[Terras Centrais: Leste]

    — Hahahaha!!! A gente conseguiu muito peixe hoje.

    Vaiola gargalhou com alegria e orgulho, brincando com os inúmeros peixes jogados sobre o convés do Borboleta. Ela tinha finalmente voltado ao mar pela segunda vez, depois que o seu pobre pai se recuperou do trauma da primeira ida da nanica.

    O convés estava praticamente sem mais espaço para nada, exigindo que os tripulantes se ajeitassem nos cantos do barco. A pescaria tinha sido abundante.

    — Você tem mesmo futuro no ramo, hein, nanica — Tirius elogiou a menor, com um largo sorriso no rosto, afagando a cabeça dela.

    — Disso não tem como negar, grande parte da pesca de hoje é por conta dela — Ferin acrescentou, lembrando-se dos momentos em que teve a ajuda da Vaiola para puxar a rede cheia de peixes e outros momentos em que a pequena simplesmente puxou a rede lotada sem ajuda. — Você é mesmo bem forte, hein? Exatamente como o senhor Dokin disse.

    — Isso aí, eu quase não acreditei quando te vi puxar a rede da segunda leva. — Tirius também não perdeu a oportunidade de comentar sobre a força anormal da menina, sorrindo. — Me diz aí, nanica, o que você anda comendo, hein? Como você consegue ser tão forte sendo tão pequenina?

    — Huh? — Vaiola pendeu a cabeça para o lado, encarando os dois jovens ajudantes do pai. — Eu sou uma Hermis. — Aquela era a única resposta que ela poderia dar naquele momento, a única resposta que até mesmo ela própria tinha recebido, ao longo dos anos, da mãe. Ela tinha aprendido a aceitar que não existia mais nada que justificasse a sua força. E, depois da revelação que recebeu da mãe, Vaiola sentia que não precisava de nenhuma outra resposta.

    — Oh! É mesmo? Será que eu seria assim tão forte se fosse da família? — Tirius indagou, levando a resposta da menor na brincadeira; afinal, não tinha como ele saber a extensão do que era ser uma Hermis.

    O tempo passou; os mais velhos se revezavam para remar o Borboleta em meio a conversas que muitas vezes levavam a gargalhadas, o que parecia diminuir a fadiga do grupo. Logo, o barco chegou à margem do mar e foi puxado para a praia, onde alguma clientela já tinha se reunido.

    Outros barcos já estavam enfileirados na praia, vendendo o que tinham conseguido pescar naquela manhã; outros acabavam de chegar e alguns ainda remavam em direção à areia.

    Aqueles que buscavam os mariscos eram muitos, alguns para consumo próprio e de seus familiares e outros para a revenda nos mercados ou pousadas. É claro que a grande maioria dos civis e donos de pousada preferiam comprar no mercado, por conta da distância e da agitação que ocorria após os barcos chegarem na praia, mas existiam aqueles que iam buscar o peixe direto da fonte, não só por estar mais fresco, mas também por poderem adquirir os mariscos ali pelo mesmo preço que os mercadores.

    Mas é claro que, para evitar que os mercadores perdessem a sua clientela, sempre que os compradores civis se acumulavam em demasia, os pescadores acabavam vendendo pelo mesmo preço de compra dos mercados.

    — Aqui, titia, o seu peixe. — Vaiola tinha um largo sorriso entre os lábios, entregando um molho de peixes amarrados uns aos outros por uma corda para uma senhora que acabava de entregar uma nota ao Glamich.

    A nanica estava suando sob o sol daquela manhã, mas limpava o suor na testa com o braço e continuava a ajuntar peixe numa corda e entregar para os clientes sem nunca reclamar; pelo contrário, o seu sorriso crescia cada vez mais, evidenciando a sua imensa alegria.

    — Haaa. Finalmente! — Vaiola caiu para trás na areia branca da praia, permitindo que o corpo relaxasse depois de entregar o último conjunto de peixes que tinham para vender. — Posso descansar agora, hahaha!

    — Podemos descansar — Tirius disse por cima, suspirando com um largo sorriso no rosto, também deitado na areia ao lado da nanica.

    Glamich ainda contava os lucros do dia com um largo sorriso reluzindo na face, os olhos brilhantes travados na pequena filha. Como seria bom se aqueles dias não tivessem fim…

    Mas…


    — Nooossaaa… — Vaiola soltou, maravilhada. Os olhos brilhavam e os lábios formavam um quase perfeito “O”. — Isso não doeu, titio?

    Com os punhos cerrados em orgulho e levantados, a nanica encarava o seu querido tio Dokin, que tinha chegado ali depois de vender o seu próprio peixe e passara a continuar a narração da história que tinha pausado na última vez que se viram.

    A razão para a pequena estar tão maravilhada era por ela ter escutado o tio contar que, depois que a sua senhora chegou, segurando “Ó Retrato” quebrado, fumegando pelas ventas e quase babando, ao mesmo tempo em que murmurava que ia matar alguém, tudo o que ele conseguiu fazer foi dar meia volta e correr com tudo o que tinha até arrombar a parede de pedra.

    Tudo era melhor que ter que enfrentar a sua senhora brava.

    — Oh, se dói. — Dokin se arrepiou inteiro só de lembrar, dando-se um abraço para massagear o corpo que ainda parecia dolorido. — Um conselho, nanica: nunca vá contra uma parede. Isso dói pra valer. Mas, mesmo com tudo isso, sabe o que foi pior?

