O ar em Olympus Mons não era apenas oxigênio e nitrogênio; era um produto de design. Para os milhões que habitavam as camadas inferiores da crosta marciana, o ar tinha o gosto metálico de filtros reciclados até o limite e o cheiro persistente de suor misturado à poeira de óxido de ferro que penetrava por todas as frestas.

    Mas ali, no ápice do domo, onde a gravidade era artificialmente ajustada para se aproximar do conforto da antiga Terra, o ar era uma sinfonia invisível. Elian Vane inspirou profundamente, sentindo a nota de topo de jasmim sintético — extraído de biolaboratórios exclusivos — e o frescor nítido do ozônio recém-filtrado.

    Era uma composição atmosférica calibrada por engenheiros sensoriais, um luxo que custava créditos suficientes para alimentar uma colônia mineradora inteira por um mês. Era o cheiro do privilégio, tangível e inatingível. Elian ajustou os punhos de sua túnica de seda de fibra de carbono. O tecido era negro como o vácuo, mas captava a luz de forma iridescente, mudando para tons de petróleo e azul profundo conforme ele se movia, como se o próprio espaço estivesse tecido na roupa.

    Ele se posicionou diante da imensa parede de vidro de quartzo reforçado de sua suíte, observando o horizonte. Marte, lá fora, era um deserto furioso de ferrugem e tempestades de areia capazes de cobrir continentes, mas através dos filtros cromáticos integrados ao vidro, o pôr do sol azulado do planeta vermelho era corrigido em tempo real. Para Elian, o céu não era poeira; era um degradê perfeito de laranja e violeta, transformando a paisagem hostil em um entardecer eterno de cartão-postal. A realidade, para um Vane, era sempre o que a tecnologia decidia que fosse.

    Ele caminhou em direção ao bar de carvalho autêntico que ficava no canto da sala. A madeira era maciça, escura e fria ao toque, um material orgânico que não via a luz de uma estrela natural desde o Grande Colapso da Terra, quando os últimos bosques foram sacrificados para manter os geradores de oxigênio funcionando. Cada nó na madeira, cada veio natural, era uma relíquia.

    Aquela peça única custara o equivalente a uma pequena nave de carga, mas Silas Vane não se importava com preços; ele se importava com a mensagem. E a mensagem era clara: o que é extinto para o resto da galáxia ainda floresce sob o sobrenome Vane. Dizia-se que Silas construiu seu império não apenas sobre minérios e contratos, mas sobre a nostalgia da humanidade.

    Ele fora um menino pobre, nascido nas minas de Phobos, onde a luz artificial era um luxo e a vida valia menos que um cartucho de ar. Ninguém sabia ao certo como ele escapou — se foi por inteligência, sorte ou crueldade —, mas a lenda contava que ele chegou a Olympus Mons com nada mais do que um algoritmo de otimização de rota escrito em um chip roubado e uma cicatriz que cortava seu sobrolho esquerdo, um lembrete de uma briga por comida na infância. Hoje, essa cicatriz raramente era vista, escondida por cirurgias estéticas ou ângulos calculados, mas ela era a verdadeira raiz de tudo o que ele construía: a prova viva de que o mundo poderia ser moldado, desde que se tivesse força suficiente para agarrá-lo.

    O som do gelo batendo contra o cristal do copo foi o único ruído a quebrar o silêncio da suíte. Elian não tinha pressa; ele nunca teve. Sua vida fora uma sucessão de eventos programados com a precisão de um relógio atômico, uma coreografia de sucessos garantidos e caminhos pavimentados com ouro e influência. Ele nunca precisou correr, pois o destino sempre pareceu esperar de joelhos. — A formatura foi um espetáculo, Elian. Mas as fotos de propaganda serão o verdadeiro legado.

    A voz de Silas Vane ecoou pelo piso de mármore polido do salão antes mesmo que sua figura se materializasse da penumbra do corredor. Silas era um homem feito de ângulos agudos e ternos sob medida que pareciam fundir-se à sua pele, tecidos com fios condutores que monitoravam sua saúde e emitiam um brilho sutil, quase imperceptível. Ele não caminhava; ele ocupava o espaço, como se o ambiente ao redor existisse apenas para contorná-lo. Quando entrou na sala, não houve um abraço, nem um toque no ombro. Afeto era um recurso que Silas economizava, usado apenas onde gerava retorno.

