Avenoir: Fragmentos da Primeira Noite / Páginas do Oitavo Dia
O mundo sempre foi regido por promessas.
O céu, marcado por uma tempestade, rugia entre trovões sobre uma das maiores traições ao desejo humano. Era o início de uma vontade de trazer a pequena chama da vida novamente.
Naquela colina isolada, um homem de meia idade subia o íngreme terreno com dificuldades entre os trapos que um dia foram suas roupas. Sua pequena bengala — um galho de árvore seco — vibrava a cada passo no terreno rochoso.
Cough!
Seu pulmão parecia lutar contra o mundo, numa cacofonia dolorosa de tosses manchadas de sangue
“Estou perto… Há alguns ajustes a serem feitos e finalmente trarei ela de volta.”
Victor ansiava pelo retorno da amada. E, para isso, sacrificou seus últimos vinte e poucos anos para reacender a fagulha da vida. Recriar o milagre de Deus, continuar a sua criação.
Olhando para trás, a figura daquele homem doentio parecia ainda mais terrível se comparada à grandeza da paisagem. Lá, abaixo do sopé da colina, a cidade. Mas o laboratório o esperava para mais um teste.
— Ingolstadt… — A palavra vazou entre os lábios do homem. Aquela cidade parecia minúscula à mercê do seu objetivo.
Cough! Um novo trovão rasgou os céus, abafando o ataque de tosse. Era irônico seu estado atual. Seus cabelos já grisalhos e a pele pálida denunciavam a velhice precoce que o devorava. Aquele que um dia foi o maior gênio da sociedade, agora era apenas um velho qualquer, engolido pelo esquecimento.
Os para-raios próximos pareciam engolir os raios que marchavam violentamente pela colina. Aos poucos, a eletricidade se acumulava. Victor rastejou até a entrada do laboratório e foi abraçado pela escuridão de ébano.
— Vamos… Vamos… — falou impaciente, pegou um atalho entre os caminhos daquele espaço para alcançar a sala principal do laboratório.
O cheiro pútrido de fuligem e da poeira que o corredor resguardava fazia com que as narinas do homem queimassem com o cheiro. Era como um ácido que fazia cada vez mais se sentir novamente vivo.
Cough! Cough!
Sangue espirrava da boca pela violência causada pela crise de tosse. O gosto metálico de ferrugem invadia o paladar como um velho conhecido. Cough! Victor fraquejou e tombou o corpo na parede, se apoiando nela. Os espasmos profundos, cavernosos e incontroláveis nasciam no fundo do diafragma.
O pulmão parecia se dissolver, como uma espécie de papel molhado sendo rasgado a cada contração— Cough! O gosto semelhante a morder uma moeda velha invadia a parte de trás da língua.
Blergh! Cough!
O líquido espesso vazava entre os dedos, num contorcionismo macabro, seu peito parecia rasgar. A musculatura do abdômen e das costas contraía com tanta violência que sentia suas costelas sendo esmagadas ou fraturadas numa dissonância tortuosa.
Argh!
O ar parecia já não ser o suficiente, enquanto o velho se arrastava.
“Não… não me traia, corpo…”
Seu peito parecia engaiolado por ferro enferrujado. A respiração tornou-se um chiado úmido e pesado. Respirar era como uma esponja densa e encharcada, esperando que alguém a apertasse.
Victor apresentava constantes calafrios, como se os ossos fossem feitos de gelo. Sua carne definhava, exausto pela subida na montanha, mas não podia deixar que sua tênue vida acabasse antes do seu objetivo.
Precisava vê-la uma última vez.
Ao fundo do corredor, uma luz cintilava fraca e amarelada. Quente, como o abraço de Elizabeth. Uma pequena placa nomeava o laboratório com um legado intrínseco de glória das descobertas. Frankenstein.
Ele empurrou a porta de carvalho entreaberta com o ombro, quase caindo para dentro do cômodo. O interior do laboratório fedia a formol e cobre oxidado. Avistou, próximo da porta, um candelabro que ainda queimava pela gasolina que deixou desde a última vinda.
