Capítulo 107: Diversão Infinita
O vento caminhou em suas orelhas e lá se acomodou. Depois, sussurrou bem de perto para fazê-lo notar a sua presença, mas era como se ele não estivesse lá.
Seu coração batia, mas sem som algum. O ar andou pelo peito e saiu pacientemente pelas narinas; ainda assim, nada o puxava para o presente.
Na mente, o passado surgia sem pausa, desde as memórias dele lutando junto com Morfius até o assassinato recente em que ele participou.
A guarda se desfez, o pescoço ergueu-se ao céu e as pálpebras não suportaram a luz do sol. Um breve “Ah…” escapou dos lábios antes de pensar:
“Não consigo focar…”
Seus ombros pareciam carregar um pano molhado. O “agora” estava ali, ele estava em uma arena para duelar, mas nada disso parecia existir de verdade.
“O que que eu posso fazer…”
No fundo, sabia que a resposta era: “nada”.
Ainda abraçado nas sombras, inspirou devagar o máximo que pôde. Quando o peito não suportava mais um fio de ar, trancou a respiração sutilmente.
Foi então que seus olhos se abriram, um pouco menos opacos dessa vez.
Os pés se firmaram no solo e os joelhos estavam de prontidão. Pouquíssimo após, disparou em direção à adversária mais forte viva.
Em um único instante, estavam frente a frente, mas não havia surpresa alguma nos olhos de Melinoe.
Waraioni não teve demora em disparar o primeiro soco daquela batalha; um que voou com precisão no rosto inimigo, mas não era rápido o suficiente.
Ela, com uma simples movimentação do pescoço da esquerda para a direita, desviou daquele ataque como se fosse mais comum do que deveria ser.
Agora, quem estava exposto era quem atacou. Waraioni sabia disso no momento em que a golpeou. Sua perna direita estava de prontidão para recuar.
Quando percebeu, o punho de Melinoe já estava rente ao seu rosto. Se não fosse por um reflexo milagroso em jogar seu corpo para o lado, teria sido atingido.
Infelizmente, foi um pouco mais descuidado do que deveria ter sido: jogou-se com força demais e gastou tempo para se levantar.
Graças a isso, quando ergueu o rosto para obter informações o mais rápido que podia, um chute frontal já o aguardava antes mesmo de poder pensar em algo.
Tudo o que pôde fazer foi defender o rosto com os braços. A força desse ataque o empurrou para trás; no entanto, não houve danos significativos.
Doeu? Um pouco, ele não mentiria se dissesse que estava impressionado com essa velocidade, mas havia um detalhe que ele notou pouco depois: sua postura e semblante.
Nesse chute, Melinoe estava com as mãos no bolso. Seu olhar não tinha um pingo de empolgação ou expectativa; ela só pensava em reagir ao que viesse.
Uma picada de ansiedade golpeou seu coração. Ele sabia que era forte o suficiente para dar trabalho a qualquer um presente na arquibancada, mas ela o enxergava como se fosse um garoto.
“Forte…”
Foi o que pensou enquanto ela ficava cada vez maior em seus pensamentos.
Shhhuuuu…
Ecoou o suspiro.
Logo em seguida, encheu novamente seu pulmão com ar só para trancá-lo de novo. Felizmente, havia uma diferença dessa vez: suas pupilas começaram a girar.
Indisposto a perder tempo, disparou tão rápido quanto antes. Dessa vez, cerrou os punhos e aguardou o menor sinal possível para reagir.
E ele veio.
Uma sombra ciana do punho da mais forte surgiu de uma hora para a outra na frente de seu rosto e, tão rápido quanto veio, foi substituída pelo soco verdadeiro.
Esse mísero tempo que sua visão de futuro proporcionou foi o suficiente para fazê-lo desviar com esforço, mas ela ser rápida demais foi algo que ficou marcado em sua mente.
O contra-ataque veio assim que a esquiva foi bem-sucedida; entretanto, antes mesmo de sequer chegar perto do queixo, uma previsão de um chute frontal no abdômen nasceu.
Quando os olhos se viraram para baixo, já era tarde demais. Aquele golpe acertou-o em cheio, e foi ainda mais forte do que o ataque anterior.
Todo o ar que guardou foi expulso na hora. O dano foi pesado o suficiente para fazê-lo sentir um formigamento onde foi atingido e, sem que notasse, estava rolando no chão.
Isso durou até suas costas abraçarem o solo.
Lá estava ele: olhando para o céu com os olhos opacos mais uma vez. A dor dançava onde foi atingido, mas, por algum motivo, não parecia ser tão importante assim.
