Índice de Capítulo

    Raphael se encolheu ao entrar na sala de reuniões dentro da Nave-Flagelo Aurora Septima. Assim que cruzou as portas automáticas de aço, sentiu a mudança no ar. O corredor externo era estreito, funcional, cheio de cabos aparentes e painéis de manutenção. A sala de reuniões era diferente. Ampla. Limpa. Silenciosa. Num grande visor se via uma imagem do espaço cortado pelo verde de Tartarus.

    O chão negro refletia a iluminação branca do teto em linhas longas e retas. A mesa central ocupava quase todo o espaço. Um bloco de material escuro, polido o suficiente para refletir as figuras ao redor.

    Seus olhos se prenderam, quase de imediato, no homem magro parado ao lado do General Cassio Russo.

    Foi automático. Como se algo o puxasse.

    Chegou a escutar a expressão de surpresa de Alina atrás dele. Um pequeno som preso na garganta, rapidamente abafado.
     

    Raro.
     

    Muito raro ver uma Matriarca perder o controle, mesmo que por um segundo.
     

    Raphael não virou para confirmar. Não precisava.
     

    O homem ao lado do General não se mexia. Apesar de quase desaparecer na sombra do corpo largo de Cassio Russo, havia algo nele que não permitia ignorá-lo.
     

    Os cabelos longos escorriam pelos lados do rosto, finos, lisos, caindo até o peito. Os olhos estavam abertos demais. Não era a cor que chamava atenção, mas o padrão dentro deles. As íris pareciam conter círculos sutis, linhas que se moviam quando a luz batia. Runas escuras pareciam se escrever sozinhas na pele pálida demais.
     

    Raphael teve a impressão de que aqueles olhos não estavam apenas olhando.
     

    O sorriso do homem era largo demais para o rosto estreito. Mostrava dentes demais. Não era um sorriso social. Era um sorriso que parecia não  ligação com o que acontecia ao redor.
     

    Raphael pigarreou e desviou o olhar por um instante, quebrando o contato. A sensação incômoda diminuiu.
     

    Lembrou-se do motivo de estar ali
     

    Tinha vindo do planeta para a nave em órbita, um desvio desnecessário. Bastava receber as coordenadas. Ele e Alina não precisavam subir até a nave para depois voltar. Aquilo era estranho. Por um instante achou que a Legião queria atrapalhar sua investigação.
     

    Aquilo já o tinha irritado.
     

    A presença do estranho piorava tudo. Raphael não gostava de surpresas.
     

    Ele caminhou até a mesa e parou do lado oposto ao General.
     

    — General Cassio, por que me chamou? — disse, seco, sem qualquer tentativa de suavizar o tom. — Uma chamada pelo comunicador não bastava?
     

    Cassio Russo não reagiu à provocação.
     

    O general estava de pé, mãos apoiadas na mesa escura. As veias grossas do pescoço estavam tensas. O maxilar travado. Ele já parecia irritado antes mesmo de Raphael chegar.
     

    Mais um desrespeito não mudaria isso.
     

    — Inquisidor Raphael. Matriarca Veyne — disse ele, olhando primeiro para um, depois para o outro. — Tirei vocês do caminho porque temos uma complicação.
     

    Alina caminhou até a mesa em silêncio e parou ao lado de Raphael. Sua postura já havia voltado ao normal. Ombros retos. Queixo erguido. As mãos cruzadas sobre o peito.
     

    Ela também olhava para o estranho.
     

    Cassio virou o rosto para o homem magro ao seu lado antes de continuar.
     

    — Nosso aliado… — disse, com uma pausa curta — o bruxo Ithrann Vale, profetizou que precisa ir com vocês para a superfície de Tartarus.
     

    Raphael não se mexeu. Mas sentiu o arrepio nas costas. Uma película de suor brotou na testa.
    Um bruxo. Uma das maiores heresias que poderiam existir.

    Raphael sentiu vontade de gritar com o General. Mas algo na expressão dele o fez parar e engolir a raiva e o enjoo.
     

    — Estamos com um risco real de uma nova ruptura — completou o General.
     

    — E só eu posso parar isso — falou o bruxo. — Posso contar com seu auxílio senhor inquisidor? Senhora Matriarca?
     

    O sorriso dele se alargou ainda mais.
     

    Raphael teve a impressão absurda de que havia dentes novos ali que não estavam antes.
     

    Alina deixou a mão cair sobre a mesa.
     

    Não foi um gesto brusco. Foi controlado. Mas o impacto seco do contato ecoou na sala silenciosa.
     

    — Isso é algum tipo de brincadeira? — perguntou Raphael.

    O olhar dele voltou para o General, ignorando deliberadamente o bruxo.
     

    — Bem que eu queria que fosse — respondeu Cassio.
     

    O general levantou uma das mãos.
     

    O tampo negro da mesa respondeu ao gesto. Um campo de luz surgiu no centro da superfície polida e se expandiu em silêncio. Linhas se cruzaram. Camadas de dados surgiram uma sobre a outra até formar um mapa tridimensional da superfície de Tartarus.
     

