Índice de Capítulo

    Uma chuva fina caía sobre a avenida larga. A água descia pelas fachadas de vidro sujo e pelos letreiros neon que piscavam em roxo, azul e rosa.

    Shimizu caminhava no meio do fluxo de gente.

    O moletom cinza de capuz escondia parte do rosto. O tecido largo caía sobre os ombros estreitos e escondia as placas finas de cromo nos antebraços. As mangas estavam puxadas até metade. Linhas finas percorriam seus braços e demarcavam os implantes.

    Ela segurava contra o peito uma sacola de mercado.

    Sob o capuz aparecia seu cabelo curto, preto e irregular, com mechas rebeldes que tocavam o maxilar. O semblante jovem contrastava com os olhos escuros, que observavam tudo, sempre atentos.

    Ao lado dela flutuava um robô.

    O drone tinha forma de esfera metálica do tamanho de uma bola de futebol. A carcaça branca e preta era segmentada em placas lisas e possuía orelhas de gato. No centro havia um único sensor circular que brilhava em violeta.

    Pequenos estabilizadores laterais pulsavam com luz roxa enquanto girava devagar no ar.

    Bli-fip! — Deu uma pequena volta ao redor dela.

    Shimizu sorriu de canto.

    — Calma, Maru. Eu também estou ansiosa.

    Continuaram caminhando.

    Gangues ocupavam as esquinas. Jaquetas de couro com LEDs quebrados, braços cibernéticos baratos e olhos artificiais piscando em tons doentios.

    Um grupo encarou Shimizu quando ela passou.

    Mais adiante, um mendigo sentado na sarjeta se masturbava sem vergonha alguma. O rosto sujo estava voltado para um outdoor holográfico de uma idol digital.

    Shimizu desviou o olhar e torceu a boca em repulsa.

    Eles continuaram.

    A chuva engrossou.

    Um carro negro passou pela avenida em velocidade absurda.

    SPLASH!

    Uma parede de água atingiu Shimizu.

    O moletom ficou encharcado.

    Maru soltou um ruído furioso.

    BEEP-GRRRRR! — O sensor violeta piscou rápido enquanto o drone girava agressivamente.

    Shimizu limpou o rosto com a manga.

    — Que cuzão.

    Maru disparou na direção do carro.

    Shimizu levantou a mão e agarrou a carcaça metálica dele antes que se afastasse.

    — Ei. Calma.

    O drone vibrou irritado.

    — Olha lá. — Apontou para frente.

    O carro havia parado.

    Um veículo voador pairava acima dele.

    Negro. Angular. A inscrição prateada refletia as luzes da cidade:

    KINGSGUARD

    Um feixe vermelho desceu da aeronave e um raio trator prendeu o carro ao chão. Um círculo escarlate se projetou no asfalto molhado ao redor do veículo.

    — Saia do veículo com as mãos para cima. — A voz era amplificada por um implante de alto falante que pintava o pescoço do policial de vermelho.

    A porta do carro abriu com violência.

    Um homem colocou a cabeça para fora da janela.

    No lugar dos olhos havia um visor eletrônico cromado que cobria metade do rosto. Cabelos vermelhos espetados se erguiam em todas as direções.

    Ele levantou o dedo do meio para o céu.

    — Vão se fuder!

    A escotilha da aeronave abriu.

    Um policial caiu do ar e o impacto fez a água da rua espirrar.

    O homem tinha quase dois metros de altura. A armadura negra da Kingsguard cobria o corpo inteiro. Placas pesadas, com ombreiras grossas e símbolos reais gravados no peito.

    Ele ergueu uma pistola enorme.

    Shimizu imaginou que o cano era do tamanho da própria cabeça.

    — Em nome de Vossa Majestade Edwin Purple, você está preso. — A voz saiu grave do modulador do capacete.

    O criminoso saiu do carro e levantou dois dedos na direção do policial.

    — Manda esse arrombado chupar minha benga…

    THWOOM!

    O disparo de plasma azul iluminou a rua.

    A cabeça do homem explodiu, e um círculo de sangue, restos e implantes voaram para todos os lados.

    O tiro atravessou o torso, atingiu o carro e o veículo se desfez numa explosão.

    Bli-fip! — Maru soltou um ruído alegre.

    Tsk. — Shimizu estalou a língua enquanto virava o rosto. — Vamos embora.

    Enfiou as mãos nos bolsos do moletom e voltou a caminhar.

    O drone a acompanhou.

    — Esse lugar aqui é podre.


    A porta do apartamento deslizou para o lado com um rangido metálico curto e se fechou atrás dela com um estalo pesado, isolando o barulho distante da cidade.

    O lugar ficava alto, dezenas de andares acima das ruas, e a parede frontal era ocupada por uma janela panorâmica que revelava Aethelgard, a capital de Fiordes, espalhada abaixo.

    Arranha-céus cobertos de anúncios luminosos surgiam entre camadas de plataformas elevadas e vias aéreas, enquanto carros voadores riscavam o céu chuvoso como insetos brilhantes.

    Dentro do apartamento, a iluminação era baixa e fria. A sala tinha poucos móveis, um sofá de couro escuro baixo, uma mesa metálica simples e uma estação de trabalho dominada por cinco telas suspensas.

    À direita, uma bancada alta separava a pequena cozinha do resto da sala. Tudo lembrava um abrigo urbano funcional bem organizado.

    Maru entrou logo atrás dela e começou a se sacudir no ar. A pequena esfera metálica vibrou e espalhou gotas de chuva pelo carpete enquanto os estabilizadores laterais piscavam em violeta.

    Shimizu parou no meio da sala, observou a água respingada pelo chão e suspirou com cansaço.

    — Você podia ter se secado na porta da síndica chata… mas fez isso no meu carpete novo?

    O drone baixou alguns centímetros e respondeu com um ruído triste.

    Beep… mew…

    Shimizu soltou um riso curto e caminhou até a bancada que dividia a cozinha da sala.

    Colocou a sacola de mercado sobre o tampo e passou as mãos pelo moletom molhado, puxando a peça pela gola. O tecido pesado deslizou pelos ombros e caiu nos braços dela, revelando a pele clara marcada por linhas discretas de implantes sob a superfície.

    Os ombros estreitos escondiam uma musculatura firme, moldada por treino constante e anos de combate. Placas cibernéticas delicadas apareciam nos antebraços, integradas à pele.

    Os seios de Shimizu eram firmes e naturais, proporcionais ao corpo atlético que carregava. Não eram exageradamente grandes, mas cheios o bastante para formar um contorno suave e marcado sobre o peito, com uma curva definida que se erguia acima da musculatura discreta do torso.

    A pele clara tinha um brilho suave sob a luz do apartamento, e a linha das clavículas conduzia o olhar até o centro do peito, onde o volume se distribuía de forma harmoniosa sobre a caixa torácica estreita.

    O abdômen tinha definição enxuta e firme, típico de quem vive em movimento, e algumas marcas antigas cruzavam a lateral do torso como lembranças de lutas passadas.

    Ela não usava nada por baixo do moletom.

    — Maru, bota minha roupa pra lavar.

    O moletom foi lançado para o alto. Maru abriu pequenos braços mecânicos na lateral da carcaça e pegou a peça no ar com um som feliz.

    Bli!

    Shimizu abriu o botão da calça e deixou o tecido escorregar pelas pernas. A peça caiu no chão e ela a chutou para cima na direção do drone. Maru girou no ar e capturou a calça com outro bip animado.

    Fip!

    Agora ela estava apenas de calcinha roxa, simples e confortável. Pegou um pequeno controle sobre a bancada e apertou um botão. O ar-condicionado no alto da parede ligou e começou a soprar ar quente pelo apartamento.

    — Coloca isso para lavar e depois eu te coloco pra carregar.

    Maru rodopiou no ar em pura animação e disparou pelo corredor em direção à lavanderia.

    Shimizu caminhou até a mesa de trabalho e se jogou na cadeira preta de encosto alto. Era robusta, com laterais envolventes, apoio de cabeça e costuras roxas que acompanhavam o couro sintético. O mecanismo hidráulico chiou levemente quando ela se inclinou para trás e apoiou os pés sobre a mesa.

    As cinco telas diante dela acenderam ao mesmo tempo, iluminando a sala com tons frios. Um teclado holográfico rosa apareceu sobre as suas ópticas e ela começou a digitar enquanto as notícias se abriam nas telas. As manchetes passavam rápido enquanto ela rolava a lista.

    Monstro lodacento é derrotado por herói faxineiro em Lumiére.

    Ela ignorou.

    Teorias sobre a identidade do Radiante.

    Rolou novamente.

    Então, seus olhos pararam em uma nova manchete.

    — Puta merda, Maru! — Inclinou-se para frente na cadeira. — Vão atrasar o filme do Ômega!

    Da lavanderia veio um grito eletrônico desesperado.

    BEEP!?

    Segundos depois, Maru surgiu voando pelo corredor em velocidade máxima, carregando uma camisa amarela presa nos braços mecânicos. O drone lançou a peça para ela e Shimizu pegou no ar com naturalidade.

    — Obrigada.

    Ela vestiu a camisa. Na estampa das costas havia um herói de armadura branca com um símbolo vermelho no peito, e acima da figura estava escrito em letras grandes RADIANTE.

    Shimizu voltou os olhos para as telas e balançou a cabeça com indignação.

    — Sério, Maru… eu não acredito. Já é a terceira vez. Eu preciso saber se o Ômega vai conseguir salvar a Mulher Poderosa da Liga Lagarto.

    Levantou-se da cadeira e caminhou até a bancada, abriu a sacola de mercado e pegou um copo com canudo. Tomou um gole longo enquanto observava a cidade pela janela.

    — Maru, pode ir carregar.

    O drone rodopiou feliz e voou até o terminal de energia ao lado das telas. Um pequeno cabo saiu da parede e se conectou à base da esfera com um clique suave.

    Shimizu voltou para a cadeira e se acomodou novamente. Quando as telas reorganizaram os dados, um ícone piscava no canto superior.

    Nova mensagem.

    Ela abriu.

    A tela mostrou apenas duas linhas curtas: Agente 432. Nova missão.

    Shimizu sorriu sozinha.

    — Bem na hora que os claudinhos estavam acabando.


    A chuva fina varria o topo do megaprédio enquanto o vento forte puxava o tecido negro do casaco tático de Shimizu.

    A cidade se espalhava abaixo como um oceano de luzes, avenidas suspensas e torres impossivelmente altas.

    Não muito longe dali erguia-se a mega torre da corporação Purple, uma estrutura colossal de aço negro e vidro reflexivo que subia quilômetros em direção às nuvens. A base ocupava quarteirões inteiros e o topo desaparecia na neblina luminosa da cidade.

    Anéis de plataformas de segurança giravam lentamente ao redor da torre, drones patrulhavam o ar e enormes logotipos holográficos da corporação pairavam como coroas de neon sobre a estrutura.

    Shimizu estava sentada na borda do telhado, vestindo um traje tático negro e roxo ajustado ao corpo, feito de material flexível reforçado com placas cibernéticas finas que protegiam pontos vitais sem limitar seus movimentos. Ao lado dela, Maru flutuava devagar.

