Índice de Capítulo

    — Não acredito que a gente sobreviveu essa semana — Dhaha esfregou o ombro dolorido, sentado em um dos bancos da guilda.

    Mirena massageou a têmpora, os olhos semiabertos.

    — Eu não quero ver uma pedra com carma voar na minha direção tão cedo.

    — Lembra quando ela fez a gente escalar a montanha de cabeça pra baixo?

    —  Achei que meu braço mecânico ia desencaixar. — Ela riu sem humor.

    — E aquela vez que ela mandou a gente lutar contra abelhas?

    — “Treino de reflexo”, ela disse. — Mirena balançou a cabeça. — Eu tô até agora com as picadas.

    Os dois riram, mas era uma risada de quem viu a morte e conseguiu voltar.

    Foi então que a porta do salão rangeu e Daten entrou. Ou melhor, uma versão zumbificada do ardenteriano entrou.

    O garoto arrastava os pés, os ombros estavam caídos e o olhar perdido no horizonte. As olheiras eram tão profundas que pareciam pintadas com carvão. A pele, naturalmente escura, ganhou um tom acinzentado e anêmico, parecia que ele não dormia há dias.

    — Daten? — Dhaha levantou, preocupado. — Cara, o que aconteceu com você?

    Thalwara surgiu atrás dele, com uma mão pousada no ombro do garoto. O sorriso dela era amigável, quase maternal.

    Mas só quase, pois Daten estremeceu.

    — Eu… — a voz dele falhou. — Eu caí?

    O silêncio perdurou até que Thalwara concordou com um balançar de cabeça.

    — Foi isso. Eu caí.

    O tom era de quem não tinha certeza de nada. Nem do que disse, ou de onde estava. Dhaha e Mirena trocaram um olhar desconfiado.

    — Tá… — Dhaha piscou. — Certo.

    Thalwara passou a mão no cabelo do garoto num gesto afetuoso, mas o garoto enrijeceu inteiro.

    — Bom, agora que todos estão aqui — a vice-regente começou. — Vamos falar sobre a invasão.

    — Invasão? — Dhaha franziu a testa. — Que invasão?

    — A invasão que vocês vão participar hoje. — Thalwara olhou para os dois. — Syndona não explicou?

    — Não — Mirena respondeu, seca.

    Thalwara suspirou, mas não pareceu surpresa.

    — Mas é claro que não… Típico dela.

    Ela se sentou em um banco próximo, e os três se aproximaram.

    — Durante essa semana, alguns aventureiros da guilda ficaram responsáveis por mapear zonas de carma. São aqueles pontos onde a energia é anormalmente densa.

    — E o que isso tem a ver com a gente? — Dhaha perguntou.

    — Comparamos as medições atuais com as antigas. Descobrimos alguns locais onde o carma está… distorcido. — Thalwara cruzou as pernas. — Rituais de grande porte consomem muito carma, e acabam deixando rastros.

    Mirena entendeu na hora.

    — O necromante! Vocês encontraram onde ele vai fazer o ritual?

    — Exato.

    — E onde é? — Dhaha inclinou o corpo pra frente.

    Thalwara sorriu e olhou para as montanhas.

    — Nas Ruínas da Montanha.

    Os dois congelaram no mesmo instante, as lembranças dos treinos brutais retornaram como um soco.

    — Nas… — Mirena começou.

    — Onde a gente treinou a semana inteira? — Dhaha completou.

    — Isso… explica os cadáveres — Mirena murmurou.

    — E as pedras lascadas, e a sensação estranha no ar. — Dhaha foi contando, e então colocou a mão no rosto. — A Syndona sabia o tempo todo…

    — Ela sabia…

    — E não falou nada.

    — Ela nunca fala nada. — Thalwara deu de ombros. — É o jeito dela.

    Os dois se encararam. A sensação de terem sido usados era grande, mas esse método também tinha sua lógica: treinar no próprio campo de batalha.

    Daten, no canto, apenas encarava e balançava levemente, como uma árvore ao vento.

    Algumas horas depois, o pé da montanha estava tomado por uma guarnição improvisada. Barracas temporarias, aventureiros afiando armas e um cheiro forte de couro e aço que preenchia o ar.

    Dhaha e Mirena estavam sentados numa pedra grande, com um baralho surrado entre eles.

    — Truco — Dhaha bateu a carta na pedra. — Minha.

    — Como você ganha todas? — Mirena franziu a testa.

    — Talento natural. — Ele sorriu. — Ou você é muito ruim.

