Capítulo 108: Dançarino Atemporal
O som da música parecia dançar no seu corpo inteiro. Observar aquela energia esverdeada vazar do corpo do garoto a fazia rir sem que percebesse.
Seus olhos se fecharam, o pescoço ergueu-se ao topo e os braços abraçaram o horizonte. No fundo de seu coração, sede por uma luta divertida crescia exponencialmente.
As pálpebras ergueram-se depressa, dando espaço ao brilho do olhar. Um sorriso de orelha a orelha nasceu em seu rosto junto de seu berro:
— VEM!
No mesmo instante, trevas explodiram nas suas costas e logo correu para trás. Um enorme desenho da tatuagem que tinha foi feito com as névoas da escuridão. No topo dela, havia “30%”.
A perspectiva de Waraioni era ainda mais inquietante. Quanto mais se deixava levar pela música, mais energético se sentia.
Cada mísero efeito sonoro que nascia do instrumental batia no seu peito, e isso contava como um toque para a sua visão de futuro.
Ambos os olhos sangravam, mas se regeneravam no mesmo instante. Observá-lo era a mesma coisa que ver uma cachoeira tentar nascer, mas sempre sendo impedida por algo.
Tudo estava mais do que pronto. Suas pernas quase gritavam consigo mesmas para que avançasse até que seu desejo fosse atendido no mesmo instante em que aquela energia esverdeada foi levada ao vento.
Em um único pisar, lá estava Waraioni: frente a frente com sua adversária. No mesmo instante, um soco voou na direção de seu rosto.
Ainda era rápido, na verdade, mais do que todas as outras vezes; mas, dessa vez, ele tinha um tempo de reação muito maior do que antes.
Um holograma de seu rosto surgiu à esquerda, e foi para lá que o rosto trocou de lugar, evitando perfeitamente aquele ataque.
A resposta dele veio rápido o bastante para já estar rente ao rosto de Melinoe, mas, melhor do que qualquer um, ele sabia que aquilo não seria o bastante…
… E não foi. Ela esquivou tão facilmente quanto antes, só mudou que agora tinha um sorriso no rosto.
De uma hora para outra, o ar gritou suas dores, e isso foi um sinalizador: o soco de Melinoe veio mais rápido e mais forte do que o anterior.
Não houve tempo para pensar, apenas agir como podia: desviar-se mais uma vez com o holograma, mas isso não significava que os danos não existiriam.
Ele podia não ver a própria face, mas sentiu que aquele golpe pegou de raspão, e isso foi o suficiente para fazê-lo saber que sangue escorreu de seu rosto.
Foi nesse ciclo que ficaram durante alguns segundos: Waraioni, no auge do foco e energia, tentava acertar pelo menos um único ataque. Melinoe, sorrindo feito criança, esquivava sem dificuldade.
“Porra… Assim não tem como!”
Foi então que recuou com um salto para trás.
As pernas firmaram-se no chão. Os olhos se fecharam para que ele tivesse um vislumbre da divindade “Legionis” que enfrentou há muito tempo.
Os punhos cerraram-se junto com os dentes. Uma tempestade de sangue caía do rosto, superando, por um momento, a regeneração musical.
— SACRIFÍCIO!
Seus olhos giraram loucamente assim que essas palavras foram ditas. O mundo abraçou a cor preto-e-branco, mas isso não duraria por muito tempo.
Sabendo disso, avançou com um salto único. Quando esteve de frente com a mais forte, apertou os punhos o máximo que podia e disparou seu soco.
Dessa vez, estando em seu domínio, o ataque era praticamente impossível de errar, garantindo um acerto em troca de muita da energia que tinha.
E assim foi feito.
O mundo retornou ao seu estado anterior assim que esse golpe explodiu na barriga de Melinoe. Até mesmo ela não pôde evitar ser empurrada para trás.
Waraioni ajoelhou-se no mesmo instante. A garganta tossia sangue enquanto tentava buscar refúgio na regeneração da música.
Foram poucos segundos de descanso que não curavam a fadiga mental, somente física. Para ele, por enquanto, isso era o bastante para levantar os olhos.
“Agora eu machuquei… Né?”
Era tudo o que ele queria: causar dano, nem que fosse só um por cento. Esse desejo, que pensou ter realizado, foi quebrado assim que a observou.
Lá estava ela: dançando com o som da música ainda com um sorriso. Seus punhos, cerrados e erguidos, serviam como base para o quadril que ia para o lado e voltava ao outro.
Seus olhos quase criavam uma boca para dizer o quanto eles não acreditavam no que viam. Nem um mísero arranhão se fazia presente…
Os lábios abraçaram-se na própria angústia. Suas pernas, contra a vontade do próprio peito, ergueram-se para que o próximo round tivesse continuidade.
Melinoe notou-o se levantar na mesma hora, mas não interferiu; pelo contrário, apontou os dois dedos para ele, convidando-o com eles para que se aproximasse.
— Cê tem mais coisa guardada, num tem não?! Vambora!
Suspirar sussurrava lava na sua garganta. Tamanha resistência de Melinoe causava um incômodo ardente no seu coração, como enfrentar um desafio impossível.
Pensamentos que distraem são um câncer para qualquer duelo. Waraioni precisava de algum jeito de esvaziar a mente. Felizmente, havia um som externo que podia fazer esse trabalho.
