Capítulo 111: Cem por cento
Um clima de inquietude pairou no ar. Encarar o silêncio foi o que ambos escolheram fazer.
Pouco depois, Saito observou o céu com neutralidade. O sol intenso, o céu azul e as nuvens se movendo; dedicou esse breve instante para se distrair com a natureza.
Um suspiro deu as mãos ao único pensamento que surgiu:
“Que complicado…”
Tempo depois, caminhou. Cada passo lento acompanhava os olhos escarlates ficando cada vez mais opacos, como se o seu destino fosse interno, não externo.
Arthur, não tão distante de seu amigo, cerrou os lábios levianamente. Estava tão concentrado no questionamento “Como vou conseguir ganhar?” que nem percebeu quando ele se aproximou.
As pálpebras se ergueram ao topo no mesmo instante. Seus punhos se prepararam assim que Saito começou a levar as mãos ao horizonte…
… Só para, no final, ele ganhar um abraço.
O tamanho da confusão podia ser lido só de observar seus olhos; no entanto, a pureza daquele abraço o confortou tanto quanto se aproximar de uma luz calorosa.
Para ele, aquilo vindo de outra pessoa senão sua mãe era algo novo, mas não houve desconforto. Quando percebeu, já estava retribuindo.
— Eu desisto. Não posso bater em alguém que me ofereceu refúgio.
Essas palavras criaram uma angústia repentina no seu peito. Por que pensou primeiro “Como vencer?” ao invés de “Como ele está?”. Foi nisso que ficou pensando enquanto Saito desfazia o abraço.
Os olhos de Arthur se curvavam enquanto os passos de Saito se distanciavam. Quanto mais o tempo passava, mais forte a sensação de “Isso não está certo” crescia.
— Espera!
Saito olhou para trás.
Arthur estava o observando com um olhar que tentava disfarçar sua mágoa. Logo após seu pedido, disse o que desejava naquele momento:
— Eu quero lutar. Eu…
— Não quero.
A quebra de expectativas veio antes que ele pudesse criá-la. Quando pensou em continuar sua fala, Saito complementou o que pensava:
— Eu não tô te desmerecendo, mas é desproporcional demais e, também, não vejo motivos pra lutarmos.
Desproporcional… Essa única palavra ficou viajando em seus pensamentos. Até mesmo um de seus amigos o via como o fraco que era antes.
— Você… Ainda pensa que eu sou a mesma pessoa que encontrou naquela caverna de goblins, né…?
Isso não era mentira. Na perspectiva de Saito, quando ele observava Arthur, a imagem daquele garoto magro com um arco e flecha na mão ainda era visível demais.
— É exatamente por isso que eu quero mostrar pra pelo menos uma pessoa que eu mudei.
Um breve momento de silêncio se instaurou. Nesse meio tempo, Saito observou o fundo dos olhos de Arthur, buscando uma única fagulha de hesitação…
… E não tinha.
Suas pupilas se assemelhavam a chamas, não por agressividade ou violência, mas à mais pura determinação que alguém pode ter.
Os ombros se abaixaram acompanhando o suspiro que o poupou de dizer: “Fazer o quê”. Logo depois, só para ter certeza, o alertou pela última vez:
— Eu vou tentar, não vou pegar leve.
Arthur não disse mais nada, apenas acenou com a cabeça e ergueu sua guarda, se aproximando em passos lentos e organizados.
Ainda no seu ponto de vista, Saito estava de guarda baixa e de olhares despreocupados, deixando claro que, para ele, aquele garoto ainda não era nada demais.
“Só uma brecha…”
Era tudo o que Arthur queria. Quando chegou no ápice da sua concentração, Saito ergueu uma das mãos com o dedo indicador apontando para o céu.
— Pra não ser injusto: se você me acertar um soco bem dado eu vou assumir que perdi e a gente para.
Ele ouviu a explicação, mas pouco importava agora. Seu adversário estava com a guarda completamente aberta, e isso era um prato cheio.
Disparou um soco de direita na mesma hora em que pensou ter encontrado o descuido que tanto procurava, só para o resultado ser…
… Um contra-ataque praticamente perfeito.
Ele nem viu de onde aquele soco veio, só sabia que seus olhos estavam fechados porque algo havia acertado seu nariz na mesma hora em que tentou atacar.
As pálpebras se abriram pouquíssimo depois, mas não deixaram de trazer as reclamações do lacrimejo que deixou sua visão levemente embaçada.
Eram poucas, mas visíveis as gotas de sangue que escaparam do seu nariz. Falando nele, uma sensação ardente começava a florescer lá.
Ele até queria dar atenção para esses incômodos, mas não podia, Saito já estava armando o próximo ataque.
O braço indo lentamente para trás, o punho fechando no próprio ritmo e o ombro se movendo com preguiça… Tudo parecia propositalmente lento.
