapidamente levantou-se do chão e bateu continência.
— Sim, senhora!
Antes que pudesse sair, no entanto, Lorena lembrou-se de avisar.
— Jihan
— Senhorita?
— Essa coisa… — apontou para o dragão. — Eu confio que você não vá deixá-la fazer mal a ninguém… mas não se esqueça… se ela cair em mãos erradas, será uma catástrofe para a humanidade, sabe disso, não é?
Li abaixou a cabeça, olhando para a criatura.
— Sim, senhorita.
— Bom, você pode ir, Malik, acompanhe-o até os quartéis antigos.
— Sim, senhora!
Enquanto corriam, Li sorria sem parar.
— Finalmente!
Voltamos.

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