    — Eu sei que é arriscado… mas são duzentos e cinquenta mil claudinhos. Você sabe o que dá pra fazer com essa grana toda?

    Maru respondeu com uma sequência nervosa de sons.

    Bip-bip-bip-VREEE!

    Shimizu apontou para a mega torre.

    — Com duzentos e cinquenta mil nós conseguimos ir pra Lua! Não que eu vá querer ir pra lá… mas é muita grana pelo que nós temos que fazer.

    Maru girou lentamente.

    Beep-? Bop-whirr?

    Shimizu ergueu um pequeno chip cromado entre os dedos.

    — Eu só preciso entrar ali e instalar isso. Parece que ele vai baixar um arquivo que eu tenho que entregar pros velhotes.

    Maru começou a emitir alarmes preocupados.

    Biiip-Booo-Biiip-Booo!

    Shimizu bufou.

    — Nos metendo em furada? Vai ser moleza, é só entrar na torre da corporação do rei sem ser percebida e acessar um terminal de controle. Não preciso matar ninguém.

    Maru respondeu com uma sequência mais longa e desconfiada.

    Bip-bi-bi-bi-bi…

    Shimizu virou o capacete para ele.

    — O quê? Você vai realmente começar a falar das minhas ex-namoradas? Escuta aqui, Maru… não vai acontecer nada de errado. Ninguém vai nos descobrir…

    BOOOOM!

    A explosão interrompeu a frase.

    O impacto arremessou Shimizu pelo telhado molhado. Faíscas e fragmentos de metal saltaram pelo ar. Maru soltou um bip agitado de medo e girou violentamente para estabilizar o voo.

    Do outro lado do telhado, uma estrutura de vidro havia sido atravessada por alguém que descia rapidamente do céu.

    A figura pousou com um deslize agressivo.

    Era uma mulher vestindo armadura tática preta e amarela, placas rígidas nos braços e nas pernas, cinturões carregados de equipamentos e dois revólveres cromados nas mãos.

    Um manto tecnológico negro tremulava atrás dela e propulsores verdes nos pés ainda soltavam calor. O cabelo escuro preso em um rabo de cavalo alto chicoteava no vento e os olhos estreitos observavam Shimizu.

    Ela abriu fogo. Os disparos iluminaram o telhado.

    Shimizu rolou para o lado.

    — Maru!

    O drone girou no ar e suas placas se reorganizaram com um som mecânico rápido. Em segundos a esfera se transformou em uma submetralhadora roxa com pequenas orelhas de gato decorativas. Shimizu a pegou no ar e respondeu ao ataque com uma rajada.

    A mulher de amarelo desviava com facilidade. Os propulsores nos pés a permitiam mudar de direção rapidamente.

    As duas pararam frente a frente a poucos metros de distância.

    Shimizu apontou a arma.

    — Quem é você?

    A mulher manteve os revólveres erguidos.

    — Você é a Agente 432?

    Shimizu inclinou levemente a cabeça.

    — Acho que você se confundiu.

    A mulher girou um dos revólveres com habilidade.

    — Me chame de Sawatari.

    Shimizu manteve a arma levantada enquanto discretamente levava a mão para trás do corpo, preparando uma granada de fumaça.

    — Então… Sawatari. Já que eu não sou quem você procura, nós duas poderíamos…

    A granada caiu no chão.

    PSHHHHH!

    Uma nuvem de fumaça cinza se espalhou pelo telhado.

    As solas das botas de Shimizu revelaram pequenas rodas e ela disparou em um deslize rápido em direção às janelas do prédio.

    Sawatari reagiu instantaneamente.

    Um único tiro.

    O disparo atingiu a base da janela antes que Shimizu alcançasse a borda.

    O vidro explodiu.

    Shimizu perdeu o equilíbrio e caiu para dentro do prédio.

    Ela atravessou a vidraça e rolou pelo chão de uma sala branca luxuosa, cheia de móveis caros, sofás modernos e um bar iluminado. Civis gritaram e começaram a correr em pânico.

    Shimizu tentou se levantar.

    O corpo protestou.

    Sawatari caiu logo depois. Os propulsores nos pés amorteceram o impacto e ela já aterrissou com os dois revólveres apontados.

    Disparos ecoaram pela sala.

    Shimizu girou no chão e se arrastou até se esconder atrás do balcão do bar.

    — É um jeito bem ruim de começar o primeiro encontro.

    Sawatari se aproximava lentamente.

    — Você costuma ter primeiros encontros ruins?

    Shimizu pressionou a mão contra a costela e soltou um gemido baixo.

    — Só quando são muito malucas. — Em seguida, falou baixo para o droide. — Maru… calcule as rotas de fuga enquanto eu distraio ela.

    O drone emitiu um bip curto de confirmação.

    Shimizu ergueu a voz.

    — Quem é o seu chefe e como ele sabia de mim?

    Sawatari continuou se aproximando.

    — Eu jurei proteger as pessoas de gente como você.

    Shimizu franziu a testa.

    — E tu acha que ajudando os corpes você está ajudando elas?

    Sawatari respondeu fria.

    — Terroristas como você são uma ameaça à ordem.

    Ela estava perto demais do balcão.

    Shimizu murmurou.

    — Maru… tá quase lá?

    Nenhuma resposta.

    O drone estava ocupado analisando saídas.

    Shimizu pensou rápido.

    Ela puxou uma granada flash do cinturão e arremessou para cima.

    Sawatari reagiu instantaneamente.

    BANG!

    O tiro atingiu a granada no ar.

    A explosão de luz branca cegou tudo por um instante.

    Shimizu saltou do balcão e voltou a deslizar pelo chão usando as rodas das botas.

    Na mesma hora Maru bipou. Saída encontrada.

    Sawatari recuperou parcialmente as ópticas e disparou novamente.

    O tiro errou Shimizu, mas acertou um lustre gigantesco preso ao teto.

    A estrutura se soltou e caiu diretamente na direção de uma criança que chorava no meio da sala.

    Sawatari correu, mas não chegaria a tempo.

    Shimizu mudou de direção, e colocou na frente da criança e a empurrou para longe.

    O lustre caiu.

    CRACK.

    Quando Sawatari finalmente recuperou a visão completamente, ela estava ajoelhada no meio do salão destruído.

    Civis fugiam.

    O lustre quebrado ocupava o chão, mas Shimizu havia desaparecido.

    Sawatari sentou lentamente em um sofá e balançou a cabeça.

    — Que mulher estranha.


    A porta do apartamento deslizou para o lado com um rangido cansado e Shimizu entrou com a mão apoiada na lateral do corpo. A cada passo o impacto reverberava nas costelas, e ela precisou de apoio na parede antes de alcançar o quarto.

    A cidade ainda brilhava do lado de fora da grande janela, mas ela mal olhou para a paisagem. Caminhou direto até a cama e simplesmente se deixou cair sobre o colchão com um suspiro pesado. Maru veio logo atrás, em giros rápidos no ar ao redor dela, com bips curtos e nervosos.

    Bli-bip! Bip! Bliii-bip!

    Shimizu fechou os olhos por um instante e levantou a mão em um gesto fraco.

    — Eu vou ficar bem.

    O drone continuou circulando inquieta.

    Bip-bip? Breep… breep…

    Ela abriu os olhos e se sentou devagar na cama, pressionando a lateral do corpo onde o lustre havia acertado.

    — Como será que ela me achou?

    Maru pairou diante dela e emitiu uma sequência insistente de sons eletrônicos, quase como um sermão digital.

    Bip-bip-bip! Bli-breep! Bop-bip-bip!

    Shimizu fez uma careta.

    — Avisar a agência? — Balançou a cabeça em negação. — Maru, se eu fizer isso, vou ficar meses sem receber um trabalho. E aí vou ter que voltar pras Riders…

    Ela suspirou, olhando para o teto.

    — E eu não quero voltar pra um lugar onde minha ex está.

    Maru emitiu um misto de bipados agudos, a esfera inclinou-se no ar como se encarasse Shimizu com reprovação.

    Biiiip!? Bli-bli-bli-bli!?

    Shimizu soltou um riso curto, mesmo com dor.

    — Não é que a minha vida vale menos do que reencontrar minha ex… é o que isso representa.

    Ela respirou fundo, fez força e se levantou da cama com dificuldade. O corpo protestou, mas ela ignorou. Caminhou até Maru e passou a mão sobre a carcaça metálica do drone, os dedos deslizaram pela superfície fria.

    — Estamos na série A, gatinha.

    Maru respondeu com um bip baixo e triste.

    Breep…

    Shimizu deu um pequeno sorriso.

    — Não vamos nunca mais baixar nosso nível. Meu número de agente é a prova de que estamos no topo.

    O drone continuou flutuando perto dela, ainda hesitante.

    Bip… bip?

    Shimizu ergueu uma sobrancelha.

    — Mas não se preocupa. — Ela se afastou um passo, os olhos agora mais vivos, já planejando alguma coisa. — Eu tenho um plano.


    A moto de Shimizu cortou a avenida elevada em um borrão negro. O veículo era baixo e largo, feito de placas angulares de metal escuro com detalhes em roxo profundo. Linhas de energia laranja percorriam o chassi como veias luminosas, com pulsos conforme o motor reagia à aceleração.

    A roda traseira era massiva, quase um disco sólido de propulsão, envolta por um aro brilhante que deixava rastros de luz no asfalto molhado. A dianteira era afiada e compacta, com faróis estreitos que lembravam olhos semicerrados e projetavam dois feixes agressivos pela estrada.

    O motor emitia um ronco grave e constante, mais parecido com a respiração de um predador do que com uma máquina.

    Shimizu pilotava inclinada sobre o tanque, o capacete roxo com orelhas metálicas refletia as luzes da cidade enquanto os prédios passavam como borrões luminosos ao redor.

    A megatorre da corporação Purple cresceu diante dela como uma montanha artificial, cercada por plataformas de defesa, postos avançados e estruturas de vigilância que orbitavam a base do prédio colossal.

    Quando se aproximou de uma estação avançada instalada em um dos anéis de segurança da torre, Shimizu tocou o painel da moto.

    — Piloto automático.

    O sistema assumiu o controle e a moto continuou acelerando, sozinha.

    Shimizu levantou-se sobre o assento em pleno movimento, equilibrando-se sobre o veículo como se estivesse em terra firme.

    — Se gruda em mim, Maru.

    Bliip!

    O drone se acoplou nas costas dela com um clique metálico.

    As luzes nos implantes das pernas de Shimizu se acenderam.

    Ela flexionou os joelhos.

    Saltou.

    O impulso cibernético lançou o corpo dela no ar. A borda do telhado do depósito passou perigosamente perto demais. Por um instante pareceu que ela não alcançaria.

    Os dedos agarraram a quina de concreto.

    Hngh… — Ela ficou pendurada um segundo antes de puxar o corpo para cima. — Se isso for a pior coisa que nos acontecer, Maru… Estamos com sorte.

    Biiip… — O drone respondeu em reprovação.