No centro do grande salão, cercado por um emaranhado de cabos espessos que subiam até o teto como serpentes negras, repousava a mesa cirúrgica. Sob o lençol encardido de linho, jazia a silhueta da própria promessa. O corpo remontado da sua salvação.
Victor tropeçou até o painel de controle. Boom! O trovão iluminou o céu acima do vidro. Suas mãos, trêmulas, escorregadias de suor e manchadas de sangue, agarravam a alavanca principal de ferro frio.
— Volte para mim… — implorou.
O metal gelado parecia sugar o pouco calor que ainda restava nas palmas do cientista. Ele olhou para cima, encarando as imensas engrenagens e o teto de vidro que era açoitado pela tempestade.
Victor jogou todo o peso do corpo para trás. Clank! A pesada engrenagem da alavanca desceu, travou o lugar. O maquinário ganhou vida instantaneamente. As bobinas de cobre ao redor do salão começaram a girar, zumbindo como um enxame de vespas.
KABOOOM!
O céu pareceu se partir ao meio. Um raio colossal, atraído pelas lanças de ferro no telhado de Ingolstadt, desceu rasgando a abóbada da noite. A energia viajou pelos grossos cabos negros que pendiam no teto.
O laboratório foi engolido por um clarão azul e branco, tão violento e absoluto que cegou Victor momentaneamente. O ar ficou espesso, saturado de pura estática. O cheiro de ozônio mascarou a fuligem, misturando-se a um odor novo e nauseante de carne chamuscada.
Thump! Thump!
Na mesa cirúrgica, o corpo debaixo do lençol começou a convulsionar. Pareciam solavancos brutais, inumanos. Músculos mortos e enrijecidos estavam sendo forçados a se contrair por uma voltagem que estuprava as leis da natureza.
O corpo saltava contra as tiras de couro que o prendiam à mesa. O tecido de linho encardido começou a fumegar onde os finos fios elétricos perfuravam a carne.
— Vamos! Volte a mim! — Um grande sorriso vazou dos lábios do homem.
Cough! Victor caiu de joelhos. O impacto enviou uma onda de dor pelas pernas fracas, mas ele já não se importava. A luz estroboscópica da eletricidade pintava seu rosto esquelético nas mais diversas sombras demoníacas.
Ele não conseguia desviar o olhar. A dor em seu peito foi esquecida. O sangue na boca perdeu o gosto. A realização absoluta se firmou. Victor havia dobrado as regras da criação. Ele era um deus agora.
Mas, o maquinário atingiu o limite.
Fzzt… Pop! Pop!
Válvulas de vidro estouram nas paredes, cacos incandescentes chovem pelo chão de pedra. Os grandes cabos pararam de pulsar, derretiam e chicoteavam o ar antes de caírem mortos.
O clarão sumiu bruscamente, devolvendo o laboratório à meia-luz trêmula do candelabro solitário. A tempestade pareceu prender a respiração. Um silêncio fúnebre, espesso e angustiante preencheu o espaço.
“Não! Nada pode dar errado agora!”
A silhueta sob o lençol havia parado de se debater. Glup! Victor engoliu em seco. Apoiou-se no painel de controle chamuscado, se ergueu com dificuldade. Sua respiração chiou na gaiola do peito. Passo a passo, rastejava até a mesa.
O metal ao redor do corpo irradiava um calor infernal, quase queimando sua pele pálida, mas a ansiedade anestesiava tudo. Suas mãos — ainda manchadas pelo próprio sangue — pairavam trêmulas sobre o tecido fumegante.
— Elizabeth — sussurrou com dificuldades.
Ele puxou o lençol para baixo. O tecido escorregou para o chão num farfalhar suave. O coração de Victor afundou. O peso do mundo recaiu sobre os ombros, esmagou o êxtase que sentiu há um segundo atrás num balde de água fria.
A pele da criatura era de um tom amarelo-pergaminho repulsivo, repuxada demais sobre músculos expostos que não pertenciam àquela anatomia. Fios de seda grossa e negra traçavam mapas grotescos ao redor do pescoço, unindo pedaços roubados de diferentes sepulturas.
