— Uh… não? — A cabeça da nanica pendeu para o lado, ela não entendia o rumo que a conversa tomava.

    — Você tinha cinco meses na época. — Lavina iniciou. — Eu cozinhei Xima e feijoada naquele dia, coloquei em duas tigelas separadas e deixei sobre a mesa. Sim, aquela mesma mesa que você ainda tem dificuldade para alcançar até hoje. 

    — Você estava dormindo naquele momento, então tranquei a porta e saí, tinha um assunto para tratar com a Zélish. — Lavina sorriu, como se lembrasse de algo engraçado. — Glamich ainda não tinha comprado as cadeiras que temos hoje, o que deixava a mesa bem isolada na sala. Mas, quando voltei, as tigelas que deveriam ter Xima e feijoada estavam vazias.

    — Quê? — Vaiola soltou, surpresa.

    — Pois é. — Lavina voltou a sorrir. — E, para a minha surpresa, você estava deitada debaixo da mesa.

    — Quêêê? E-eu comi a Xima e a feijoada? Uma tigela… — Vaiola arregalou os olhos e escancarou a boca. — E-espera! Ma-mas como? Eu ainda nem consigo alcançar a mesa.

    — Na verdade, tudo indica que não foi você, já que você continuava limpa quando te encontrei, sem nenhum vestígio de Xima, nem de feijoada. — Lavina estendeu a mão e bagunçou os cabelos da filha, sorrindo. — Você só estava lá, deitada, parecendo um bebezinho de dois meses.

    Vaiola sempre foi menor que as crianças da sua idade.

    — Mas… então… o que aconteceu? — perguntou, intrigada, seus olhos fixos na mãe.

    — Não sei. Por isso é um mistério. — Lavina deu de ombros. — Tudo o que sei é que, daquele dia em diante, Xima com feijoada passou a ser o seu prato preferido.

    — Mas…

    — Depois daquilo, um mês depois, comecei a te treinar — concluiu.

    — Uhm… — Vaiola cruzou os braços, sua mente formulando tantas questões, mas ela desistiu de todas… bem, menos de uma. — Mãe… quem somos nós, as Hermis? 

    Aquela questão já dava voltas na mente da nanica há um bom tempo, ela sempre quis saber por que ‘ser uma Hermis’ era resposta para noventa e nove por cento das questões que ela fazia para a mãe.

    — Haaa! Sabia que chegaria o dia em que você faria esta pergunta. — Lavina sorriu depois de um suspiro e afagou a cabeça da filha. — Mas, acredite minha filha, você ainda não está pronta para saber.

    — Eu sou uma Hermis, mãe. — Talvez tenha sido por instinto, mas, quando viu a expressão solene da mãe, Vaiola também adotou uma expressão séria.

    Lavina sorriu, desfazendo a sua seriedade, depois de escutar aquela resposta. Sua filha tinha finalmente começado a usar o argumento de família contra ela. A nanica estava certa e Lavina sabia disso, as Hermis sempre estavam prontas… não, as Hermis precisavam estar sempre prontas.

    — Certo, haha, você tem razão. — Suspirou derrotada, então alertou: — Mas não se arrependa depois. — Vaiola até mudou a posição em que se sentava e fixou os olhos na mãe. — Primeiro, a tua pergunta está errada. Não é “quem?”, mas, sim, “o quê?”. Em resposta, eu te direi as seguintes palavras: As Hermis são armas… não, nós somos máquinas de matança, nascidas com o único propósito de trazer morte e mais morte por onde quer que passamos. É isso que nós somos, pequena, Bestas enjauladas em corpos humanos.

    — … — Vaiola ficou sem palavras, seu rosto se contorceu de pavor, seu corpo se encolheu e seus braços abraçaram as pernas. Sua mãe estava certa, ela não estava pronta para ouvir aquilo, para saber a verdade sobre ela mesma, e a sua tremedeira denunciava isso.

    — Pode se dizer que ser uma Hermês é um fardo — acrescentou Lavina, sua face virada para o alto, os olhos acompanhando o balançar das folhas. Talvez pelo choque, Vaiola sequer notou que o som da última vogal do sobrenome da sua família tinha mudado. —, mas, mesmo com isso, o mundo nos garante alguns momentos de alegria, mesmo que isso tenha um preço.

    “O preço…”— Lavina suspirou, seus olhos com um brilho gentil, olhando com ternura para a filha.

    — E, ah, antes que eu me esqueça, tem algo que nunca muda para nós, independentemente da geração, algo que espero que seja diferente com você, mesmo que seja hereditário. — Lavina fez uma breve pausa, seus olhos ainda gentis sobre a filha. — O ódio acompanha toda e qualquer Hermês, mas não um ódio qualquer, um ódio mortal por um certo grupo de pessoas…

    Depois daquelas palavras, Lavina não falou mais, apenas fez carinho na filha, deu lhe um beijo na testa e a deixou ali para digerir a informação que recebera. O silêncio sempre era a melhor conselheira para uma Hermês.

