Índice de Capítulo

    Helena sacudia no banco da moto-neve enquanto o veículo avançava em alta velocidade pelo terreno irregular. A cada desnível escondido sob a neve, o impacto subia pela estrutura e atravessava seu corpo, exigindo que se mantivesse firme mesmo com os pulsos presos. Não chegavam a doer, Velvet tinha ajustado a algema para lhe dar uma folga, mas aquilo não era o que mais a incomodava, e sim, a ausência.
     

    A desconexão do núcleo de aether, um dos efeitos da algema.

    Sem perceber, tinha se acostumado à presença constante de sua feraether. Mesmo em silêncio, o Asa Flamejante estava ali, como um segundo instinto, uma extensão invisível que completava suas percepções e pensamentos. Agora, não havia nada. Nenhuma resposta. Nenhum eco. O vazio deixava seus pensamentos desalinhados, como se reagisse mais devagar ao mundo ao redor.
     

    À frente, Fantasma guiava o grupo sem olhar para trás. O trajeto era direto. Havia direção e, ela percebia, havia pressa.

    As outras motos acompanhavam em formação, desviando em zigue-zague pelas irregularidades do terreno, levantando neve em arcos curtos a cada curva mais brusca.
     

    Velvet conduzia a moto com firmeza, o corpo acompanhando o movimento da máquina como se fosse parte dela. Nenhuma hesitação. Nenhuma correção tardia. Reflexos apurados.
     

    Se esconder dentro do grupo. Esse era o plano delas.
     

    A própria Velvet tinha colocado a algema. Tinha encenado a captura. Ela mesma tinha cooperado com a farsa, não entendia porque voltar no meio deles, mas seguiria o plano.
     

    O homem negro, ao ouvir o relato, ajustou seus olhos biônicos, dreads balançando, encarando-a com uma intensidade que não precisava de palavras. Helena desviou o olhar.
     

    O incômodo e a vergonha vieram depois.
     

    Ela nunca deveria desviar o olhar. Era uma Sylaris.

    O trajeto piorou conforme avançavam. A neve formava ondulações traiçoeiras, obrigando ajustes constantes. Helena se segurava como podia, absorvendo o impacto com o corpo, enquanto Fantasma aumentava o ritmo.

    Quando finalmente pararam, foi abrupto.

    Uma ravina surgiu à frente como um corte no mundo. Um precipício largo demais para qualquer tentativa de travessia. As motos reduziram velocidade e formaram um círculo natural ao redor da última que chegou.

    Assim que a moto de Velvet entrou no espaço entre as outras, Helena sentiu.

    Antes de qualquer palavra. Antes de qualquer gesto.

    Algo estava errado.

    O aperto no peito veio seco, imediato. Seus instintos reagiram com força, mesmo sem o apoio do Asa Flamejante.

    Velvet enrijeceu levemente à frente. Um detalhe pequeno, quase imperceptível, mas suficiente.

    Sem olhar para trás, moveu a mão com precisão e transferiu o controle da algema para Helena.
     
    Rápido e discreto. Helena não deixou transparecer nada, apenas esperou.
     
    — Bem… — a voz de Fantasma quebrou o silêncio, carregando uma calma que não combinava com o momento. — Apesar de estar com pressa, tenho que resolver um assunto com vocês.

    Ele desceu da moto e começou a andar na direção delas, passos leves, o corpo solto demais para a tensão do momento. Ainda assim, além dele, ninguém parecia relaxado. Mãos próximas às armas. Olhares atentos.

    Fantasma parou um passo antes de entrar no alcance de Velvet.

    Distância calculada com exatidão.

    Helena percebeu pela leve tensão no corpo da mercenária que aquilo não fazia parte do que a mulher esperava.

    Os olhos mecânicos dele ajustaram o foco, produzindo um som baixo, constante, irritante no silêncio.

    — Querem me contar alguma coisa?

    Mas não esperou resposta. Levou a mão até atrás da orelha e pressionou um ponto oculto. Um clique seco.
     

    A reprodução do áudio começou.

    A respiração pesada de Bulk.

    O som do ambiente. Ela se esfregando em Helena, falando com Velvet

    “Está com ciúmes?”

    O ataque. Gorgolejos da Bulk, e então a voz de Velvet se apresentando à Helena.

    Helena não precisava ouvir até o final. Entendeu antes. Aquilo era o fim da linha.

    Não tinha espaço para hesitação e agiu.

    Enquanto todos olhavam para Velvet, girou os pulsos e se soltou da algema com um movimento limpo. Sem som. Sem chamar atenção.

    Sentiu seu núcleo. Sua ligação com sua feraether.

    A resposta veio imediata. O Asa Flamejante respondeu antes mesmo do comando completo se formar.

    Ele soube no momento que a ligação retornou. Perigo.

    Acima deles, o ar se condensou e a forma surgiu já em movimento. O pássaro desceu em um rasante silencioso, direto na direção de Fantasma.

    Mesmo sem ver, reagiu se jogando para o lado.

    Helena não esperou.