Saito fixou seu olhar na testa de Arthur. Por um momento muito breve, perguntou-se o motivo para essa ação, mas seus instintos não o permitiram prolongar isso.
Quando se deu conta, já havia inclinado o pescoço, e foi nesse momento que aquele soco veio, acertando com precisão onde sua testa estava anteriormente.
Era rápido demais para ele tentar desviar no reflexo. Ele teve sorte dessa vez, mas nem ele conseguia garantir que isso aconteceria de novo.
Letras pequenas e prateadas que apenas ele conseguia ver surgiram ao seu lado.
+10% em todos os atributos!
Foi essa a recompensa que teve por ter desviado daquele ataque, mesmo que sem querer. Foi nesse pequeno instante que teve uma ideia:
“Espera! Finge que eu não ganhei esses dez, mas acumula eles até eu dizer: ‘Agora’, tá?”
✅
E assim foi feito.
Imediatamente após, observou os olhos de Saito para ver aonde ele estava apontando seu próximo soco, e descobriu onde seria: o peitoral.
Seu adversário mal tinha começado a cerrar os punhos para atacar, mas a pressa, falando mais alto, o forçou a dar um salto lateral para esquivar…
… E nada veio até ele.
Arrepios serpentearam seu corpo quando percebeu o que tinha acabado de fazer. Tudo o que pôde pensar depois foi: “Preciso defender!”
Sem nem ter olhado para Saito mais uma vez, moveu depressa os dois antebraços para cobrir o peito e, por um breve momento, nada aconteceu.
Foi então que ele decidiu olhar nos olhos dele, e lá estavam: escarlates como sempre, mas estranhamente calmos.
Era como se ele quisesse sussurrar uma mensagem: “se você tivesse sido só um pouco mais paciente, poderia ter evitado a dor de agora.”
O tão aguardado soco foi feito.
Sua locomoção foi acompanhada pelo grito do vento. Quando atingiu os antebraços, o mesmo barulho de uma explosão ecoou ao horizonte.
Arthur cerrou os dentes na mesma hora. Os pés desistiram de sustentar e se entregaram ao impacto, mas não o permitiram cair.
Enquanto derrapava na arena, se esforçava para não gritar com a angústia que abraçou ambos os antebraços enquanto eles ficavam mais e mais vermelhos.
A luta mal havia começado, e ele já estava ofegante. Ainda mantinha a guarda, mas a dor gritava para que ele abaixasse os braços.
“Ainda não…”
Ele engoliu cada pensamento de desistência em um único gole. Quando a saliva desceu pela garganta, deu fim à sua frase:
“Eu preciso de cem por cento.”
Enquanto ele tentava ver a luz no fim do túnel, Saito continuou o observando com seu olhar escarlate tão afiado quanto a de um felino.
Não demorou muito para a tortura psicológica recomeçar.
Os lábios de Arthur se curvaram e estremeceram. Os punhos apertaram em uma tentativa de retrucar, mas de nada adiantou.
Ba-Dump.
Quanto mais Saito fechava os punhos, menos o ar parecia existir para Arthur. Assim que estiveram cerrados, a respiração desapareceu para seus pulmões.
Ba… Dump.
Ele começou a projetar o braço para trás. Os olhos do garoto estavam tão fixos naquele instante que poderiam deixar de piscar por minutos.
Ba… Dump…
Saito parou de se mexer. Seu braço ficou estagnado no mesmo lugar, como se esperasse um mísero sinal para que disparasse mais um soco pesado.
Arthur não se dava conta do suor que estava prestes a cair do queixo. Tudo o que sabia era que aqueles olhos escarlates miravam a testa.
Não demorou para aquela mísera gota se desgrudar, se deixando levar pelo destino…
Até que sua própria destruição chegou.
Ping…
O soco de Saito disparou no mesmo instante. Arthur sequer pensou, apenas agiu: inclinou o pescoço ao mesmo tempo em que desferiu o soco mais firme que podia.
O som daquele golpe passou do lado da orelha em um “voosh!” tão rápido quanto veio. Pouquíssimo depois, o barulho de ossos se quebrando nasceu.
Arthur estava ofegante, mas nada havia atingido seu rosto. Ficou perdido por um breve momento… Até sentir formigamento e calor virem do punho.
Os pés saltaram para trás na mesma hora. Seus olhos logo observaram o estado em que a mão estava: destruída. Só de pensar em fechá-la já causava mais dor.
Sua próxima ação veio imediatamente: observar Saito e principalmente o que tinha atingido, e não demorou para a verdade chegar: não foi o corpo.
O jovem dos olhares escarlates defendeu-se daquele ataque utilizando-se do elemento Terra, erguendo o concreto que a arena oferecia.
Mas, para Arthur, estava tudo bem, ele conseguiu o que desejava.
+20% em todos os atributos acumulados!
Enquanto recuperava o fôlego, pensava consigo mesmo:
“Só mais oito…”
Próximo capítulo: A Queda da Soberba.

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