    Shimizu subiu no telhado, ativou as rodas retráteis das botas e começou a deslizar pelo concreto molhado até uma janela lateral do posto defensivo. No último instante ela saltou e atravessou o vidro com um impacto seco, caindo dentro da instalação.

    Levantou-se rapidamente.

    — Como conversamos, Maru. Você distrai eles enquanto eu entro no posto de controle e emito o alarme falso. A gente se encontra nos esgotos e de lá partimos pra torre.

    Bliip!

    Maru disparou pelo corredor.

    Minutos depois, o caos começou.

    — Ei! O que diabos é aquilo!?

    — Um drone?!

    Maru rolava pelo chão metálico do corredor soltando bips quase inocentes.

    Bli-bli-bli!

    Um guarda tentou agarrá-lo.

    O drone girou de repente e disparou um jato de óleo negro diretamente no chão.

    O soldado perdeu o equilíbrio.

    WOAH!

    Ele caiu de costas com um estrondo.

    — Pega essa lata velha!

    — Destrói essa merda!

    Maru saltou para cima de uma parede, disparou um pequeno choque elétrico e atingiu outro guarda.

    — BZZZT!

    AAAAAH!

    O homem sacudiu violentamente antes de cair sentado no chão.

    — Quem projetou essa porcaria!?

    — Atira nessa coisa!

    Maru rolou entre as pernas de dois guardas e liberou outro jato de óleo. Os dois escorregaram ao mesmo tempo e bateram um no outro.

    Bliip! Bli-bli!

    Enquanto isso, Shimizu avançava silenciosamente por outro corredor.

    O primeiro guarda nem teve tempo de reagir.

    Ela o puxou pela gola.

    — Boa noite.

    O golpe na nuca o apagou instantaneamente, ela o deixou cair no chão.

    Outro soldado virou a esquina e arregalou os olhos.

    — Ei! Quem…

    O joelho de Shimizu atingiu o estômago dele.

    Arf!

    Ela girou o corpo e o cotovelo encontrou o rosto.

    O homem caiu desacordado.

    Mais dois apareceram no corredor.

    — Pega essa puta!

    — Vagabunda do caralho!

    Shimizu abriu um sorriso torto.

    — Vocês realmente precisam melhorar essas cantadas.

    Ela chutou o primeiro no joelho, agarrou o segundo pelo braço e usou o próprio impulso dele para jogá-lo contra a parede.

    — Bons sonhos.

    Outro golpe, os apagando de vez.

    Ela caminhou pelo corredor passando pelos corpos inconscientes.

    — Honestamente… eu esperava segurança melhor.

    Mais dois guardas surgiram de uma porta lateral.

    — Ali!

    — Mata essa filha da puta…

    Shimizu deslizou por baixo da arma de um deles, acertou um soco no queixo e empurrou o outro contra o painel da parede.

    — Sem palavrão, meninos.

    O último golpe na nuca apagou o soldado.

    O corredor ficou quieto.

    Shimizu ajustou a luva, respirou fundo e empurrou a porta final.

    Ela entrou na sala de controle.


    Maru flutuava pelos corredores metálicos da estação como um pequeno fantasma luminoso. A esfera girava suavemente no ar enquanto o sensor central emitia pulsos violetas que escaneavam tudo ao redor.

    Cada parede, cada corredor, cada escada era mapeada e projetada em um diagrama tridimensional que crescia dentro do sistema do drone. Linhas azuis desenhavam a planta baixa do prédio enquanto ele voava entre cabos, luminárias e dutos de ventilação.

    Atrás dele, botas pesadas batiam no chão.

    — Pega essa lata velha!

    — Derruba essa porcaria!

    Maru soltou um som quase alegre.

    Bliip!

    Ele virou uma esquina e dois guardas surgiram correndo. Antes que pudessem agarrá-lo, pequenos bicos mecânicos se abriram na parte inferior da esfera.

    Um jato de óleo negro espirrou pelo chão.

    Os dois guardas pisaram na superfície lisa.

    WOAH!

    Os corpos deslizaram violentamente e bateram contra a parede.

    Maru desceu alguns centímetros e liberou um pulso elétrico curto.

    BZZZT!

    AAAH!

    Os dois soldados tremularam antes de desmaiar no chão.

    O drone girou satisfeito.

    Bli-bli-bli!

    No interior do sistema, o mapa do prédio já estava quase completo. Rotas de segurança, salas de vigilância, dutos técnicos e acessos restritos. Uma linha verde apareceu no visor interno de Maru indicando o caminho mais curto para o destino.

    Ela acelerou.

    Corredores ficaram para trás enquanto o drone passava por portas automáticas e sensores de movimento. Quando encontrava um obstáculo, pequenas antenas surgiam da carcaça e códigos digitais se infiltravam nos sistemas do prédio.

    Uma porta trancada.

    Breep.

    O painel piscou.

    A trava abriu.

    Maru passou voando.

    Mais adiante o corredor se abriu em uma área maior da torre, um espaço industrial onde pilares grossos sustentavam o teto alto e tubulações largas cruzavam o ambiente como raízes metálicas. O drone reduziu a velocidade enquanto se aproximava da última porta que levava ao acesso subterrâneo.

    Então a porta explodiu.

    BOOOM!

    A onda de impacto arremessou Maru pelo ar. A pequena esfera ricocheteou no chão e girou descontrolada antes de recuperar a estabilidade.

    Das chamas e da fumaça surgiu um homem enorme.

    Ele vestia um exoesqueleto militar pesado, uma armação de aço e pistões hidráulicos que ampliavam cada movimento do corpo. Cabos grossos corriam pelas costas da estrutura e placas blindadas protegiam peito, ombros e pernas. O capacete tinha um visor estreito vermelho que brilhava na penumbra.

    Na mão direita ele segurava um bastão elétrico que estalava com arcos de energia azul.

    — Alvo localizado.

    Maru flutuou lentamente.

    Bliip…

    O soldado avançou.

    O bastão desceu como um martelo.

    Maru disparou para o lado no último segundo e o golpe atingiu o chão.

    CRACK!

    Faíscas saltaram do concreto.

    O drone reagiu rápido. Um pulso elétrico disparou da carcaça.

    BZZZT!

    A descarga atingiu o exoesqueleto.

    Nada aconteceu.

    O soldado avançou de novo.

    Os servomotores da armadura rugiram enquanto ele saltava com velocidade assustadora para algo tão pesado. O bastão cortou o ar outra vez, quase acertando Maru.

    O drone subiu rápido e voou para trás de um conjunto de portas industriais.

    Antenas digitais se abriram.

    Breep-breep.

    As portas começaram a se mover.

    O soldado percebeu.

    — Interferência detectada.

    Ele correu.

    Maru abriu as portas no exato momento em que o gigante passava. As placas de metal se fecharam violentamente.

    CLANG!

    Prenderam o braço do exoesqueleto.

    O bastão elétrico caiu no chão, o soldado puxou o braço com força brutal. As dobradiças rangeram e o metal começou a entortar.

    Maru disparou para trás.

    Bli-bli!

    Uma série de pequenos choques atingiu o sistema hidráulico da armadura. Os circuitos começaram a piscar.

    O soldado arrancou o braço da porta com um estalo hidráulico e avançou de novo.

    O punho metálico veio como um míssil.

    Maru desviou por centímetros.

    O impacto destruiu uma caixa de controle na parede.

    Faíscas voaram pelo ambiente.

    O drone analisou rapidamente o sistema ao redor. Tubulações de energia, circuitos de manutenção e painéis de controle.

    Uma ideia surgiu.

    Maru voou direto para o teto e conectou suas antenas a um painel exposto.

    Breep… breep… breep…

    O sistema da torre respondeu.

    O soldado levantou o bastão novamente.

    — Neutralizando ameaça.

    Ele saltou.

    No exato momento, Maru liberou o hack.

    Portas industriais ao redor da sala começaram a se fechar simultaneamente. Trilhos de segurança desceram do teto.

    O soldado virou o corpo.

    Tarde demais.

    Uma das estruturas pesadas caiu sobre o exoesqueleto e prendeu a perna esquerda da armadura.

    — Mas que merda.

    Os motores lutaram para se mover.

    Maru desceu lentamente.

    Bliip.

    Uma descarga elétrica concentrada atingiu o núcleo energético do exoesqueleto.

    BZZZZZT!

    Os sistemas da armadura piscavam freneticamente e o soldado tentou levantar o bastão uma última vez. O visor vermelho apagou e o corpo enorme caiu imóvel.

    Silêncio.

    Maru pairou alguns segundos sobre o exoesqueleto derrotado.

    Bli-bli.

    Então girou no ar e voltou a consultar o mapa interno.

    A rota verde ainda estava ativa.

    O drone seguiu voando pelo corredor destruído, atravessou a porta arrebentada e continuou pelos túneis técnicos até encontrar o acesso de manutenção.

    A tampa metálica dos esgotos se abriu.

    Maru desceu pela escuridão sem hesitar.

    Bliip.


    Shimizu entrou na sala de controle e fechou a porta atrás de si. O lugar era iluminado por painéis azuis e fileiras de monitores que mostravam câmeras da estação inteira. No centro havia um console curvo cheio de telas holográficas e linhas de código que desciam lentamente em cascata.

    Aproximou-se com pressa, apoiou as mãos no painel e conectou um pequeno cabo que saiu do implante no pulso.

    — Vamos lá…

    Os dedos começaram a dançar sobre o teclado virtual. A primeira barreira apareceu: uma tela de autenticação com o selo da Corporação Purple.

    Shimizu abriu um sorriso torto.

    — Senha, é?

    Ela iniciou um ataque contra o sistema. Linhas de código se multiplicaram nas telas enquanto o sistema tentava bloquear o acesso.

    Primeiro firewall.

    — Ah, qual é…

    Ela redirecionou o tráfego pelo sistema de manutenção da torre. Um túnel digital se abriu entre servidores secundários.

    Segundo firewall.

    — Bonitinho.

    Ela injetou um script que simulava credenciais de um supervisor da segurança.

    Terceiro firewall.

    — Vocês realmente confiam nisso?

    Os olhos dela percorriam as telas com rapidez quase sobre-humana. Cada camada de proteção caía uma após a outra enquanto o sistema acreditava estar conversando com um terminal autorizado.

    Então os alarmes apareceram na interface.

    Shimizu navegou pelo mapa de segurança da torre e selecionou um posto defensivo do lado oposto da megatorre.

    — Perfeito.

    Ela ativou o alerta.

    No mesmo instante, sirenes começaram a ecoar pelos corredores da estação.

    Shimizu soltou o ar e colocou as mãos na cintura.

    — Você ainda é boa nisso, Shimizu. — Começou a afastar-se do painel.

    Então ouviu uma voz atrás dela.

    — Seu robozinho é bem problemático, né?

    Shimizu congelou e virou lentamente.

    Sawatari estava encostada na porta da sala de controle com um dos revólveres erguidos. O traje amarelo refletia as luzes do painel enquanto os propulsores nos pés soltavam um leve calor.

    Shimizu deu um passo para trás.

    Sem Maru, ela não tinha nenhuma arma.