    Agarrou Velvet e a puxou com força, derrubando as duas ao lado da moto, usando a estrutura como cobertura.

    — Vamos! — gritou. — Vou abrir espaço!

    Acima delas, o Asa Flamejante pairou por um instante.

    O corpo começou a se expandir, energia acumulando rápido demais.

    Os mercenários sacaram as armas, mas já estavam atrasados.

    As duas mulheres correram em direção às arvores.

    A explosão veio logo em seguida.

    O calor atingiu primeiro. Um baque seco contra as partes desprotegidas de seus corpos, seguido pelo som que preencheu tudo ao redor. Helena sentiu o momento exato em que a presença da feraether se desfez, voltando em partículas para seu núcleo.

    O impacto pegou as motos próximas.

    A que estava ao lado delas explodiu junto, lançando fragmentos e neve para todos os lados.

    Fantasma, que se levantava, foi arremessado com força para trás. Direto para o vazio da ravina.

    Os homens restantes hesitaram.
     

    Olharam para a queda e depois para as duas correndo.

    A decisão travou ali.

    Perseguir ou acudir seu chefe?

    — Muito bem pensado — disse Velvet com a respiração acelerada.

    Helena viu um sorriso curto surgir no rosto da mercenária.

    — Aposto que a nave deles esta vazia… — riu ela. — Vamos atrás da relíquia.

    Olhou para Helena.

    — Lady Aliah vai ficar satisfeita.



    Lyra avançava à frente, abrindo caminho na neve fofa que cedia sob o peso do corpo a cada passo. O esforço era maior do que deveria, exigia mais das pernas, mais do fôlego, mas ainda assim ela não diminuía. Sem perceber, acelerava, como se o próprio corpo tivesse decidido por ela.

    O puxão no peito não deixava espaço para dúvida.

    Veio de novo, mais firme, mais direto. Não sentiu ninguém ao seu lado e virou a cabeça.

    Tyla vinha alguns metros atrás, distância demais para quem tinha as mesmas condições físicas que ela, na verdade, seus passos eram mais longos devido a sua altura. Deveria acompanhar.
     

    Lyra parou por um instante curto, o suficiente para que o visor captasse o rosto dela com mais clareza.
     

    Tyla parecia cansada. Será que sem notar tinha imprimido um ritmo forte demais?

    Sentiu seu rosto esquentar. Era bom ter Tyla ali. Amiga? Namorada?
     

    — Obrigada por vir comigo — murmurou Lyra pelo comunicador do capacete. — Amo você.

    Tyla sorriu e continuou vindo em sua direção, o Polarion ao lado dela acompanhando cada passo, atento ao ambiente de um jeito que ia além do que os olhos alcançavam, parecia inquieto.

    Tyla olhou para ele.
     

    Lyra voltou a andar.
     

    Pensou em liberar seu Kocka.
     

    A ideia surgiu rápida, chamar reforço, dividir o peso daquele ambiente, daquela sensação crescente que se acumulava no peito, mas descartou antes de ganhar forma. Sentia o pássaro ali, no fundo da mente, inquieto, incomodado com o frio.
     

    “Só se precisar.”
     

    A resposta era um sentimento dentro da própria cabeça, um gorgolejar satisfeito, provocativo, como se ele já soubesse que seria chamado de qualquer forma.
     

    Lyra deixou escapar um pequeno sorriso de lado, sem reduzir o passo. Sua ave tinha a personalidade forte.
    Ele tinha salvado sua vida e ela era grata. Não conseguia se imaginar começando com outra feraether, apesar de tudo.
     

    As árvores começaram a rarear aos poucos, abrindo espaço entre os troncos, deixando o vento atravessar com mais força. A neve se movia em camadas finas sobre o chão irregular, denunciando desníveis e pequenas elevações que exigiam atenção constante no caminhar.
     

    O puxão nunca parou, agora estava mais forte, mais próximo.
     

    E então o chão tremeu. Dessa vez não foi sutil.
     

    A vibração veio de baixo, profunda, irregular, atravessando a base dos pés e subindo pelo corpo. Lyra abriu um pouco mais a postura para se equilibrar, sentindo a neve ceder sob o ajuste. Atrás, Tyla fez o mesmo, e quando seus olhares se encontraram, nenhuma das duas precisou dizer nada. Tinha sido perto.
     

    Lyra não esperou. Apertou o passo, deixando o corpo responder antes do pensamento, como se cada movimento estivesse sendo carregado por algo à frente. O ritmo aumentou naturalmente, direto, mais decidido, até que, ao cruzar o limite das árvores, ela parou.

    Não por escolha. Mas porque o que estava acontecendo à frente roubou seu fôlego.
     

    Os olhos demoraram um instante para organizar a cena.
     

    O chão estava aberto. Uma rachadura irregular, larga, forçada de dentro para fora, com bordas quebradas e deslocadas como se algo tivesse empurrado a própria estrutura do mundo até fazê-la ceder.
     

    E estava acontecendo ali, diante delas.
     