Os braços eram ligeiramente desproporcionais, pálidos e nodosos. Os lábios não eram os lábios delicados de sua amada. Eram finos, arroxeados e esticados numa careta rígida sobre dentes que pareciam grandes demais para a boca. Não havia beleza. Era uma abominação.
— Não… — Deu um passo para trás, a bengala tremeu nas mãos. O asco borbulhou na garganta e se misturou à consumição. — Não, a equação estava certa. As proporções… não… eu escolhi a dedo! Era para ser a perfeição!
— Acorde! — bravejou, perdeu completamente a sanidade e bateu a mão na borda da mesa. — Cough! Eu ordeno que viva! Cough! Olhe para mim!
Hssss…
Um som ríspido, borbulhante e ruidoso de ar frio sendo puxado à força pela traqueia ressecada, retirou Victor do seu devaneio. O peito profano subiu abruptamente, esticou a carne morta e rachou as cicatrizes recém costuradas em minúsculos cortes que verteram um líquido ralo e escuro.
— Sim…
A cabeça da criatura se virou lentamente na direção dele. Os músculos do pescoço estalaram com a rigidez de um cadáver destravando. As pálpebras tremeram. Numa lentidão aterrorizante, elas se abriram.
Victor ansiava encontrar o castanho doce e amoroso que conhecia. Em vez disso, encontrou dois globos oculares aguados, de um tom leitoso e doentio, envoltos em vasos sanguíneos estourados.
Não havia humanidade ali. O que encarava o cientista de volta era um abismo de confusão, instinto primário e um terror tão vasto quanto o do próprio homem que a criou.
Boom!
Outro trovão iluminou o céu. Victor Frankenstein não conseguia respirar. O ar em seus pulmões doentes parecia ter se transformado em chumbo. Encarava os olhos leitosos e opacos da criatura, esperando que, por trás daquela película de catarata e morte, a alma de Elizabeth emergisse. Esperava o piscar suave, o reconhecimento cálido que justificaria as sepulturas violadas, os anos de isolamento, a sua própria consunção.
Grrrrk…
Um som úmido rasgou a costura da garganta da abominação.
“Não é possível…”
A mandíbula inferior, desproporcional ao resto do crânio pálido, tremeu e se abriu, revelando gengivas cinzentas e dentes secos. O horror abraçou Victor. Sua mente outrora o altar da razão e da ciência moderna, se fragmentou diante da heresia física que ele próprio havia forjado.
Crack! Squelch.
O som dos ossos rígidos estalando ecoou pelo laboratório, seguido pelo ruído nauseante de carne úmida roçando contra o metal da mesa. A anomalia tentou dobrar o tronco para se sentar. As grossas amarras de couro rangiam sob a tensão.
Os músculos enxertados, superalimentados pela energia da tempestade, não possuíam controle motor, apenas força bruta e espasmódica. As costuras no ombro esquerdo cederam levemente, deixando vazar um fio de fluido amarelado e sangue coagulado que escorreu pela pele de pergaminho.
— Não… — Deu um passo trêmulo para trás, batendo a bengala contra o chão de pedra. — Você não é ela! Onde está ela?
A criatura parou o movimento desajeitado ao ouvir. Sua cabeça grande e pálida girou com um solavanco mecânico na direção do cientista. O olhar vazio tentou focar na figura alquebrada de Victor.
A mão direita da criatura, grande demais, cheia de dedos longos e unhas enegrecidas, se ergueu no ar. Os dedos tremeram em um espasmo grotesco, como as pernas de uma aranha agonizante. Alcançou a direção de Victor. Numa curiosidade repulsiva de um recém-nascido tentando tocar o rosto de quem lhe deu a vida.
Huuuuh… Ahhh…
Um suspiro gutural e gorgolejante escapou dos lábios arroxeados. A criatura tentou formar um som, uma palavra, algo que justificasse sua existência profana. Mas o que saiu foi apenas o choro oco de um cadáver sofrendo.
— FIQUE LONGE DE MIM!
Uma onda de náusea tão violenta atingiu o ácido que subia pela garganta. A beleza de sua ambição evaporou, deixou para trás apenas a realidade do crime. Victor não havia curado a morte. Havia profanado o descanso eterno. Não era o seu triunfo. Era um monte de carne podre costurado em arrogância.
