O navio rangia como se estivesse prestes a se partir.

    Cada impacto entre os dois titãs enviava ondas gigantescas que levantavam a embarcação e a arremessavam de volta ao mar com violência.

    Barris rolavam pelo convés, cordas se soltavam e as velas estalavam furiosamente no vento. A tripulação lutava apenas para manter o navio inteiro.

    — Bombordo! Segurem o leme! — gritou o capitão, agarrado o leme com os dois braços.

    Outro choque monstruoso ecoou no mar.

    À distância, Vorthalyon enrolou parte de seu corpo colossal ao redor de Thal’Kryss, apertando com força suficiente para fazer a água explodir em espuma branca.

    O Dominador Abissal respondeu com uma onda psíquica tão intensa que até o ar pareceu vibrar.

    No convés, vários passageiros desmaiaram.

    Delilah caiu de joelhos por um instante, a aura dourada tremulando ao redor dela.
    — Eu… não vou conseguir manter isso por muito tempo… — murmurou, a voz fraca.

    Elara segurou seu ombro para evitar que ela caísse.
    — Eu sei que você pode… É o que está salvando todos nós.

    Outro tentáculo gigantesco cortou o mar e atingiu a serpente colossal.

    O impacto ecoou como um trovão.

    Mas Vorthalyon não recuou.

    Seus olhos brancos brilharam intensamente, e a serpente abriu a boca, liberando um rugido profundo que reverberou pelas águas como o som de uma montanha rachando.

    Ember observava aquela batalha impossível com a espada abaixada.
    — Nós não deveríamos sequer estar vendo algo assim… — murmurou.

    — Isso não é apenas uma luta… é uma disputa por território. Um dos homens do grupo dela respondeu, ofegante.

    Ingrid assentiu lentamente.
    — Vorthalyon quer tomar o domínio dele.

    Como se tivesse ouvido aquilo, Vorthalyon mergulhou novamente.

    Seu corpo serpentino desapareceu nas águas negras.

    Por um segundo… dois… três…
    O mar ficou estranhamente silencioso.

    Até Thal’Kryss pareceu hesitar.

    Então o oceano explodiu.

    Vorthalyon emergiu de baixo com uma fúria devastadora, colidindo contra o corpo do Dominador Abissal e arrastando parte dele para as profundezas.

    A água se ergueu em uma coluna gigantesca.
    O navio quase virou.

    — Pelos deuses! — gritou um marinheiro.

    Mas no convés, entre todos que lutavam apenas para sobreviver… Ivar continuava imóvel.
    Seus olhos acompanhavam cada movimento no oceano.

    Nyara percebeu.
    — Isso não te impressiona nem um pouco… — disse ela, tentando se equilibrar.

    Ivar respondeu sem desviar o olhar do mar:
    — Sim… claro que impressiona.

    Outra explosão de água surgiu à distância quando um tentáculo gigantesco foi arrancado e lançado contra as ondas.

    Mas o sorriso leve dele ainda estava ali.
    — Só não é a primeira vez que vejo algo como isso.

    Elara o observou com atenção.
    A forma como ele falava… não era a de alguém que estava presenciando aquela batalha. Era a de alguém que estava lembrando.

    Lá fora, os dois colossos voltaram a emergir.

    Thal’Kryss estava furioso agora. Seus tentáculos agitavam-se violentamente, e a pressão psíquica no ar se tornava mais pesada.

    As criaturas menores, que antes atacavam o navio, agora recuavam. Elas não estavam mais interessadas na embarcação.

    Toda a atenção do Dominador Abissal estava em seu rival.

    Vorthalyon deslizou pelas águas, seu corpo gigantesco serpenteando ao redor do inimigo enquanto buscava uma abertura.

    Era uma batalha entre predadores supremos.
    Nenhum deles se importava com o pequeno navio jogado entre as ondas.

    E talvez… fosse exatamente por isso que a embarcação ainda estava inteira.

    O capitão percebeu primeiro.
    — Estamos fora do foco deles! — gritou ele — Aproveitem! Ajustem as velas! Vamos sair daqui enquanto eles estão ocupados!

    A tripulação correu imediatamente.

    Cordas foram puxadas.

    Velas se abriram novamente.

    O navio começou a se afastar lentamente da área onde os dois titãs lutavam.

    No convés, Ember observou o horizonte turbulento por mais alguns segundos.
    — Tivemos sorte… — disse ela.