    “Não posso lutar… tenho que resolver na lábia.”

    — Bom… o que você acha de…

    BANG!

    Shimizu se jogou para o lado. O tiro passou raspando e explodiu o console atrás dela. Faíscas voaram e a tela principal do sistema estilhaçou.

    Todas as sirenes começaram a tocar ao mesmo tempo.

    Sawatari manteve o revólver apontado.

    — Você não matou nenhum dos nossos. Por isso mereceu essa chance. — Inclinou a arma um pouco. — Mas fique sabendo que o próximo tiro eu não vou errar.

    Shimizu se apoiou na mesa destruída para se levantar.

    — Então você não vai simplesmente me deixar passar… — Respirou fundo. — Pergunta logo o que você quer saber.

    Sawatari estreitou os olhos.

    — O que você está procurando?

    A pergunta saiu sincera. Por um instante parecia que ela realmente a queria entender.

    Shimizu inclinou a cabeça.

    — O que eu estou procurando? — Deu de ombros. — Sei lá… acho que um drink com o meu nome lá no Rebirth.

    Sawatari ficou pensativa em silêncio por um segundo.

    Foi o suficiente.

    Os implantes da perna de Shimizu se ativaram com um estalo mecânico.

    Ela saltou.

    O corpo cruzou a sala como um projétil e atingiu Sawatari no peito. As duas colidiram contra a parede.

    Os revólveres caíram no chão.

    Sawatari reagiu primeiro.

    Um soco rápido tentou atingir o rosto de Shimizu. Ela desviou por centímetros e respondeu com um golpe no estômago.

    Sawatari absorveu o impacto e respondeu com uma cotovelada que acertou o ombro de Shimizu.

    As duas se separaram e imediatamente voltaram a se enfrentar.

    Shimizu avançou com um chute lateral. Sawatari bloqueou com o antebraço e tentou agarrar o braço dela para uma projeção.

    Shimizu girou o corpo e escapou antes que a técnica se completasse.

    Sawatari atacou com uma sequência rápida de golpes. Um soco, outro, um chute baixo tentando derrubar a base da adversária.

    Shimizu recuou dois passos e desviou por pouco.

    — Você luta bem.

    Sawatari não respondeu.

    Ela avançou de novo com um chute giratório.

    Shimizu bloqueou, mas o impacto a empurrou para trás. O corpo protestou com dor por causa da costela ferida.

    Sawatari percebeu.

    Ela atacou imediatamente.

    Shimizu fingiu perder o equilíbrio.

    Quando Sawatari avançou para finalizar, Shimizu girou o corpo e chutou diretamente o joelho da adversária.

    CRACK!

    A perna de Sawatari cedeu por um instante.

    Shimizu avançou e acertou um soco direto no rosto dela.

    A cabeça de Sawatari bateu contra a parede e o corpo escorregou até o chão.

    Shimizu respirou fundo e olhou para o chão da sala.

    Um dos revólveres estava ali. Ela se abaixou e pegou a arma.

    — Valeu.

    Então saiu da sala de controle.


    Sawatari acordou alguns minutos depois. As luzes vermelhas de emergência piscavam no teto e os alarmes ainda ecoavam pelo posto. Ela levou a mão ao rosto e sentiu algo quente nos dedos. Quando afastou a mão, viu sangue, o nariz sangrava e a cabeça latejava, lembrança direta do soco de Shimizu.

    Ela se apoiou na mesa destruída e se levantou devagar. O implante da perna esquerda estalou com um ruído metálico e falhou por um instante. Sawatari olhou para a articulação e percebeu que o propulsor estava quebrado. Por sorte não era um implante estrutural, apenas um sistema de impulso.

    — Ainda dá pra andar…

    No chão da sala de controle estava um dos seus revólveres. Sawatari se abaixou e o pegou com cuidado, limpando a poeira do metal com a manga da armadura. Observou a arma por um momento, passando os dedos sobre as marcas antigas gravadas no aço.

    — Espero que ela me devolva o outro…

    Aquela arma tinha pertencido ao seu pai. Ele a carregou durante a guerra, quando o exército de Fiordes foi enviado para as Ilhas Virgens. Ele nunca voltou. Foi morto por um dos nativos durante uma emboscada na selva.

    Sawatari culpava os nativos, os odiava, e estava decidida a subir na hierarquia do exército real para ir em missão até às ilhas.

    Porém, ela não gostaria que sua subida fosse a custo da vida de uma inocente.

    Ela franziu o rosto.

    — Por que eu estou pensando nisso agora?

    Balançou a cabeça, afastando o pensamento, e saiu da sala de controle.

    Do lado de fora havia um grande salão industrial. Soldados da corporação Purple estavam espalhados pelo chão, alguns ainda grogues depois da confusão provocada por Maru. Luzes vermelhas pulsavam nas paredes enquanto as sirenes ecoavam pelo complexo. Sawatari caminhou entre eles até uma mesa circular de comando, onde um painel holográfico projetava o mapa de segurança da estação.

    Aquela garota, Shimizu.

    Ela havia intrigado Sawatari profundamente. O comandante só dissera que ela era uma terrorista tentando assassinar o rei. Mas nada do que ela viu parecia confirmar isso. Shimizu salvou o garoto, poupou os soldados e ainda a deixou viva.

    Sawatari ativou o painel.

    — Vamos ver quem você realmente é…

    A porta do salão se abriu antes que ela pudesse pesquisar qualquer coisa.

    O primeiro a entrar foi um mecha de combate preto e vermelho. A máquina era enorme, quase três metros de altura, feita de placas blindadas angulares que se encaixavam como uma armadura mecânica.

    Pistões hidráulicos grossos se moviam nas articulações, liberando pequenos jatos de vapor a cada passo. Linhas vermelhas de energia percorriam o corpo metálico como veias brilhantes, e dois canhões compactos estavam montados sobre os ombros da estrutura.

    No centro do torso havia um cockpit aberto, onde estava sentado um homem com olhos frios.

    Logo atrás dele entrou outra figura.

    A mulher caminhava com passos lentos e seguros, como se todo o ambiente lhe pertencesse. Cabelos longos e prateados caíam sobre os ombros enquanto um visor cromado refletia as luzes vermelhas da sala.

    Ela vestia uma jaqueta branca aberta sobre um top verde metálico que brilhava como vidro líquido, e calças prateadas justas que terminavam em saltos negros afiados.

    Ao seu lado, apoiada sobre o ombro, uma arma biomecânica manifestava-se. Tratava-se da lâmina de uma foice colossal, feita de metal negro e oleoso que possuía a textura de uma carapaça quitinosa, protegendo um núcleo viscoso que pulsava em um brilho purpúreo quase hipnótico.

    Espinhos assimétricos e bordas serrilhadas projetavam-se de seu dorso, enquanto um fluido escuro, semelhante a piche, gotejava constantemente de suas extremidades, como se a peça estivesse sempre faminta ou em processo de decomposição.

    O toque final de sua natureza contraditória residia nas rosas vermelhas que brotavam de sua base superior, adornando a brutalidade daquela exo lâmina com uma elegância fúnebre e letal.

    Era General Samira.

    Sawatari imediatamente se colocou em posição.

    — Comandante Nexus. General Samira.

    Samira virou o rosto ligeiramente, olhando Sawatari com desdém.

    Nexus falou primeiro, a voz amplificada pelos alto-falantes do mecha.

    — O alarme está tocando. O que você está fazendo aqui? A agente 432 está foragida.

    Sawatari hesitou.

    — S-senhor… eu receio que houve um erro na minha missão.

    O mecha inclinou a cabeça lentamente.

    — Ah é? — A voz dele ficou mais baixa. — Então me diga qual foi o erro da sua missão.

    Sawatari respirou fundo.

    — A mulher que o senhor mandou eu matar… deve ter havido algum erro. Ela não é nem de perto tão má como me disseram.

    Nexus permaneceu em silêncio por alguns segundos.

    — E o que exatamente ela fez para você pensar assim?

    — Ela salvou civis… poupou os soldados… e a minha vida.

    Nexus riu. Uma risada seca e cruel.

    Hahaha. — Apoiou o braço mecânico do mecha na mesa holográfica e inclinou o corpo para frente. — Ela é boa porque salvou uma criança e a sua vida?

    Ele encarou Sawatari.

    — Me deixe dizer uma coisa. Você sabe por que mercenários como você são contratados?

    Sawatari apenas abaixou a cabeça.

    Nexus respondeu por ela.

    — Porque vocês são descartáveis. — O mecha deu um passo pesado que fez o chão vibrar. — Por que Fiordes usaria um soldado altamente treinado para caçar ratos?

    Ele apontou uma das garras metálicas para ela.

    — Agora faça o que você tem que fazer… ou eu te descartarei.

    Sawatari fechou os olhos por um instante.

    — Desculpe… mas eu não posso.

    O silêncio caiu sobre a sala.

    Nexus virou lentamente a cabeça para Samira.

    — Toda sua.

    O mecha girou e saiu do salão sem olhar para trás.

    Antes que Sawatari pudesse reagir, Samira se moveu. O gesto foi rápido demais para acompanhar. A foice voou na direção dela.

    Sawatari ativou o único propulsor que ainda funcionava. O impulso a lançou para o lado e ela rolou pelo chão, girando sobre o ombro antes de se levantar novamente.

    Sem perder tempo, saltou em direção à janela lateral.

    O vidro explodiu quando ela atravessou.

    Sawatari desapareceu na noite.

    Samira apenas observou a janela quebrada, o rosto ainda carregado da mesma expressão fria de desprezo.


    Shimizu e Maru avançavam pelos túneis escuros dos esgotos abaixo da megatorre Purple. A água turva chegava até a cintura dela e o cheiro era forte o suficiente para fazer os olhos arderem. Maru flutuava alguns centímetros acima da superfície, emitindo bips curtos de puro desgosto enquanto analisava o caminho à frente.

    Bliip… blip… breep…

    Shimizu empurrou uma onda de água suja com o braço e resmungou.

    — Pelo menos você voa. Eu que tô tendo que nadar nisso.

    Maru soltou um bip que soava quase como uma risada.

    Bli-bli!

    Eles seguiram pelos túneis por alguns minutos, passando por tubulações antigas e estruturas de concreto corroídas pelo tempo. Finalmente, o sensor de Maru piscou em violeta e ele apontou para uma escada metálica que subia até uma escotilha circular no teto.

    Bip!

    Shimizu olhou para cima.

    — Essa mesma?

    Bliip!

    Ela agarrou os degraus e começou a subir, a água escorrendo do traje enquanto subia devagar pelo poço estreito. No meio do caminho, Maru pairou ao lado dela e percebeu algo preso à cintura de Shimizu.

    O revólver.

    Bip…?

    Shimizu olhou para o lado.

    — Longa história. — Deu um meio sorriso. — Mas relaxa. Você é insubstituível.

    Bliip!

    Shimizu empurrou a escotilha e ela abriu com um rangido metálico. Do outro lado havia uma pequena sala de manutenção, cheia de painéis elétricos, caixas de ferramentas e cabos grossos passando pelas paredes. Era um setor escondido nos fundos do prédio, longe do movimento principal da torre.

