Índice de Capítulo

    Narrado por Aisha

    Ajustei a almofada sob a cabeça de Lucas com cuidado.

    Ele se mexeu um pouco, soltando um som baixo, mas não acordou.

    Melhor assim, a cor ainda estava voltando ao rosto dele.

    Puxei o lençol até o peito dele, hesitando por um segundo antes de cobrir completamente o ferimento. A poção tinha fechado a carne… mas eu ainda conseguia imaginar a dor que ele sentiu… do que Kael precisou fazer.

    Desviei o olhar.

    A respiração dele estava mais estável.

    Ainda irregular.

    Mas viva.

    Isso já era alguma coisa.

    Fiquei ali por mais um momento do que eu realmente precisava.

    Então me afastei.

    O som veio primeiro.

    Baixo.

    Constante.

    O fogo.

    Virei o rosto.

    Kael estava na cozinha.

    De costas.

    Mexendo uma panela, parecia perdido nos pensamentos.

    Como se não tivesse acabado de… aquilo.

    Franzi a testa.

    Era estranho.

    Não o ato em si.

    Ele cozinhava como se aquilo não tivesse passado pelas mãos dele…

    Cruzei os braços, encostando no batente.

    — Você já se acostumou com isso né?

    Ele não virou.

    — Isso o quê?

    Soltei um sopro curto, meio sem humor.

    — Cozinhar… depois de ajudar alguém a não morrer enfiando a mão dentro dele

    Ele me olhou de canto.

    — Esse é um jeito estranho de dizer isso mas sim… Alguém precisa fazer isso.

    Claro… resposta curta.

    Fria.

    Mas não é o jeito dele.

    Alguma coisa estava errada.

    Endireitei a postura e dei alguns passos em direção à cozinha.

    — Você já viu isso antes, não viu?

    Ele hesitou.

    Foi rápido.

    Mas eu vi.

    — Coisas piores.

    Revirei os olhos.

    — Eu não estou falando do Lucas.

    Mais um passo.

    — Aquilo lá fora.

    — Usando uma magia que faz as pessoas perderem a noção da realidade.

    Silêncio.

    Ele apoiou a colher na panela, mas não se virou.

    — Já vi uma magia que faz algo parecido.

    — Mas não igual.

    Engoli seco.

    Ótimo.

    Nada disso estava ficando melhor.

    — Então é novo?!

    — Infelizmente.

    Ótimo.

    Passei a mão pelo braço, tentando ignorar o arrepio. Ficar no escuro em um combate sempre foi a receita para a morte.

    — Sempre bom quando é algo novo tentando matar a gente.

    Nenhuma resposta.

    Aquilo começou a me irritar de verdade. Kael sempre foi conversador e agora parece que virou outra pessoa.

    Olhei para ele com mais atenção.

    Controlado demais.

    Como se qualquer coisa fora do lugar fosse… perigosa.

    Foi aí que eu percebi.

    Ele não estava calmo.

    Ele estava segurando alguma coisa.

    E foi aí que a pergunta veio.

    — Por que você recusou me ensinar o seu estilo de luta?

    O silêncio caiu pesado.

    Dessa vez ele não se moveu.

    Nem um pouco.

    — Não é só o meu estilo de luta, eu evito ensinar coisas sobre o combate.

    Meu peito apertou.

    — Por que?

    — Porque não adianta — ele disse.

    Franzi a testa.

    — Como assim não adianta?

    Dei mais um passo.

    — Hoje morreu gente porque ninguém sabia se defender.

    A resposta veio mais rápida.

    — Eu sei.

    Aquilo me fez travar por um segundo.

    Porque ele não negou.

    Não tentou justificar.

    Ele sabia.

    — Então por quê? — insisti, mais baixo agora.

    Ele virou o rosto.

    Só um pouco.

    E a sua expressão…

    E a expressão dele me pegou desprevenida

    Não era frieza.

    Era… cansaço.

    Cansaço de um jeito que eu não tinha visto nele ainda.

    — Porque eu já fiz isso antes.

    O ar ficou pesado.

    Esperei.

