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    Naquele dia, ele percebeu que já havia cometido erros demais para voltar atrás, viveria e morreria sozinho, provavelmente caído numa vala ou assassinado por um ladrão que cobiçasse seus pertences. 

    O Bibliotecário 

    AAAAAAAAAAAA… 

    BAM 

    Quando o objeto que estava voando atingiu a carroça carregada de feno, tudo foi atirado pelos ares, espalhando a comida dos equinos para todos os lados. 

    — O que você está fazendo, Li? — perguntou a mulher de cabelos azuis, olhando-o caído. — Está querendo virar um cavalo? 

    ARRRRF 

    Levantando-se do monte de feno, ele finalmente conseguiu respirar. 

    — Você realmente é ruim nisso, não é mesmo? 

    — A senhorita fala como se fosse fácil! 

    Arqueando a sobrancelha, ela disse: 

    — Mas é fácil — estendendo a superfície das mãos para frente, ela levantou seus dedos e com eles fez um movimento circular, subitamente do ar uma linha de água se formou, seguindo a movimentação e percorrendo seus dedos sem tocá-los.  — Viu? 

    — Pode me explicar mais uma vez, Lorena?  

    — Por que precisa que eu lhe explique de novo, Li? — retrucou. — Sabe muito bem que consegue falar minha explicação de trás para frente se quiser, até mesmo o manuscrito inteiro. 

    — Eu sei… mas pode ser que, se eu ouvir de novo, entenda alguma coisa diferente. 

    — Certo… pois bem… deixe-me tentar algo diferente… venha cá — disse ela, estendendo a mão. 

    Li a segurou e levantou-se do monte de feno. 

    — Agora sente-se. 

    — Onde? 

    — No chão mesmo, junte suas pernas e feche os olhos. 

    Mesmo estranhando, ele o fez, fechou os olhos e focou apenas na voz da mulher. 

    — Alguma vez já mergulhou embaixo da água, Jihan? 

    — Não… 

    — Certo, vou precisar que faça isso uma vez para entender o que estou prestes a explicar. 

    — Mas como vou fazer isso, senhorita… — Enquanto falava, abriu os olhos por instinto e foi interrompido por um tsunami de água que o atingiu com tudo.  

    Li tentou balançar os braços para sair por alguma direção, mas a água parecia o puxar para o seu centro. 

    — Pare de lutar contra a corrente, Jihan. 

    Ouvindo a voz de Lorena, ele se acalmou e prestou atenção na situação. A água havia se estabilizado no ar, sem encostar no chão, Li flutuava num quadrado como uma piscina flutuante. 

    — Agora, prenda a respiração e mergulhe. 

    Juntando ar em seus pulmões, afundou para o centro do bloco.  

    — Abra os olhos. 

    Relutantemente, ele abriu. A água, translúcida, curvava as ondas de luz, tudo que Jihan conseguia ver era o azul brilhante em contato com o sol. 

    — Balance os braços ao seu redor, Li. 

    Com facilidade, ele o fez, a água percorria os dedos de sua mão e a sua pele. 

    — Viu? Você consegue sentir tudo ao seu redor, está tocando seu corpo e retirando dele o calor, você consegue sentir isso acontecendo e consegue também ver a água… agora feche os olhos novamente.  

    Ele o fez. 

    — Mesmo sem vê-la, você ainda consegue sentir em seu corpo, as mesmas sensações, sem mudanças. 

    SNAP 

    Num estalar de dedos, a piscina flutuante caiu no chão, junto com o homem que estirou-se no solo. Lorena aproximou-se, olhando de cima. 

    — Agora, feche os olhos de novo. 

    Li o fez sem questionar. 

    — O Prana ao seu redor é como a água que tocava seu corpo, a diferença é que você não consegue vê-la ou senti-la da forma que sentia a água… mas está aí… está em todo lugar. 

    Depois de iniciar um treinamento árduo com Lorena, Li teve que recomeçar do zero seu entendimento sobre a energia do mundo. A primeira ordem da mulher foi esquecer tudo que ele havia aprendido, ele foi proibido de aplicar seu conhecimento sobre mana durante o treinamento. 

    Respirando fundo, tentou imaginar a Prana como a água. 