“Não! Não!”
SNAP!
A fivela de couro grosso no peito da criatura estourou num estalo violento. Ele recuou em pânico. Um calafrio percorreu sua espinha.
— Fique longe! LONGE! — Seus gritos quebravam o ar num desespero agudo.
A exaltação do medo disparou seu batimento cardíaco falho, acionando o gatilho no peito doente.
Cough! Cough! Cough!
O pulmão cedeu a um ataque fulminante. A tosse cavernosa dobrou o corpo ao meio. Gosto de metal e ferrugem inundou a boca com tamanha força que fez Victor vomitar sangue quente e escuro sobre as próprias botas e o chão de pedra polida.
O mundo girava em um borrão de dor e asfixia. Apoiado na bengala, notou a criatura levantar o tronco completamente. O lençol escorregou, revelou o tronco mutilado e costurado, exposto à luz do candelabro. O monstro pendurou as pernas compridas para fora da mesa de metal. Seus pés descalços e desbotados tocaram o chão frio do laboratório com um baque pesado.
O pulmão de Victor cedeu a um ataque fulminante. A tosse cavernosa dobrou seu corpo ao meio. O gosto de metal e ferrugem inundou sua boca com tamanha força que ele vomitou sangue quente e escuro diretamente sobre as próprias botas e o chão de pedra polida. O ar não entrava. O mundo girou em um borrão de dor e asfixia.
Hnnngg…
A abominação deu um passo. Ergueu-se a quase dois metros e meio de altura, como uma torre de tecido morto e costuras negras, bloqueando a pouca luz.
Hnnng… A criatura gemeu novamente, estendeu ambos os braços irregulares para o criador encolhido. Um abraço do inferno.
— Monstro… Demônio! — engasgou entre jorros de sangue.
Tropeçou nos próprios pés, abandonando a bengala no meio do caminho. Correu pelos corredores atulhados de prateleiras, derrubou os livros antigos e frascos de experimentos falhos. O som dos passos pesados e molhados da criatura ecoava atrás dele.
“NÃO!”
O som dos passos pesados e molhados da criatura ecoava atrás, o arrastar de pés de algo que não sabia como andar, mas que seguia numa persistência assustadora, lembrava-o do inferno que havia criado.
Victor se atirou contra as portas pesadas do laboratório, rompeu a escuridão e alcançou o mundo exterior. O ar gelado atingiu seu rosto febril como lâminas afiadas. A tempestade ainda rugia, e a chuva torrencial lavou o sangue dos lábios. A noite, mergulhada em um breu absoluto, iluminada apenas por relâmpagos esporádicos, guiou para fora dali.
Ele correu cegamente pela colina lamacenta, escorregando e caindo de olhos na sujeira, apenas para se levantar e continuar fugindo. A chuva encharcava seus trapos, congelando seus ossos doentes, mas o frio não era nada se comparado àquela coisa que o seguia.
“Não posso deixar que aquela abominação me alcance!”
Lá em cima, na porta aberta do laboratório abandonado, uma silhueta gigantesca e recortada pelos relâmpagos preencheu o batente. A criatura olhava para a tempestade, sozinha, estendendo uma mão inútil para o escuro, sem entender por que aquele que lhe dera o sopro da vida a havia deixado para apodrecer no frio.
Victor descia aos tropeços, escorregando na lama espessa que tentava engolir as botas a cada passo. O vento uivava através dos pinheiros retorcidos, soando como os gemidos da abominação que ele havia deixado para trás no laboratório.
Cough! Um novo espasmo o jogou de joelhos no lodo. Suas mãos afundaram na terra gelada. O sangue espirrou dos lábios e se misturou à poça de água suja sob o rosto. Ele tentou se levantar, mas suas pernas cederam.
Rastejou como um verme expulso da terra, alcançou a beirada de uma estrada de paralelepípedos que marcava o limite de Ingolstadt. As luzes amareladas das janelas das casas pareciam estrelas distantes e inalcançáveis.
