Capítulo 4: A Trama dos Próximos Dias
O silêncio dentro da Vanguard era opressivo, pesado como a própria gravidade, quebrado apenas pelo rangido ocasional do metal contra o gelo e pelo uivo distante do vento que parecia reclamar eternamente. Elian Vane estava encolhido no assento do piloto, enrolado no que restava dos revestimentos isolantes. Ele sentia o frio não apenas como uma temperatura, mas como um inimigo vivo que se infiltrava através das rachaduras do casco e atravessava as camadas do tecido do traje. A bateria integrada piscava em 35% — um número vermelho e cruel, um relógio contando regressivamente para o momento em que ele se tornaria parte da paisagem congelada.
Ele não sabia dizer quanto tempo havia passado. Horas? Dias? O ciclo de luz da estrela laranja era fraco e constante, um crepúsculo eterno que apagava qualquer referência temporal. Nas últimas unidades de tempo que ele possuía, Elian havia vasculhado cada centímetro da cabine, catalogando danos e suprimentos, tentando ignorar o tremor incontrolável que sacudia seu corpo. Mas a curiosidade, misturada ao pavor de não conhecer o ambiente que o queria morto, o impulsionava. Ele precisava ver. Precisava entender o monstro que o engolira.
Com um esforço que fez seus músculos gritarem, ele se arrastou até a escotilha manual na lateral — um mecanismo antigo, mecânico, que não dependia de energia elétrica para funcionar, instalado como uma redundância que ninguém na Vane Corp jamais imaginou que seria usada. Seus dedos, rígidos e inchados pelo frio, escorregavam na crosta de gelo que se formara do lado de dentro do vidro. Ele raspou a superfície com as unhas, sentindo lascas afiadas cortarem a pele, o sangue que escorria congelando quase instantaneamente em pequenas esferas escuras. A gravidade de 1,8 Gs tornava cada movimento um trabalho árduo; levantar o braço parecia erguer um bloco de concreto.
Quando finalmente conseguiu limpar uma área circular suficiente para espiar, a visão o deixou sem fôlego — não de admiração, mas de um terror primordial que gelou o pouco sangue que ainda circulava com vigor.
Ele batizou aquele mundo mentalmente de Inverno Eterno, e o nome pareceu caber como uma sentença. Não era nada como os mundos simulados na Academia Estelar, onde a natureza era modelada para ser bela ou perigosa de forma previsível. O céu não era o azul da Terra nem o vermelho poeirento de Marte; era um violeta pálido e doentio, como a cor de uma contusão antiga, iluminado fracamente pela estrela velha que pairava no horizonte como um olho inchado e cansado. A luz que ela emitia era insuficiente, filtrada por camadas de nuvens carregadas de cristais de gelo, criando sombras longas e distorcidas que pareciam se mover por conta própria. Não havia calor; a estrela parecia existir apenas para lembrar que o calor era possível, mas havia sido esquecida ali.
O terreno era uma paisagem esculpida pela violência física. Não era a neve fofa dos holofilmes. Era gelo compactado por ventos que atingiam velocidades supersônicas e moldado pela gravidade esmagadora, tornando-se duro como diamante e afiado como lâmina de barbear. As montanhas não eram colinas suaves; eram lâminas de rocha negra que rasgavam o céu, cobertas por camadas de gelo translúcido que refratavam a luz fraca em brilhos cegantes. A Vanguard estava equilibrada na crista de uma dessas formações, a milhares de metros acima de um vale envolto em névoa escura. O vento não assobiava; rugia, um som contínuo e ensurdecedor que fazia a estrutura da nave vibrar, como se o planeta inteiro estivesse tentando sacudi-la para o abismo. Elian percebeu imediatamente: se ele saísse ali fora sem cabos de ancoragem, não seria apenas derrubado; seria lançado como um projétil, seu corpo despedaçado contra as rochas antes que ele pudesse gritar.
Ele pressionou o rosto contra o vidro, ignorando a dor que o frio causava em sua bochecha, e escaneou o horizonte. Nenhum sinal de civilização, nenhuma ruína, nenhum artefato. Apenas a vastidão branca e roxa, cortada por nuvens de neve que eram, na verdade, nuvens de partículas afiadas capazes de lixar metal, muito menos carne humana. Mas o radar de curto alcance, operando na bateria de emergência, forneceu dados ainda mais sombrios: o gelo sob o trem de pouso estava cedendo. O calor residual do reator e a vibração constante estavam criando rachaduras que se alargavam a cada minuto. A nave ia cair. O cálculo era simples e brutal: talvez 48 horas, no máximo, antes que ela despencasse.
