Capítulo 202: Side Story - As pipocas na bacia e o cadáver no freezer
Mical estava eufórica, apertando avidamente os botões do controle. Ela ainda não tinha perdido a mania de inclinar o joystick para o lado, como se isso fosse ajudar de alguma forma.
Se a inclinação do joystick ajudou ou não, é difícil saber, mas funcionou. Na televisão, o Mário pulou, evitando ser atingido por um inimigo.
A garota nem olhava para o lado, atenta àquele personagem que atravessava mundos e mais mundos, descia e subia canos e túneis, enfrentava monstros, galopava um dinossauro, tudo isso para salvar uma princesa!
Mical adorava. Ficou encantada com o jogo desde o primeiro dia em que o jogou.
Foi Renato que lhe apresentou o jogo, no dia em que se conheceram.
Na época, ela até ficou com um pouco de medo.
Neste momento, sentada no sofá, com uma bacia cheia de pipocas na mesinha e se divertindo como nunca imaginou ser possível, ela sabia o quanto tinha sido boba.
Sorriu.
— Coisas boas realmente acontecem… — Mesmo que num tom de voz baixo, ela deixou escapar por seus lábios.
— O que você disse? — perguntou Lírica, que tinha se virado e olhado para ela.
A demi-humana estava apoiada na janela, olhando o horizonte. Apreensiva a ponto de roer as unhas. Seus olhos eram como o cobre brilhante.
— O quê? — Mical pausou o jogo.
— Você falou alguma coisa.
— Eu não!
— Falou sim! Eu ouvi!
— É feio ficar ouvindo pensamentos dos outros, sabia? No mínimo, deve ser pecado…
— Ótimo — Lírica foi até o sofá e se sentou. Pegou um punhado de pipocas e enfiou tudo na boca. — Adiciona mais isso à nossa longa lista de pecados. — A voz dela saiu entrecortada pela mastigação das pipocas.
Mical bufou, levemente incomodada com essa garota esquisita, deu de ombros e apertou o botão do play, voltando para seu jogo.
Nessa hora, Irina entrou na sala, segurando seu notebook e um aparelho de escuta no ouvido.
Estava cabisbaixa, com os ombros caídos.
Sentou-se no sofá e suspirou.
— Nenhum vestígio dele ainda!
— O Renato tá no Inferno. Não vai conseguir achar ele com essa sua magia de botões e telas.
— Eu sei… mas quando ele pisar na Terra de novo, eu acho ele! Hackeei todas as câmeras de segurança da região. Vou saber que ele chegou antes de todo mundo!
— Duvido você ser mais rápida que meu olfato.
Normalmente, Irina iria replicar de maneira bastante contundente e mal educada, mas dessa vez faltou ânimo para isso, então ela só suspirou de novo.
— Custava ele me levar junto? Custava?! Canalha! E ainda acha que vai me comprar com alguns doces… Humpf! Ele vai ver só! Vai ver! Deixa só ele precisar de mim!
— Se ele te levasse, você seria um fardo.
— Você que seria um fardo, sua bruxa felina e esquisitona!
Jéssica estava na cozinha, com a cara pra dentro do freezer, sentindo aquele frio na pele.
Olhava, um tanto incrédula com a situação, aquele cadáver congelado.
Os olhos de Tâmara ainda estavam abertos, petrificados numa expressão de tristeza.
Há um tempo atrás, ela própria, Irina e Lírica planejavam sobre como a matariam. E agora ela estava morta. Deveria estar feliz!
Mas por que isso parecia tão melancólico?
Renato tinha partido numa missão para tentar ressuscitá-la, e Jéssica sabia, com sua mente analítica, que ela deveria torcer para que o garoto não tivesse sucesso. Tâmara era um monstro. Uma pessoa ruim. Alguém com pouca, ou nenhuma, empatia. Não merecia viver!
E mesmo assim Renato…
Mas tinha algo que Jéssica não compreendia a respeito de si mesma. Estava tão confusa!
Mesmo sabendo que Tâmara era ruim e que ela não deveria querer vê-la respirando de novo, ela ainda…
Algo dentro de Jéssica sabia que ficaria feliz ao vê-la viva mais uma vez.
E isso matava Jéssica por dentro!
Suas emoções traiam cruelmente sua razão.
— Afinal… desejar a morte dela não faria de mim uma pessoa ruim também?
A morte é o fim de tudo. Não existe mais esperança. É apenas o vazio e a culpa.
Ela deu a vida para salvar o Renato! Jéssica não tinha mais dúvidas de que Tâmara era capaz de amar. E alguém que ama, ainda nutre algo de bom, não é verdade?
Jéssica suspirou.
— Acho que ler tanta filosofia na infância estragou minha cabeça… — Ela riu, achando graça de si mesma e decidiu simplesmente aceitar o absurdo da situação.
Tem um cadáver no freezer! Fazer o quê, né?
Vamos jogar vídeo game!
Ela foi até a sala, para junto de sua irmã.
— Jés! Finalmente! Jogue comigo!
Jéssica encarou aqueles olhos puros e inocentes de sua irmã. Eram a coisa mais sagrada que ela ainda tinha.
E, pelo menos quanto a ela, não havia dúvida nenhuma! Mical era sua razão de viver.
Jéssica decidiu que precisa passar mais momentos leves com sua irmã. Quando foi a última vez que tiveram tempo pra isso? Apenas se divertir e conversar, comer pipoca, talvez ver um filme depois…
— Certo — disse ela, pegando um punhado de pipocas. — Quando você perder, é minha vez!

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.