— Eli… zabeth… — tentou murmurar, mas o nome parecia estranho, pesado, errado.
Num último suspiro rasgado, a escuridão o abraçou não com a gentileza, mas com a violência do coma. O delírio febril assumiu o controle.
***
Não sonhava com dias ensolarados em Genebra, nem com o sorriso da mulher que havia perdido. Em vez disso, arrastou-se para as criptas úmidas e os necrotérios clandestinos.
O cheiro ácido do formol e da putrefação impregnava seus pesadelos. Se viu novamente com as mãos afundadas em carne gelada e morta. Viu a si mesmo serrando ossos, escolhendo membros com a frieza de um açougueiro no mercado.
— Este braço tem a musculatura perfeita…
— Estes olhos… os olhos de um afogado conservam melhor o nervo óptico.
A ilusão romântica de que estava “trazendo Elizabeth de volta” começou a derreter no calor da febre. A verdade se impôs na mente estilhaçada. Em momento algum, havia usado um único pedaço de Elizabeth. Seu corpo já havia retornado ao pó.
O que construiu. Era um quebra-cabeça de mendigos, ladrões enforcados e indigentes. Nunca havia sido a sua amada.
A dor da humilhação cortou mais fundo do que a dor do luto. O orgulho, a força motriz de toda genialidade, ferido. Ele, o homem que havia decifrado o enigma da vida, que havia roubado o fogo elétrico dos céus, estava sendo humilhado pela sua própria falha.
A tristeza e a saudade se tornaram passado. No lugar do luto, algo muito mais escuro, frio e denso se cristalizou. Ódio.
Um ódio clínico, puro e absoluto. Ódio da criatura por ser tão grotesca. Ódio de si mesmo por ter errado na equação estética. Ódio da da própria biologia humana por ser tão frágil. Patética.
“Não errei o princípio. O erro foi a matéria-prima. A carne imprevisível. A criatura não é ela. É uma doença. Uma anomalia que insulta a mim.”
***
Victor acordou num sobressalto. Sugou o ar de forma violenta, engasgando. O cheiro de lenha queimada, sopa rala e mofo invadiu suas narinas. O som da tempestade cessou, substituído pelo bater monótono de uma garoa contra a vidraça suja de uma janela pequena.
Suas costas doíam sobre um colchão de palha dura. Deitado no quarto miserável de uma estalagem desconhecida. Um velho estalajadeiro devia tê-lo encontrado na rua e o jogado ali por pena. As roupas rasgadas e manchadas de sangue haviam sido trocadas por uma camisa de linho grossa e áspera.
Piscou com as pupilas dilatadas. Tentou se sentar. O corpo protestou, a tosse arranhou a garganta, mas o sangue não subiu. A febre havia cedido.
Apoiou-se na parede de madeira podre, levantou-se com uma lentidão cadavérica. Caminhou até uma pequena bacia de água turva sobre uma cômoda rachada. Acima dela, um espelho manchado de umidade refletiu a figura que o encarava.
O homem no espelho parecia um espectro. Seus olhos tinham olheiras tão escuras que pareciam hematomas. Os cabelos, antes apenas grisalhos, agora estavam brancos e desgrenhados. As maçãs do rosto afiadas projetavam-se como lâminas sob a pele fina e doentia.
“Não posso errar os cálculos novamente…”
Não havia lágrimas presas nos olhos. Havia apenas um cálculo frio, a arrogância implacável de alguém que já havia visto o lado de lá do véu e descoberto que a vida não tem mistério mágico algum.
— Um erro não pode acontecer…
Victor agarrou a beirada da cômoda com os dedos magros e trêmulos. A lembrança da criatura cambaleando na mesa não encheu seu interior de pânico dessa vez. Encheu de repulsa. Seu erro estava solto. A monstruosidade que ele trouxe à vida vagava por algum lugar além da cidade.
Ele soltou a cômoda e ergueu o queixo. O peito doente estufava numa respiração superficial, porém decidida. Não ia morrer por essa tuberculose maldita.
“Eu não posso cair, até que corrija esse insulto à minha genialidade.”