    Ela saiu primeiro, puxando Maru logo atrás.

    Assim que pisou no chão seco, puxou o revólver da cintura e segurou a arma com cuidado.

    O silêncio era estranho. Nenhum guarda e alarmes. Absolutamente nada.

    Shimizu estreitou os olhos.

    — Quieto demais…

    Ela avançou pelo corredor com passos leves, esgueirando-se entre portas técnicas e cruzamentos estreitos. Nenhum sinal de soldados e nenhuma patrulha.

    — Isso tá com cara de armadilha.

    Mesmo assim continuou até chegar ao elevador de serviço. O acesso abriu sem resistência e ela subiu para o andar superior.

    A porta do elevador abriu diretamente na sala de controle principal da estação.

    Paredes inteiras eram ocupadas por telas holográficas mostrando mapas da torre, fluxos de segurança e rotas de drones patrulheiros. Consoles curvos cercavam a sala como um anfiteatro tecnológico, e cabos de dados corriam pelo teto conectando tudo em um único cérebro digital.

    Mas não havia ninguém. A sala estava completamente vazia.

    Shimizu suspirou.

    — Eu sabia. — Virou o rosto para Maru. — Faz isso rápido.

    Maru se desacoplou das costas dela, abriu pequenas garras mecânicas e pegou o chip cromado. O drone deslizou até o painel principal e inseriu o dispositivo no terminal.

    Breep… bip… breep…

    Linhas de código começaram a correr pelas telas.

    Shimizu cruzou os braços enquanto observava.

    — Mas afinal… que dados são esses?

    Maru respondeu com uma sequência curta de bips.

    Bli-bip-bip.

    — Relatórios das Ilhas Virgens? — Franziu a testa. — Estranho… mas os claudinhos são bons.

    Alguns segundos depois o terminal emitiu um tom suave.

    Bliip!

    Shimizu assentiu.

    — Já baixou?

    Maru piscou em confirmação e voltou a se acoplar nas costas dela.

    — Então vamos embora.

    Elas entraram no elevador de serviço novamente. O plano era simples: descer por outro setor da torre e escapar pelos esgotos por uma rota diferente.

    Shimizu apertou o botão. Nada aconteceu, ela apertou de novo, nada.

    — Maru… resolve isso.

    O drone se soltou e flutuou até o painel do elevador, tentando acessar o sistema.

    Breep… breep…

    Alguns segundos passaram.

    Maru emitiu um bip preocupado.

    Biiip…

    De repente o elevador começou a subir sozinho.

    Shimizu levantou a cabeça.

    — Ah, claro.

    Maru voou de volta e colou nas costas dela.

    Bliip…

    — Fica comigo. — Acionou um botão na mangá do traje.

    O elevador subiu rápido, atravessando dezenas de andares da megatorre Purple.

    Finalmente parou.

    As portas se abriram.

    Shimizu saiu primeiro.

    O topo da torre estava silencioso.

    A plataforma era ampla e circular, exposta ao vento noturno da cidade. Torres automáticas de defesa estavam espalhadas ao redor do perímetro, mas todas estavam desativadas.

    No centro da plataforma havia apenas uma pessoa.

    Uma mulher de cabelos prateados que balançavam com o vento.

    A lâmina de uma foice biomecânica flutuava ao redor dela, uma arma enorme feita de metal orgânico e placas negras que pulsavam com energia interna.

    Shimizu arregalou os olhos.

    — Samira.

    A mulher apenas inclinou a cabeça lentamente. O cabelo prateado se moveu como uma cortina de metal líquido.

    Então a foice ergueu-se.

    Shimizu ergueu o revólver devagar enquanto o casaco rasgado tremulava nas rajadas de ar. Maru flutuava ao lado dela, o sensor violeta pulsando rápido.

    Samira observava. Alguns minutos se passaram sem que ninguém fizesse nada, então a foice se moveu.

    O arco metálico negro se ergueu sozinho no ar, como se estivesse vivo, e girou lentamente ao redor de Samira antes de disparar para frente.

    Shimizu puxou o gatilho.

    BANG! BANG! BANG!

    Os tiros cortaram o ar, mas a foice se moveu mais rápido que qualquer defesa humana. A lâmina biomecânica girou e desviou as balas com um tilintar metálico antes de mergulhar em direção ao peito de Shimizu.

    Ela se jogou para o lado.

    A lâmina passou tão perto que rasgou o ar.

    Shimizu rolou pelo chão e se levantou em um movimento só.

    — Ela controla essa coisa!

    Maru já estava em ação.

    Bli-bli-bli!

    O drone disparou um pulso elétrico direto na direção de Samira.

    BZZZT!

    Samira girou o corpo levemente e a foice interceptou o ataque. O choque percorreu a lâmina e se dissipou pelo metal vivo.

    — Inútil.

    A foice voltou a atacar e desceu em um arco brutal.

    Shimizu desviou novamente, deslizando com as rodas das botas pelo chão molhado da plataforma. O metal gritou quando a lâmina acertou o chão onde ela estava um segundo antes.

    Shimizu levantou o revólver e disparou de novo.

    BANG!

    Samira moveu apenas um dedo, a foice girou e desviou o disparo.

    Então avançou.

    A lâmina passou pelo braço dela. Um corte verde apareceu instantaneamente na pele. Shimizu recuou com um gemido.

    Tch…!

    O corte queimava.

    Uma dor estranha começou a se espalhar pelo braço. Veneno.

    Maru voou por trás de Samira e liberou um jato de óleo no chão. Ela escorregou meio passo. Foi o suficiente para Shimizu avançar.

    Ela chutou na direção da cabeça da adversária, Samira bloqueou com o antebraço e respondeu com um golpe de palma no estômago de Shimizu.

    O ar saiu do pulmão dela.

    A foice voltou. Shimizu tentou recuar, mas era tarde demais.

    A lâmina atravessou a lateral da perna dela.

    Outro corte verde. A dor foi pior dessa vez e as pernas começaram a tremer.

    — Droga…

    Maru mergulhou novamente.

    Bliiiiip!

    Outro choque elétrico.

    Samira girou o corpo e pegou o drone no ar com uma das mãos.

    O metal rangeu sob a pressão.

    Maru disparou uma descarga diretamente nela.

    Samira soltou o drone.

    — Irritante.

    A foice girou mais rápido agora.

    Shimizu tentou acompanhar os movimentos, mas Samira era simplesmente mais rápida.

    A lâmina abriu outro corte no ombro dela. Depois outro na costela, cada ferida brilhava em verde doentio.

    O veneno já corria pelo corpo dela.

    Shimizu tentou contra-atacar com um soco. Samira desviou sem esforço e acertou um chute no joelho dela.

    Shimizu caiu de joelhos e a foice girou no ar atrás dela, preparando o golpe final.

    Ela tentou se levantar, mas o corpo não respondia direito. Samira moveu a mão e a foice disparou direto nas costas de Shimizu.

    Bliip…

    Maru se lançou na frente, a lâmina atravessou o drone. O metal rasgou e peças se espalharam pelo chão.

    Maru caiu imóvel.

    Samira fez um gesto e a foice voltou voando para o lado dela.

    Shimizu ficou congelada por um segundo. Depois correu até o drone e o pegou no colo.

    — Não…

    Ela sacudiu o pequeno corpo metálico.

    — Por favor… não…

    Os circuitos internos faiscavam.

    — Maru… me escuta…

    Um último som saiu do drone.

    …bip…

    A luz violeta do sensor piscou e se apagou.

    Shimizu abraçou o drone contra o peito. O corpo dela tremia.

    — Não… não… não…

    Lágrimas começaram a cair.

    Samira observava em silêncio.

    — É só um droide. — A foice começou a flutuar novamente. — Se não fizer nada… você vai morrer aqui.

    Shimizu continuou chorando.

    A foice avançou.

    Então um disparo ecoou.

    BANG!

    A bala atingiu Samira no ombro e a foice desviou da trajetória.

    Tch. — Ela estalou a língua, irritada.

    Sawatari estava na entrada da plataforma, com o revólver apontado diretamente para Samira.

    — Nem mais um passo… ou eu te explodo.

    Samira cruzou os braços.

    — Você deveria ter fugido. — A foice girava lentamente ao lado dela. — Teria sobrevivido uma semana ou duas.

    Sawatari ignorou e caminhou até Shimizu.

    — O chip.

    Shimizu levantou os olhos cheios de lágrimas. Por um instante parecia que ela não entendia, então percebeu que Sawatari estava do lado dela. Abriu o compartimento danificado no corpo de Maru, retirou o chip e entregou.

    — Eu olhei os registros da torre. — Segurou o chip pra cima e encarou Samira. — Se o que ela baixou aqui for o que eu penso que é… eu me arrependo de ter servido Edwin.

    Samira apenas cruzou os braços.

    — Faça o que quiser. — As ópticas nos olhos dela piscaram rapidamente.

    Sawatari não percebeu. Levou o chip até a porta de dados na nuca e conectou.


    A noite cobria a floresta como um manto pesado. As copas altas das árvores bloqueavam quase toda a luz da lua e apenas feixes brancos cortavam a escuridão.

    Lanternas presas na ponta de fuzis moviam-se lentamente entre os troncos. Soldados avançavam em formação, roupas camufladas manchadas de lama e equipamentos silenciosos presos ao corpo.

    Sawatari percebia tudo através dos olhos de um deles.

    A visão era estranha, distante e ao mesmo tempo íntima. Ela enxergava o cano do fuzil à frente, a lanterna tremendo levemente a cada passo, as costas de outro soldado alguns metros adiante. O homem da frente levantou o punho fechado e todos pararam. Em seguida fez dois sinais rápidos com a mão.

    Avançar.

    O grupo se moveu novamente, agora mais devagar, abrindo caminho pela vegetação até que as árvores começaram a rarear.

    Um vilarejo apareceu entre a névoa da madrugada.

    As casas eram simples, feitas de madeira escura e metal reaproveitado, mas pequenos painéis solares brilhavam nos telhados e postes improvisados sustentavam antenas de comunicação.

    Redes de pesca estavam estendidas para secar, barcos estreitos repousavam na margem de um pequeno rio e estruturas para defumar peixe espalhavam um cheiro leve de sal e fumaça.

    Os soldados avançaram na surdina entre as casas.

    Sawatari sentia algo estranho acontecendo. Não apenas a visão, pensamentos atravessavam sua mente também. O soldado cujo corpo ela ocupava pensava na filha. Uma menina pequena, cabelo preso em duas tranças, rindo enquanto corria por um píer de madeira. A saudade apertava o peito dele.

    Um movimento à frente interrompeu tudo.

    Um nativo apareceu entre duas cabanas, segurando uma arma.

    O soldado líder levantou a mão imediatamente.

    Silêncio.

    Outro soldado avançou pela lateral, com movimentos rápidos e treinados. Ele surgiu atrás do homem, agarrou sua boca e puxou a cabeça para trás. Uma lâmina passou pela garganta.

    O corpo caiu, silenciosamente.

    O grupo continuou avançando.