Os sensores apontavam para o vale abaixo: uma atmosfera ligeiramente mais densa, velocidades do vento reduzidas em cerca de 40% e temperaturas que, embora ainda letais, seriam pelo menos suportáveis por mais tempo. Era um refúgio relativo. Mas para chegar lá, ele não podia planar ou deslizar; precisaria realizar uma manobra de descida controlada, usando os propulsores verticais para frear a queda. E havia um problema: os propulsores estavam danificados, e o sistema de gerenciamento de energia havia sofrido uma falha crítica no condutor principal.
Elian recuou da escotilha, caindo de joelhos no chão inclinado. O dilema o atingiu com a força de um soco. Para consertar os propulsores, ele precisava de um condutor de platina-irídio, uma liga rara capaz de suportar picos de energia sem derreter. A única peça compatível disponível na nave estava instalada no transmissor de comunicação de longo alcance — o único equipamento capaz de enviar um sinal através do espaço profundo, a única linha de vida para Marte, para seu pai, para o resgate.
A escolha era uma faca de dois gumes: se ele canibalizasse o rádio, poderia consertar os motores e descer da montanha, mas se tornaria completamente invisível para qualquer um que tentasse procurá-lo. Se mantivesse o rádio intacto, esperaria em vão, pois ninguém sabia onde ele estava, e a nave cairia em menos de dois dias. Era o tipo de decisão onde não há resposta certa, apenas consequências — algo que ele nunca aprendera, pois em seu mundo de privilégios, os problemas eram sempre resolvidos com dinheiro ou influência.
Com as mãos trêmulas e lágrimas que congelavam antes de rolar pelo rosto, ele se arrastou até o painel de comunicações. A luz verde piscava, um farol de esperança teórica. Ele imaginou a voz de Silas Vane, firme e autoritária: “Você é um Vane. Sobreviva. O resto é detalhe.”
Elian agarrou o kit de ferramentas e arrancou a carcaça do aparelho. Os circuitos brilharam como veias expostas. O condutor veio com um estalo seco, e a luz verde apagou-se para sempre. Ele havia destruído sua única ligação com o lar para comprar uma chance incerta de continuar vivo. O peso dessa traição à sua própria identidade doeu mais que a gravidade ou o frio.
Os próximos três ciclos de luz e escuridão foram uma rotina de sofrimento meticuloso, longe da velocidade heroica das simulações.
Dia 1: Elian saiu da nave pela primeira vez. Com a bateria do traje em 30%, ele abriu a escotilha, e o ar externo invadiu a cabine como uma onda de agulhas geladas. Ao pisar no casco, a gravidade o esmagou; para seu corpo marciano, era como se ele pesasse quase 180 quilos, embora seu peso real fosse muito menor. Ele teve que rastejar, usando ganchos magnéticos improvisados para se fixar ao metal, enquanto o vento tentava arrancá-lo dali a cada segundo. Ao alcançar o compartimento dos propulsores, um erro fatal aconteceu: seus dedos, entorpecidos e sem sensibilidade, soltaram uma chave inglesa. A ferramenta caiu no abismo branco, desaparecendo em segundos. Sem ela, ele teve que usar uma lâmina multiuso para desparafusar e soltar conexões projetadas para ferramentas específicas. O trabalho levou o dobro do tempo previsto, gastou o triplo de energia e cortou as luvas, deixando a pele exposta ao frio por breves instantes que foram suficientes para causar queimaduras por frio que doíam como queimaduras de fogo. Ele voltou para dentro cambaleando, o suor que escorria de seu corpo congelando instantaneamente sobre a pele, deixando-o à beira do colapso por hipotermia.
Dia 2: A fome atacou. Seu estômago, acostumado a refeições balanceadas e sintetizadas com perfeição, rejeitou a barra de ração de emergência — uma massa densa, calórica, mas com gosto de plástico e química. Ele comeu apenas metade, forçando a goela abaixo, e o corpo reagiu com vômitos, esvaziando-o do pouco que tinha. A bateria do traje agora marcava 20%. Ele teve que fazer uma alocação de energia crítica: usar o resto da carga para aquecer o corpo durante a noite, ou direcionar tudo para a soldadora a laser. Se escolhesse o calor, os reparos parariam e a morte chegaria mais rápido. Se escolhesse o trabalho, sofreria, mas teria uma chance. Ele escolheu a soldadora. A noite foi um tormento: encolhido em um canto, tremendo tanto que temia que seus ossos se quebrassem, alucinando com o ar aquecido e os lençóis de seda de seu quarto em Olympus Mons. Ao amanhecer, seus lábios estavam rachados e sangrando, seus dedos azulados e rígidos, mas o condutor de platina estava instalado. Uma vitória pírrica, conquistada à custa de sua própria vitalidade.