    — A primeira opção é mais provável.

    Ela virou mais uma carta, e perdeu de novo.

    — Isso não é possível.

    — Aceita que dói menos.

    Enquanto jogavam o jogo mais conhecido dentro dos bares de Arthuria, a conversa diversa fluía.

    — Cê percebeu que a gente já fez um monte de coisa em pouco tempo? — Dhaha comentou, embaralhando as cartas.

    — Como assim?

    — A floresta de Eldon e o esqueleto gigante do rock. A nossa investigação em Baixa-Engrenora, e a fábrica que a gente invadiu nesse meio. E agora… isso. — Ele contou nos dedos. — Vamos invadir uma ruína no topo de uma montanha pra impedir um ritual de um necromante, com exército e tudo mais.

    Mirena pensou por um segundo. Por mais aleatório que tudo aquilo fosse, era verdade.

    — É… a gente invadiu muitos lugares.

    — Somos profissionais de invasão.

    — Ou só dois azarados que se metem em muitos problemas.

    Os dois riram.

    — Mas essa vai ser fichinha — Dhaha disse, ao sacar mais algumas cartas. — A gente já enfrentou coisa pior. Tamo forte agora.

    — Coisa pior, é…? — Mirena hesitou. — E “fichinha”?.

    Ela olhou para a mão esquerda. O carma pulsou fraco sob a pele.

    “Aquela técnica ainda não tá completa, mas… pode ajudar.”, pensou a ardenteriana.

    — Ô, Mirena! Dhaha! — Daten gritou ao longe. — Tão chamando.

    Ele estava muito mais jeitoso que normalmente. Não estava com os trapos velhos que chama de roupa, mas com um uniforme completo da guilda. Era um homem mudado, do lixo ao luxo.

    Os dois levantaram os olhos. Syndona estava no centro do acampamento, de braços abertos. Todos os aventureiros se reuniram ao redor dela.

    Dhaha e Mirena largaram as cartas e se juntaram à multidão.

    O cenário à frente era apocalíptico: hordas de esqueletos tomavam as encostas da montanha. Entre eles, vários gigantes de carne costurada, iguais ao de Eldon. Mas em números maiores. Bem maiores.

    O céu estava escuro, coberto por nuvens negras mais escuras que a fumaça da cidade baixa.

    — Tá bem diferente de quando a gente treinou — Mirena murmurou.

    — Conveniente, não? — Dhaha respondeu, de braços cruzados e um olhar insatisfeito.

    Syndona subiu numa pedra alta. O couro de sua armadura quase reluzia de tão polida que ela o deixou. E então, os olhos estrelados percorreram a multidão.

    — Aventureiros de Engrenora! — a voz dela ecoou, poderosa. — Hoje não ser treino, e não ser simulação! Hoje ser guerra!

    Os guerreiros rugiram.

    — O culto de Nazhur pensar que pode brincar com nosso povo. Pensar que pode roubar nossas vidas, nossos irmãos. — Ela apontou para a montanha. — Eles estar errados!

    Mais gritos ecoaram. Era inegável que ela possuía carisma.

    — Nós não ser presa, nós ser caçadores! Hoje, eles aprender o que acontece quando mexer com Guilda da Folha-de-Louro!

    O rugido final da multidão foi ensurdecedor. Syndona saltou da pedra e caminhou até a linha de frente e estalou os ossos.

    — Como será que a gente vai começar essa invasão? — Dhaha se virou para Mirena.

    Antes que ela pudesse responder, um vulto passou por eles. Jötun Ungr.

    O gelariano de corpo definido e tamanho de criança caminhou até a frente. Olhou para a montanha, para os esqueletos e os gigantes.

    — Argh… que sono. — Ele estralou o pescoço enquanto caminhava em direção ao caos. — [Aevivöx]!

    Em um instante eu corpo se cobriu com carma, e começou a mudar de forma. Não foi algo gradual, mas rápido como um choque. O corpo dele se expandiu, os músculos triplicaram de tamanho, a pele azul escura ficou ainda mais escura. Os chifres espiralados brilharam igual a grandes lanças metálicas.

    Em segundos, o garoto preguiçoso que parecia uma criança havia se tornado em um gigante, mesmo que ainda parecesse uma criança preguiçosa.

    Ele avançou, e atrás dele, todos os aventureiros avançaram com armas em mãos.

    — Vamos! — Syndona gritou.

    Dhaha olhou para Mirena, e ela o olhou de volta. A guerra tinha finalmente começado.

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