    Entraram mais fundo na vila. Poucos seguranças. Era um assentamento distante da linha principal do conflito, praticamente indefeso.

    O soldado em cuja visão Sawatari estava entrou em uma casa pequena. O interior era simples, tinha uma mesa de madeira, redes presas nas paredes, utensílios de pesca pendurados em ganchos.

    Parecia vazia.

    Ele deu dois passos.

    Uma mulher saltou da escuridão.

    A faca brilhou na penumbra e cortou o rosto dele antes que pudesse reagir. A dor explodiu quente na pele. O soldado segurou o punho dela instintivamente e torceu o braço com força. A faca caiu no chão. No mesmo movimento ele acertou um soco no rosto dela.

    A mulher caiu.

    Ele levou a mão ao corte no rosto, sentindo o sangue quente escorrer.

    Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o soldado que vinha atrás ergueu o fuzil.

    BANG!

    A cabeça da mulher explodiu.

    — Tenha pena desses animais de novo… e o próximo é você. — A voz era fria.

    O soldado respondeu automaticamente.

    — Sim, senhor.

    Sawatari estremeceu dentro da memória.

    Algo naquela voz era familiar. Muito familiar. Como uma lembrança distante que se recusava a se formar por completo.

    Então vieram os gritos.

    O soldado virou a cabeça e olhou pela janela.

    O vilarejo estava pegando fogo.

    Casas queimavam enquanto soldados avançavam pelas ruas disparando. Pessoas corriam entre as chamas, alguns eram abatidos ali mesmo, outros eram empurrados para o centro da vila, reunidos à força na pequena praça entre as casas.

    Em questão de segundos, o lugar pacato que vivia de pesca e caça havia caído.


    O soldado caminhava pela vila com o fuzil erguido, os passos cautelosos sobre o chão de terra. O cheiro de fumaça já tomava o ar e as chamas começavam a subir pelas casas de madeira.

    Sawatari via tudo através dos olhos dele e escutava também, o som de madeira estalando enquanto as casas pegavam fogo, tiros entre as construções e muitos gritos.

    Mulheres choravam, crianças gritavam por ajuda, homens imploravam antes de serem silenciados para sempre.

    De algum lugar da rua veio um grito animado.

    — Achei mais uma!

    O soldado virou a cabeça naquela direção. Dois homens quebravam o assoalho de uma casa com coronhadas. A madeira cedeu e eles puxaram alguém de dentro do espaço escondido sob o piso.

    Primeiro surgiu uma mulher, com a pele marcada pelo sol, cabelo preto liso grudado no rosto de tanto suor. Depois duas crianças, agarradas a ela, chorando em silêncio.

    Um dos soldados segurou a mulher pelos cabelos e a levantou.

    — Leva as crianças pro centro da vila. — Empurrou a mãe na direção do outro soldado. — Essa vai pro capitão.

    O segundo soldado deu uma risada baixa.

    — Essa é das boas.

    O homem em cuja mente Sawatari estava não respondeu. Mas o ódio subiu dentro dele como um refluxo amargo. Sawatari sentiu tudo junto, repulsa, vergonha e uma raiva profunda que ele mantinha enterrada.

    De repente uma mão bateu no ombro dele.

    O soldado virou o rosto.

    Outro homem estava ali, também com o uniforme camuflado e o fuzil pendurado no peito.

    — Mark.

    O nome ecoou como um golpe dentro da cabeça de Sawatari.

    — O capitão tá chamando você lá na tenda dele.

    Mark assentiu em silêncio e começou a caminhar. Sawatari sentia o coração dele bater mais forte enquanto atravessavam o vilarejo em chamas. Quanto mais se aproximavam da tenda principal, mais altos ficavam os sons que vinham de dentro.

    Gritos de mulheres e risadas masculinas.

    Mark diminuiu o passo.

    Antes que pudesse chegar, a lona da tenda se abriu e um homem saiu de dentro.

    Ele estava sem camisa e abotoava a calça com calma, como se nada ao redor fosse incomum. O peito largo estava marcado por uma tatuagem grande de uma caveira em chamas.

    Sawatari reconheceu imediatamente.

    O símbolo dos Skull Red Knights.

    Uma unidade de elite surgida da guarda real de Fiordes, destruída anos atrás quando o pirata Pérola Negra aniquilou grande parte da companhia. Mais tarde vazaram documentos sobre crimes cometidos por aquela tropa, mas o reino abafou tudo antes que o escândalo se espalhasse.

    O capitão levantou o olhar.

    — Descansar, soldado.

    Mark ficou em posição.

    — Às ordens.

    O capitão observou o rosto dele por um momento.

    — Quer se divertir um pouco?

    Ele apontou com o polegar para a tenda atrás dele, de onde ainda vinham os gritos.

    Mark engoliu seco.

    — Não estou com vontade, senhor.

    O capitão ergueu uma sobrancelha.

    — Foi acertado por algum veneno, soldado?

    Mark hesitou.

    — Por que a pergunta, senhor?

    O capitão fez um gesto.

    Um soldado que vinha correndo chegou ao lado deles trazendo um pequeno espelho metálico. Mark o pegou e ergueu diante do rosto.

    O corte na bochecha estava verde.

    Sawatari reconheceu o rosto, cabelos pretos, pele clara, mas marcada pelo sol por conta de inúmeras campanhas nas ilhas, olhos pretos, profundos e cansados. Ela congelou e a respiração falhou. Aquele rosto, aquela voz e aquele nome. Mark.

    O homem que ela acreditava ter sido morto por nativos anos atrás.

    O homem que ela chamava de pai.

    Sawatari tentou respirar, mas o ar parecia não entrar. As pernas dela tremiam enquanto a memória continuava prendendo sua mente naquela visão. Nada daquilo batia com a história que ela ouviu a vida inteira. Ele não morreu lutando contra nativos.

    Ele estava ali.

    Mesmo que relutante, participando do massacre.

    Mark tocou o corte no rosto e falou com dificuldade.

    — E-eu não sabia, senhor… estou indo imediatamente para a enfermaria.

    Ele começou a se virar.

    A mão do capitão o segurou pelo ombro.

    Mark parou.

    O soldado que havia trazido o espelho jogou um fuzil contra o peito dele. Mark agarrou a arma por reflexo.

    O capitão apontou para a direção da vila em chamas.

    — Me siga.


    Diversos prisioneiros estavam reunidos no centro da vila. Homens idosos, doentes que mal conseguiam ficar em pé e várias crianças assustadas se apertavam uns contra os outros. O fogo das casas iluminava a praça com uma luz laranja tremulante, enquanto soldados armados formavam um círculo ao redor deles.

    O capitão observava a cena fumando um charuto.

    A fumaça subia lentamente diante do rosto dele enquanto olhava para Mark.

    — Ouvi falar que você teve pena de um selvagem.

    Mark ficou rígido.

    — E-eu nunca, senhor.

    O capitão soltou uma risada curta, jogou o charuto no chão e esmagou a brasa com a bota.

    — Ah é? — Apontou para o grupo de prisioneiros. — Então me prove.

    Mark empalideceu. Sawatari sentiu o medo atravessar o corpo dele como um choque frio. O coração batia forte no peito enquanto ele olhava para o capitão.

    — Como posso provar, senhor?

    O capitão respondeu com naturalidade.

    — Esses são os descartáveis. — Fez um gesto despreocupado em direção aos civis. — Mate-os. Recebemos ordens para enfrentar os piratas do Pérola Negra. Não precisamos mais deles vivos.

    Mark ficou imóvel.

    O fuzil pesava nas mãos dele.

    Ele olhou para os reféns. Um velho tremia tentando proteger duas crianças atrás de si. Uma menina agarrava o braço da mãe com tanta força que os dedos estavam brancos.

    Mark olhou para o capitão.

    Depois para os reféns novamente.

    Ergueu a arma.

    O dedo começou a apertar o gatilho.

    Mas algo dentro dele travou.

    Ele não era assim.

    Tinha se juntado à guarda real acreditando na promessa de servir melhor a sua majestade. Proteger o reino. Defender pessoas.

    Não massacrar civis.

    A arma caiu no chão com um estalo seco.

    — Eu não posso fazer isso, senhor.

    O capitão suspirou irritado.

    — Tsk. — Ergueu o queixo. — Glória a vossa majestade, Edwin Purple.

    Antes que Mark pudesse responder, a visão se despedaçou.

    O mundo voltou de repente.

    O topo da megatorre Purple surgiu novamente diante de Sawatari. O chip ejetou da porta de dados na nuca dela com um clique seco. As pernas falharam e ela caiu de joelhos no chão metálico.

    As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo que percebesse.

    Samira observava com indiferença.

    — Satisfeita?

    Shimizu continuava ajoelhada alguns metros atrás, apertando o que restava de Maru contra o peito. Ela olhava para Sawatari sem entender nada do que estava acontecendo.

    Sawatari tremia.

    — Tudo o que eu acreditei… tudo o que meu pai lutou… — A voz falhou. — Foi essa mentira?

    Samira soltou um suspiro entediado.

    — Não faço a mínima ideia do que você está falando. — Ergueu a mão e a foice biomecânica voltou a flutuar ao lado dela. — E não ligo.

    O olhar dela ficou frio.

    — A única coisa que me importa é que vocês vão morrer hoje.

    O vento no topo da megatorre soprava forte enquanto Sawatari se levantava devagar, ainda tremendo. O revólver estava firme na mão, mas o olhar dela não era mais o mesmo. O medo havia sido esmagado por algo mais pesado. Raiva. Um tipo de raiva fria que vinha de muito fundo.

    Samira observava sem expressão.

    A foice biomecânica flutuava ao lado dela, girando lentamente como um animal que esperava o momento de atacar.

    — Terminou seu drama?

    Sawatari respondeu puxando o gatilho.

    BANG!

    A bala atravessou o ar e a foice se moveu no mesmo instante, desviando o disparo antes que atingisse Samira. Sawatari não parou. Mais tiros ecoaram pela plataforma.

    BANG! BANG!

    Samira continuava quase imóvel, movendo apenas a mão ou um leve gesto de dedos. Cada vez que a foice girava, ela desviava os tiros, como se a arma fosse parte do próprio corpo.

    Shimizu assistia de joelhos alguns metros atrás. Os olhos estavam inchados, o rosto molhado de lágrimas enquanto apertava a carcaça destruída de Maru contra o peito.

    — Eu… eu não consigo fazer nada… — Apertou o metal frio com mais força. — Desculpa…

    O combate continuava à frente.

    Sawatari avançou alguns passos, atirando enquanto se movia lateralmente para evitar a lâmina. A foice cortava o ar com velocidade absurda e forçava Sawatari a rolar pelo chão ou saltar para trás sempre no último instante.

    A lâmina raspou o ombro dela.

    O tecido da roupa abriu, mas não foi um golpe profundo.

    Sawatari respondeu com outro disparo.

    BANG!

    Samira inclinou a cabeça levemente.

    — Patético.

    A foice voltou em um arco horizontal e Sawatari se abaixou, sentindo o vento da lâmina passar sobre o cabelo. Ela rolou para o lado, levantou o revólver e atirou novamente.

