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    Eles estavam sendo conduzidos.

    Harley percebeu isso antes mesmo de conseguir nomear a mudança. Não foi a velocidade das criaturas que o alertou, nem qualquer movimento brusco na formação: foi exatamente o oposto. 

    O avanço bruto havia cessado. Em seu lugar, os Cobradores se deslocavam com uma contenção quase cirúrgica, cada passo calibrado, cada ângulo fechando-se com a precisão de quem não precisa correr porque já sabe onde o corredor termina.

    Algo havia sido responsável por essa mudança nos seus perseguidores. Algo os guiava. E esse algo ainda não havia se mostrado.

    Atrás da massa coordenada de corpos, uma força ainda distante e oculta já deformava o vale de dentro para fora. Não avançava. Não atacava. Tornava o movimento irrelevante. Sua presença empurrava o ar, deslocando o equilíbrio do vale inteiro, uma pressão sem forma que não tocava nada e ainda assim alterava tudo.

    A mudança se insinuou no comportamento coletivo das criaturas, ajustando cada movimento até que o padrão acelerado anterior deixasse de existir. 

    Os ângulos se fechavam enquanto as distâncias eram encurtadas sem violência visível, e o espaço ao redor dos dois se comprimia em um silêncio carregado de intenção, empurrando-os lentamente, quase sem perceber, na direção do estreitamento entre as formações de rocha e em direção da força desconhecida.

    Ivana também havia percebido. Mesmo com a lança baixa em sua mão, a tensão acumulada em seus ombros denunciava cálculos constantes: distância, velocidade e espaço de manobra. Seus olhos percorriam a linha de criaturas sem pausa, desmontando cada trajetória antes mesmo que ela se completasse.

    — ENTÃO ANDA — disse ela, sem desviar o olhar.

    Harley não respondeu.

    A sensação surgiu de forma gradual. Um desconforto leve surgiu atrás dos seus olhos, parecido com a pressão que antecede uma dor de cabeça, já carregando uma familiaridade incômoda que o fez reconhecê-la antes mesmo de tentar nomeá-la.

    Aproveitando-se da diminuição no ritmo dos seus perseguidores, o jovem Ginsu fechou os olhos e deixou o ruído recuar para o fundo da consciência. O vento atravessava as dunas com um som contínuo, enquanto as criaturas raspavam a superfície da areia em movimentos pacientes e progressivos. 

    No escuro, as conexões começaram a aparecer. Em vez de fios estáticos ou linhas definidas, surgiam como tensões distribuídas no espaço, trajetórias negras ligando acontecimentos ainda incompletos e se reorganizando entre si em uma estrutura invisível em constante ajuste.

    Algumas atravessavam as criaturas que avançavam pela areia. Outras percorriam as dunas distantes. No horizonte turvo, outras desapareciam, todas convergindo para o ponto onde o peso maior distorcia o vale, organizando-se em um fluxo que lembrava afluentes de um rio ainda inexistente, com foz já decidida.

    Harley não via resultados. Via possibilidades comprimidas umas contra as outras.

    Algumas linhas estavam frouxas demais para suportar intervenção, instáveis, lembrando estruturas prestes a se desfazer. Outras já pareciam decididas e avançando para desfechos difíceis de alterar sem custo extremo. 

    Mas algumas vibravam de forma diferente: superfícies sob pressão ainda sem direção definida e acumulando tensão. Não estavam prontas para acontecer, apenas para serem direcionadas.

    Ele estendeu a mão e puxou uma das mais fracas primeiro, testando a resistência daquela rede invisível. O efeito não veio de imediato, e o mundo pareceu ignorar completamente a interferência, mantendo o mesmo ritmo opressivo que pressionava o vale.

    Alguns segundos depois, uma rajada irregular atravessou o desfiladeiro entre as rochas, levantando véus de areia e quebrando a uniformidade do ar. Uma das criaturas hesitou, o avanço quebrado fora de ritmo, antes de retomar a formação. Um fragmento de rocha se desprendeu da encosta e rolou alguns metros antes de parar contra uma duna.

    Nada decisivo e os Cobradores continuavam avançando.

    — VOCÊ PRETENDE CONTINUAR PARADO? 

    O grito de Ivana não carregava dúvida, apenas irritação crescente e, sob ela, algo que não nomearia: a apreensão de quem protege sem compreender o que está protegendo.

    — PORQUE EU PRECISO SABER SE VOU LUTAR SOZINHA.