    Um construto mecânico avançava de dentro da fissura, partes girando sem pausa, engrenagens expostas trabalhando em ciclos contínuos que esmagavam pedra e empurravam terra para fora. Não era um buraco antigo.
     

    Estava sendo aberto agora.
     

    Blocos de rocha eram deslocados conforme a estrutura avançava, e a neve ao redor já não era branca, estava revolvida, misturada, marcada por terra e movimento constante.
     

    Ao redor da abertura, havia feraethers. Muitas. Movendo-se sem padrão.
     

    Algumas corriam em círculos sem direção. Outras se chocavam umas contra as outras. Outras cavavam, ampliando o buraco, como se respondessem a um impulso que não vinha delas.
     

    Os movimentos pareciam errados. Tensos. Desalinhados. Como se seus instintos estivessem em choque.

    Lyra deu um passo à frente sem perceber.
     

    E então viu.
     

    Um verme grande demais. Não o reconheceu das aulas da professora Nadine.
     

    O corpo branco se contorcia em segmentos espessos, a superfície lisa refletindo a luz fria do sol encoberto. Quando a cabeça se ergueu, a mandíbula se abriu.

    Tripla. Camadas de dentes deslizando umas sobre as outras.
     

    A criatura avançou e alcançou uma fera maior que o Polarion de Tyla e mordeu.
     

    O corpo partiu. O som veio úmido.
     

    Lyra sentiu seu coração disparar. Vontade de fugir, mas se recusou.

    Ela e Tyla não sabiam o que fazer.

    Ao redor, outras criaturas continuavam se atacando, algumas sequer reagindo quando eram atingidas pelas partes móveis do construto que seguia abrindo a terra.
     

    Uma delas foi puxada para dentro de um conjunto giratório.
     

    O corpo se desfez no processo.
     

    Sem vínculo, sem retorno. Carne, fragmentos, sangue escuro espalhados na neve já manchada.
     

    Lyra deu um passo para trás. Mas o chamado continuava ali.
     

    Mais forte. Mais direto. Vinha da fissura.
     

    Tyla chegou ao lado dela e segurou sua mão com força, o toque firme o suficiente para ancorar.

    — Se eles perceberem a gente, acabou — disse baixo, sem tirar os olhos da cena.
     

    Lyra não respondeu.
     

    Não conseguiu.
     

    Os olhos estavam presos naquilo.
     

    Tentou filtrar, ignorar o resto.
     

    Seguir o que chamava.
     

    Estava ali, na rachadura.
     

    Tyla puxou sua mão.
     

    — Vamos embora — disse, e agora havia tensão clara na voz. — Estou sentindo o Polarion… estranho.
     

    Lyra virou o rosto o suficiente para ver.
     

    A feraether de Tyla estava rígida, o corpo inclinado na direção da fissura como se fosse puxado também.
     

    — Parece quando aquela ave atacou a gente no Domatorum — continuou ela. — Meu controle… está mais fraco.
     

    Lyra voltou a olhar para frente.
     

    — A gente precisa ficar.
     

    — Lyra!
     

    — Eu sinto isso.
     

    Tyla recuou um passo, o aperto na mão ainda firme.
     

    — É perigoso demais!
     

    A frase não terminou.
     

    A explosão veio antes.
     

    O impacto caiu do alto, cortando o som do ambiente e lançando parte das feraethers para longe, algumas desaparecendo sob a neve levantada no processo.
     

    Lyra e Tyla se jogaram no chão no mesmo instante.

    O som veio depois. O ronco grave de uma nave passou por cima delas, baixa o suficiente para pressionar o ar contra o solo e achatar a neve ao redor. O deslocamento foi sentido no corpo antes mesmo de ser entendido.
     

    Ela seguiu alguns metros à frente, inclinou e iniciou a descida.
     

    — Mas que merda foi essa… — Tyla murmurou, ainda no chão.
     

    O verme reagiu. Ergueu o corpo e avançou na direção da nave com uma velocidade que não combinava com o tamanho.
     

    A metralhadora inferior disparou.

    Os projéteis atingiram o corpo da criatura. Alguns ricochetearam, acertando neve e outras feras. Muitos penetraram.
     

    Sangue azul se espalhou na neve.
     

    Mesmo assim, ela avançou mais alguns metros antes de cair, o corpo batendo pesado contra o chão e permanecendo imóvel.
     

    A nave completou o pouso.
     

    Os motores reduziram, o som preenchendo o espaço enquanto dissipava.
     

    Lyra e Tyla não se moveram.
     

    Não se levantaram.

    Se os sensores captassem qualquer coisa, acabava ali.
     

    A porta começou a descer devagar.
     

    As duas prenderam a respiração, o tempo se alongando no movimento.
     

    Quando finalmente conseguiram ver quem estava dentro, o ar escapou antes que pudessem conter.
     

    Helena Sylaris. Um sorriso satisfeito nos lábios.
     

    E ao lado dela, uma garota magra, de cabelos completamente brancos segurando um rifle de precisão.

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