    Ele não continuou.

    Claro que não.

    Apertei os dedos contra o braço.

    — E?

    Ele desviou o olhar.

    Voltou para a panela.

    Como se aquilo fosse mais fácil.

    — E não terminou diferente.

    Meu estômago revirou.

    “E desde quando isso era justificativa?!”

    Olhei por cima do ombro.

    Lucas estava ali.

    Respirando.

    Vivo por pouco.

    Voltei para Kael.

    — E isso justifica?

    — O que?

    — Todo o sangue em suas mãos… O sangue desses jovens que morreram sem se defender porque você decidiu não os ensinar a lutar?…

    A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar melhor.

    Ele parou.

    O silêncio se esticou.

    — Garota…

    Ele se virou me olhando

    De verdade dessa vez.

    E eu me arrependi de ter perguntado.

    Ou quase.

    — Você é só uma criança que não sabe do que está falando.

    A palavra foi baixa.

    — Não é porque você é a discípula do meu irmão que pode sair falando de coisas que não entende…

    Engoli seco.

    Olhei para Lucas de novo.

    Depois para Kael.

    — Você quer saber?

    Ele deu um passo a frente enquanto me olhava como se fosse outra pessoa… nada nele me lembrava kael dos últimos dias.

    — Quer saber o que aconteceu da ultima vez que eu treinei alguém?

    E pela primeira vez desde que conheci os guardiões…

    Eu não vi alguém que parecia invencível.

    Eu não respondi.

    Não precisava.

    Ele já tinha decidido falar.

    Kael desviou o olhar por um instante.

    Como se organizar aquilo custasse mais do que enfrentar qualquer coisa lá fora.

    — Eles não eram soldados.

    A voz saiu baixa.

    Controlada.

    — Eram dois idiotas com pressa de crescer.

    Um sopro curto pelo nariz.

    Quase um riso.

    Sem humor.

    — E eu fui idiota o suficiente pra deixar.

    Cruzei os braços com mais força.

    Mas não falei nada.

    — Eu ensinei o básico.

    — Sobre Postura.

    — Movimento.

    — Como não morrer nos primeiros segundos.

    Ele passou a mão pelo rosto.

    Devagar.

    — Mas aqueles dois não eram só bons, absorviam tudo com facilidade.

    Pausa.

    — Até que eles cruzaram a linha.

    O silêncio pesou.

    — Eu sai

    — Era uma patrulha simples — ele continuou. — Eu… precisava colocar a cabeça no lugar.

    Ele voltou para a frente do fogo.

    — Mas quando voltei…

    Ele levantou os olhos.

    — A porta do bar estava aberta.

    — Não tinha sinais de luta.

    — Só… marcas.

    Engoli seco.

    — E então eu vi o primeiro.

    A voz dele baixou.

    — Não era inimigo.

    — Era o filho do dono do moinho.

    Ele se sentou de volta no banco encarando as chamas.

    — O que houve? — perguntei reunindo coragem.

    — Aqueles dois espancaram cinco jovens junto com o dono do bar.

    O fogo estalou alto.

    — Quando finalmente achei eles…

    Ele levantou o olhar.

    — Estavam rindo.

    Aquilo me gelou.

    — Tão bêbados que não me reconheceram.

    Ele me encarou.

    Os olhos marejados, mas firmes.

    — Você acha que o que aconteceu aqui foi ruim?

    O ar ficou pesado.

    — Um deles… — ele respirou fundo — me atacou.

    Senti o corpo travar.

    — E você…?

    Ele sustentou meu olhar.

    — Eu não hesitei.

    Pausa.

    — Meu corpo respondeu antes de mim.

    Silêncio.

    — Eu fui mais rápido.

    Nada mais precisava ser dito.

    Mesmo assim ele continuou.

    Porque precisava.

    — Quando acabou…

    Ele olhou para as próprias mãos.

    — Não tinha inimigo derrotado.

    — Não tinha vitória pra fazer sentido.

    — Só… corpos.

    A palavra caiu pesada.

    — Eu enterrei todos.

