Capítulo 109: Tão Rápido Quanto as Palavras
A visão embaçada teimava em não deixá-lo enxergar o que estava acontecendo, mas isso não importava muito ao coração que sentia a inquietude.
Seu estado físico foi melhorando aos poucos graças ao som. Pouco depois, pôde observar aquele homem em cima do palco, de braços abertos ao horizonte.
O sorriso quase tampava o rosto. Na sua perspectiva, o ar desse mundo era bom demais para ser verdade, e isso quase o fez esquecer-se do seu objetivo atual.
Os olhos abaixaram-se para a arena logo após.
Waraioni não estava ajoelhado; no entanto, sua respiração estava ofegante e os olhos pesados.
Ethan observou esse detalhe com uma curiosidade que o fez rir discretamente. E se, por apenas cinco minutos, esse garoto tivesse a chance de se tornar muito mais forte do que é?
Foi essa curiosidade que o motivou a agir. Ele esticou sua mão e abriu a palma, na esperança de que, se ele fosse um jovem esperto, entenderia a mensagem.
Nesse instante, um holograma de um fone surgiu em um sopro de partículas e pousou nos ouvidos do intitulado deus da dança.
Dessa forma, o instrumental de um trap começou a nascer. A batida abraçou o horizonte e estendeu-se à arena, tornando-a uma parte do som.
Waraioni sentia a vibração do solo serpentear por todo o seu corpo, como se ele e a música continuamente virassem uma coisa só.
Estava mais leve, como se tivesse trocado de pulmões; no entanto, sua mente pesava feito chumbo.
Antes que pudesse observar as próprias mãos, Melinoe já estava do seu lado com seu sorriso cheio de expectativas e desejos por mais diversão.
Um soco estava rente ao rosto quando os olhos arregalados pensaram em agir. Foi nessa fração de segundos que pôde esquivar para trás com seu holograma.
— Aquele esquisitão ali vai te ajudar, é?
Os pés firmaram-se no chão. A guarda baixa provocava um soco precipitado, mas do que adiantaria? Seus olhos sangravam só de pensar em acompanhá-la.
— Cê acha que isso vai adiantar alguma coisa?
Essas palavras foram mais lentas do que o soco que estava prestes a atingi-lo no nariz.
O contra-ataque pôde vir de imediato graças à leveza do corpo. Seu pé esquerdo chutou o solo para a direita ao mesmo tempo em que o pescoço inclinava para desviar.
No instante em que o soco de Melinoe passou reto, Waraioni retribuiu disparando um em direção ao queixo, vindo de baixo para cima.
Ela, por sua vez, observou aquele ataque vindo como se estivesse em câmera lenta e riu por um breve momento, cerrando o punho logo depois.
Seu queixo foi atingido, mas que diferença faz se o dano for menor do que nulo? Isso só lhe deu a certeza de que ele não desviaria dessa vez.
O soco foi disparado tão rápido quanto um raio. O acerto foi garantido, e o pescoço do garoto pulou para trás junto do impacto.
Sangue espalhou-se para todo lado. A consciência de Waraioni estava prestes a dissipar-se feito névoa, até que o chão estremeceu com a batida.
A dor desapareceu junto do sangue como um passe de mágica. O corpo, que estava pendendo para uma queda, retornou com força total para uma cabeçada.
Ironicamente, isso machucou ele, não ela, mas deu a brecha que ele desejava para recuar.
A respiração era tão ofegante quanto seu batimento cardíaco. Nessa pequena pausa que teve, pensava consigo mesmo quanto tempo isso ia durar.
— Dia de maldade!
Todos os pensamentos foram embora quando essa voz distorcida se ergueu.
O coração deixou de bater para conhecer o “vibrar”. O grave parecia morar dentro do peito, tornando-o, aos poucos, um só com a música.
Ele nem notava mais a própria respiração. Seus ouvidos tinham a atenção voltada apenas à letra, e os olhos fixavam-se na adversidade.
— Eu vim, dominei os palcos, rodapé, os mic com fio…
Os pés, outrora firmes, não hesitaram em avançar quando sentiram prontidão.
— Rodoviária Novo Rio…
Suas pupilas giravam com esforço máximo. Sangue se jogava no chão como se estivesse num filme de drama; entretanto, nada disso estava no seu radar.
— Sou paulista memo e chamo os outros de tio…
Melinoe, ausente de preocupações, não se incomodou nem um pouco em preparar um soco tão largo quanto seu sorriso.
— Eu não vejo o mar, a minha praia sempre foi.. Dollar bill…
Ainda era difícil de ver o golpe chegando, mas, com o foco de agora, estava minimamente mais fácil de acompanhar.