    Picos de relevo apareceram. Planícies escuras. Fendas profundas.
     

    Então os pontos surgiram.
     

    Primeiro alguns.
     

    Depois dezenas.
     

    Depois centenas.
     

    Pequenos sinais vermelhos piscando em intervalos constantes. Entre eles, poucos pontos azuis apareciam e desapareciam lentamente.
     

    — Cada um desses pontos azuis é um local onde estamos detectando alteração na frequência de aether — explicou o General.
     

    Ele passou o dedo sobre o mapa e ampliou uma região.
     

    — Os vermelhos são os cadetes do Domatorum. Alguns também são dos meus homens que já desembarcaram.
     

    Raphael se inclinou um pouco sobre a mesa.
     

    O mapa reagiu ao movimento dele, ampliando ainda mais o setor central.
     

    — Estamos acompanhando esses sinais em tempo real há dois dias — continuou Cassio.
     

    Um silêncio curto tomou a sala.
     
    Então o dedo ossudo de Ithrann entrou no campo de luz.
     
    Ele não pediu permissão.
     

    A unha longa tocou um dos pontos azuis e o mapa se reorganizou ao redor dele.
     

    — Mas o único que importa é esse daqui — disse o bruxo. — Talvez esses daqui também…
     

    Seu dedo tocou dois pontos vermelhos, próximos do azul.
     

    A voz dele era baixa mas trazia uma empolgação doentia.
     

    Um dos pontos vermelhos pulsou mais forte no mapa ampliado.
     

    — Vamos ter uma surpresa aqui — continuou ele.
     

    Fez uma pausa.
     
    O sorriso não saiu do rosto.
     
    — Na verdade… duas.
     

    Raphael e Alina trocaram um olhar rápido.
     
    Nenhum dos dois falou.
     
    Cassio observou a troca e assentiu.
     
    — Vocês partem imediatamente — disse ele.
     

    O mapa continuava pulsando na mesa entre eles.
     

    O ponto vermelho permanecia no centro da projeção, brilhando no meio da superfície hostil de Tartarus.
     

    E o sorriso de Ithrann Vale não diminuía.
     



     

    — Temos mesmo que fazer isso? — perguntou Lyra, a voz baixa, quase arrastada. — Está tão bom ficar aqui com você…
     

    Tyla não respondeu de imediato.
     

    Aproximou-se. Lyra prendeu o fôlego.
     

    Os lábios da garota encontraram os de Lyra sem pressa. O calor da caverna parecia se concentrar naquele ponto de contato. O cheiro dela, pele, suor, o combustível do fogareiro. Tudo tomou conta da percepção de Lyra por um instante inteiro. Todo o resto ficou distante.
     

    Quando se afastaram, os olhos de Tyla refletiam a luz instável do fogo. Pequenos pontos dourados tremiam nas íris.
     

    — Você mesma chegou à conclusão de que resta pouco tempo pro fim da caçada — disse ela.
     

    Lyra soltou o ar devagar, ainda próxima demais.
     

    — Eu sei… — murmurou. — Mas ao mesmo tempo, não quero me separar de você.
     

    Tyla sustentou o olhar. O rosto não suavizou.
     

    — Se você falhar na caçada, não importa sua tolerância. Eles vão descartar você — disse, direta. — Aí que não ficamos juntas mesmo.
     

    Deu um passo para trás, criando espaço.
     

    — Enquanto estivermos no Domatorum, temos mais três anos.
     

    O silêncio ficou entre as duas por um momento curto.
     

    Lyra acabou sorrindo. Um sorriso pequeno, mas firme.
     

    Ergueu os braços acima da cabeça, alongando o corpo. Os músculos ainda estavam rígidos do frio e do esforço dos últimos dias.
     

    — Me convenceu.
     

    Começaram a se mover quase ao mesmo tempo.
     

    O espaço da caverna voltou a ter movimento.

    Mochilas abertas. Compartimentos sendo fechados com cliques secos. Partes da armadura sendo verificadas uma a uma. O som do tecido multiuso deslizando contra a pele substituiu o silêncio anterior.
     
    Vestiram os macacões.
     
    O material escuro se ajustou ao corpo com precisão, selando calor e amplificando o contato com os sistemas da armadura.
     

    Tyla passou os dedos pelo tecido no braço de Lyra, testando a vedação.
     

    — Eu podia me acostumar a ver você sempre assim — disse, em tom leve.
     

    Lyra inclinou a cabeça.
     

    — Assim como?
     

    — Sem essa camada entre você e o mundo.
     

    Lyra segurou o olhar dela por um segundo a mais.
     

    — Você me acha bonita?
     

    Tyla não respondeu com palavras.
     

    Aproximou-se de novo e a beijou, mais curto dessa vez. Sem pausa.
     

    Quando se afastaram, já estavam em movimento.
     

    Fecharam os capacetes.
     