Melinoe moveu uma das mãos ao pescoço enquanto a outra descansava na cintura. Seus lábios curvados em desânimo se esforçaram para falar:
— Você… Sempre foi fraco assim mesmo?
Essas palavras caminharam como isqueiro aos seus ouvidos.
— Se esforça aí, vai… Eu só posso lutar uma partida e eu ainda tive o azar de cair com um frango de…
— Cala a boca, piranha.
O silêncio ergueu-se, mas foi apenas por um momento muito breve. Algumas veias nasceram na testa de Melinoe, e não houve demora alguma em perguntar:
— … Como é que é?
Waraioni começou a se erguer devagar, apoiando as mãos no chão. Quando se levantou, inclinou o rosto para o lado e coçou a cabeça por alguns segundos.
“É muito forte, puta que pariu… Preciso me fortalecer com alguma coisa. Será que tem algo que presta no inventário?”
A dúvida foi uma guia aos lábios que sussurraram: “Menu.”, assim que seu sistema de jogo surgiu, verificou o inventário para ver algo útil, e tinha.
No canto de todos os itens, havia uma pequena caixa de som JBL. Ao redor do ícone, a cor vermelha escura colidia consigo mesma feito faíscas.1
Bastou um toque para que ela começasse a aparecer na sua frente. Enquanto surgia em partículas pequenas, descia de cima para baixo até que pousasse nas mãos.
Tocá-lo tinha a mesma sensação de pôr as mãos na água. Sua aparência era prateada e transparente. Distorcia-se repentinamente, como se fosse desaparecer a qualquer momento.
No centro dessa relíquia recém-descoberta, havia um nome escrito em maiúsculo: “ETHAN.”. Abaixo, em letras miúdas, o título que carrega: “Deus da Dança.”
Foi por apenas um momento, mas seus olhos se perderam naquele item. Sem que percebesse, todo o cenário restante ficava cada vez mais escuro.
Até que as trevas reinaram.
A relíquia dissipou-se assim que esse requisito foi concluído. Waraioni, quando percebeu essa mudança, logo olhou de um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo.
Passos começaram a ecoar de repente, como se viessem de todos os lados. Ele olhou rapidamente para as costas, mas nada encontrou.
De repente, uma voz:
— E aê.
A primeira reação que teve foi saltar para trás e direcionar atenção total na direção em que aquela voz repentina surgiu sem que percebesse: a direita.
Lá estava uma figura que tinha um corpo humano, mas não se comportava como um. Todo o seu corpo era banhado pela luz, que rapidamente transitava para a escuridão e assim seguia o ciclo.
Algumas vezes, se desfigurava por completo só para se recuperar logo após. Os olhos confusos daquela criatura observavam o garoto.
— Par̵̠̃̂r̵͉̈r̷͎̦͑͆r̴̄͜r̷̡̊̾ȓ̴̩ece que você não cons̶͓̋e̸͔͒͛e̵͇̓e̸̮̹̅͝é̶̺e̵̞̗̔e̴̦͌gue me ver ainda. Acho que, nes̸̰̔̆s̴̪̬͐s̶̥͝ͅs̷̺̄̅š̷͎s̷̲̔s̷̫̱̿s̷̛̠͒ȩ̵̝͌ mundo, eu sou tipo um b̴͈͑b̶̔̎ͅb̶̙͝b̴̮̄b̸̤͝b̶͎̄̈́ug.
Waraioni entendia menos a cada segundo que se passava. Quando o silêncio imperou por alguns segundos, aquele ser apontou para a escuridão.
Nesse instante, uma pequena fagulha de luz se reuniu como se fosse uma ordem. Pouco depois, a aparência de Andressa apareceu naquele lugar.
— E̶͕̣̿e̷̗͂̓ĕ̷̪̭̎ẹ̷̜̒̍e̷̲̓̀la é forte, né? Ma̵̯̔ȁ̴̫̎a̵͈̋̎a̶͂̀ͅa̸̢̛̮a̵̰̅is do que você cons̵̢͑̂s̸̱͓̈́̀s̶͖̑egue lidar. Sorte a sua que eu t̶̢͚͠t̴̥͓͂̋t̴̨̓ô aqui pra te ajud̸̫͘ͅå̸̗̻͘r̴̩̀
Após sua fala, luz começou a se espalhar, começando pelo chão e logo se esticou para acompanhar o horizonte.