    Ele parou a dois metros de distância, avaliando o filho da mesma forma que um engenheiro avalia a aerodinâmica de um protótipo ou um banqueiro avalia um investimento de alto risco. Seus olhos, da mesma cor clara que os de Elian, tinham uma dureza que o filho ainda não possuía — eram olhos que viram corpos serem descartados nas minas, contratos sendo rasgados com armas de fogo e impérios caindo por um erro de cálculo. — Eu vi os relatórios da Academia hoje de manhã, pai — respondeu Elian, mantendo o olhar fixo na bebida, girando o líquido âmbar dentro do copo. — Os instrutores disseram que minhas manobras de acoplagem manual foram as mais rápidas da década. Eles usaram a palavra “prodigioso”. Silas aproximou-se da parede de vidro, parando ao lado do filho.

    Suas mãos estavam cruzadas nas costas, uma postura rígida que exalava uma autoridade que não precisava de gritos para ser sentida. Ele olhou para o céu falso, e por um instante, algo como lembrança passou por seu rosto, mas se fechou rapidamente, como um cofre trancado. — Eles são pagos para serem impressionáveis, Elian. E eu sou pago para garantir que o público acredite neles. — Silas virou o rosto, o brilho das luzes externas refletindo em seus óculos de lentes dinâmicas. — Você é um Vane. E isso significa que a teoria da navegação e o senso de negócios estão no seu código genético, ou pelo menos, é o que eu paguei para que os cientistas projetassem.

    Mas o que importa agora não é o quão bem você manobra um caça em um simulador pressurizado, onde o pior erro resulta apenas em uma luz vermelha piscando. O que importa é o que sua presença naquela nave representa para as ações da companhia no mercado interplanetário. O nome Vane é a nossa moeda mais valiosa. Silas caminhou até o balcão de carvalho e colocou sobre ele um tablet holográfico de cristal líquido, um objeto tão raro que era considerado obra de arte. Ao toque de seus dedos, contratos do Governo da Coalizão Marciana projetaram-se no ar em letras douradas, girando lentamente como constelações de poder e obrigação. — Eu fechei o acordo final há duas horas.

    O governo nos concedeu isenção total de impostos comerciais por vinte anos e o direito de exploração exclusiva de Solar 2K8B, um sistema que, segundo os sensores, tem planetas ricos em elementos que nem mesmo nomeamos ainda. — Silas apontou com um gesto seco para os nomes técnicos das leis de mineração, cláusulas que ele mesmo ajudara a escrever nos bastidores do poder legislativo. — Em troca, nós fornecemos o “pioneiro”. O símbolo. O herdeiro da maior corporação de Marte liderando pessoalmente a expansão da humanidade para fora deste deserto vermelho.

    Você não é apenas o piloto, Elian. Você é a garantia. Elian tomou um gole longo, sentindo o álcool — destilado de matérias-primas reais, importadas de estações agrícolas orbitais — queimar suavemente sua garganta. Ele olhou para os contratos com um desdém disfarçado de confiança. — Parece fácil demais, pai. Ir para lá, ativar uma rede de drones automatizados, mandar um sinal de “olá” para as antenas de Olympus Mons e voltar a tempo para a festa de boas-vindas? É apenas um voo de entrega com mais glamour. — É física básica e marketing impecável, Elian.

    A Vanguard é o ápice da nossa engenharia. É como dirigir um carro de luxo em uma estrada sem curvas e sem tráfego. Você vai entrar no sono criogênico, a I.A. fará as dobras espaciais necessárias seguindo os cálculos de Athena, e quando acordar, será o homem mais famoso de dois sistemas solares. — Silas fez uma pausa, e sua voz baixou um tom, ganhando um peso que raramente mostrava. — Você não precisa ser um astronauta de verdade no sentido arcaico da palavra, que tem que consertar tubos com as mãos congelando.

    Você precisa apenas ser o rosto da Vane Corp no novo mundo. Um rosto que o povo confie. Alguém que não carrega a sujeira das minhas mãos nos dedos. Elian sorriu. Era um sorriso de confiança cega, esculpido por anos de simuladores que sempre terminavam em vitória e falhas de sistema que eram resolvidas com um simples comando de voz “prioridade administrador”. Ele nunca sentira o vácuo real.

    Nunca ouvira o som do metal rangendo sob a pressão de uma descompressão iminente. Para ele, o universo era um lugar ordenado, um simulador gentil desenhado especificamente para o seu triunfo. — O povo gosta de heróis — murmurou Elian. — Especialmente os que não se sujam de graxa. — O povo gosta de símbolos, Elian. O suor é para os operários das camadas baixas, que trocam a vida por um cartão de créditos no final do ciclo.

