Depois que todos acordam, eles conversam na areia ainda úmida do mar.

    — Desculpa… a tia Rimuru me pediu para inventar aquela mentira, mas eu nunca ia imaginar que alguém de fora ia abrir a caixa — Pionla coça a cabeça, claramente incomodada.

    — Certo, certo, foi só um contratempo, é só nós prosseguir tranquilas — Ré diz na boa, tentando aliviar o clima.

    — Eu não vou dizer nada… vou esperar vocês perceberem — Pionla responde olhando para baixo.

    Roseta se aproxima do mar e tenta avançar, mas bate contra algo invisível. O som seco ecoa.

    — Suponho que seja isso que você estava se referindo — Roseta passa a mão na barreira sólida à frente.

    — Exatamente isso. Estamos naquela ilha depois do deserto, onde nós não conseguimos passar. Provavelmente por ainda estarmos impregnados em carmim conseguimos atravessar antes, mas agora eu não sei o que fazer — Pionla diz enquanto testa a resistência da barreira com um golpe da tesoura.

    O impacto não causa absolutamente nada.

    — Tá. Eu vou procurar algo — Bauvalier começa a andar em direção à floresta.

    — Espera, não dá para simplesmente entrar em um lugar novo sozinho — Pionla segura o braço do irmão, preocupada.

    — Se você tiver uma ideia melhor, eu vou amar ouvir — ele se solta do aperto e continua andando.

    Pionla suspira, vencida.

    — Certo… mas pelo menos me espera.

    Ela vai atrás dele, e Roseta e Ré seguem os dois.

    A floresta é densa. A caminhada é longa.

    Não havia barulho de animais. Nenhum vento. Nenhuma folha se mexendo.

    Por algum motivo, havia uma voz de fundo, quase como um sussurro distante.

    Um tentáculo surge do chão.

    Todos levantam as armas em posição de luta.

    Outro surge. E mais um. E mais outro. Até que eles estão cercados por todos os lados.

    — Por que estão amedrontados, meus jovens? Não se esqueçam que, comparado ao fim de tudo isso que estão passando, isso não passa de uma anedota.

    Uma mulher surge acima deles, em cima de um dos grandes tentáculos.

    Seus cabelos eram enrolados como os próprios tentáculos que a sustentavam. Um grande manto cobria quase todo seu corpo, mas o rosto permanecia visível. Seus olhos eram distantes, quase vazios, com grandes óculos repousando sobre eles.

    — Quem é você?! Como ordem real eu estou mandando tirar esses tentáculos, se não você terá que ser executada! — Bauvalier aponta a espada para ela.

    Uma risada etérea ecoa da mulher, suave e distante.

    — Assim vocês me ofendem… não se recordam de mim?

    Ela tira a capa, revelando sua figura bela. Levanta os óculos para o topo da cabeça, e as caudas de polvo se movimentam como grandes extensões atrás dela.

    — Tia Quineiou… como você está aqui? Não tem como entrar aqui — Pionla olha arregalada.

    — Eu já estava aqui antes dessa cúpula. Eu só aproveitei… férias eternas para alguém eterna como eu — Quineiou soa cansada, quase como se tivesse acabado de acordar — Mas acho que o real questionamento é por que meus sobrinhos estão aqui.

    — Um tornado nos trouxe aqui, madame Quineiou — Roseta diz calma, mesmo um pouco amedrontada.

    — Que pena… realmente — Quineiou responde com um sorriso leve demais para a situação.

    — Mas já que estamos aqui, você é uma das chaves para pegar os artefatos, né? — Pionla pergunta, agora mais tranquila.

    — Infelizmente sou. Mas há um problema. Meu desafio era apenas para Sherine. Já faz tanto tempo que, por um momento, achei que era apenas uma piada dos outros deuses — ela passa a mão pelos tentáculos espalhados pelo chão, fazendo-os desaparecer um a um.

    O silêncio volta a dominar a floresta.

    — Isso significa que não teremos seu artefato… mas talvez possa nos tirar daqui? — Bauvalier questiona, agora com um pouco de medo na voz.

    — Não tem como fazer isso — ela diz muito tranquila.

    — Então… vamos ficar simplesmente presos? — Pionla diz, assustada.

    — Talvez haja algo que eu possa fazer… e vou acertar dois coelhos com uma cajadada só — ela anda perto deles, e seus tentáculos passam ao redor do grupo antes de se virar novamente — Mas preciso de algo que a Sherine já teve. Eu devolvo depois, eu juro.

    Os gêmeos olham para as armas: a tesoura e a espada.

    — Talvez nossas armas… elas foram fabricadas por ela, então suponho que seja isso que está nos pedindo — Bauvalier coloca a espada nas mãos da tia.

    — Espero que realmente funcione… mas é melhor ter esperança do que só desilusão — Pionla entrega a tesoura para um dos tentáculos de Quineiou.

    — Exatamente. Agora deixem comigo. Quando eu voltar, tenham certeza que vou cumprir o que prometo… porque para alguém que se queimou da realidade para lidar com essa situação, isso vai ser tranquilo — ela se cobre com o manto de novo e some em um piscar etéreo.

    O silêncio fica por alguns segundos.

    — Espero que ela realmente possa nos tirar daqui… mas não vamos contar só com esse plano — Roseta se aproxima de Ré — Talvez possamos usar suas tocas de coelho para sair.

    — Não vai rolar. Meus poderes já estão meio desregulados desde que aquelas sementes caíram na terra. Além disso, meus portais só conseguem passar meu braço pra pegar mais celulares e jogar nos inimigos.

    Ré demonstra na prática: enfia o braço em uma pequena toca de coelho, puxa um celular, cria outra toca e joga o aparelho dentro. A toca começa a falhar, distorcendo como se estivesse bugando, até simplesmente desaparecer.

    — Viu? — ela completa.

    — Então tá… o que vamos fazer enquanto esperamos? — Pionla questiona, sentando em um tronco ali perto.

    — Vamos fazer um acampamento! Podemos contar histórias assustadoras e comer marshmallow com bolacha — Ré sugere animada, sentando ao lado da amiga.

    — Pode ser interessante — Bauvalier estala os dedos, criando uma sacola de marshmallows e bolachas no colo de Ré, além de alguns palitos de churrasco.

    — Pelo menos estamos juntos presos aqui — Roseta pega um dos marshmallows e coloca no palito.

    — Realmente — Pionla estala os dedos e cria uma fogueira na frente deles.

    A chama ilumina a floresta silenciosa.

    — Vai ser agradável não se preocupar e só esperar — Bauvalier esquenta o marshmallow até ficar bem dourado e o oferece para Roseta com um sorriso tímido.

    — É uma pausa… mas infelizmente por causas externas — Roseta pega o marshmallow da mão dele com um sorriso e se vira para pegar as bolachinhas. Não vê a expressão boba que Bauvalier tenta disfarçar quando percebe as outras duas rindo.

    — Sim… mas eu até imagino que isso faz bem pra cabeça — Pionla rouba um pedaço do biscoito da Ré.

    Ré dá uns tapinhas na cabeça dela enquanto continuam conversando tranquilos.

    A lua cheia começa a aparecer no céu, iluminando o pequeno acampamento improvisado naquela ilha desconhecida.

    Mas em outro lugar…

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