    Ivar finalmente desviou o olhar do oceano.

    A batalha colossal continuava à distância, relâmpagos de água e ondas gigantes marcando cada choque entre as criaturas.

    Ele respirou fundo.

    A voz antiga em sua mente ainda estava rindo.
    E pela primeira vez desde o início da viagem…
    Ivar teve a estranha sensação de que aquela batalha no mar… talvez não tenha sido completamente acidental.

    O navio avançava lentamente para longe da batalha. Ainda era possível ver, no horizonte distante, colunas de água se erguendo e caindo como tempestades vivas.

    Cada choque entre os dois titãs fazia o mar tremer, mas a distância aumentava pouco a pouco.

    No convés, o caos começava a dar lugar à exaustão.

    Marinheiros corriam de um lado para o outro avaliando os estragos.

    Uma vela rasgada foi amarrada provisoriamente. Cordas novas substituíram as que haviam arrebentado.

    Um grupo trabalhava apressado para reforçar uma parte do corrimão que havia sido arrancada quando um barril foi lançado contra ele.

    O casco havia sofrido, mas ainda estava inteiro.
    E isso, considerando o que haviam presenciado, já era quase um milagre.

    O capitão finalmente soltou o leme por um instante, passando a mão pela barba molhada.

    Ele respirou fundo, olhando o mar ainda turbulento.
    — Se sobrevivermos a essa viagem… — murmurou ele — vou me aposentar!

    Um dos marinheiros, sentado perto de um monte de cordas, soltou uma risada nervosa.
    — Capitão… o senhor diz isso toda vez que quase morremos.

    O capitão lançou um olhar cansado para ele.
    — E ainda estou aqui, não estou?

    O marinheiro deu de ombros.
    — Infelizmente.

    Alguns tripulantes riram baixo, mais por alívio do que por humor.

    Do outro lado do convés, os Heróis também observavam o horizonte.

    O homem que carregava o grimório ainda mantinha os olhos fixos na linha distante onde a batalha continuava.
    — Eu li sobre esses dois… — disse ele, a voz ainda cheia de incredulidade. — Mas nunca imaginei ver algo assim.

    A mulher do cajado azul assentiu.
    — Lendas são mais confortáveis quando ficam nos livros, Robert.

    — Sim… Você tem razão, Luena. — respondeu Robert, seguido de uma risada de alívio.

    Fenrir agora estava novamente menor, como um filhote. O lobo estava deitado perto de Ingrid, respirando pesado após a batalha.

    Ember permaneceu em silêncio por alguns segundos.

    O vento agitava seus cabelos azuis enquanto ela observava o grupo de Ivar.

    Então ela olhou diretamente para eles.

    Nyara percebeu primeiro.

    Ela cruzou os braços, estreitando os olhos.
    — O quê foi?

    Ember inclinou levemente a cabeça, pensativa.
    — É engraçado…

    Ela apontou discretamente com o queixo para o mar atrás deles.
    — Aquela pressão psíquica derrubou metade do navio. Até alguns dos meus amigos sentiram.

    Os olhos dela então pousaram em Ivar.
    — Mas você… nem piscou.

    O vento soprou entre eles por um momento.

    O mar ainda estava agitado, mas o navio finalmente parecia ganhar distância suficiente da batalha.

    Ivar estava novamente apoiado na amurada.
    Calmo.

    Quase relaxado.

    Como se aquele caos inteiro tivesse sido apenas uma pequena interrupção em sua viagem.

    — Já senti coisas piores… — respondeu simplesmente.

    Nyara soltou um riso curto.
    — Eu acredito nisso.

    Elara, no entanto, observava os dois com atenção silenciosa.

    Ember sustentou o olhar de Ivar por mais alguns segundos. Depois deu de ombros.
    — Bem… espero que você não esteja atraindo coisas como aquela para perto da gente.

    — E como um simples elfo como eu teria essa capacidade ?! — respondeu Ivar.

    A conversa morreu ali.

    Mas a curiosidade de Ember claramente não.

    Um tempo se passou, e sem que percebessem, o amanhecer já havia chegado.

    Pouco a pouco, o mar voltou ao seu ritmo natural. As ondas se tornaram menores, o vento estabilizou e o navio finalmente navegou em águas relativamente calmas.

    A tripulação trabalhou durante todo o tempo fazendo reparos emergenciais. Lanternas iluminavam o convés enquanto martelos batiam na madeira e cordas eram tensionadas novamente.