    Harley ignorou a pergunta. Fechou os olhos novamente. E embora ainda estivessem presentes, espalhadas pela paisagem, lembrando tensões invisíveis, as linhas reagiam de maneira diferente, como se a intervenção anterior tivesse perturbado o equilíbrio interno daquela rede, acordando algo que preferia permanecer dormindo.

    Algumas das linhas haviam relaxado. Outras começaram a se tensionar com rapidez inesperada, redistribuindo pressão acumulada. Uma delas se destacou.

    Era diferente das outras. Embora não apontasse para um evento claro nem oferecesse qualquer antecipação de resultado, concentrava uma carga desproporcional ao próprio tamanho, sugerindo que havia sido alimentada por algo externo por muito tempo. Sua direção coincidia com precisão com o ponto onde as outras linhas convergiam. Onde o vale pesava mais.

    Harley não sabia o que havia do outro lado. Podia ser nada útil. Podia ser algo muito pior do que a situação atual. Podia estar ligado ao que os conduzia: uma força que jogava contra eles tanto quanto os Cobradores. Liberar aquela tensão sem conhecer sua natureza era puxar algo que já estava prestes a romper, sem saber se ele controlaria o colapso ou apenas faria parte dele.

    Aquela linha não se sustentaria. Ele sentia isso com a mesma clareza com que sentia o solo sob os pés. A janela se fechava. E seu único trabalho era escolher onde a ruptura aconteceria, cabendo a ele apenas defini-la, não controlar o que viria depois.

    Atrás dele, a areia cedeu de repente.

    O movimento veio sem aviso visível. Diferente da emboscada anterior, desta vez o próprio solo se transformou, e a superfície tornou-se instável, absorvendo seus pés, dando a impressão de que a areia o engolia lentamente por vontade própria.

    Um Cobrador inteiro se movia sob a superfície, guiando o deslocamento do terreno com o próprio corpo. E a pressão subterrânea aumentou ao redor da perna do jovem Ginsu, depois da outra. O solo instável transformava qualquer esforço de resistência em afundamento mais rápido.

    Cada empurrão contra o terreno fazia a areia ceder mais e puxar o corpo para baixo, aprofundando o afundamento a cada tentativa de reação. Não era apenas instável, era uma armadilha projetada para quem luta, para quem tenta escapar com força e, ao insistir, só garante que não sairá.

    E então o frio voltou, não do ambiente, e sim de dentro. Era o mesmo. Algo parecia abrir um ralo no fundo de seu peito, e a sua energia escorria devagar. Ele reconheceu aquilo. A drenagem não atacava, apenas o esvaziava: paciente, repetindo o padrão anterior, certa de que o tempo estava do seu lado.

    Harley tentou mover as pernas. A areia respondeu prendendo mais fundo. Tentou girar o tronco. O solo cedeu na direção errada. A superfície já não parecia apenas terreno instável.

    Parecia uma decisão.

    Ivana viu. Não perguntou. Não avaliou. O desespero de quem havia lutado sozinha enquanto ele ficava parado com os olhos fechados, sem entender, sem poder confiar: tudo aquilo condensou-se em movimento puro.

    Ela estava exausta. Seu contorno ainda não havia se estabilizado completamente depois da última fragmentação, e cada deslocamento custava mais do que deveria. Mas ela correu na direção errada, indo na direção de Harley em vez de buscar uma saída.

    A lança desceu em um ângulo que não era elegante nem calculado. Era urgente. A haste golpeou o solo ao lado do jovem Ginsu com força suficiente para criar uma ruptura na superfície e interrompendo a coesão que mantinha a armadilha intacta. A areia perdeu pressão por um único instante. Bastou.

    — EU NÃO ENTENDO O QUE VOCÊ FAZ — disse ela, puxando-o pelo braço enquanto o solo ainda cedia — MAS TERMINE LOGO.

    Harley arrancou as pernas da areia.

    As linhas ainda pulsavam atrás de seus olhos. A tensão naquela conexão distante havia aumentado de forma abrupta enquanto estava preso, a armadilha revelando-se parte do mesmo padrão que o empurrava, enquanto algo, ou alguém, parecia saber que ele havia percebido aquela linha e tentava interrompê-lo antes que chegasse até ela.

    Aquilo mudava o peso da decisão. Não se tratava mais de agir ou não agir. Tratava-se de onde tudo quebraria. Harley manteve os olhos fechados. Não para pensar, e sim para aceitar que, dali em diante, qualquer direção teria um custo.

    Se o que estava do outro lado dessa tensão era inimigo dos mesmos que o aprisionavam, então talvez não importasse o que era. Importava onde apontava.

    E então decidiu puxar.

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