    Senti algo apertar no peito.

    — Inclusive eles.

    O silêncio voltou.

    Mas agora era diferente.

    Era fundo.

    — Foi naquele dia…

    Ele levantou o olhar.

    — Que eu entendi uma coisa.

    Esperei.

    Sem respirar direito.

    — Ensinar alguém a lutar…

    — sem ensinar quando parar…

    — é só dar uma arma pra tragédia acontecer mais rápido.

    Aquilo me atingiu em cheio.

    — Então não — ele continuou, firme agora — eu não ensino mais.

    — Não daquele jeito.

    Olhei para Lucas.

    Depois para Kael.

    — E o que aconteceu aqui? — perguntei, mais baixo.

    — Isso aqui não foi escolha. — Ele respondeu na hora.

    — Eles não tiveram chance.

    Ele deu um passo atrás.

    — Não como aqueles dois tiveram…

    Eu não sabia o que dizer depois daquilo.

    Nem tinha certeza se devia.

    Foi quando ouvi a voz.

    — Então foi isso?

    Eu virei o rosto.

    A frase foi leve.

    Quase curiosa.

    Como alguém que estava ouvindo uma história… e chegou na parte interessante.

    Demorei um segundo para entender.

    E isso foi o mais estranho.

    Nada parecia errado.

    Havia uma mulher sentada na mesa ao lado de Lucas.

    Ao lado dela Helena comia uma cesta de frutas.

    Como se sempre estivessem estado ali.

    Mas eu não me lembrava dela.

    Meu corpo não reagiu.

    Não de imediato.

    A mulher tinha pele oliva, os cabelos negros caindo lisos sobre os ombros, longos até a cintura. Os olhos… amarelos.

    Mas não havia ameaça neles.

    Só interesse.

    Helena estava encostada nela.

    Tranquila.

    Como se estivesse com alguém conhecido.

    — Você deixou eles sozinhos… — ela continuou, inclinando levemente a cabeça para Kael — e eles decidiram brincar de guerra.

    A voz não era acusadora.

    Era… leve.

    Quase divertida.

    Senti um incômodo.

    Pequeno.

    Difícil de explicar. eu sentia que conhecia ela mas não conseguia me lembrar.

    — Quem…? — comecei.

    Mas parei.

    Porque a pergunta não fazia sentido.

    — Eu achei curioso — ela disse, passando os dedos de leve pelo braço de Helena, como se testasse textura — Ah… então você decidiu ser o culpado da história.

    Helena riu baixo.

    — Curioso não é pequena? — Ela falou apoiando uma das mãos sobre a cabeça de Helena e bagunçando os cabelos.

    Aquilo me deu um arrepio.

    Olhei para Kael.

    Ele estava olhando para ela.

    — Eu não falei isso.

    — Não com essas palavras né vamos concordar. — Ela inclinou a cabeça.

    Kael estava calmo.

    Atento.

    Mas não em guarda.

    — E você ouviu tudo isso? — ele perguntou.

    Natural.

    Como se aquilo fosse uma conversa normal.

    — Ouvi — ela respondeu, simples. — Histórias são interessantes.

    Um pequeno sorriso surgiu.

    — E eu me considero uma colecionadora. — Ela pegou uma das frutinhas do cesto de Helena e jogou na boca,

    O ar ficou… estranho.

    Mas ainda assim…

    Nada gritava perigo.

    — E você é? — perguntei.

    Ela olhou pra mim.

    Como se só agora tivesse me notado.

    — Ah — Ela sacudiu as mãos — Ninguém importante.

    Um sorriso de canto.

    Meu estômago apertou.

    Pequeno.

    Instintivo.

    Ela voltou o olhar para Lucas.

    Observou.

    Mais tempo do que deveria.

    — Eu tenho que admitir — murmurou — que estou surpresa…

    A voz saiu baixa.

    Quase um sussurro satisfeito.

    — Não achei que ele ainda estaria vivo. — Ela apoiou uma das mãos sobre o braço de lucas — Correu mais do que eu esperava…

    O mundo parou por um segundo.