— Bora, filha, é sábado de abril, balada já abriu…
Seu pescoço conseguiu desviar no último segundo. Um dos punhos cerrou.
— Camarada meu já tá à mil…
Hesitou atacar sem nem saber o porquê; algo só sussurrou que não era a hora certa.
— Rap para me deixar febril eu tentei e não serviu. Uniforme é para garçom de navio!
Como consequência, uma abertura mínima foi criada para aquela monstra, e esse mínimo era o que ela precisava para extrair o máximo de qualquer coisa.
— Um salve ao imortal Sabotage! Que faz da rima um fuzil…
O soco da mais forte foi disparado. Pegou de raspão, mas deixou sua marca.
— Quinze anos depois construindo mais pontes que engenheiro civil. Isqueiro pra acender o pavio.
Seu coração começou a vibrar ainda mais forte.
— Racionais, RZO, engajamento na luta é vantagem…
Os instintos sussurraram: “está chegando…”. Arrepios começaram uma rebelião na ponta dos pés e venceram no topo da cabeça.
— Me deu liberdade de representar a cidade sem diversidade…
Seus pés deram um salto para trás. A distância era pouca, mas o propósito era maior: se preparar para o que quer que estivesse prestes a surgir.
Faíscas prateadas crepitavam no cabelo. Os fios eram consumidos pela cor branca pouco a pouco. Seu olhar, antes ciano, transicionou para a cor dourada.
Logo eles se entregaram a essas cores. A vibração já fazia parte da sua essência; tudo o que ele esperava era o sinal para avançar.
— Zona Norte pro mundo, então…
Os pés cravaram na arena.
— PARTIU!
Uma única palavra foi o suficiente para fazê-lo disparar como se estivesse fugindo pela vida. Seu punho já estava cerrado e preparado no mesmo instante em que a alcançou.
Melinoe ainda o observava como se ele fosse o mesmo garoto de antes. Sendo assim, preparou mais um soco tão largo quanto debochado.
— Ah, um salve a quem não falha na conduta, filha de uma puta, veste a carapuça, vida cara que me escuta…
Vinte e uma palavras. Graças ao seu descuido, essa foi a quantidade total de socos que ela recebeu em um único período breve de distração.
A surpresa abraçou seu olhar, mas ela não tinha mais tempo para isso; mais dezenove socos estavam no gatilho prontos para serem disparados.
— Mudo a tela que te muda, que se foda, muda o ano mas não muda o que se planta…
O preço para desviar? Prender a respiração. Quando ela achou que acabou…
— Viva a terra que te encanta, vende o almoço, pega a janta…
Um dos ataques pegou de raspão. Seu riso saiu como um sussurro.
— Maloqueiro canta junto com a vontade dessa porra de esse mundo ser melhor…
Antes que percebesse, seu corpo já estava entregue ao ritmo do garoto. Cada esquiva feita servia de impulso para tentar acertá-lo de volta.
— Mas, na verdade o que se prega é diferente da novela. Vida louca, vida curta…
Nada estava o acertando, nem mesmo de raspão. Enquanto isso…
— Eu com a navalha que te corta vale para o que se pensa. Que, no mundo que defende, vale mais seguir em frente…
Seu coração, junto dos socos, batia cada vez mais rápido.
— Caminhando diferente, caminhando com a minha gente, cara a cara com o obstáculo que prega nossa mente…
A mais forte já não estava mais disposta a viver no contra-ataque. Ela também queria mostrar que consegue golpear dezenove vezes em um instante.
— Na verdade eu canto aquilo que difere o nível. O cara é compatível, mas não passa no canal domingo…
Nenhum deles acertou, e isso foi do seu agrado. Aos poucos, tudo, além do guerreiro à sua frente, ficava cada vez mais embaçado.
Seus instintos nem sabiam mais quantos eram; só focavam em esquivar de cada um deles.
— Aquilo que se fala de importante pra nação…
Os oito quase acertaram, mas o ritmo acelerava além das suas previsões. Quando tentou acertar um soco forte…
— Mas que se foda, eu falo mesmo…
… Dois acertaram sua face. Tempo para pensar? Zero.
— Rápido como quem bate o coração…
Não havia mais respiração. Só a música importava.
— Em cada passo eu olho e vejo na bagagem calejada…
A diversão, junto da sua resistência absurda, transformavam-na em um monstro que não estava sentindo dor alguma e, ainda assim, uma gota de sangue escapou do nariz.
