Alicex desceu do topo do cogumelo com leveza, os pés tocando o chão como se ele pudesse rasgar a qualquer momento. Parou diante dos quatro, espreguiçou-se com preguiça calculada, ajeitou o boné torto e abriu um sorriso malandro.

    — Então… pra onde exatamente os manes querem que eu guie vocês?

    O olhar dela passeou por todos, lento, avaliador — até parar em Pionla por tempo demais.

    — Precisamos que nos leve até a fronteira de Kuaitia com o Circo das Maravilhas — disse Bauvalier, a voz firme, porém alerta.

    — Tá certo — respondeu Alicex, já virando de costas e fazendo sinal para seguirem. — Mas ó: não desgrudem de mim. O caminho passa por território de uma turma minha. Já conversei com eles, então dá pra atravessar numa boa…

    Ela parou por um segundo, olhou por cima do ombro, o sorriso afiado.

    — …desde que vocês não fiquem circulando demais. Entenderam bem, “majestade”?

    Sem esperar resposta, começou a andar.

    À medida que avançavam, a paisagem mudava. O chão escurecido de Cogulux foi perdendo cor até se tornar branco demais — papel. Não terra, não pedra: papel. As ruas surgiam como folhas dobradas, prédios erguidos em camadas frágeis, casas simples com janelas desenhadas à tinta.

    — Não me lembrava de Kuaitia assim — comentou Pionla, observando as construções humildes. — Deve fazer muito tempo desde a nossa última visita.

    — Claro… — murmurou Alicex, quase inaudível. — Venham pra cá como se vocês se importassem.

    — Sim, Pionla — completou Bauvalier, sem notar o tom. — Acho que a última vez foi há cem anos… ou cento e dez, não me recordo bem. Mas é estranho ver tudo tão precário. Eu jurava que tínhamos enviado um ótimo financiamento para melhorar este lugar.

    Ele fez um gesto amplo com a mão, como se resumisse Kuaitia inteira a um detalhe administrativo.

    Ré sentiu o ar pesar. Antes que o silêncio virasse algo pior, acelerou o passo até ficar ao lado de Alicex.

    — Então… como vai a família, Ali? — tentou, num tom casual.

    Alicex não respondeu de imediato. Continuou andando, os passos firmes sobre o papel rangendo baixo. Só depois virou o rosto, o sorriso agora ausente.

    — Vai bem — disse. — Mas ia ficar bem melhor se nosso reino não fosse ignorado pelos deuses.

    Ela fez uma pausa curta, o olhar duro.

    — E também pelo governo corrupto daqui.

    Depois do que Alicex disse, o silêncio estourou.

    Ré levou a mão à boca, incrédula por ela ter falado aquilo em voz alta. Pionla e Bauvalier trocaram um olhar — algo escureceu ali.

    — O que você disse, menininha? — Pionla perguntou, o tom cortante.

    — Por acaso eu gaguejei? — Alicex respondeu em deboche, virando-se e ficando cara a cara com ela.

    — Mais respeito. Nós somos autoridade aqui — Bauvalier disse, já perdendo a paciência.

    — Gente… — Roseta tentou intervir, mas ninguém ouviu.

    — Se vocês acham que são autoridade — Alicex continuou, elevando a voz — então me explica por que tem tanto crime, tanta pobreza e fome por aqui. Fala. Porque dizer que manda é fácil, mas eu nunca vi vocês brotarem por essas ruas.

    — Estamos tentando manter os reinos em ordem — Pionla rebateu, aproximando-se. — Eu e meu irmão tivemos que lidar com problemas muito mais graves depois da morte da nossa mãe.

    A tensão ficou densa.

    Ré se colocou rapidamente entre as duas, afastando-as com as mãos. Pionla ainda lançava olhares duros; Alicex parecia pronta para partir pra cima.

    — Vamos discutir isso depois — Ré disse, firme, tentando manter a calma. — Agora precisamos ir até a fronteira.

    — Tá — respondeu Pionla, seca.

    — Ok — Alicex completou, sem esconder o desprezo.

    — Que ótimo… fico feliz que tudo tenha dado certo no final — Ré tentou aliviar, forçando um entusiasmo.

    — Essa discussão será retomada — Bauvalier disse, mais controlado.

    Ele se virou para falar com Roseta — e congelou.

    — Roseta?

    Nenhuma resposta.

    — Onde ela está? — Pionla perguntou, agora claramente preocupada.

    — Filhos da put@! — Alicex gritou, fazendo várias pessoas na rua olharem. — Quem foram os babacas que sequestraram a mina? Não sabem que isso é proibido nessa área?!

    Ela saiu andando até um beco, puxou um grande pincel e desenhou uma porta na parede. A tinta escorreu — e a porta se abriu, revelando vários corredores.