    Para nós, sobra a visão. Ou pelo menos, a versão dela que escolhemos vender. Naquela noite, a residência dos Vane transformou-se no epicentro da política marciana. Um jantar para trezentos convidados, onde o cheiro de carne sintética de primeira linha — indistinguível da natural, mas produzida em tanques estéreis — misturava-se ao aroma de perfumes importados da estação orbital. Elian circulava entre generais com medalhas brilhantes e CEOs com sorrisos de porcelana, ouvindo elogios incessantes sobre sua “bravura suicida” e seu “espírito indomável”.

    Ele aceitava cada brinde e cada aperto de mão com a naturalidade de quem já tivesse conquistado a galáxia. Enquanto ria de piadas sobre a “poeira da Terra” e discutia vinhos raros, ele não percebia os olhares rápidos e calculistas que seu pai trocava com os oficiais de alto escalão do governo nos cantos sombreados do salão. Silas falava baixo, gesticulando pouco, mas cada palavra sua parecia mover peças invisíveis no tabuleiro.

    Para Silas, Elian era a peça de xadrez que finalmente daria xeque-mate nos reguladores ambientais e nos sindicatos que há anos tentavam frear seu crescimento; para o governo, a presença do herdeiro Vane na nave era a única garantia real de que a corporação não cortaria custos na segurança da missão. Se o filho de Silas estava a bordo, a nave tinha que ser perfeita. Era uma apólice de seguro viva, e ambos os lados sabiam disso. Silas odiava apostar, mas quando o fazia, sempre garantia que, se perdesse, a perda fosse apenas o suficiente para não quebrá-lo — e para ensinar uma lição.

    A manhã seguinte nasceu com o brilho clínico das luzes do hangar privado da Vane Corp, um espaço tão grande que poderia abrigar uma cidade pequena. Elian ficou parado por longos minutos diante da Vanguard. A nave era uma flecha de prata escovada, sem costuras visíveis, uma maravilha de engenharia estética que parecia mais uma joia polida do que um veículo espacial. Sob os holofotes, ela reluzia com uma promessa de imortalidade e progresso. Ele subiu a rampa com passos leves. Não havia o peso de botas magnéticas pesadas ou o desconforto de um traje de pressão robusto. Ele vestia um macacão de voo de design fino, com o símbolo da empresa bordado em fios de prata real no peito. Ele sentia o peso daquela prata não como uma armadura que protege, mas como um adorno que exalta, um selo de propriedade.

    Ao entrar na ponte de comando, o cheiro de couro novo e eletrônicos frios o recebeu. Ele sentou-se na cadeira do comandante, que se moldou instantaneamente ao seu corpo, ajustando a temperatura e o suporte postural. As telas holográficas despertaram em um azul suave, refletindo-se em seus olhos claros.

    Elian não sentia que estava indo para o espaço para lutar contra o desconhecido ou enfrentar a fúria das estrelas; ele sentia que estava subindo os degraus de uma catedral de metal para ser coroado. — Todos os sistemas em verde, Comandante Vane — ecoou a voz serena da I.A. Athena, suave e educada, programada para ser a companhia perfeita. — Destino: Solar 2K8B. Tempo de dobra estimado: 14 dias terrestres. Deseja iniciar o protocolo de sono? Elian olhou para o painel, onde o símbolo da Vane Corp brilhava com orgulho. Ele pensou em seu pai, no mármore de Olympus Mons, no ar caro que agora deixava para trás e na história de luta e poder que o nome Vane carregava.

    Ele achava que entendia tudo. — Iniciar, Athena. Vamos dar ao universo algo sobre o que conversar. Enquanto a cápsula de criogenia se fechava com um sussurro pneumático, Elian fechou os olhos com um sorriso nos lábios. Ele era o mestre de seu destino. Ele era o herdeiro do futuro. Ele era Elian Vane, e o universo, em sua ingenuidade, parecia pequeno demais para a sua ambição. Ele não sabia que, lá fora, no vazio real entre as estrelas, a prata não tem peso, o luxo não tem oxigênio e o destino não aceita contratos assinados em dourado.

    E muito menos sabia ele que Silas Vane, ao fechar os portões do hangar, não estava apenas enviando seu filho para a glória, mas talvez lançando-o ao abismo para salvar o que ele havia construído com tanto sangue.

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