CAPÍTULO 12 - O PEDIDO
Oliver decidiu esperar na saída do bordel.
Enquanto aguardava, observou uma carruagem luxuosa e um homem vestido de mordomo ao lado dela.
O mordomo tinha vestes tradicionais preto e branco, sua alma emitia uma cor acinzentada. Esse tom de cinza em específico, representava o tédio.
Quando Oliver se aproximou, chamou a atenção dele.
O mordomo olhou e perguntou:
“Há algo em que eu possa te ajudar, jovenzinho?”
“Essa carruagem é do mago que acabou de entrar?”
O mordomo levantou uma sobrancelha: “Sim, possui assuntos a tratar com Sr. Archibald?”
Normalmente, ele não trataria uma criança aleatória tão bem. Mas era um bom exercício para matar o tédio.
“Quero pedir para ele me ensinar magia” Oliver disse com um sorriso singelo no rosto.
Finalmente, ele viu uma mudança na expressão do homem, que antes estava sorridente. Agora, parecia sério, adotando outra postura.
“Receio que não será possível, agora pode ir embora, vá vá” disse o homem, abanando a mão.
Oliver não se moveu. Ficou em silêncio, apenas esperando.
O mordomo pareceu impaciente ao perceber que o garoto não ia embora. Antes que pudesse dizer algo, a porta do bordel se abriu.
Dela, o mago Archibald saiu, indo em direção à carruagem.
Oliver estreitou os olhos.
“Já? Não fazem nem 10 minutos que estou esperando. Será que ele é precoce?”
Ele não manifestou esse tipo de pensamento e imediatamente se aproximou do mago.
O mordomo não impediu, parecia que queria observar o que estava prestes a acontecer.
“Olá Senhor Mago, meu nome é Oliver. Ouvi falar da sua ilustre presença na cidade. E gostaria de solicitar que seja meu instrutor, por favor me ensine!”
Oliver foi formal, tanto na fala quanto no cumprimento. Não era o tipo de comportamento esperado de um plebeu caipira como ele, mas sua mãe o havia ensinado a agir na presença de alguém da alta sociedade.
Entretanto, ele não obteve a reação que queria.
Imediatamente, antes que o mago dissesse qualquer palavra, Oliver percebeu as mudanças que ocorriam na cor de sua alma. Foi a primeira vez que viu um amarelo genuíno de felicidade mudar para um vermelho raivoso.
“Parece que eu realmente tenho o dom de irritar as pessoas”
Pelo canto do olho, Oliver notou um sorriso discreto no rosto do mordomo. Parecia que ele já esperava esse tipo de reação de seu mestre.
“Atualmente estou aqui para ensinar alguém, me pagaram com uma quantia tão grande que você não faz nem ideia. E mesmo assim quer que eu te ensine de graça? Nos seus sonhos. Não ouse se aproximar de mim novamente plebeu, hoje perdoarei sua ignorância.”
O mago Archibald foi direto e duro nas palavras, entrou na carruagem sem dar chance a Oliver de dizer sequer uma palavra.
O mordomo parecia um tanto decepcionado, ele esperava uma reação mais expressiva de seu mestre.
“Sebastian, rápido. Guie minha carruagem de volta. Ainda há serviço a ser feito hoje.” disse o mago Archibald.
O mordomo se pôs a postos e tocou os cavalos. A carruagem partiu.
Oliver franziu o rosto, inconformado. Normalmente bastava ser um pouco atrevido para conseguir o que queria.
“Parece que me tornar um mago não é um assunto simples.” murmurou baixinho enquanto voltava para casa.
…
Da janela do segundo andar, essa situação foi observada por uma cornídea de pele azul e chifres curvados.
…
Os próximos dias passaram-se lentamente. Oliver seguia a mesma rotina de sempre.
A carne de lobo realmente foi uma “mão na roda”, ela alimentou eles por todo esse tempo. Oliver e sua mãe tiveram que apenas comprar temperos para cozinhar a carne e condimentos para preservá-la sem que estragasse.
Mesmo que seu gosto fosse horrível, ela ainda matava a fome. O que era mais do que o suficiente.
Eliandris já estava quase recuperada, os poucos ferimentos que ainda tinha podiam ser cobertos com maquiagem, isso não seria um problema.
Naquela noite ela voltou a trabalhar.
As meninas da casa a recepcionaram muito bem, estavam todas felizes que Eliandris tinha se recuperado e voltado a trabalhar. Mesmo que elas se vissem todos os dias, por morarem juntas. Eliandris já não participava das atividades noturnas, que era o momento em que o bordel se encontrava mais cheio e vivo.