— Meu comunicado, mano, é complicado cada laço que mantenho vale o ouro, mas não vale o couro…
Aquela única gota caía como se estivesse em câmera lenta. A marca que deixou no chão registrava o momento em que o mais fraco feriu minimamente a mais forte.
— Aqui se vê suborno, põe na conta do mano que engana o povo…
A noção do tempo se perdeu com os versos. Sua empolgação estava alta demais para alguém que tentava suprimir seu poder ao máximo.
Seus golpes pesados começaram a pegar de raspão.
— Eu quero ver na cara a cara com o menor, ó…
Os ataques, antes tão rápidos quanto imprevisíveis, já tinham seu roteiro decorado.
— Tem muito veneno e pouca dó, ó…
Waraioni cerrou os punhos com a força que tinha. Cada golpe compartilhava desespero, como se estivessem no último suspiro.
— Falam da vitória, mas não falam da derrota, mano, para, para, para, para, para…
Sua velocidade já não era mais o suficiente para permanecer desviando enquanto ataca, e o que era previsível aconteceu: um soco atingiu o rosto.
— Rap Lord!
O impacto fez o brilho dourado nos olhos desaparecer em um instante. O pescoço voou para trás mais rápido do que os pés podiam suportar.
Bom senso é essência, eu penso em como o acesso é essencial…
Melinoe o observava de cima para baixo. Os danos que sofreu foram tão insignificantes quanto arranhões pequenos e, ainda assim…
A todos que entenderam, não adianta acusar…
… Estava ofegante. Mesmo diante dessa situação, o sorriso não sumiu do seu rosto. O que ela mais queria naquele momento era o levantar daquele garoto.
O dom nasceu comigo e vacilo é não usar…
As mãos trêmulas se apoiavam na arena. Suor escapava de mãos dadas com o sangue. Bufos dominaram seu peito e, ainda assim, não sentiu que tinha dado tudo de si.
Não demorou para se levantar. Os punhos estavam baixos, seu cabelo piscava entre a cor prateada e escura. Ele não percebia, mas estava sorrindo inocentemente.
Melinoe ergueu sua guarda, pronta para o último round. Waraioni avançou no mesmo instante.
— Ah, não pensa que eu parei, não acabou, não acabou, não…
Dessa vez, com o sorriso morando no rosto de ambos, aquele momento não era nada mais e nada menos do que uma despedida.
— Deixa eu aproveitar que esse momento é bom, jão…
Ela deixou alguns golpes acertarem de propósito só para devolver alguns outros. Da sua parte, não eram socos fortes, só o suficiente para machucar.
— E tá tão bom, irmão, que eu falei: Gordão, me estica mais um pouco da batida desse som…
Risadas, tão discretas e satisfeitas, escaparam de seus lábios.
— Vagabundão, vagabundo fica louco, eu tô loucão. Sente a colisão, então…
Melinoe, só de olhar, já sabia que ele não iria mais aguentar mais um de seus socos.
— Vindo de um moleque cativando pro meu rap…
Enquanto desviava, cerrava o punho para acabar com essa luta de uma vez por todas.
— Que te passa uma energia…
E ele veio, correndo em direção à brecha que o garoto deixou: o peito.
— Que virou meu ganha pão.
As partículas prateadas abandonaram o cabelo. Os braços do garoto não tinham mais forças para se levantar, tampouco os pés de ficarem firmes no chão.
As pálpebras ficavam mais e mais pesadas. Antes de tudo se tornar escuro, um pensamento ergueu-se junto de seu sorriso:
“Obrigado… Por me deixar desabafar.”
E no chão ficou, sem um pingo de energia para pensar em levantar por vontade própria.
O silêncio ergueu seu império. Os olhos da mais forte fixavam no garoto com os brilhos da admiração e, sobretudo, respeito.
Com o fim da luta, pôs as mãos no bolso e começou a caminhar para fora da arena. As cenas de cada soco sincronizado com a letra estavam vívidas em sua mente.
— Dizem por aí que é fácil fazer tudo que eu sei…
Arrepios serpentearam sua espinha na mesma hora. Não houve hesitação da curiosidade para olhar para trás.
— E não fazem…
Ethan segurava o garoto para que ele ficasse de pé. Ele ergueu um dos braços de Waraioni para o céu, declarando-o vencedor dessa luta.
Uma coroa de holograma surgiu em partículas cianas e pousou na cabeça do jovem.
— E não sabem.
Seus risos saíram sem ela nem saber o porquê. Pouco depois, retornou a caminhar, levantando a mão para cima em despedida.
Próximo capítulo: Amizade.

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