Índice de Capítulo

    Nos arredores da grande árvore com raízes espessas sobre o solo, o silêncio quase mórbido da floresta se dilui. Mesmo com o entardecer aproximando-se, o som dos animais começa a ressoar aos poucos.  

    Os corpos de oito aves mortas decoram o chão. Entre as penas sujas, há queimaduras, cortes e perfurações visíveis, com moscas zumbindo freneticamente em uma festa acima de cada ferida.  

    Byron e Rubi caminham pelos pássaros com calma. O semblante do demônio é o de um guerreiro realizado, com um ótimo humor após cumprir uma missão. 

    A succubus vai logo atrás dele, também passando um ar tranquilo e bom astral. Ela anda ajeitando a bolsa que carrega na cintura, de onde penas longas e coloridas vazam pelo bolso de cima.

    “Bem que eles podiam ter algumas coisas legais naquele ninho fedido”, comenta a diaba. 

    “Concordo que seria mais proveitoso, mas elas são criaturas irracionais, não há muito o que esperar delas.”

    “Eu sei…”, diz Rubi, suspirando de leve. “Pelo menos o dragão tinha um tesouro bom.”

    “Hum. O dragão, não é?”, o diabo comenta, divagando por um momento e parando de andar em seguida. “Isso me lembrou algo.”

    Rubi, há alguns passos, também para. “Do que?”, pergunta ela.

    Ele se volta para Rubi e ergue o punho direito, com o dorso da mão virado para ela, expondo a marca da ambição gravada na pele em linhas amarelas. 

    “Creio que é um momento oportuno para desfazer esse pacto”, diz ele. 

    Rubi arregala os olhos, surpresa. “Tem certeza?”, ela pergunta. “O bichão das garras morreu, mas ainda estamos no meio do território das outras garras.”

    Byron confirma, acenando e balançando a cabeça. “Por hora acredito que estamos bem. Deve ser um bom momento para testarmos sua outra hipótese sobre este poder.”

    É verdade, pensa a diaba. Podemos confirmar se essa habilidade realmente funciona da forma que eu teorizei. Além do mais, não vamos enfrentar muitas mais daquelas aves por enquanto.

    “Está bem, então.”

    Rubi estende a mão em direção ao demônio, concentrada. A auréola rosa translúcida surge em sua nuca. 

    O botão e cinco das pétalas da flor no centro brilham como de costume, a sexta pétala, no entanto, ao invés de estar mais iluminada e ser mais intensa que as demais, está apagada, fosca, apenas como um vestígio contrastando com as demais partes da auréola.

    “Ainda está daquele jeito?”, pergunta a diaba. 

    “Sim. Exatamente igual. Quase sem luz”, Byron responde. 

    Ela respira profundamente. 

    “Então, vamos lá.”

    Rubi foca no demônio, estendendo a mão em sua direção, e uma leve aura rosada forma-se ao redor dela. 

    “Byron, como foi acordado, eu agora encerro o pacto”, ela pronuncia. 

    No mesmo instante, a marca no punho se desfaz, evaporando em uma névoa brilhante de magia amarelada. 

    A névoa flutua em direção à Rubi, indo diretamente aos dedos dela, que absorvem aquela massa luminosa. 

    Na nuca da succubus, a pétala apagada volta a se destacar. A magia a preenche como um líquido colocado numa jarra, fazendo-a brilhar novamente. 

    Byron, rápido e diligente, coloca sua espada diante de Rubi com a lâmina de lado. 

    Pelo reflexo no metal lustroso, a diaba consegue se ver claramente como em um espelho. 

    Um sorriso aberto se abre na mesma hora. “Deu certo!”, ela afirma com ânimo, vendo a pétala brilhando novamente. “Ela supriu todo o custo e voltou inteira!”

    “Ao que tudo indica, sim”, confirma Byron, também contente, observando a auréola. “Normalmente, o preço para compartilhar uma habilidade desse nível seria inviável para um demônio. Na melhor das hipóteses, a senhorita teria que abdicar do seu uso pessoal, enquanto cede a habilidade a alguém.”

    É como eu pensei. Os pedaços da coroa servem mesmo como uma reserva para poder usar as habilidades dela!, Rubi reflete. 

    A diaba, com os olhos brilhando de empolgação, se volta para Byron. “Quais outras habilidades você acha que a coroa pode ter me dado?”, ela pergunta. 

    O demônio, confrontado com aquela feição cheia de esperança, fica perplexo e pondera antes de responder. “Bem… É difícil dizer. E, sinceramente, se me permite acrescentar…”, ele diz, carregando um leve ceticismo na voz de alguém prestes a jogar um banho de água fria. “Realmente existe algum indício de que há outro poder? Não há outras marcas. E, em minha opinião, as duas habilidades que a senhorita adquiriu já seriam o equivalente de um demônio de alto nível.”

    Rubi solta um riso confiante e cruza os braços, enquanto negativamente acena com a cabeça, como se desaprovasse as palavras do diabo. “Oh, Byron… te falta criatividade…”, ela diz, com pena. “É claro que tem um sinal!”

    A expressão de Byron muda, uma fagulha de curiosidade se acende no demônio. “E qual seria ele?”

    Rubi aponta para a auréola. “Eu não acho que o intuito principal de sair acumulando energia nessas coisas seja o de sair compartilhando habilidades por aí”, ela afirma. “E, pra mim, vai meio que contra a coisa de ser o demônio da ganância e tal.”

    O olhar do demônio se abre em compreensão. “Agora que falou, vejo o sentido nisso. Ainda mais levando em consideração que há usos limitados”, ele comenta. 

    Rubi, euforicamente, aponta para o demônio. “Exato!”, diz ela. “Essa é a linha de pensamento certa!”

    Integrado, o diabo leva a mão ao queixo. “O único problema será descobrir isso”, ele pontua.

    A dura verdade acerta Rubi em cheio, esfriando sua empolgação. “É verdade”, diz ela, resignada. “Mas tudo bem. Podemos testar algumas coisas que tenho em mente quando chegarmos a um lugar mais tranquilo.”

    Byron olha mais uma vez para os arredores, os corpos mortos, iluminados pelo sol da tarde e cobertos de moscas. “Aqui não já seria um lugar tranquilo e agradável?”

    Tranquilo, só por hora e agradável, só pra você, pensa Rubi. 

    “Eu passo. Provavelmente, no teste, eu vou gastar esse pedaço carregado. E eu preferiria ter ele em prontidão pra você caso encontrássemos alguma garra solta por aí”, ela diz. “Além do mais, eu já usei muita mana hoje. Preferiria fazer isso com minhas reservas cheias.”

    “Notei que foram muitos feitiços”, comenta o demônio. 

    “É. Não cheguei a gastar metade do meu estoque, mas ainda foi um bocado de mana”, diz ela, espreguiçando-se.

    Pensando bem, desde que eu cheguei aqui, é a primeira vez que eu gasto tanta mana sem me recuperar, analisa ela. Bem que podia ter sobrado alguma ave pra eu me abastecer. 

    “Já que não temos mais o que fazer por aqui, creio que já podemos partir”, diz Byron. 

    “É uma boa. Já deu de garras por hoje.”

    Enquanto isso, em outro ponto da floresta, Yrah, com a cabeça para fora da mochila pendurada no alto de uma árvore, encara o corvo cinzento. 

    “Oi?”, ela pergunta, preocupada. “Vocês morreram?”

    Mas a única resposta que obtém do corvo é o silêncio absoluto. 

    “Vocês… Não me esqueceram, esqueceram?!”, ela questiona mais uma vez, se balançando inconformada na mochila.

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