    Alguns passageiros dormiam espalhados onde conseguiam.

    Outros simplesmente permaneciam sentados, olhando o oceano como se ainda esperassem ver outro monstro surgir.

    Mas nada veio.

    Até que o céu começou a clarear.

    Primeiro um tom pálido no horizonte.
    Depois linhas suaves de laranja e dourado começaram a cortar a escuridão.

    Delilah, que havia adormecido encostada em um barril, abriu os olhos lentamente quando os primeiros raios tocaram o convés.

    Nyara estava sentada perto da amurada, olhando o horizonte.

    Elara permanecia acordada.

    E Ivar… estava exatamente onde sempre parecia estar.
    Observando o mar.

    Então…

    A água à frente do navio se agitou novamente.
    Não violentamente.
    Mas de forma profunda.

    Como se algo gigantesco estivesse subindo das profundezas.

    Marinheiros congelaram.
    Um deles apontou.
    — Capitão…

    O capitão virou o rosto lentamente.
    E então todos viram.

    A superfície do oceano se abriu suavemente… e Vorthalyon emergiu.

    A colossal serpente de escamas negras de marfim ergueu parte de seu corpo acima das águas, grande o suficiente para lançar uma sombra cinco vezes maior sobre o navio inteiro.

    Mas desta vez… não havia rugido.
    Não havia hostilidade.
    A criatura apenas se aproximou.
    Devagar.

    Os enormes olhos brancos da serpente se inclinaram para observar o convés.

    Tripulantes ficaram imóveis.
    Ninguém ousava sequer respirar.

    Vorthalyon observou cada pessoa a bordo.

    Os Heróis.

    Os marinheiros.

    Os passageiros.

    E então…
    Seus olhos pararam em Ivar.
    O silêncio ficou ainda mais profundo.

    Ivar sustentou o olhar da criatura colossal.
    Nenhum medo.
    Nenhuma surpresa.
    Apenas reconhecimento.

    Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, os dois permaneceram assim.

    Então Vorthalyon se afastou do navio, em seguida inclinou lentamente a cabeça.

    Um gesto simples.
    Quase… respeitoso.

    Depois a serpente colossal se afastou.
    Seu corpo gigantesco deslizou de volta para o oceano, desaparecendo nas profundezas com a mesma calma com que havia surgido.

    As águas se fecharam novamente.
    O mar voltou ao silêncio.

    No convés, ninguém falou por um longo tempo.
    Até que um marinheiro sussurrou, completamente pálido:
    — …ela… acabou de cumprimentar alguém?

    Nyara virou lentamente o rosto para Ivar.
    Elara também.
    E desta vez… até Ember.

    Mas Ivar apenas olhava o horizonte.
    Como se aquilo também fosse apenas mais uma lembrança distante.

    O silêncio que se seguiu ao desaparecimento da grande serpente permaneceu por um longo tempo.

    O mar parecia ter voltado ao normal, mas ninguém no convés estava disposto a fingir que aquilo havia sido apenas mais um momento estranho de uma viagem comum.

    O capitão foi o primeiro a respirar fundo e quebrar o transe.
    — Muito bem… — disse ele, esfregando o rosto com as mãos. — Continuem trabalhando! O mar não paga pelas nossas histórias.

    Os marinheiros voltaram lentamente às suas tarefas.

    Alguns ainda lançavam olhares nervosos para a água, como se esperassem que a colossal serpente retornasse a qualquer instante.

    Mas ela não voltou.

    E o navio seguiu seu curso.

    Dias depois…

    O oceano finalmente parecia… normal.

    O vento soprava constante nas velas, o mar ondulava em ritmo calmo, e o sol passava seus ciclos sem trazer mais monstros ancestrais à superfície.

    A tensão da tripulação começou a se dissipar.

    Marinheiros voltaram aos hábitos comuns de uma longa viagem.

    Num canto do convés, quatro deles estavam sentados sobre barris, jogando cartas gastas pelo tempo.
    — Você roubou! — acusou um deles, apontando para o outro.
    — Roubei nada! — respondeu o acusado, exibindo um sorriso cheio de dentes faltando — Você que não sabe jogar!

    Outro marinheiro bateu na mesa improvisada.
    — Aposto duas moedas que ele roubou!
    — Aposto três que você é burro!

    As risadas se espalharam.

    Mais à frente no convés, dois bardos que viajavam como passageiros haviam se juntado.