    Vaiola ficou por cerca de meia hora sentada ali, na mesma posição, assimilando tudo o que tinha ouvido da mãe. A tremedeira tinha passado, mas o medo ainda persistia em seu coração.

    No que aquela informação influenciaria a vida dela dali em diante?

    — Eu não devia ter perguntado nada. — Abraçou as pernas com mais força e suspirou, o queixo pousado sobre os joelhos. — Huh!?

    Ela estava prestes a fechar os olhos, mas desistiu daquela ação, quando uma repentina névoa violeta apareceu no seu campo de visão. A pequena levantou a cabeça e sua face se contorceu em confusão.

    A névoa violeta estava escapando dos seus poros.

    Vaiola se levantou assustada e até pensou em gritar pela sua mãe, mas também desistiu daquela ação, quando a névoa violeta começou a “construir” o que parecia ser a silhueta de uma jovem mulher.

    “Oi.” Vaiola recuou um passo, uma voz feminina que não lhe era estranha, porém desconhecida, ecoou em sua mente, exatamente quando a névoa terminou de construir uma jovem mulher que encarava a nanica.

    — Huh…? — Vaiola estranhou. Aquela criatura de névoa violeta, cujos olhos e a boca pareciam buracos numa escultura de barro e o cabelo parecia fogo, certamente, daria medo a qualquer criança, mas por que ela não estava sentindo sequer um pingo de medo? — Quem é você?

    “Eu? Eu sou a tua mais nova amiga imaginaria.” A jovem de névoa violeta respondeu, um sorriso na sua face. “Você deve estar solitária pra caralho pra ter me criado, né não?”, perguntou, seu tom zombeteiro. Seus cabelos balançavam com o vento. “Tá sem amiguinhos, é isso?”

    — Na verdade, eu tenho amigos, muitos amigos — retrucou, ainda tentando entender o que era aquela “mulher”. — O que você quer dizer com “eu te criei”?

    “Exatamente o que você ouviu. Como você espera que eu seja a tua amiga imaginaria se você não me criou?” A criatura analisava o próprio corpo, como se estivesse se vendo pela primeira vez. “Tenho que admitir, você até que tem uma boa imaginação, hein. Tem um espelho aí?” Vaiola ainda observava a criatura, tentando se lembrar quando tinha imaginado algo como aquilo. “Oh! Espera! Hahahahaha! Eu ainda não tinha visto, hahahahaha! Que porra! Por que você é tão nanica? Você não tem 5 anos? Hahahaha! Só faltavam os dentes e o coelho de pelúcia para eu suspeitar que você está fazendo cosplay de uma certa gorducha dentussa. Hahahaha!”

    Vaiola não entendia tudo o que a jovem de névoa dizia, mas tinha certeza de algo: Não queria mais aquela amiga. Como ela fazia para devolver?

    — Oh! — Foi a vez da Vaiola se surpreender, enquanto a jovem de névoa ainda ria do seu tamanho. Ela pareceu ter visto algo que os seus olhos estiveram ignorando até aquele momento. — Você tem chifres. — Fez uma breve pausa. — Dez chifres.

    “É o quê?” A jovem parou de rir no mesmo instante e sua face se contorceu. “Do que você está falando? É claro que eu não tenho chi…” Suas mãos subiram até a cabeça e ela congelou.

    — Er… você está bem?

    “QUE MERDA É ESSA!!!!? O QUE ISSO ESTÁ FAZENDO NA MINHA CABEÇA!!!? AAAAAHHHH!!!” Vaiola caiu de joelhos, a voz da jovem de névoa estava ecoando diretamente na sua mente e aquele grito quase explodiu a sua cabeça. “Você!!! Isso é vingança sua, não é mesmo? Você ficou bravinha só porque eu te chamei de nanica e imaginou isso em mim, não é mesmo?!! Nunca pensei que uma criatura com olhos tão inocentes seria tão vingativa ao ponto de deformar o corpo de uma amiga.”

    — Quê? Do que… você está falando? — Vaiola elevou a face para olhar para a criatura de névoa, ainda sentindo a sua cabeça latejar.

    “Como assim ‘do que estou falando’? Você que me criou, sua tampinha, é claro que isso é obra sua. Por que diabos me imaginou com chifres, HEIN!!?”

    — Uh… — Vaiola ficou pensativa. 

    Será que a imagem maligna que ela teve das Hermis por aquele breve momento tinha influenciado na imagem da sua amiga imaginaria?

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