    — O quê? O quê? — Sabendo que a história estava perto do seu fim, Vaiola estava curiosa para saber quais reviravoltas ainda surgiriam.

    — Eu só fui me lembrar depois que tinha uma porta dos fundos bem no corredor ao lado. Eu nem precisava ter ido contra a parede, tinha uma porta perfeita para a minha fuga ali perto.

    — Hahahahaha. — Até Glamich riu ao escutar aquela parte. — Você tem tanto medo da Kihame que até esqueceu as rotas de fuga que construiu só para fugir dela. Hahahaha.

    — Vai, ria da desgraça alheia. — Cruzou os braços e fechou a expressão. — Queria ver se fosse a Lavina, com raiva, murmurando que ia matar alguém enquanto caminha devagar até você.

    — Hiii! — Glamich cerrou os dentes e o breve arrepio que percorreu o seu corpo até o obrigou a endireitar a postura. Só de imaginar a cena descrita pelo Dokin, ele sentia pavor.

    — Viu.

    — Hahahahaha. A mamãe e a titia são bem assustadoras. Quero ser que nem elas quando crescer.

    Ouvindo aquela declaração, mesmo a nanica ainda tendo apenas cinco anos, pai e tio já sentiam pena do homem que teriam como genro.

    — Bem, pelo menos ela me deixou voltar para casa — disse Dokin, depois que ele e seu irmão de coração fizeram um minuto de silêncio em compaixão para com o seu futuro genro. —, mesmo que ela tenha me obrigado a três dias de jejum como punição.

    — Que bom que ela não te fez comer um copo de pimenta picante. — Vaiola comentou de repente. — Aquilo arde muito.

    Vendo a nanica tirar a língua para fora e retorcer o rosto, como se pudesse sentir aquele sabor picante na boca, Dokin e Glamich tinham apenas uma dúvida: “O que a Lavina anda fazendo com a nanica?”

    — Errr… moral da história, nanica? — Dokin indagou, querendo quebrar aquele clima estranho que tinha se formado após a fala da pequena.

    — Moral? Hmmm… ah, já sei. — O sorriso dela cresceu e seus olhos se fixaram no tio. — Moral da história: nunca irrite a sua senhora.

    — É isso aí, hahahahaha! — Assim, o grupo caiu em gargalhadas e, logo depois, Dokin seguiu narrando outras histórias.


    Ao fim das narrações, Dokin perguntou sobre Tirius e Ferin, revelando que tinha uma encomenda por entregar e queria a ajuda de um dos dois. Contudo, os dois jovens já tinham sido liberados pelo Glamich.

    Dokin se frustrou; tinha se distraído de tal forma com as histórias que acabou por se esquecer daquela encomenda. Ele tinha algumas coisas por fazer naquele momento, mas precisaria ir para o centro das Terras Centrais para fazer aquela entrega; afinal, era algo de um cliente importante.

    — Deixa que eu vou, titio. — Vaiola se ofereceu, recebendo olhares imediatos dos dois homens.

    Glamich não tinha a menor intenção de aceitar aquela sugestão; nunca que deixaria a filha sair por aí sozinha, mesmo sabendo que aquele lugar era seguro e que as pessoas dali eram confiáveis. Afinal, nem todos nas Terras Centrais eram moradores das Terras Centrais.

    Ele ficou um bom tempo recusando o pedido da pequena filha, listando razões para não permitir que ela fosse fazer a entrega, dizendo principalmente que era perigoso. Vaiola insistiu e implorou diversas vezes, recorrendo até ao golpe secreto “olhinhos de gato pedinte” e, por fim, decidiu apelar e usou a icônica frase da família:

    — Eu sou uma Hermis, pai.

    Depois daquelas palavras, Glamich não soube como retrucar ou negar, apenas pôde confiar que a filha ficaria bem. Então deu a ela um pequeno punhal, instruindo-a a usar aquela arma caso fosse necessário.

    — Não precisa se preocupar, são poucas coisas que obrigariam a nanica a usar um punhal por aqui — Dokin disse, como forma de consolo, quando a nanica não era mais visível por perto.

    — É, ela é uma Hermis, afinal. — Glamich estava com a cabeça abaixada, o olhar distante e suspirava. — Mas ainda é difícil não me preocupar. Mesmo que ela tenha a força próxima à de um soldado agora, Vaiola ainda tem só cinco anos.

    — É, eu te entendo, irmão. — Parou diante do amigo, deu duas palmadinhas no ombro dele e sorriu.

    — A propósito, Dokin, para onde era a encomenda?

    — Hã? Eu não tinha dito? — Dokin questionou, lembrando que tinha entregado um papel com o endereço para a nanica. — A encomenda é para o Sanzui.

    — Quê?! — Glamich deu um passo para trás e teve que se segurar bastante para não ir ao chão. — Você disse Sanzui? O dono da Hospedaria Flores Douradas? Aquele que gerencia aquele antro feito exclusivamente para os nobres e aristocratas do império, onde eles fazem o que querem? É desse Sanzui que você está falando?

    — Oh, merda!!! — Dokin levou as mãos para a cabeça e deu meia volta, tentando encontrar a Vaiola com o olhar. — Merda! Merda! Merda! — Ele tinha esquecido daquele pequeno detalhe. — Meeeerda!!

    — Dokin, precisamos encontrar a Vaiola, rápido! — Olhou para o horizonte, por onde ela tinha ido. — Se não a alcançarmos logo, a Vaiola…

    — A nanica…

    — Ela vai matar todos lá! — disseram em uníssono e correram para encontrar a nanica.

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