Erina se aproximou de Eliandris e foi conversar com ela, com um sorriso nos lábios.
“E então? Já se recuperou o suficiente para voltar?” Erina estendeu a mão e tocou o ombro de Eliandris com familiaridade.
“Sim, não precisa se preocupar comigo.” Eliandris respondeu com um sorriso leve, mas seu olhar ainda revelava um traço de cansaço.
Erina assentiu, satisfeita, e descansou o queixo sobre a mão, pensativa. “Seu filho é um tanto competente, é uma lástima o que aconteceu com Talruk. Mas pelo menos ele voltou bem e com um pedaço generoso de carne de lobo.”
Eliandris piscou lentamente, processando a mudança de assunto. “Sim, por mais que não seja da minha cultura me alimentar de carne, é o que está nos mantendo de barriga cheia.” Sua voz carregava gratidão.
Erina respirou fundo, como se fosse dizer algo importante. Seus olhos se estreitaram levemente, e ela inclinou-se para mais perto, reduzindo a voz. “Ótimo. O garoto está fazendo outros movimentos, talvez você não saiba. Mas semana passada eu vi ele conversando com o mago Archibald. Pediu para ele ensiná-lo pessoalmente…”
Eliandris congelou. Seu corpo enrijeceu em um reflexo involuntário.
Esse mês não houve dinheiro para pagar por informações. Mas era um mês incomum. Eliandris podia notar que a vila recebia mais visitantes que o normal. Ela precisava ficar de olho em potenciais ameaças.
Aos seus olhos, Archibald poderia ser uma ameaça. Mas ela não tinha certeza ainda. Por isso preferia manter distância de pessoas suspeitas e evitar o perigo.
Porém, Oliver não fazia ideia da situação em que ele e sua mãe se encontravam, nem que talvez houvessem perseguidores atrás deles. Por isso se aproximou do mago sem temê-lo.
Erina percebeu a aflição e falou tentando aliviar Eliandris.
“Ei, eu sei toda a sua situação… eu que te ajudei nos primeiros dias que estava em Corval. Vi o final da sua gestação. Ajudei a cuidar de Oliver nos primeiros dias de vida dele. Eu não traria perigo pra vocês, pode ficar despreocupada.”
Eliandris suspirou, é claro que ela sabia de tudo isso. Erina era a pessoa que ela mais confiava em Corval. Mesmo que por fora ela parecesse distante. Ela se importava de verdade. Sentimentos não podiam ser escondidos de um elfo da alma.
Erina era genuinamente bondosa. Todo esse tempo ajudou Eliandris e Oliver sem nunca esperar nada em troca. Se Oliver não tivesse trazido um pedaço de carne de lobo consigo, Erina teria ficado parada? Jamais!
Ela não deixaria que uma amiga tão próxima passasse necessidades enquanto ela pudesse ajudar.
“Eu te conheço há somente 7 anos. Mas você se tornou mais confiável do que pessoas que conheço a mais de 100 anos…” Eliandris falou de forma sincera, o tempo para elfos passava de uma maneira diferente.
“Tsk. Odeio esse papo de quem tem todo o tempo do mundo…” Erina fez uma cara de escárnio, claramente insatisfeita em ouvir isso.
Mas a cor de sua alma brilhou num leve tom amarelado. Indicando que estava feliz com a declaração de Eliandris.
Após uma leve risadinha de Eliandris, percebendo que ela estava se fazendo de “durona”, Erina falou:
“Bom, o motivo pra eu te contar isso é simples. Se você autorizar, posso conseguir uma ou duas aulas de magia para o garoto. Archibald não é uma pessoa ruim e ultimamente parece estar se apegando a mim. Posso pedir um ou dois favores.” explicou Erina. “Mas somente se você autorizar…”
Eliandris pensou. Ela sabia uma coisa ou duas a respeito de magia. Mas foi proibida de praticar por ser uma elfa da alma. Então ela não poderia ensinar nada disso ao seu filho de uma maneira mais profunda.
Porém, não seria ruim se Oliver desenvolvesse capacidades mágicas. Eliandris já planejava iniciar um treinamento ensinando-o na antiga arte de luta élfica. Se ele também se tornasse um mago, não seria ruim.
“Tudo bem, se você conseguir que o mago ensine, eu autorizo”
Erina assentiu e em seguida partiu, indo atender alguns clientes, a noite seria agitada.

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