    Sem opção, os outros a seguiram.

    — Onde você está indo? — Pionla perguntou, tentando acompanhá-la.

    — Por essas bandas, sequestro dá guerra — Alicex respondeu, analisando os corredores. — E uma guerra de facções é a pior coisa que pode acontecer.

    — E como você tem tanta certeza que é um sequestro —- Pionla questiona

    — Por aqui ninguém some do nada, e provavelmente com sorte ela ainda pode estar viva — Alicex responde

    — Então por que estamos nesse lugar estranho? — Bauvalier questionou, com um leve deboche.

    Alicex revirou os olhos, mas continuou andando.

    — Esse “lugar estranho”, Bauvalier, são corredores secretos. Só membros de facção conseguem abrir — Ré explicou, andando no mesmo ritmo que Alicex. — A Ali já me ajudou a passar por aqui antes.

    Alicex parou diante de uma parede vazia, desenhou outra porta e entrou.

    Do outro lado, havia um grupo de pessoas bebendo, rindo e montando armas improvisadas.

    — Escutem aqui! — Alicex gritou. — Onde está o Aravo?

    Os homens apontaram para um sujeito mais velho, encostado ao fundo. Alicex foi até ele e respirou fundo antes de falar.

    — Foi você ou algum desses idiotas que sequestrou uma mina?

    Aravo sorriu.

    — Boa tarde também, Alicex. Não fui eu, nem meus homens. Você sabe que isso aqui é proibido.

    O sorriso desapareceu quando ele percebeu quem estava ali.

    — Mas se isso aconteceu no meu território… — a voz dele ficou pesada — você sabe exatamente o que acontece.

    — O que vai acontecer? — Ré perguntou, ficando atrás de Alicex.

    Aravo olhou para ela, depois para os irmãos.

    — E aí Ré, vejo que Alicex trouxe companhia —- Ele olha os irmãos —- E logo nossos deuses: Pionla e Bauvalier. — Ele voltou o olhar para Ré. — Mas o que vai acontecer e que se o Jasy não explicar por que invadiram meu território e sequestraram uma mina, vou ter que sujar minhas mãos. Você sabe como funciona, né Ré?

    — Não acho que precise de algo tão extremo — Alicex disse, agora mais calma.

    Aravo a observou por alguns segundos antes de responder.

    — Você garante que ela foi sequestrada? — perguntou. — Ou está apenas supondo? Porque, sem certeza, eu não ajo. Ainda assim, vou mandar meus homens verificarem se isso procede.

    O olhar dele deslizou até Pionla.

    — Se puder encontrá-la, ficaremos em dívida com o senhor — Pionla disse.

    Aravo levantou a mão, interrompendo-a.

    — Nem comece, deusinha. Não estou fazendo isso para ajudar vocês. Estou fazendo porque tenho princípios. — Ele se recostou no assento, cruzando os braços. — Mas, se quiserem considerar isso uma dívida… tudo bem.

    Depois, fez um gesto vago com a mão.

    — Amanhã eu vejo isso. Se quiserem ficar por aqui, será por conta da Alicex.

    Alicex assentiu, embora com uma careta de claro deboche. Bauvalier lançou um olhar rápido para Pionla; ela desviou, escondendo o rosto sob o chapéu, visivelmente envergonhada.

    — Certo. Vou mostrar onde vocês vão ficar — disse Alicex.

    Ela desenhou uma pequena porta no chão com o pincel. Assim que se abriu, pulou para dentro. Os outros a seguiram e caíram sobre um colchão velho, em um quarto pequeno, aconchegante… e bastante destruído.

    — Espero que gostem — Alicex disse, abrindo outra porta para sair. Ela bateu com força ao fechá-la.

    — Mas ainda está de dia — Ré comentou, confusa.

    — Se era pra ficar nesse lugar, era melhor termos criado nosso próprio quarto — Bauvalier resmungou, olhando para Pionla.

    — Podemos usar nossos poderes para melhorar algumas coisas — Pionla tentou soar positiva.

    Enquanto Pionla e Bauvalier começavam a reorganizar o espaço, Ré observava o relógio em seu pulso.

    Em outro lugar, distante dali, outro relógio também soava.

    Os olhos de Roseta se abriram lentamente.

    Ela estava amarrada.

    Sem demonstrar esforço, soltou as amarras — mas permaneceu deitada. Pouco depois, a porta se abriu. Roseta fingiu estar presa, o corpo relaxado, a respiração fraca.

    Quem entrou foi apenas um garoto.

    — Moça… você acordou. Que bom — ele disse, aproximando-se. Colocou a mão em sua testa. — Não parece doente… mas sinto muito.

