Pionla se levanta e se olha no espelho.
    Os olhos ainda estavam vermelhos.

    Respira fundo.

    Um leve brilho percorre seu rosto enquanto usa magia para esconder o inchaço.
    Força um sorriso.

    Risadas ecoam pelo corredor.

    — E isso são horas de ficarem rindo que nem duas gralhas? — Pionla diz, colocando o chapéu.

    — Desculpa, Pionla. É que eu e a Euphoy estamos rindo de um vídeo de pessoas quase caindo… aí corta seco. E, falando nisso, ela é muito gente boa — Ré dá uma cotovelada leve em Euphoy.

    — É verdade, nós só estávamos vendo alguns vídeos na web — Euphoy diz, ainda entre risos.

    Pionla congela por um segundo.

    — Web… conexão… Simulacrum…

    Era quase possível ouvir as engrenagens girando em sua cabeça.

    — Simulacrum. Esse era o lugar que a charada estava dizendo.

    Ela vai até o quarto do irmão e de Roseta e bate na porta.

    A porta abre.

    — O que é isso na sua cara, Roseta? — Pionla aponta.

    Roseta estava com rodelas de pepino nos olhos e uma máscara facial.

    — Diferente dos deuses, eu tenho que cuidar da minha aparência para ser assim — ela remove tudo com calma, pega suas coisas e passa por Pionla. — Ou vai me dizer que os deuses usam sangue de inocentes para serem lindos dessa forma?

    Silêncio pesado.

    — Sério… de novo isso? — Pionla responde seca.

    — Vou te lembrar até a hora que eu não estiver mais por aqui — Roseta diz com a voz afiada.

    Pionla abaixa o olhar por um instante.

    Mas logo ela volta a sua expressão normal e vai para o quarto do irmão

    — Bauvalier, vamos já e hora de ir — Ela olha ele de cima para baixo — e não se esqueça de vestir sua armadura, porque sem ela você fica muito fubanga.

    Bauvalier ainda estava meio dormindo  ignorou a irmã, mas se vestiu

    Bauvalier sai bocejando.

    — Bom dia. Já descobriram nossa próxima parada? — pergunta tranquilo.

    — Simulacrum — Pionla responde sem emoção.

    — Esperava que fosse mais perto… mas tudo bem — Bauvalier diz, encostando na parede.

    Euphoy se aproxima com um sorriso largo.

    — Se vocês já forem, espero que nos encontremos em um destino próximo. Eu vou para a Catedral de La Sherine. Se passarem por lá, vou amar rever todos vocês.

    — Muito provável. Vamos para lá — Pionla diz, forçando um sorriso também. — Se nos encontrarmos lá, tenha certeza que daremos um oi.

    — Tenha certeza que nos encontraremos, e com certeza vamos agradecer se puder nos ajudar como nos ajudou aqui — Pional diz com um sorriso leve — Mas saiba que provavelmente vamos revisar a expansão do Circo das Maravilhas.

    — Agradeço, do fundo do meu coração se realmente fizerem isso, eu vou ficar mais do que apenas eufórica — Ela solta um sorriso largo

    Eles se despedem de Euphoy e seguem para a carruagem rumo a Simulacrum.

    O caminho começa tranquilo.

    Pionla segura a caixa com força no colo.

    Forte demais.

    — Que que tá rolando, Pionla? — Ré surge do nada, sentando ao lado dela na parte da frente da carruagem.

    Pionla dá um pulinho de susto.

    — N-não tá acontecendo nada — responde, apertando ainda mais a caixa.

    — Se você tá dizendo, então tá… mas saiba que, se precisar, eu tô aqui — Ré dá um tapinha nas costas dela.

    Depois, simplesmente salta para a parte de trás da carruagem.

    — Ré, você sabe que existe algo chamado porta, né? — Bauvalier diz em deboche, tomando um gole de chá.

    — Eu sei o que é porta, mas qual a graça de ser tão óbvia? — ela responde, sentando na poltrona ao lado. — E a Roseta, dormindo?

    Roseta estava recostada, respirando tranquila.

    — Sim. Mas quem pode culpar ela? Depois de tudo que aconteceu… mesmo com aquela dormida no circo, eu ainda me sinto exausto. Imagina ela — Bauvalier diz.

    — Acho que é uma boa explicação — Ré se encosta e boceja. — Mas tem outra coisa… desde que a Rimuru deu aquela caixa pra Pionla, parece que ela tá meio paranoica. Será que ela tá escondendo algo e acha que a caixa vai revelar?

    — Só fica nervoso quem tem algo a esconder. Eu sei que minha barra tá limpa… mas da minha irmã eu não sei — Bauvalier diz, fechando os olhos. — Mas talvez seja só ansiedade.

    — Talvez… mas eu fico preocupada — Ré suspira e também se ajeita para dormir um pouco.

    A carruagem segue durante o dia inteiro.

    Quando a lua aparece no céu, Pionla ainda está acordada.

    Ela olha para cima, o rosto cansado iluminado pela luz prateada.

    — Acho que é bom dar uma pausa.

    Ela estala os dedos.

    Uma cúpula translúcida se forma ao redor da carruagem, protegendo-os.

    Pionla se encosta.

    A caixa ainda está firme contra o peito.

    Ela fecha os olhos.

    Ela sente alguém perto e abre os olhos devagar, vendo uma pessoa que ela não conhecia parada diante dela. Nas mãos dessa sobra estavam a caixa.

    — Não…

    Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ele abre a caixa. Pionla reage no mesmo instante, invocando a tesoura e atingindo-o com um corte direto. O corpo cai no chão e se desfaz em em duas formas geométricas, uma esfera e um cone, como se nunca tivesse sido real.

    Mas já era tarde.

    A caixa já estava aberta.

    Um grande furacão começa a sair de dentro dela, o vento aumentando de forma absurda, formando um tornado de carmim que rasga o céu e a terra ao redor.

    — O que tá rolando?! — Ré grita ao ser puxada pelo vento.

    — O que você fez?! — Roseta diz, tentando se segurar enquanto também é arrastada.

    — Não! Não era…— Bauvalier finca os pés no chão tentando resistir, mas também acaba sendo puxado.

    Pionla fica de olhos arregalados, tentando se segurar no solo com todas as forças. O tornado era implacável. O vento cortava sua pele e o carmim girava ao redor como se estivesse vivo. O medo atravessa o sangue divino dela.

    Ela vê seus amigos sendo jogados para muito longe. Seu corpo começa a falhar, os olhos pesam, e quando finalmente são lançados contra o chão, ela desmaia.

    Algum tempo depois, ela acorda desorientada e se senta na areia. O som do mar batendo é a primeira coisa que notou. Ela olha ao redor e vê apenas areia e oceano e uma grande floresta densa.

    Ela se levanta rapidamente ao perceber que seus amigos não estavam ali ao seu lado.

    — Bauvalier! Roseta! Ré!

    Ela anda pela praia até encontrar os três desacordados espalhados pela areia. Com esforço, arrasta cada um para mais perto, deixando-os lado a lado enquanto espera que acordem.

    Ela respira fundo, tentando controlar o tremor nas mãos, e ajeita o chapéu na cabeça, olhando para o horizonte em silêncio o sol reluzindo em sua expressão abalada. Ela passa a mão na areia e desenha um rostinho feliz, onde ela imita o sorriso.

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