— Ih! Parece que ḿ̴̬̤m̷̫̂͐m̸̒͜͝m̸̦̗̉͝m̶̲̓m̷̥͌m̷̼̓́eu tempo à̸̼̻̫c̵̹͙̄ã̶̙̄̄b̶͕̟͛ŏ̴͙̍͘ŭ̷͇̃. Seguinte: dança ň̴̹̭̲o̶̙͂́ ritmo d̴̻̣̿͠ä̴̡́ música q̷̩̝̉u̷͓̱̒͝é̶̦ eu v̵̱̝͒̽͌ȯ̶̮̝ͅu̷̥̭̓ tocar p̶̗͉̎r̵̩͔̜͒a̶͍̘̓̇̅ͅ ti. Não ẗ̸̰̖̥́͋̚ẹ̷̻͑̓̌ṉ̴͓̪͗͐ḩ̵̄͛͠o̷̢̰͆̌ͅ tempo p̶̗͉̎r̵̩͔̜͒a̶͍̘̓̇̅ͅ explicar a̵̬͋g̵͕̋̈́̈o̵̲̮̰̎̃͛r̵̖͗̍͝a̶̞̍́̍.̷̺͂.
As trevas se renderam rapidamente. A única coisa que restou para aquela criatura foram apenas duas últimas palavras para o garoto que acabou de conhecer.
—̸̡̧̫̱̯̔͆̂̒̋͛̌̏͒͒̔̉̚ ̸̧̨̢̥̬͔̳̪͎̙̜̳̼͉̥̰̰̑B̴̧̡̛͍̣̫̻͙̦̭͓͍͓̖̪̎̋͐͆̾̍̂̊̽̈́̈́̎͘͘͜͝͝ǫ̴̺͆a̷̝̪͉̻̯̝͈̳̰̘̲͙̪̙͔̲͂̚ͅ ̷̪̝́̋̑͘ș̴̤͚̗̝̙̹͙̻͆̐̅̅̋͐̚o̶̢̧̗͇͇͉͚̳̙͖̬̫͈͗̇͊̿̄́͂̉͝r̷͚̳̠͓͂̎̏͒͛̈́̎̽͐̈t̷͍̟͇͌̚ę̵̫̼̳͔͙͉̯̹̗͌̈́̈́͂́̕̚!̴̤̫̩̟͙͔͓͓̹̅̉̌̅̇͂̊͘͘
E assim desapareceu, retornando para a arena que estava.
Nada parecia ter mudado. Aquela relíquia não estava mais lá, como se nada tivesse acontecido e, mais uma vez, teria que encarar aquela monstruosidade.
De repente, um arrepio percorreu sua espinha. Pouco depois, surgiu o formigamento, começando pelos pés e caminhando até o topo da sua cabeça.
Seu batimento cardíaco começou a acelerar. Pequena gota de suor escorreu da sua bochecha sem que sequer tivesse se movimentado.
Quando estava prestes a perguntar a si mesmo o que estava acontecendo, o som de uma música começou a ecoar vindo de suas costas2.
O dj do baile deixa as ‘novinha maluca’…3
Quando olhou para trás, um “Palco Dj Espectral” estava lá. Suas cores instáveis se mexiam como se tivessem vida própria. A música ficava mais alta pouco a pouco.
“Acho que entendi…”
Foi então que ele virou sua atenção de volta para frente e começou a preparar sua dança, só estava esperando o momento certo para começar a requebrar o esqueleto.4
Quando lança esse beat a bunda vai às ‘altura’
Sua dança deu início. O som parecia espalhar-se pelo seu corpo, e uma enorme onda de energia na cor verde clara se erguia aos céus.
Então joga a ‘txuca’…
E assim continuou durante alguns segundos, desfrutando desse novo poder que transbordava em cada lugar que ele poderia chamar de corpo.
Melinoe sentiu o arrepio subir. Aquela onda de poder repentina somada a uma música com um instrumental que ela julgou divertida a fez sorrir.
Cada pequena parte de si mesma pedia para participar. Seus instintos sussurravam no seu ouvido que essa diversão infinita poderia não se repetir no futuro.
Próximo capítulo: Dançarino Atemporal
- @Maik: E aí. Lembra que o S1 entregou as recompensas de forma discreta? Pois é, cada um dos que participaram da missão na floresta receberam uma recompensa também.[↩]
- @Maik: Eu deixei preparado pra vocês a versão dessa música que eu imaginei: https://youtu.be/kRcsFQ6GirA?si=C-4_jDz-ERcJ0SYo. Ignora a letra se for ouvir, viu?[↩]
- @Maik: KKKKKKKKFAISHUHDFSAD EU TAMBÉM ACHO ESSA LETRA MUITO VERGONHOSA, TÁ BOM? MAS, A BATIDINHA É LEGAL![↩]
- @Maik: https://youtu.be/81PJrDbFQ18?si=uI7MwoePFLfzL-DH essa dança é muito divina para um ser como eu tentar descrever.[↩]

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