Dia 3: O reparo estava concluído, mas era uma gambiarra precária. O propulsor esquerdo funcionava a 60% de sua potência, o direito a 80%, um desequilíbrio perigoso causado pela solda fria e instável que ele fizera com as mãos tremidas. Elian sentou-se no cockpit: estava sujo de graxa e sangue seco, uma barba rala e irregular cobria seu rosto — algo impensável para ele semanas antes. Ele cheirava a medo e exaustão.
Com o coração batendo forte contra as costelas, ele girou a chave de ignição. Os motores tossiram, soltaram fumaça cinza e depois rugiram, um som potente que lutou contra o vento. O gelo sob a nave partiu-se com um estalo que pareceu um trovão, e a Vanguard mergulhou. Primeiro caíram 500 metros em queda livre, o estômago de Elian subindo à garganta, antes que ele conseguisse empurrar o manche e estabilizar.
A nave puxava para a esquerda, arrastada pelo motor mais fraco, e ele teve que usar força física bruta para manter o curso, seus braços ardendo como se fossem de fogo. O voo durou quatro minutos que pareceram horas. Ele desceu através de camadas de nuvens geladas, e a paisagem mudou: o branco infinito deu lugar a tons de cinza-azulado, e ele avistou algo que desafiou todo o conhecimento que tinha de botânica. Eram formações que se assemelhavam a árvores, mas eram gigantescas, feitas de estruturas fibrosas e cristalinas, com troncos grossos como o diâmetro de uma nave de carga, crescendo em ângulos estranhos e retos, projetados para suportar uma gravidade que esmagaria qualquer vegetação terráquea.
Ele avistou uma clareira: um lago congelado, uma superfície lisa de gelo que parecia a única área estável o suficiente para um pouso. Mas o reparo ruim traiu-o no momento final. Ao tentar frear, o propulsor esquerdo não suportou a carga e explodiu em uma bola de fogo laranja, a solda falhando completamente. A Vanguard bateu no gelo com força brutal, o impacto sacudindo Elian como um boneco de pano. A nave deslizou por quilômetros, derrubando aquelas árvores de cristal que se estilhaçavam com o som de sinos gigantes sendo esmagados, os cacos voando como estilhaços de bomba e cravando-se no casco restante.
Quando finalmente parou, próximo à borda de uma floresta densa, a nave fumegava e o reator vazava mais refrigerante tóxico. Ela nunca mais voaria longas distâncias. Mas Elian estava vivo. O ar ali era mais denso, o vento mais fraco. E então, um som novo ecoou: não era o vento, eram rangidos baixos, movimentos pesados. O radar de curto alcance apitou, a luz piscando em vermelho:
“Assinatura de calor biológico detectada. Distância: 2.000 metros.”
Vida. Ou perigo. A história estava apenas começando.
Mas Elian sabia que não poderia mais contar com confortos. Ele olhou para o painel onde a voz de Athena ainda tentava operar, suave e inadequada para aquele inferno.
— Recomendo aguardar o resgate, Senhor Vane — disse a voz aveludada, programada para hóspedes de hotéis orbitais, não para náufragos.
Elian grunhiu, agarrando uma chave de fenda e arrancando o módulo de interface de voz com um puxão forte. Fios soltos soltaram faíscas.
— Não existe resgate, lata velha. E eu não preciso de babá, preciso de eficiência.
Ele conectou os fios diretamente ao núcleo lógico e digitou o código de acesso root — o código mestre que apenas a família Vane possuía. A tela piscou com o logotipo da corporação, brilhando em dourado. Ele o deletou com um toque seco.
— Protocolo de Personalidade Athena: Desativado. Modo Utilitário Lógico Avançado: Ativado.
A voz que respondeu não tinha mais modulações agradáveis. Era fria, metálica, sem qualquer emoção ou suavidade.
— M.U.L.A. online. Probabilidade de sobrevivência a longo prazo: 1,2%. Probabilidade de morte iminente por causas ambientais ou biológicas: 98,8%. Aguardando ordens.
Elian sorriu, um sorriso cansado e ferido, mas agora mais afiado.
— Bem melhor. Agora, vamos trabalhar.

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