Antes de prosseguir, cuspiu o sangue teimoso no chão. Logo após, fechou os olhos e relaxou os ombros, movimentando-os como uma onda no ritmo da música.
As pernas não ficavam de fora. Gradualmente, os maus pensamentos desapareciam com a música, e não demorou para que deixassem de existir.
Leveza abraçava seu corpo pouco a pouco, como se uma coberta macia e aconchegante o acompanhasse de noite. Segundos depois, os olhos se abriram.
Os pés estavam em posição. Os punhos cerrados tinham foco no objetivo. Nesse momento, tudo o que pensava não era no resultado, mas no desempenho.
E assim disparou. O sorriso ainda se abrigava no rosto da mais forte e antes que ele sequer chegasse perto, havia uma previsão de um golpe em seu rosto.
Desviou com o que tinha: holograma, até que a alcançasse de novo; no entanto, dessa vez a ação deveria ser diferente para o resultado não ser igual.
À custa de lágrimas de sangue, incontáveis hologramas de Waraioni apareceram diante de Melinoe, cada um com movimento de ataque.
Seus instintos forçaram-na a ter uma resposta instantânea, golpeando uma daquelas dezenas, que se desfez assim que o contato chegou.
Um soco atingiu sua costela no mesmo instante. Não houve barulho, impacto, tampouco uma reação de dor em seu rosto, apenas uma leve surpresa.
Sendo assim, respirou fundo por um momento, firmou os pés no chão, cerrou seus punhos com um pouco mais de força e disparou inúmeros socos.
Cada um deles mirava nos hologramas mais próximos até que não houvesse mais nenhum, apenas a forma original logo à sua frente.
Waraioni, por um único momento, foi tomado pela surpresa do inesperado, e isso foi o suficiente. Antes dos olhos piscarem, um soco da mais forte surgiu próximo à costela.
Os pés não tiveram tempo para reagir, mas os braços sim. Eles se moveram rapidamente para protegê-lo em troca de virarem um alvo.
Ele se esqueceu de um detalhe: isso não significava que o dano seria menor.
Seu corpo envergou para o lado, como se tentasse escapar daquele dano. Os dentes se viram obrigados a mastigarem a si mesmos para não berrarem.
Os pés saíram do chão, mas logo retomaram o contato. Um enorme hematoma abraçava a região de impacto no braço, sem se esquecer da agulha do formigamento.
Waraioni teve os pensamentos levados pela dor. Sabe o que sobra? Instinto. Instinto esse que o fez levantar o outro braço para atacar.
Isso foi um erro.
Melinoe não deu a chance nem desse golpe nascer. Antes de ele sequer dar um passo, um contra-ataque na barriga do garoto já estava mais do que pronto.
O resultado não poderia ser outro: sangue, que era mais prático chamar de vômito vermelho, voou para o lado oposto em que Waraioni foi disparado.
Seus olhos, tão embaçados quanto os de um míope, nem percebiam que ele estava rolando no chão. Estava jogado na arena quando foi parar para pensar em algo além da dor.
Respirar só era possível pela boca, e nem dava para chamar assim; seu pulmão estava só tentando sobreviver à incapacidade de receber ar.
Os ouvidos escutavam um zumbido. Além disso: nada.
O máximo que ele conseguia enxergar à sua frente eram as gotas de babas caindo da boca. Nos seus pensamentos só tinha uma palavra disponível: “acabou”.
De joelhos, não caindo de testa no chão graças ao suporte das mãos, não conseguia pensar em uma saída a não ser reconhecer a derrota iminente.
Quando pensou que isso era tudo o que sobrava, começou a ouvir algo distante.
Quem vai dizê… Que eu tô mentindo? Cê quer perde pra quem: Lucahah ou Lil Lixo?
Os efeitos sonoros da música chegavam como sussurros aos seus ouvidos, mas isso bastou para que ele começasse a levantar a cabeça.
Quem vah… Dizê que tô mentindo? Cê quer perde pra quem: Lucahah ou Lil Lixo?
O pouco que ele conseguia enxergar era o suficiente para deixá-lo em dúvida: Melinoe olhava para algo no topo com um sorriso que transbordava ânimo.
Aos poucos, o chão tremia como se fizesse parte de uma caixa de som. A voz ficava cada vez mais clara, também o indicando de onde ela vinha: atrás.
O pouco de energia que sobrou bastou para que olhasse para trás. Ainda estava um pouco embaçado, mas um homem descendo dos céus era visível.
Seu cabelo era curto e feito de pano com cores diversas. Os dentes eram afiados e de ouro, como se quisessem brilhar independente do que fizesse.
Anéis de luxo moravam em cada um dos dedos. Até mesmo as roupas que vestia pareciam sussurrar sua luxuosidade para qualquer um que as visse.
— Liguei pro Vin Di, falei: traz todas essas bi. Tô na casa do Maican, long neck e open lean…1
Era ele a voz por trás daquela música. Cada palavra sua fazia o grave ficar mais violento do que já estava e de seu rosto, não podia faltar o sorriso.
— A noite inteira vai batê, o Davi trouxe MD. Vai ter rave estilo Treh, Kisterversu vai tremê…
Próximo capítulo: Tão Rápido Quanto as Palavras.
- @Maik: Não sei se alguém vai pegar, mas é a música do Maicon Kuster. O nome é: Pewdiepie.[↩]

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