Capítulo 10: Próximos como irmãos, mas distantes como desconhecidos
Pionla se levanta e se olha no espelho.
Os olhos ainda estavam vermelhos.
Respira fundo.
Um leve brilho percorre seu rosto enquanto usa magia para esconder o inchaço.
Força um sorriso.
Risadas ecoam pelo corredor.
— E isso são horas de ficarem rindo que nem duas gralhas? — Pionla diz, colocando o chapéu.
— Desculpa, Pionla. É que eu e a Euphoy estamos rindo de um vídeo de pessoas quase caindo… aí corta seco. E, falando nisso, ela é muito gente boa — Ré dá uma cotovelada leve em Euphoy.
— É verdade, nós só estávamos vendo alguns vídeos na web — Euphoy diz, ainda entre risos.
Pionla congela por um segundo.
— Web… conexão… Simulacrum…
Era quase possível ouvir as engrenagens girando em sua cabeça.
— Simulacrum. Esse era o lugar que a charada estava dizendo.
Ela vai até o quarto do irmão e de Roseta e bate na porta.
A porta abre.
— O que é isso na sua cara, Roseta? — Pionla aponta.
Roseta estava com rodelas de pepino nos olhos e uma máscara facial.
— Diferente dos deuses, eu tenho que cuidar da minha aparência para ser assim — ela remove tudo com calma, pega suas coisas e passa por Pionla. — Ou vai me dizer que os deuses usam sangue de inocentes para serem lindos dessa forma?
Silêncio pesado.
— Sério… de novo isso? — Pionla responde seca.
— Vou te lembrar até a hora que eu não estiver mais por aqui — Roseta diz com a voz afiada.
Pionla abaixa o olhar por um instante.
Mas logo ela volta a sua expressão normal e vai para o quarto do irmão
— Bauvalier, vamos já e hora de ir — Ela olha ele de cima para baixo — e não se esqueça de vestir sua armadura, porque sem ela você fica muito fubanga.
Bauvalier ainda estava meio dormindo ignorou a irmã, mas se vestiu
Bauvalier sai bocejando.
— Bom dia. Já descobriram nossa próxima parada? — pergunta tranquilo.
— Simulacrum — Pionla responde sem emoção.
— Esperava que fosse mais perto… mas tudo bem — Bauvalier diz, encostando na parede.
Euphoy se aproxima com um sorriso largo.
— Se vocês já forem, espero que nos encontremos em um destino próximo. Eu vou para a Catedral de La Sherine. Se passarem por lá, vou amar rever todos vocês.
— Muito provável. Vamos para lá — Pionla diz, forçando um sorriso também. — Se nos encontrarmos lá, tenha certeza que daremos um oi.
— Tenha certeza que nos encontraremos, e com certeza vamos agradecer se puder nos ajudar como nos ajudou aqui — Pional diz com um sorriso leve — Mas saiba que provavelmente vamos revisar a expansão do Circo das Maravilhas.
— Agradeço, do fundo do meu coração se realmente fizerem isso, eu vou ficar mais do que apenas eufórica — Ela solta um sorriso largo
Eles se despedem de Euphoy e seguem para a carruagem rumo a Simulacrum.
O caminho começa tranquilo.
Pionla segura a caixa com força no colo.
Forte demais.
— Que que tá rolando, Pionla? — Ré surge do nada, sentando ao lado dela na parte da frente da carruagem.
Pionla dá um pulinho de susto.
— N-não tá acontecendo nada — responde, apertando ainda mais a caixa.
— Se você tá dizendo, então tá… mas saiba que, se precisar, eu tô aqui — Ré dá um tapinha nas costas dela.
Depois, simplesmente salta para a parte de trás da carruagem.
— Ré, você sabe que existe algo chamado porta, né? — Bauvalier diz em deboche, tomando um gole de chá.
— Eu sei o que é porta, mas qual a graça de ser tão óbvia? — ela responde, sentando na poltrona ao lado. — E a Roseta, dormindo?
Roseta estava recostada, respirando tranquila.
— Sim. Mas quem pode culpar ela? Depois de tudo que aconteceu… mesmo com aquela dormida no circo, eu ainda me sinto exausto. Imagina ela — Bauvalier diz.
— Acho que é uma boa explicação — Ré se encosta e boceja. — Mas tem outra coisa… desde que a Rimuru deu aquela caixa pra Pionla, parece que ela tá meio paranoica. Será que ela tá escondendo algo e acha que a caixa vai revelar?
— Só fica nervoso quem tem algo a esconder. Eu sei que minha barra tá limpa… mas da minha irmã eu não sei — Bauvalier diz, fechando os olhos. — Mas talvez seja só ansiedade.
— Talvez… mas eu fico preocupada — Ré suspira e também se ajeita para dormir um pouco.
A carruagem segue durante o dia inteiro.
Quando a lua aparece no céu, Pionla ainda está acordada.
Ela olha para cima, o rosto cansado iluminado pela luz prateada.
— Acho que é bom dar uma pausa.
Ela estala os dedos.
Uma cúpula translúcida se forma ao redor da carruagem, protegendo-os.
Pionla se encosta.
A caixa ainda está firme contra o peito.
Ela fecha os olhos.
Ela sente alguém perto e abre os olhos devagar, vendo uma pessoa que ela não conhecia parada diante dela. Nas mãos dessa sobra estavam a caixa.
— Não…
Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ele abre a caixa. Pionla reage no mesmo instante, invocando a tesoura e atingindo-o com um corte direto. O corpo cai no chão e se desfaz em em duas formas geométricas, uma esfera e um cone, como se nunca tivesse sido real.
Mas já era tarde.
A caixa já estava aberta.
Um grande furacão começa a sair de dentro dela, o vento aumentando de forma absurda, formando um tornado de carmim que rasga o céu e a terra ao redor.
— O que tá rolando?! — Ré grita ao ser puxada pelo vento.
— O que você fez?! — Roseta diz, tentando se segurar enquanto também é arrastada.
— Não! Não era…— Bauvalier finca os pés no chão tentando resistir, mas também acaba sendo puxado.
Pionla fica de olhos arregalados, tentando se segurar no solo com todas as forças. O tornado era implacável. O vento cortava sua pele e o carmim girava ao redor como se estivesse vivo. O medo atravessa o sangue divino dela.
Ela vê seus amigos sendo jogados para muito longe. Seu corpo começa a falhar, os olhos pesam, e quando finalmente são lançados contra o chão, ela desmaia.
Algum tempo depois, ela acorda desorientada e se senta na areia. O som do mar batendo é a primeira coisa que notou. Ela olha ao redor e vê apenas areia e oceano e uma grande floresta densa.
Ela se levanta rapidamente ao perceber que seus amigos não estavam ali ao seu lado.
— Bauvalier! Roseta! Ré!
Ela anda pela praia até encontrar os três desacordados espalhados pela areia. Com esforço, arrasta cada um para mais perto, deixando-os lado a lado enquanto espera que acordem.
Ela respira fundo, tentando controlar o tremor nas mãos, e ajeita o chapéu na cabeça, olhando para o horizonte em silêncio o sol reluzindo em sua expressão abalada. Ela passa a mão na areia e desenha um rostinho feliz, onde ela imita o sorriso.

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