    O mundo externo voltou como um impacto.
     

    A claridade refletida na neve atravessou o visor de Lyra por um instante antes que o sistema reagisse. A lente escureceu automaticamente, ajustando o contraste. O branco deixou de ser cegante, mas continuava dominante.
     

    O vento bateu contra a armadura com força, carregando partículas finas de gelo que riscavam a superfície externa.
     

    Lyra piscou duas vezes e acessou o painel interno.
     

    Os reservatórios de aether surgiram no canto do visor.
     

    Vinte e seis por cento.
     

    Pouco.
     

    — Como está seu marcador de aether? — a voz de Tyla veio pelo comunicador, limpa, sem interferência.
     

    Lyra respondeu.
     

    Houve uma pausa breve.
     

    — Minha armadura ainda tem quase cinquenta por cento — disse Tyla. — Se precisar, dividimos.
     

    Lyra assentiu, mesmo sabendo que o gesto não era necessário. O rosto esquentou dentro do capacete.
     

    — Obrigada.
     

    A resposta saiu mais baixa do que ela pretendia.
     

    Uma movimentação aethérica se formou ao lado de Tyla.
     

    O ar pareceu se condensar, partículas douradas se agrupando, ganhando densidade. Em poucos segundos, a forma se definiu.
     

    Uma grande criatura simiesca de pelos brancos surgiu, sólida, respirando, o vapor saindo do focinho no ar gelado.
     

    Polarion.
     

    A nova feraether de Tyla.
     

    A criatura olhou ao redor, avaliando o ambiente, e então deu o primeiro passo na neve. O peso afundou o solo, mas o movimento foi estável, seguro.
     

    — Vamos usar os sentidos dele para encontrar outros — disse Tyla.
     

    Lyra sentiu um impulso imediato no peito. Quase um salto de empolgação.
     

    Com a ajuda de Tyla, o caminho para o próprio Polarion deixava de parecer distante.
     

    A feraether avançou na frente. Andaram quase um quilômetro.
     

    Lyra parou por um instante e olhou para a entrada da caverna atrás delas que já desaparecia sob a neve que caía.
     

    O abrigo improvisado. A luz do fogareiro. O lugar onde quase morreu.
     

    E onde, de alguma forma, tinha encontrado algo que não esperava.
     

    Percebeu, só então, que o peso constante nos ombros, a dúvida, a pressão e o medo, não estava mais ali com a mesma força.
     

    O sorriso voltou, discreto, insistente.
     

    Fazia tempo que não se sentia assim.
     

    Não teve tempo de sustentar a sensação.
     

    Polarion parou.
     

    A cabeça da criatura se ergueu. As narinas se abriram. O corpo inteiro tensionou.
     

    Um segundo depois, o chão respondeu.
     

    O tremor veio de baixo, profundo, irregular.
     

    Lyra precisou ajustar os pés para não perder o equilíbrio. A neve cedeu sob as botas.
     

    Tyla também se firmou ao lado dela.
     

    Uma árvore, pesada com neve acumulada, cedeu alguns metros adiante e caiu com um estalo seco, levantando uma nuvem branca no impacto.
     

    O som ecoou pelo vale.
     

    Então, silêncio.
     

    O tremor cessou.
     

    Lyra virou o rosto para Tyla.
     

    O sorriso que a acompanhava até então não estava mais lá.
     

    Havia outra coisa.
     

    Atenção. Foco. Algo sendo processado.
     

    — Você está sentindo isso? — perguntou Lyra.
     

    — O quê? — Tyla franziu levemente o cenho. — Não sinto nada.
     

    Lyra ficou imóvel por um instante.
     

    A sensação não vinha do ambiente.
     

    Vinha de dentro.
     

    Um puxão.
     

    Indistinto, mas constante.
     

    Quando tentava ignorar, ele aumentava.
     

    Quando desviava o corpo, ele reagia.
     

    Como se algo… respondesse.
     

    Rin.
     

    A lembrança veio sem esforço. O garoto quieto. O olhar distante. A presença nos sonhos. Lembrou-se da chave que ele disse ter lhe entregado.
     

    A mesma sensação.
     

    Lyra virou ligeiramente o corpo.
     

    O puxão mudou.
     

    Intensificou.
     

    Polarion mantinha o olhar fixo à esquerda.
     

    O instinto puxava Lyra para a direita.
     

    Direções opostas.
     

    Ela respirou fundo.
     

    — Eu preciso ver o que é isso, Tyla — disse. — Confia em mim?
     

    Tyla sustentou o olhar dela por um segundo.
     

    A expressão de estranheza se desfez.
     

    Um sorriso leve surgiu.
     

    Ela estendeu a mão.
     

    — Claro. Vamos.
     

    Lyra segurou.

    — Mostre o caminho.
     

    Polarion soltou um som baixo, quase um lamento contido, mas respondeu ao comando mental de Tyla.
     

    A criatura mudou de direção.
     

    E seguiu junto com elas.

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