Precisava dissecá-lo. Desfazer a vida que havia dado, rasgar fio por fio, músculo por músculo, até não sobrar nada além de carne inerte. O ‘Caçador Doente’ havia nascido.
***
O outono apodreceu rapidamente, dando lugar a um inverno prematuro e cruel.
Para um homem com os pulmões corroídos pela tuberculose, o ar gélido das montanhas da Baviera deveria ter sido uma sentença de morte rápida. Cada lufada de vento cortava a traqueia de Victor Frankenstein como vidro moído.
Cough. A velha bengala de madeira fora substituída por uma barra de ferro escuro que marcava o compasso de sua marcha fúnebre. Cough. Um cuspe espesso e escarlate manchou a neve virgem.
— Hugh… — sentia pouca náusea, mas era o suficiente para subir a bromidrose nas glândulas.
A caçada já durava três semanas. A princípio, rastrear a criatura era humilhante. Esperava encontrar o rastro de uma besta irracional, com pegadas profundas, destruição sem sentido e camponeses aterrorizados por uma espécie de ‘urso gigante’.
Mas, pelo contrário do que pensava, a abominação estava evoluindo numa velocidade assustadora, o cérebro remendado parecia fazer sinapses autônomas, absorvendo o mundo com uma curiosidade deturpada.
— Seu rastro está próximo…
Victor parou diante das ruínas de um celeiro isolado, nos limites de um vale esquecido por Deus. O telhado de palha havia desabado parcialmente pelo peso da neve. Não havia gado. Nem fumaça saindo da chaminé da cabana próxima. Apenas o cheiro inconfundível de cobre oxidado e fezes congeladas.
Ele caminhou até a porta de madeira rachada e empurrou-a com a barra de ferro. O interior do celereiro era um matadouro, mas não obra de algum lobo faminto. O que viu, fez estreijar os olhos encovados. Sem horror, mas num julgamento clínico e enojado.
Pendurado de cabeça para baixo em um dos ganchos de abate, estava o que deveria ser o pastor dono daquela propriedade. Ou pelo menos, o que restava dele. Seu corpo não havia sido devorado, mas desmontado.
“Essa besta…!”
A caixa torácica do homem foi aberta com força bruta, as costelas quebradas para fora como pétalas de uma flor. Os órgãos internos retirados e enfileirados sobre uma mesa de madeira tosca, ordenados por tamanhos.
Victor caminhou lentamente até a mesa, não sentia pena do pastor. A humanidade da vítima era irrelevante. Mas a grande ofensa, não poderia ser outra, senão a falta de técnica.
Tocou a borda do fígado congelado com a ponta do dedo enluvado. As incisões na carne do pastor eram irregulares, feitas provavelmente com uma foice enferrujada ou com as próprias unhas da criatura.
— Que trabalho porco… — murmurou com a voz rouca arranhando a garganta. — Força sem precisão. Curiosidade sem intelecto. Tentando imitar o bisturi do criador com as mãos de um bruto.
Se afastou da mesa e caminhou até o corpo pendurado, ali notou um detalhe. O insulto final.
Os braços do pastor haviam sido amputados e costurados de volta… invertidos. O braço esquerdo no ombro direito, e vice-versa. Para fixá-los, a criatura havia usado tendões de ovelha, amarrados em um padrão específico.
Victor arregalou os olhos numa faísca febril de fúria nas pupilas. Reconhecia o nó. A sua sutura de oito invertida. A exata técnica cirúrgica autorial que ele, como um cientista renomado, havia desenvolvido para ligar as veias principais da própria criatura no laboratório.
— Você acha que é igual a mim? — sibilou para as sombras do celeiro. Um acesso de tosse o atingiu, violento e repentino. Cough! Cough! Dobrou os joelhos, se apoiando no cadáver mutilado para não cair, o sangue respingou no chão de terra batida.
A gaiola ardia como brasas, mas o ego dele era ainda mais forte que a falência dos órgãos. Se endireitou, limpou o sangue do queixo com as costas da mão. Olhou ao redor e viu as pegadas pesadas e descalças saindo pela porta dos fundos, afundando na neve em direção às montanhas mais altas, onde o frio era letal.