    BANG!

    Mais uma vez a foice interceptou.

    — Não… não posso… — Shimizu murmurou, com a voz embargada pelo choro. Apertou, novamente, Maru contra o peito. Sentia muita dor, o luto a consumia, mas não podia ignorar Sawatari que lutava sozinha contra uma general do exército real.

    Ergueu o rosto, com os olhos vermelhos e leves tremores pelo corpo. Ela deu um tapa seco na lateral do próprio rosto.

    — Acorda, idiota! — Rosnou para si mesma.

    Ainda ajoelhada, ergueu o revólver. A mira estava instável por causa do veneno que circulava pelo seu corpo.

    BANG! BANG!

    Os disparos passaram longe de Samira e, pior, zuniram perigosamente perto de Sawatari, que parecia alheia ao redor, apenas observando a general inimiga.

    O coração de Shimizu bateu forte. Ela havia falhado e quase atingido a única pessoa que tentava ajudá-la. Percebeu que ferida e sem seu drone, ela seria mais um estorvo do que uma ajuda.

    Abaixou a arma.

    — Droga… sou inútil.

    Enquanto isso, algo chamou a atenção de Sawatari.

    Samira. Ela quase não se movia. Cada vez que a foice atacava, Samira ficava parada, era como se estivesse totalmente concentrada em controlar a arma.

    Sawatari percebeu e decidiu arriscar, parou de se mover e ficou completamente imóvel, com o revólver apontado diretamente para o peito de Samira.

    Samira ergueu uma sobrancelha.

    Uma abertura.

    Ela moveu a mão e a foice disparou.

    Sawatari puxou o gatilho.

    BANG!

    O tiro passou pela lâmina no exato momento em que a foice atravessava o corpo dela.

    A lâmina entrou pelo lado do torso.

    O tiro atingiu o peito de Samira.

    As duas pararam por um segundo.

    Depois Samira caiu.

    Sawatari também.

    Shimizu soltou um grito e correu até ela.

    — Ei! Ei!

    Ela segurou Sawatari pelos ombros.

    — Aguenta!

    Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, uma sombra caiu do céu.

    O impacto fez a plataforma tremer.

    BOOM!

    Comandante Nexus pousou com o exoesqueleto pesado esmagando o chão metálico.

    — Bando de inúteis… — A voz saiu distorcida pelos alto-falantes do mecha. — Eu mesmo vou matar vocês.

    Um dos braços mecânicos ergueu-se, compartimentos se abriram e mísseis surgiram dos lançadores.

    Antes que Nexus disparasse, algo surgiu em alta velocidade pela lateral da plataforma.

    A moto de Shimizu.

    O veículo saltou sozinho e colidiu diretamente contra o mecha.

    CRASH!

    Nexus foi arremessado contra uma torre de defesa desativada. A estrutura explodiu em uma bola de fogo, os mísseis dispararam descontrolados e passaram longe do alvo.

    Shimizu correu até a moto.

    — Você demorou.

    Ela colocou Sawatari desacordada atrás dela e prendeu o corpo da mercenária com um braço. O que restava de Maru foi colocado junto contra o peito dela.

    — Segura aí…

    O motor rugiu.

    A moto disparou pela plataforma enquanto Nexus se levantava dos destroços.

    Mísseis começaram a persegui-las.

    Shimizu desviava entre torres quebradas e pedaços de metal espalhados pelo telhado da megatorre. As explosões iluminavam a noite atrás dela enquanto os projéteis detonavam pedaços do prédio.

    — Mais rápido!

    A moto acelerou ainda mais.

    Uma torre destruída havia caído parcialmente sobre o terraço, formando uma rampa improvisada.

    Shimizu viu a abertura.

    — Perfeito.

    Ela inclinou o corpo e acelerou.

    A moto subiu pela estrutura destruída.

    Saltou.

    E desapareceu no vazio da noite.


    A chuva caía fina sobre os telhados de metal do Orfanato Técnico de Aethelgard, um prédio cinza encaixado entre fábricas abandonadas e armazéns da Corporação Purple.

    À distância ele parecia apenas mais um complexo industrial. De perto era pior. As janelas eram altas demais para uma criança alcançar, grades cobriam as saídas e câmeras giravam lentamente nos cantos do pátio.

    Dentro, o barulho nunca parava.

    Ferramentas batiam em metal, motores velhos rangiam, monitores antigos zumbiam enquanto dezenas de crianças trabalhavam em mesas de reparo improvisadas.

    Pilhas de tecnologia descartada ocupavam o salão, drones quebrados, próteses descartadas, implantes queimados e placas de circuito arrancadas de máquinas corporativas.

    O orfanato tinha um lema escrito em um painel enferrujado perto da entrada.

    Reutilizar é servir ao reino.

    Mas todos sabiam o que aquilo significava.

    Trabalho.

    Crianças com talento para engenharia eram recolhidas das ruas e trazidas para ali. Oficialmente recebiam educação técnica. Na prática consertavam sucata corporativa que depois era revendida.

    Shimizu tinha onze anos quando chegou.

    Ela era pequena para a idade, magra e quieta demais. Não falava muito com as outras crianças. Fazia o que mandavam, mas sempre mais rápido do que pediam.

    Naquela noite o salão principal já estava vazio. As luzes tinham sido apagadas e apenas lâmpadas de manutenção iluminavam o corredor lateral que levava ao depósito.

    Shimizu caminhava ali, com passos silenciosos.

    Carregava uma pequena lanterna e uma chave inglesa presa ao bolso da calça.

    O depósito ficava no subsolo do prédio. Era onde jogavam o que não valia mais a pena consertar.

    Sucata morta.

    Shimizu empurrou a porta e entrou.

    O lugar cheirava a óleo velho e plástico queimado. Montanhas de carcaças metálicas se empilhavam até quase tocar o teto. Próteses amputadas, braços mecânicos quebrados e drones partidos ao meio.

    Ela caminhou entre os montes com cuidado.

    Estava procurando algo.

    No fundo do depósito havia um canto onde os funcionários jogavam drones destruídos. Quase todos tinham sido queimados ou esmagados antes de serem descartados.

    Foi ali que ela encontrou.

    A esfera estava meio enterrada sob uma pilha de peças. O metal estava amassado e chamuscado, como se tivesse sido atingido por um disparo de plasma.

    Shimizu se ajoelhou.

    — Hmm.

    Ela puxou a carcaça com cuidado.

    Era um drone pequeno, do tamanho de uma bola de futebol. O sensor central estava escuro e a estrutura lateral estava parcialmente quebrada.

    Ela girou a esfera nas mãos.

    — Você foi bem arrebentado, hein…

    O logotipo quase apagado na lateral ainda era visível.

    CORPORAÇÃO PURPLE

    Shimizu ficou olhando o drone por alguns segundos.

    Depois colocou a esfera dentro da mochila.

    — Vamos ver se você ainda serve pra alguma coisa.


    Naquela noite ela não dormiu.

    O dormitório das crianças era um salão comprido com fileiras de camas metálicas. Quando todas as luzes apagaram e o silêncio tomou conta do lugar, Shimizu deslizou para fora do colchão.

    Ela carregava uma mochila.

    O lugar que ela usava como oficina ficava atrás de uma parede falsa no porão de manutenção. Era pequeno demais para um adulto entrar, mas perfeito para uma criança.

    Shimizu acendeu uma lâmpada portátil.

    A esfera metálica caiu sobre a mesa improvisada.

    — Vamos ver o estrago.

    Ela abriu a carcaça com cuidado.

    Circuitos queimados. Cabos derretidos. A bateria estava morta.

    — Hm…

    Os dedos dela começaram a trabalhar.

    Peças de outros drones foram desmontadas. Placas de circuito trocadas. Cabos soldados novamente. Ela trabalhava em silêncio absoluto, concentrada, a língua pressionada no canto da boca enquanto pensava.

    A madrugada avançou.

    E a esfera começou a mudar.

    Ela substituiu o sensor central por outro que havia encontrado em uma pilha de câmeras descartadas. O visor padrão era azul.

    Shimizu o modificou.

    Ela conectou um pequeno cristal de energia roubado do estoque de implantes defeituosos.

    Quando ligou o sistema, o sensor brilhou em violeta.

    — Gosto mais dessa cor.

    Ela fechou a carcaça e conectou a bateria improvisada.

    Por um segundo nada aconteceu.

    Depois a esfera vibrou.

    Um som saiu do interior da máquina.

    …bli…

    Shimizu congelou.

    …bli-fip!

    O sensor violeta piscou.

    A esfera flutuou alguns centímetros da mesa e girou devagar no ar.

    Shimizu arregalou os olhos.

    — Funcionou…

    O drone deu uma pequena volta ao redor dela.

    Bli-fip! Bli!

    Shimizu ficou em silêncio por um momento.

    Então começou a rir, não era um riso alto, era pequeno e real.

    — Você é estranha.

    O drone girou novamente.

    Bli?

    Ela cruzou os braços.

    — Um drone de vigilância não devia fazer barulhos assim.

    A esfera inclinou levemente no ar, como se estivesse confusa.

    Shimizu suspirou.

    — Acho que você não quer ficar aqui.

    O sensor violeta piscou.

    Bli.

    Ela encostou os dedos na carcaça metálica.

    — Eu também não.


    Nas semanas seguintes, o drone nunca mais saiu do esconderijo dela.

    Shimizu continuava trabalhando no orfanato durante o dia, consertando motores e implantes sob o olhar dos supervisores. Mas à noite voltava para o pequeno esconderijo no porão.

    Era ali que ela ensinava coisas ao drone.

    Movimento. Mapeamento. Controle remoto.

    Um dia ela mostrou algo novo.

    Um pequeno módulo metálico.

    — Isso aqui é divertido. — Encaixou o módulo na carcaça do drone. — Tenta isso.

    A esfera girou.

    Peças da carcaça se rearranjaram.

    Em segundos a esfera virou outra coisa.

    Uma pequena submetralhadora compacta.

    Shimizu abriu um sorriso.

    — Sabia que ia funcionar.

    A arma voltou à forma de esfera e flutuou novamente.

    Bli-fip!

    — Calma.

    Ela pegou um pequeno implante da mesa. Um par de orelhas de gato.

    Shimizu as instalou na lateral da carcaça.

    — Agora sim.

    O drone girou no ar.

    — Bli?

    — Você precisava de personalidade. — Pensou por um segundo. — Hm…

    Os olhos dela olharam para o sensor violeta.

    — Maru.

    O drone piscou.

    Bli?

    — Esse é o seu nome.

    Maru girou rápido no ar.

    BLI-FIP!

    Shimizu riu de novo.

    Pela primeira vez desde que chegou naquele lugar.


    Uma criança tentou escapar, os supervisores a pegaram e ela foi publicamente punida, com socos e chutes.

    Shimizu assistiu em silêncio.

    Quando tudo terminou, ela voltou para o esconderijo no porão e ficou olhando para Maru.

    — Eu não vou ficar aqui.

    O drone flutuou diante dela.

    Bli?

    Ela colocou a mochila nas costas.