    Um afinava um alaúde enquanto o outro testava as cordas de uma pequena harpa.

    Logo uma melodia suave começou a preencher o ar. Não era uma música grandiosa, mas tinha o tipo de ritmo que tornava o balanço do navio quase confortável.

    Alguns passageiros até começaram a cantar junto.

    A serenidade, pouco a pouco, voltava ao convés.

    Perto da amurada, os dois grupos agora estavam menos distantes do que nos primeiros dias.

    Nyara estava sentada sobre uma caixa, girando uma faca entre os dedos.
    Robert estava perto dela, observando curioso.
    — Você faz isso para impressionar ou para me deixar nervoso?

    Nyara sorriu sem olhar para ele.
    — Os dois.

    Ingrid estava sentada no convés, enquanto Fenrir mordiscava distraidamente uma corda.

    Delilah estava agachada ao lado dele.
    — Ele sempre muda de tamanho assim?

    Ingrid riu suavemente.
    — Só quando quer. Ou quando fica com raiva.

    Fenrir ergueu a cabeça como se tivesse entendido e soltou um pequeno latido.

    Delilah riu.

    Ao lado, Victor o lanceiro e Ethan o arqueiro, conversavam.
    – Ethan, você tem que se soltar mais, cara! – diz Victor, colocando a mão no ombro de Ethan — Sei que você é o mais novo no grupo, mas estamos nessa juntos. Pode falar com a gente! — ele da um joinha, seguido por um sorriso.

    – Não, tô de boa… – respondeu Ethan, seco.

    Mais perto da amurada, Ember estava novamente ao lado de Ivar. A brisa agitava os cabelos azuis dela.

    Por alguns segundos, ela apenas observou o mar.
    — Então… — disse finalmente — você realmente espera que eu acredite que tudo aquilo foi coincidência?

    Ivar manteve o olhar no horizonte.
    — Coincidências acontecem…

    — Não desse tamanho.

    Ele deu um pequeno sorriso.
    — Esse mundo é bem grande, Ember.

    Ela apoiou os cotovelos na amurada.
    — Você é péssimo em responder perguntas.

    — Eu não estou respondendo.

    Ela riu.

    Elara observava os dois à distância, em silêncio.
    Mas, desta vez, não parecia preocupada.
    Apenas… pensativa.

    Mais alguns dias depois…

    O clima no navio já era completamente diferente.

    Histórias sobre a batalha entre Thal’Kryss e Vorthalyon estavam sendo contadas como se fossem lendas antigas, mesmo tendo acontecido poucos dias antes.

    Cada pessoa parecia lembrar do evento de uma forma diferente.

    — O tentáculo tinha o tamanho de uma montanha! — dizia um marinheiro.

    — Duas montanhas! — corrigia outro.

    — Eu vi o capitão chorando! — alguém gritava.

    — Eu nunca chorei! — gritou o capitão de algum lugar do convés.

    As risadas voltavam a ecoar.

    O mar continuava tranquilo.

    Até que, numa manhã clara, um grito veio do topo do mastro.
    — TERRA À VISTA!

    O convés inteiro se agitou.
    Passageiros correram até a amurada.
    Marinheiros apontavam para o horizonte.

    E lá estava.

    Primeiro apenas uma linha escura no limite do mar.

    Depois, conforme o navio se aproximava, as formas começaram a surgir.

    Grandes falésias.

    Colinas verdes.

    Torres distantes refletindo a luz do sol.

    E acima delas, bandeiras que balançavam com o vento.

    — Valtherion… — murmurou um dos passageiros.

    A cidade portuária que era o destino daquela longa travessia.

    Mesmo de longe já era possível ver a movimentação do grande porto, dezenas de embarcações entrando e saindo, docas enormes e muralhas protegendo a cidade.

    Nyara esticou os braços.
    — Finalmente.

    Delilah sorriu, aliviada.
    — Terra firme!

    Robert fechou seu grimório com um estalo.
    — Eu definitivamente prefiro monstros em terra.

    Ember olhou para a cidade que crescia no horizonte… Depois olhou para Ivar.
    — Bem… parece que chegamos vivos.

    — Graças aos deuses! —Ivar assentiu, sarcasticamente.

    Mas seus olhos permaneceram no mar por um instante a mais.

    Como se soubesse que aquela viagem… talvez tivesse sido apenas mais um capítulo de algo muito maior.

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