Não estava fugindo por esmo. Estava traçando um caminho deliberado para os picos de gelo, testando os limites biológicos de Victor.
“Você não morre de frio.”
“Você não sente seus órgãos morrendo. Apenas quer me arrastar para onde a minha carne frágil vai falhar antes da sua.”
Um sorriso torto escorregou da expressão do homem.
— Muito bem. — Ergueu a barra de ferro e pisou na neve, decidido a seguir os rastros monstruosos. — Se é no abismo congelado que você deseja testar a minha verdade… eu lhe mostrarei que a vontade de um gênio pode sobrepujar o apodrecimento da própria carne. Eu vou destruir você, pedaço por pedaço, até que o universo esqueça que um dia você respirou.
O vento uivou em resposta, enquanto engolia a figura solitária e sombria que marchava em direção ao inferno branco. O fim do mundo não cheirava a enxofre. Cheirava a gelo, ozônio e sangue congelado.
As planícies alpinas cederam lugar a um desfiladeiro de geleiras irregulares, dentes de cristal azulado rasgam o céu cinzento e perpétuo. A nevasca uivava numa violência ensurdecedora, engolindo qualquer som de vida.
Victor arrastava a perna direita pela neve que já batia na cintura. As botas de couro estavam destroçadas, os dedos dos pés pretos pela ulceração do frio. As pontas dos dedos que seguravam a barra de ferro pareciam pedaços de carvão fixados em suas mãos.
O pulmão esquerdo de Victor já não expandia — colapsado, uma massa inútil de tecido necrótico e cicatrizes rasgadas. Cough! Um jato fino de sangue escapou dos lábios rachados, mas congelou antes mesmo de manchar a gola do casaco.
Seu corpo implorava para deitar na neve macia. O frio extremo começou a sussurrar uma falsa promessa de calor que antecedia a morte por hipotermia.
— Não… — disse através dos dentes batendo incontrolavelmente. — A mente… deve governar a carne.
Forçou a barra de ferro contra o gelo e alavancou o próprio peso para frente, subindo o último cume do desfiladeiro. Quando alcançou o topo, o vento pareceu perder a força repentinamente, como se a própria montanha prendesse a respiração para assistir ao espetáculo.
Diante dele, estendia-se um lago congelado, uma planície de espelhos foscos cercada por paredões de rocha negra e gelo eterno. E no centro do lado, lá estava quem tanto procurou.
Não vestia casacos pesados. Os trapos que cobriam seu corpo colossal já estavam endurecidos pelo gelo. A pele amarelada não tremia. Seu sangue grosso, impulsionado pela voltagem profana, fluía independentemente da temperatura. Era, em termos biológicos, superior a ele. E isso enojava Victor mais do que qualquer coisa.
Ao ouvir o som rasgado da respiração do cientista, a criatura virou-se lentamente. A evolução nos olhos leitosos do monstro era aterrorizante. Onde antes havia pânico instintivo de um recém-nascido, agora repousava uma inteligência densa, torturada e melancólica. As feições grotescas pareciam ter se assentado na tristeza.
— Acabou… a sua fuga…
Victor deu um passo à frente, ergueu a barra de ferro. Suas pernas vacilaram, mas o ódio o manteve de pé. Cough! O corpo se dobrou num espasmo violento que conseguiu cravar a barra no gelo para não cair.
— Eu vim… trazer o seu fim.
A criatura não recuou. A mandíbula pesada tremeu, os músculos do pescoço estalavam enquanto tentava forçar o ar pelas cordas vocais ressecadas.
— Cri… a… dor… — Sua voz não era humana. Era como pedras moendo umas contra as outras no fundo de um poço escuro.
A criatura não recuou. Ela o observou com uma calma sepulcral. A mandíbula pesada tremeu, os músculos do pescoço estalando enquanto tentava forçar o ar pelas cordas vocais ressecadas.
— Não me chame assim, seu monte de lixo fétido.
A criatura inclinou a cabeça, seus olhos grandes e aguados fixaram na figura alquebrada e frágil do homem que a caçava.