    — A Prana responde à sua Intentio, canalize sua vontade e faça-a dobrar de joelhos, coloque a maior quantidade de Intensio possível.  

    Em meio ao ar, acima do peito de Li, uma pequena esfera de água começou a se formar. 

    — Estou sentindo algo… 

    — Continue assim… 

    — No meu peito… 

    Arrrr 

    Subitamente, uma criatura saltou para fora do peito de Jihan, como se nele houvesse um portal, e engoliu a esfera de água, lambendo ao redor de sua boca com uma língua que parecia de lagarto. 

    Lorena levou a mão ao rosto. 

    — De novo… achei que havia pedido para deixar essa coisa em casa. 

    — Desculpa… eu não consigo controlá-la — disse Li. — Mas, senhorita, Lorena, achei que de todas as pessoas você fosse a que mais se interessaria nela, já faz um mês e você nem pediu para encostar… 

    — Jihan, veja bem, eu tenho afinidade com espíritos. Dragões não são espíritos e são criaturas extremamente orgulhosas e egoístas. 

    Waaaa — respondeu a criatura. 

    — Não fale assim dela. 

    — O que? 

    — Não falei com você, falei com ela. 

    — Você… consegue entender isso? 

    — Hm… não, claro que não. 

    Lorena respirou profundamente para não chutar a cabeça do homem aos seus pés.  

    — De qualquer forma, ela já te deu muitos problemas, por isso você esteve proibido de sair do meu lado no último mês. 

    — Eu sei, por que fazer isso por uma coisinha dessas? — disse ele, acariciando a criatura. 

    — Uma coisinha… sabe, não é da sua época, mas dragões adultos já devastaram reinos inteiros sozinhos, o único motivo dessa coisa ainda estar viva é que ela tem, por alguma razão, a habilidade de se esconder dentro de você… 

    Baaaa 

    — Bem, pelo menos assim ela é fofa, já deu um nome? 

    — Ainda não sei… para ser sincero, não sei como ela nasceu… 

    Após o acontecimento no banquete, Li não teve tempo privado com o primogênito e a princesa, então não sabia se eles haviam contado a verdade ao Imperador ou não, dessa forma era melhor manter o silêncio até que soubesse. 

    “Eles haviam me dito que só era possível chocar o ovo com sangue de dragão… a única forma que consigo pensar é…”  

    — Senhorita Lorena!  

    Um homem de cabelos médios e estatura média, e cabelos e pele morena, se aproximou, chamando a Tenente. 

    — Oh, Malik, precisa de algo? 

    — Não, senhora, o líder de equipe me pediu para lhe passar uma mensagem, o Líder de Equipe Li Jihan está livre para andar enquanto supervisionado por alguém de patente maior.  

    — Ah… achei que era uma boa noticia…  

    — Hm? Você não ficou sabendo? — perguntou Lorena. 

    — De que? 

    — Não é de se espantar, visto tudo que aconteceu após o banquete… por causa disso, mal tivemos tempo hábil para seu treinamento… — sussurrou enquanto reclamava. — De qualquer forma, Matheus foi promovido recentemente. 

    — Promovido!? 

    — Sim, ele agora é um Tenente! 

    — Quer dizer que… 

    — Sim, pode ir ver seus amigos, mas lembre-se de se apresentar aqui amanhã no mesmo horário e não se esqueça de treinar sozinho, sinto que tivemos um ótimo avanço hoje! 

    Li rapidamente levantou-se do chão e bateu continência.  

    — Sim, senhora! 

    Antes que pudesse sair, no entanto, Lorena lembrou-se de avisar. 

    — Jihan 

    — Senhorita? 

    — Essa coisa… — apontou para o dragão. — Eu confio que você não vá deixá-la fazer mal a ninguém… mas não se esqueça… se ela cair em mãos erradas, será uma catástrofe para a humanidade, sabe disso, não é? 

    Li abaixou a cabeça, olhando para a criatura. 

    — Sim, senhorita. 

    — Bom, você pode ir, Malik, acompanhe-o até os quartéis antigos.  

    — Sim, senhora! 

    Enquanto corriam, Li sorria sem parar. 

    — Finalmente!  


    Voltamos. 

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