    — Por que alguém tão jovem está aqui? — Roseta perguntou, imitando uma voz fraca. — Onde estão aqueles que tiveram coragem de raptar uma Rose?

    — Eu sou Lux — disse o garoto, sentando-se no chão à frente dela. — Foi meu pai que te sequestrou. Desculpa mesmo… ele não costuma fazer isso.

    — “Não costuma”? — Roseta perguntou com suavidade perigosa. — Não pareceu que hesitaram.

    Lux abaixou o olhar.

    — Desde que meu pai e os homens dele pegaram umas armas que surgiram perto de uma bola vermelha… eles estão estranhos. — Ele respirou fundo. — Eu ouvi dizer que você é amiga dos deuses. Se puder pedir ajuda a eles… eu agradeceria.

    Havia esperança demais naquele olhar.

    — Vamos encontrar seu pai — Roseta disse com calma, levantando-se. — Eu vou falar com ele. Agora que estou alerta, não vão me sedar de novo.

    Ela passou a mão pela cabeça do garoto.

    Lux arregalou os olhos.

    — Quando você se soltou?

    — Foi após eu acordar — Roseta respondeu, fria. — Eu só estava esperando. Se você tentasse qualquer coisa, eu te neutralizaria.

    Ela abriu a porta.

    Do outro lado, apenas escuridão.

    Ela escuta passos e volta, fechando a porta.

    — Você deve saber andar por aqui, então me guie — ela diz tranquila.

    — Ok, moça.

    Ele pega um giz de cera e desenha uma portinha na parede, do lado oposto da porta principal.

    — Vamos, moça.

    Ele empurra a portinha, abrindo-a.

    Roseta entra primeiro e, ao ouvir os passos se aproximando, fecha a portinha rapidamente.

    — Então vamos encontrar seu pai — ela leva a mão até a cintura e percebe algo — …Mas antes preciso achar minha arma. Você tem ideia de onde ela pode estar?

    — Eles costumam guardar as armas na sala de armas. A sua deve estar lá — ele responde, já desenhando mais algumas portas e abrindo a da esquerda.

    — Então vamos.

    Ela entra junto com ele e saem em um corredor com alguns guardas segurando armas com um brilho avermelhado e semblantes estranhos.

    — Olá, rapazes — Roseta diz tranquila, mas suas mãos se fecham em punhos.

    Eles não respondem.

    Correm na direção dela.

    Ela empurra o garoto para trás.

    Com um movimento rápido, desvia do primeiro golpe.

    — É muito rude tentar acertar uma dama sem arma — ela diz segurando o braço de um deles — Uma dança? Claro, eu aceito.

    Ela gira o homem com força, usando o próprio corpo dele para atingir os outros ao redor.

    Alguns tentam atingi-la com as armas, mas ela desvia com leveza, faz o homem girar mais uma vez e o lança contra os demais.

    Os corpos caem um por um.

    Silêncio.

    — Agradeço a dança, mas agora vou pegar o que é meu — ela ajeita o vestido em um gesto elegante.

    — Você matou eles? — Lux pergunta assustado.

    — Não. Só estão inconscientes — ela responde calma — Vamos achar minha rapieira logo.

    O menino segue na frente, guiando.

    — Moça… esqueci de perguntar seu nome.

    — É Roseta. Roseta Rose.

    — Rose… — os olhos dele brilham — Você é da família que faz comércio, não é? Meu pai disse que vocês Rose são uma das razões de Kuatia ainda estar de pé. Você e sua família são heróis.

    Roseta balança a cabeça em negação.

    — Não sou heroína. Sou apenas uma negociadora.

    Ela perde o raciocínio quando sente os braços do garoto envolvendo sua cintura.

    — Mesmo assim, vocês mantiveram todos nós bem.

    Ela sorri de leve e faz carinho na cabeça dele.

    — Obrigada, garoto. Agora vamos.

    Ele concorda e anda mais rápido.

    Chegam até a sala de armas.

    — Aqui, moça Roseta.

    Ela observa o local com atenção. Entre as armas, vê um símbolo de lua vermelha marcado no metal.

    — Armas nascidas do carmim… com certeza vieram da semente.

    Ela tenta tocar uma delas.

    A flor em seu olho começa a arder.

    Ela se afasta rapidamente.

    — Que estranho…

    O olhar dela percorre o ambiente até encontrar sua rapieira.

    Ela a pega com firmeza.

    — Achei. Agora vamos falar com seu pai. Talvez eu consiga entender se o efeito dessas armas é temporário.

    — Meu pai deve estar dormindo agora… ele ficou muito mal depois de usar uma dessas — Lux diz preocupado.

    Roseta coloca a mão no ombro dele.

    — Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

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