    Algo dentro de mim tentou reagir.

    Mas não conseguiu.

    Não fez sentido o suficiente.

    — Você conhece ele? — perguntei.

    Ela não respondeu de imediato.

    Só inclinou a cabeça.

    Observando.

    — Conhecer é uma palavra forte…

    Os olhos voltaram para Kael.

    — Ainda não ouvi sobre ele o suficiente, mas isso fica pra depois.

    Silêncio.

    Kael deu um passo.

    Lento.

    Controlado.

    — Porque?

    Ela sorriu.

    Um pouco mais agora.

    A palavra caiu leve demais.

    Quase casual.

    — Porque agora… — ela sorriu, devagar — Você parece mais interessante..

    E foi isso.

    Alguma coisa quebrou.

    Não na sala.

    Em mim.

    A sensação de normalidade… escorregou.

    Devagar.

    Como se nunca tivesse sido sólida de verdade.

    Meu coração acelerou.

    Olhei para Helena.

    Ela ainda estava tranquila.

    Comendo.

    Aquilo estava errado.

    Errado de um jeito que não fazia sentido.

    Olhei de volta para a mulher.

    E pela primeira vez…

    eu realmente olhei.

    Não para o rosto.

    Não para os olhos.

    Mais abaixo.

    E então vi.

    A cauda.

    Grossa.

    Verde.

    Enrolada sob a mesa.

    Como eu não tinha visto aquilo antes?

    Meu estômago virou.

    Kael se moveu.

    Rápido.

    Sem aviso.

    A faca já estava na mão.

    — Aisha. Helena.

    A voz dele mudou completamente.

    Fria.

    Cortante.

    Eu não hesitei.

    Avancei.

    Puxei Helena para trás.

    Ela reclamou.

    Confusa.

    — O que foi—?

    Kael já estava em movimento.

    A lâmina cortou o ar.

    A mulher recuou, rápido demais.

    E por um segundo…

    ela pareceu surpresa.

    De verdade.

    Parou próxima à porta.

    As mãos para trás.

    A postura relaxada.

    E então sorriu.

    Largo.

    Satisfeito.

    — Demorou.

    A mana no ar ondulou.

    Agora eu sentia.

    Pesada.

    Errada.

    Pressionando.

    Kael avançou de novo.

    A faca atravessou o espaço onde ela estava.

    Mas não encontrou resistência.

    O corpo dela se distorceu.

    Como reflexo em água.

    — Eu gostei de você — a voz dela veio de algum lugar que não era mais ali — você presta atenção.

    Pausa.

    Um sopro leve, quase rindo.

    — Mas não o suficiente.

    E então ela sumiu.

    Sem rastro.

    Sem som.

    Silêncio.

    Pesado.

    Imediato.

    Helena começou a chorar.

    Baixo.

    Confuso.

    Eu a puxei contra o peito.

    Forte demais.

    Meu coração estava batendo alto.

    Olhei para onde a criatura estava.

    E foi aí que eu vi.

    Algo no chão.

    Meu cérebro demorou a aceitar.

    Um braço.

    Do cotovelo ao punho.

    Imóvel.

    Sangue escorrendo devagar pela madeira.

    Pisquei.

    Uma vez.

    Duas.

    Não fazia sentido.

    Olhei para Kael.

    — O que… foi isso?

    Ele não respondeu.

    Os olhos presos no braço.

    Respiração contida.

    Então ele olhou para as próprias mãos.

    Como se estivesse confirmando algo.

    Depois para mim.

    — De quem?

    A pergunta saiu baixa.

    Errada.

    Olhei de volta para a mesa.

    E só então vi.

    O sangue.

    Não no chão.

    Na mesa.

    Escorrendo pela madeira.

    Meu estômago afundou.

    E meus olhos subiram.

    Devagar.

    Até Lucas.

    O corpo dele ainda estava deitado.

    Mas agora…

    o braço não estava mais lá.

    Meu cérebro recusou.

    Por um segundo inteiro.

    Não.

    Não.

    Não.

    O ar travou nos meus pulmões.

    — …

    — LUCAS!

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