Capítulo 47: Pré-Guerra (4)
O silêncio era absoluto. As paredes de pedra com musgo se erguiam como costelas de uma besta morta. Rochas que se formaram ao longo dos anos moldavam corredores que não viam luz do sol há séculos.
Belmorth caminhava sozinho, os passos ecoando nas pedras irregulares.
— Aqueles moleques… — ele rangeu os dentes. — Aquela ardenteriana, aquele douradiano imbecil.
O Carnoféx pulsava ao seu lado, a massa de carne ambulante se moldava ao terreno enquanto andava.
— Invadiram minha fábrica, destruíram minhas criações. — A voz dele subiu. — Roubaram a página da grande Signore!
Ele golpeou a parede com o punho e o som foi seco, rachaduras se espalharam pela pedra do ponto de impacto até o teto. Mas o osso da mão estalou em protesto.
— Droga… — ele sibilou. — Cure-me, [Carnoféx].
A massa de carne envolveu a mão dele e, em segundos, os ossos se realinharam e a carne ressurgiu.
Foi quando uma voz cortou o corredor.
— Você tá bravinho de novo, Belmorth?
Ele se virou rápido. Uma mulher se apoiava na parede oposta, os braços cruzados. Cabelos curtos e desgrenhados emolduravam um rosto bege. No pescoço, o símbolo de Nazhur se mostrava sob a luz fraca.
Usava um macacão branco que cobria o corpo inteiro, e uma máscara metálica em forma de onça escondia a parte superior do rosto.
O peitoral de ferro tingido de amarelo claro trazia um corte bestial ao centro. Ombreiras adornadas com lã branca nas extremidades, manoplas pequenas no mesmo tom amarelo cobriam as mãos, protetores na lateral da cintura e grevas metálicas até os joelhos.
Os sapatos terminavam em pequenas garras felinas.
— Niandra — Belmorth cuspiu o nome.
— A própria. — Ela riu. — Ouvi dizer que uns moleques te deram uma surra.
— Eles tiveram sorte.
— Sorte? Um mago do seu calibre apanhando pra uma acadêmica e um pivete?
— Pelo menos eu não tenho problemas familiares para lidar — ele respondeu, a voz afiada.
Niandra congelou, os olhos dela estreitaram.
— Você nem família teve — ela devolveu, gélida.
Quando o carma dos dois começou a oscilar, as sombras no corredor se alongaram, se contorcendo..
— Vocês vão destruir o castelo antes mesmo da guerra começar? — A voz veio de todos os lados.
As sombras dos dois se distorceram. Engoliram Niandra e puxaram Belmorth. Em um piscar de olhos, os dois foram arremessados para cantos opostos da sala.
De dentro da escuridão, um homem surgiu.
Usava um terno preto simples, com luvas e botas metálicas. Ombreiras, cotoveleiras e joelheiras do mesmo metal cobriam o corpo, e um capacete de cavaleiro medieval escondia o rosto completamente.
— Kharon — Niandra bufou. — Grande estraga-prazeres.
— Vocês sabem que não podem lutar aqui. — A voz dele era calma, grave. — Este é um lugar sagrado.
— Eu só tava me defendendo — Niandra reclamou.
— Mentira — Belmorth se levantou, limpando a poeira do terno.
— Mentira o quê, seu…
— Chega. — Kharon ergueu a mão. O silêncio voltou.
Belmorth passou por Niandra com um olhar esnobe.
— Hmph.
— Seu…
— Niandra.
Ela cerrou os dentes, mas se calou. Kharon podia ser muitas coisas, mas não era fraco.
Os três seguiram pelos corredores, desviando de esqueletos que caminhavam de um lado para o outro. Os ossudos carregavam caixas, velas e pergaminhos. Nenhum sequer olhou para eles.
Chegaram a uma porta de pedra maciça, quando Kharon parou.
— Vamos entrar. Comportem-se.
A porta rangeu ao abrir.
A sala era imensa, pilastras de pedra negra sustentavam um teto que se perdia na escuridão. O chão era de terra batida, cravejado de cruzes estacas.
Ao centro, um obelisco de pedra branca brilhava fraco. Desenhos em uma língua estranha rodeavam sua superfície, formando um anel circular.
Em frente ao obelisco, a necromante estava de pé. O corpo de garota gelariana que ela agora habitava parecia pequeno diante da estrutura, mas a presença dela enchia a sala.
Em cima de um pilar caído, um homem sentava em postura de diamante. Pele azul clara, e chifres levemente curvados para trás. Cabelos castanhos e longos caiam sobre os ombros.