    — Você vem comigo?

    O sensor violeta piscou duas vezes.

    Bli-fip.

    Shimizu sorriu.

    — Ótimo.

    Ela abriu a porta de manutenção.

    Do outro lado havia um corredor cheio de câmeras.

    Shimizu respirou fundo.

    — Maru.

    A esfera girou no ar.

    Bli!

    Peças se rearranjaram.

    A esfera virou uma arma pela primeira vez fora do esconderijo.

    Shimizu apontou para a porta de segurança.

    — Aquela.

    Maru disparou.

    A bala explodiu o painel da fechadura e a porta se abriu.

    Shimizu olhou para o drone.

    — Agora a gente corre.

    Maru voltou à forma de esfera e disparou pelo corredor ao lado dela.

    E assim, deixaram o orfanato.


    O apartamento estava silencioso. A chuva batia fraca na grande janela panorâmica e as luzes de Aethelgard piscavam abaixo como um oceano de neon distante. Shimizu e Sawatari estavam sentadas na cama, encostadas na parede.

    Ambas tinham o corpo coberto de curativos improvisados, faixas enroladas nos braços e nas costelas, hematomas escuros espalhados pela pele. O ar ainda cheirava a antisséptico e metal queimado.

    Na frente delas, sobre a cama, repousava o que restava de Maru.

    A pequena esfera metálica estava aberta, a carcaça rachada e o sensor violeta apagado. Cabos internos escapavam da estrutura.

    As duas ficaram em silêncio por um tempo.

    Sawatari finalmente falou.

    — Então… vocês se conhecem desde criança.

    Shimizu secou uma lágrima que escorria pelo rosto e assentiu devagar.

    — Foi a melhor amiga que eu podia ter.

    Sawatari abaixou a cabeça e ficou olhando para o drone destruído.

    Shimizu respirou fundo.

    — Então… o que me mandaram pegar… — Hesitou. — Era a gravação do chip de memória do seu falecido pai.

    Sawatari permaneceu em silêncio por alguns segundos.

    — É muita coisa pra processar no momento. — Passou a mão pelo rosto cansado. — Eu prefiro só… sei lá… dormir e esquecer.

    Shimizu virou o rosto para ela e segurou a mão da mercenária.

    — Você só está muito cansada.

    Sawatari deu um pequeno sorriso cansado.

    — É uma pena que você não conseguiu entregar isso pra sua agência. — Inclinou a cabeça para trás contra a parede. — Aqueles claudinhos te deixariam de férias por um bom tempo.

    Shimizu se encolheu na cama e abraçou as próprias pernas, olhando para o chão.

    Sawatari se inclinou para mais perto dela, mas o movimento puxou o ferimento na barriga. A dor atravessou o corpo dela como um choque.

    Argh

    Shimizu imediatamente levantou-se e a segurou.

    — Ei, calma. — Ajudou Sawatari a se deitar novamente sobre o travesseiro. — Sorte que eu conhecia um bom médico. — Cruzou os braços e balançou a cabeça. — O que diabos você estava pensando?

    Sawatari fechou os olhos por um momento.

    — Pelo menos eu matei a maluca.

    Shimizu suspirou.

    — Você precisa repousar.

    Ela se levantou da cama e pegou Maru com cuidado. Quando segurou a carcaça destruída nos braços, os olhos começaram a encher de lágrimas novamente.

    — Eu preciso de um tempinho… — Começou a caminhar para fora do quarto.

    Antes de conseguir sair, sentiu algo puxar o moletom.

    Shimizu olhou para trás.

    Sawatari estava segurando a barra da roupa dela.

    — Você disse que entendia de mecânica.

    Shimizu assentiu, confusa.

    — Eu também entendo um pouco. — Sawatari virou o rosto na direção do drone. — Se o núcleo de memória dela estiver intacto… podemos transferir ela pra um corpo novo.

    Os olhos de Shimizu se arregalaram.

    Ela enxugou rapidamente as lágrimas.

    — É… é sério?

    Sawatari deu um pequeno sorriso cansado.

    — O que você tem de sucata aí?


    A mesa de trabalho de Shimizu havia sido puxada para o centro do apartamento. Acima dela, vários módulos magnéticos mantinham peças suspensas no ar como se estivessem orbitando um pequeno planeta.

    Restos de metal, placas de circuito, micropropulsores, lentes ópticas quebradas e carcaças de drones desmontados giravam lentamente enquanto as duas tentavam encontrar algo que funcionasse.

    No meio daquela sucata estava o que restava de Maru.

    Shimizu segurava o núcleo central com cuidado, como se fosse algo frágil demais para o mundo.

    Sawatari estava sentada ao lado da mesa, apoiando o peso do corpo com dificuldade. O curativo na barriga já estava manchado de vermelho outra vez, mas ela ignorava a dor.

    — Essa peça… — Apontou para um pequeno estabilizador. — Pode servir de suporte lateral.

    Shimizu pegou a peça e encaixou na carcaça.

    O conjunto desmontou no mesmo instante.

    — Droga…

    Um dos módulos caiu na mesa com um clack metálico.

    Sawatari respirou fundo.

    — Tenta de novo.

    Shimizu pegou outra peça.

    — Esse eixo talvez…

    Ela encaixou o núcleo no novo suporte.

    A estrutura começou a girar e logo se soltou outra vez.

    — Não… — Fechou os olhos por um segundo. — Não tá estabilizando.

    Sawatari puxou outra peça da pilha flutuante.

    — Esse drone aqui era de vigilância, né?

    — Era.

    — Então ele tinha um giroscópio melhor. — Arrancou o módulo e jogou para Shimizu. — Tenta isso.

    Shimizu trocou a peça.

    Dessa vez o núcleo ficou firme por alguns segundos.

    Depois caiu de novo.

    — Ah, qual é…

    Sawatari soltou um pequeno riso cansado.

    — Tá pior que montar um móvel barato. — Bufou. — Me passa aquela placa ali.

    Esticou o braço e puxou o módulo flutuante.

    A dor na barriga fez ela travar.

    — Ah… merda…

    Ela apoiou a mão na mesa até a dor diminuir.

    Shimizu olhou para ela.

    — Você devia estar deitada.

    — E deixar você desmontar metade da sua oficina? — Sawatari colocou a peça na mesa. — Nem pensar.

    A tentativa seguinte durou mais tempo.

    O núcleo girou, os estabilizadores mantiveram a estrutura no ar. Por um momento pareceu que ia funcionar, então o sistema caiu de novo.

    As peças se espalharam pela mesa.

    Shimizu apoiou as mãos na borda e respirou fundo.

    — Maru…

    Sawatari observava em silêncio. Ela sabia o que mantinha Shimizu ali. Esperança de reconstruir sua amiga.

    Sawatari pegou outra carcaça da pilha.

    — Olha… — Levantou um pequeno corpo de drone arredondado. — Esse aqui é quase do tamanho original.

    Shimizu olhou.

    — …

    Ela pegou a peça.

    As duas começaram a trabalhar novamente, dessa vez com mais cuidado, placa por placa e conector por conector.

    Minutos viraram quase uma hora.

    Quando terminaram, um pequeno drone esférico pairava no centro da mesa.

    Parecido, não igual, mas próximo.

    Sawatari inclinou a cabeça.

    — Olha só… — Sorriu de leve. — Parece o corpo original dela.

    Shimizu respirou fundo.

    — Agora só falta saber se a memória tá intacta.

    As duas levaram o núcleo e o novo corpo até a estação de computadores de Shimizu. Cinco telas se acenderam quando o sistema reconheceu o hardware.

    Shimizu conectou o núcleo no terminal.

    — Vamos lá…

    Sawatari pegou o novo corpo e abriu um compartimento lateral.

    — Onde encaixa o barramento de memória?

    — Ali. — Apontou.

    Sawatari tentou conectar o primeiro cabo.

    Erro. A tela piscou vermelho.

    — Não foi.

    Shimizu pegou outro adaptador.

    — Tenta esse.

    Segundo erro.

    — Droga…

    Sawatari puxou outro cabo da pilha.

    — Talvez o protocolo esteja invertido.

    Shimizu digitava rápido.

    — Pode ser.

    Tentaram novamente. Nada. As telas mostraram mais uma sequência de erros.

    Shimizu passou a mão pelo cabelo.

    — Não…

    Sawatari cruzou os braços.

    — Espera. — Puxou o núcleo de novo e virou a peça. — E se o circuito de memória estiver aqui?

    Shimizu arregalou os olhos.

    — Não…

    Ela conectou o cabo no ponto indicado.

    Digitou um comando.

    As telas ficaram pretas. Por alguns segundos não aconteceu nada.

    O silêncio tomou o apartamento.

    Então um pequeno pulso violeta apareceu no monitor. A energia percorreu o novo corpo do drone e a esfera tremeu.

    Um segundo.

    Dois.

    …bli…

    Shimizu congelou.

    …bli-fip!

    A luz violeta acendeu.

    Shimizu começou a chorar no mesmo instante e abraçou Maru.

    — Você voltou…

    Sawatari soltou um pequeno riso e levantou a mão para o drone.

    — Oi.

    Maru girou no ar.

    Bli-fip!

    Depois de alguns segundos o drone emitiu outro bip.

    Shimizu piscou.

    — O-o quê?

    Sawatari inclinou a cabeça.

    — Você consegue mesmo entender o que ela diz?

    Shimizu enxugou as lágrimas.

    — Sim. — Sorriu. — É bem fácil. Depois eu te ensino.

    Sawatari riu.

    — Tá bom.

    Nesse momento uma janela apareceu no monitor. Um vídeo começou a carregar.

    Shimizu olhou para a tela.

    — Espera… — Arregalou os olhos.

    Sawatari também olhou.

    — Não acredito… a danadinha fez uma cópia do arquivo.

    Shimizu riu entre lágrimas e pegou Maru.

    — Você é incrível.

    Ela abraçou o drone e depois puxou Sawatari para perto.

    As duas imediatamente gemeram de dor.

    — Ah!

    — Ai…

    Elas se afastaram um pouco rindo.

    Por um instante os rostos ficaram perigosamente muito próximos.

    Shimizu percebeu primeiro e desviou o olhar.

    — D-desculpa… eu…

    Sawatari segurou o queixo dela e a puxou suavemente.

    — Não precisa ficar com vergonha.

    Beijaram-se.

    O beijo foi lento no começo, cheio de hesitação e cansaço, mas logo virou algo mais intenso, cheio de alívio e emoção acumulada da noite inteira. Quando se afastaram, as duas estavam rindo baixinho.

    Shimizu olhou para ela.

    — Quer ter o sexo mais dolorido da sua vida?

    Sawatari soltou uma risada.

    As duas começaram a se beijar novamente enquanto tiravam as camadas de roupa com cuidado por causa dos curativos.

    Maru voou até perto delas.

    Bli?

    Uma calcinha roxa voou pelo ar, acertou o drone e ficou pendurada em uma de suas orelhas.

    Bli!?

    Nos monitores apareceu uma mensagem:

    Arquivo recebido. Claudinhos entregues. Agente 432. Nova missão.

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