— Por… quê? — A palavra arranhou o vento. A abominação ergueu as mãos enormes e desproporcionais, olhava para as próprias cicatrizes e unhas sujas de sangue coagulado. — Dor… Tudo é dor. O escuro era… calmo. Por que… a luz?
Era o clamor existencial de alguém que nunca pediu para existir. O lamento de uma vida forçada à consciência apenas para ser odiada pelo mundo. Esperava uma justificativa. Um motivo grandioso para sua miséria. Talvez um pedido de perdão.
Victor ergueu o rosto cadavérico. Os olhos frios, vazios de qualquer empatia, compaixão ou remorso paternal. A chama que queimava ali era puramente ódio.
— Você acha que eu te devo uma explicação poética? — O riso foi como um chiado repulsivo nos pulmões doentes. — Você acha que eu o criei por besteiras como amor? Você não é um filho. Você não é um milagre. Você é um cálculo que deu errado. Uma teoria provada, mas mal executada.
A figura baixou os braços. A tristeza que consumia seus olhos começou a ser tomada por uma espécie de fúria primitiva e tempestuosa.
— Você não tem alma — continuou Victor, dando mais um passo trêmulo sobre o gelo, cuspia as palavras como veneno. — Você é apenas matéria morta que eu eletrocutei. Carne que colhi de valas comuns. Você sente dor porque seu sistema nervoso é uma gambiarra estúpida.
Argh!
Antes que a criatura sequer pudesse avançar, a biologia humana tomou sua última decisão. O pulmão direito do homem estourou. A pressão do ar gelado, o esforço hercúleo e a tuberculose cobraram seu preço final. Uma torrente de sangue quente e escuro jorrou da boca do cientista, pintando o gelo sob suas botas.
Thump!
Victor desabou de joelhos. Suas mãos tentaram agarrar o próprio peito, como se pudessem segurar os pedaços dos órgãos internos. Estava morrendo. A coisa caminhava até ele. Seus passos pesados rachavam a superfície do lago congelado. Parou diante o homem ajoelhado e ergueu-se como um colosso de retalhos que cobria o céu cinzento.
Podia tê-lo esmagado com um único golpe. Poderia ter arrancado a cabeça do criador como fez com o pastor. Mas o monstro aprendeu a lição mais cruel da humanidade. Ajoelhou-se lentamente, o rosto repulsivo a centímetros do rosto pálido do cientista.
— Fra… co… — sussurrou, não com ódio, mas com escárnio. — A carne… falha… O deus… apodrece.
O sangue escorria pelo queixo de Victor e congelava no colarinho. A visão começou a escurecer nas bordas. O frio finalmente parou de doer, sendo substituído por uma dormência sedutora. Mas mesmo em seus segundos finais, com a morte apertando sua garganta, os olhos não demonstraram medo, nem aceitação.
Tudo que restava era a fúria indomável de um intelecto que se recusava a se apagar.
— Eu… não… — engasgou entre as bolhas de sangue e rancor no fundo da garganta. — Eu… corrigirei…
O monstro virou as costas e começou a caminhar para longe, adentrando na tempestade branca, abandonando seu criador para morrer sozinho no abismo de cristal, no silêncio que ele tanto merecia.
A escuridão engoliu a mente de Victor. O coração, doente e exausto, deu sua última batida e parou. O corpo de carne cedeu.
Mas a morte não era o inferno prometido pelos padres, nem o silêncio pacífico dos justos. Para o universo, a matéria apenas se transforma. Enquanto a neve sepultava sua carcaça inútil e sangrenta no abismo da Baviera, a mente se recusava a desintegrar.
Despojado dos pulmões rasgados, liberto da fragilidade óssea e das limitações de um sistema nervoso falho, seu intelecto se expandiu. No útero gélido do vazio, qualquer resquício da sua humanidade foi cirurgicamente extirpado da consciência.
A tristeza desapareceu. O luto romântico por Elizabeth derreteu como cera rala. Da sua versão amante, da sua versão trágica e de todas as inúmeras facetas. Restou apenas a arrogância maciça e narcisista.
Uma única promessa se instaurou na eternidade, cristalizada num único pensamento.
“Eu reescreverei a vida. Carne por carne… século após século.”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.