Ele vestia um sobretudo militar azul escuro com cinto e bordas douradas, semelhante a um manto imperial. Uma máscara de leão vermelha cobria o rosto por inteiro, e uma espada longa repousava embainhada na cintura.
Por baixo dos buracos da máscara, seus olhos estavam fechados, perdidos em devaneios.
Belmorth e Kharon se curvaram, mas Niandra preferiu se escorar em um dos pilares.
— Curve-se para a grande Signore — Belmorth sibilou. — Nossa grande Signore.
— Tô de boa.
— Sua…
— Deixem de briga — Kharon tentou.
Antes que Niandra pudesse dizer algo em sua defesa, uma lâmina rosa surgiu rente ao seu pescoço.
Seu corpo inteiro travou, não apenas por medo, mas como se a pressão daquele carma estivesse a segurando.
O gelariano estava à sua frente. Não houve qualquer som ou movimento. Ele simplesmente encurtou a distância com a mulher em um instante.
— Tenha mais respeito. — a voz dele era suave, quase doce, mas ecoava pela sala como a ordem de um general. — Estás diante de uma Signore.
Niandra engoliu em seco.
— Ok, Imperatore… — ela curvou a cabeça. — Ok.
O gelariano voltou ao pilar em um piscar de olhos. Sentou na mesma posição, como se nunca tivesse se movido.
Niandra o observou de canto.
“Que cara mais bizarro… Assustador”, ela pensou.
A necromante finalmente se virou, o olhar dela percorreu os três.
— A reunião começará agora. Seremos apenas nós quatro. Tangepun não pôde vir.
“Ainda bem”, Belmorth pensou. “Quanto menos gente para dividir a atenção da Signore, melhor.”
— Já expliquei a Belmorth, mas repetirei para vocês. — A fala da necromante era precisa, cada palavra no lugar certo. — O ritual para quebrar o selo começará em breve. Precisarei de aproximadamente uma semana.
A mulher de amarelo ergueu a mão.
— Não dá pra ser mais rápido?
— Não interrompa a Signore! — Belmorth berrou.
A necromante suspirou. O som foi quase imperceptível, mas carregado de decepção.
— Niandra, sua impaciência beira a idiotice. Acelerar o processo não é apenas imprudente, é perigoso. Poderíamos danificar os Signores. Ou pior, deixá-los mais fracos do que o planejado.
A garota baixou a cabeça.
“Pra que agredir…?”, pensou ela, enquanto segurava para não deixar seus pensamentos escaparem.
A necromante ergueu a mão. Do manto, uma esfera pulsante emergiu: o amálgama de corpos que Belmorth lhe dera.
Ela a deixou flutuar perto da pedra pálida, e o obelisco reagiu.
Veias de carma surgiram na estrutura, pulsando como um coração. A necromante estendeu as mãos, os dedos se movendo como se esculpissem o ar.
O carma começou a se moldar, enquanto comprimia e se expandia.
— Vocês ficarão responsáveis por guardar o castelo — ela disse, sem tirar o foco da energia a sua frente. — Ninguém pode me interromper.
Niandra olhou para a estrutura imponente.
— Quem foi que fez um selo tão forte assim?
A necromante hesitou, mas a resposta veio em seguida.
— A Primeira Maga.
O silêncio caiu sobre a sala. Os olhos de Belmirth se arregalaram e a respiração de Niandra perdeu o ritmo. Até Imperatore pareceu se mover, um milímetro que seja.
— A… Primeira Maga? — Niandra repetiu, incrédula. — Ela não… não era só uma lenda?
— Ela mesma. — A dama cadavérica não desviou os olhos do obelisco. — O selo que aprisionou os Signores foi obra dela. Estou desfazendo o que ela construiu.
Ninguém falou. Não era todo dia que se descobria que uma lenda quase mitológica era real.
— Kharon tem um plano para lidar com a guilda. — ela continuou — Vocês três estarão sob o comando dele por enquanto.
Niandra olhou para Imperatore de canto de olho. O gelariano continuava imóvel, o olhar por baixo da máscara de leão era impassível.
“Ele realmente vai obedecer alguém que não seja ela?”, ela se perguntou.
A necromante fechou os olhos. O carma que envolvia o obelisco brilhava cada vez mais forte.
Não eram precisas mais palavras do que isso, pois estava mais claro do que nunca: uma grande guerra estava prestes a estourar.
— Pela glória dos grandes Signores — ela disse. A voz saiu firme, mas havia algo relutante nela.
— Pela glória dos grandes Signores — os três repetiram.

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