Quineiou aparece em um lugar completamente preto.

    Sem céu.
    Sem chão visível.
    Só o vazio.

    Ela finca as duas armas dos gêmeos no chão como se atravessasse a própria escuridão. Seus tentáculos se enrolam ao redor das lâminas, formando duas pequenas bolinhas: uma preta e uma branca.

    Ela empurra uma contra a outra.

    E então

    O vazio se parte.

    Uma mulher surge.

    Grandes cabelos brancos, com uma espessa linha preta atravessando a franja como se fosse um chifre desenhado. Um olho é totalmente preto com a pupila branca; o outro tem padrão xadrez em tons de ciano.

    Uma gravata amarrada no pescoço como colar.
    Roupa elegante azul com uma parte costurada em vermelho.
    De um lado short. Do outro, vestido.
    Salto dourado, o pino em forma de torres.
    E uma coroa preta e branca cheia de referências a xadrez.

    Ela olha ao redor, claramente irritada.

    — O que tá rolando…?

    Ela olha para trás e vê Quineiou.

    — O que você tá fazendo aqui? Eu tava morta! Sério, nem dá mais pra morrer nessa merd@!

    Ela passa a mão no cabelo, fazendo os fios balançarem com força.

    — É bom te ver de volta também, Sherine — Quineiou diz com leve ironia. — Mas não invoquei um eco seu à toa. Seus filhos precisam da sua ajudinha… naquela ilha.

    Os tentáculos passam por ela como sombras vivas.

    Sherine para por um segundo.

    — Na ilha? Mas é impossível… a não ser que—

    Ela vê a resposta no rosto de Quineiou.

    — Certo. Já sei o que fazer. Mas acho que eles nem estão acordados.

    — Teká está acordada — Quineiou responde com um pequeno sorriso.

    O semblante de Sherine muda.

    — Chame ela. Agora.

    Sua voz sobe em autoridade.

    Quineiou obedece, ainda sorrindo. O vazio se dobra mais uma vez, e uma grande mulher surge sentada em um trono que se forma do nada.

    O ar fica pesado.

    — Sherine… — a figura diz, olhando de cima. Um véu de noiva cai ao redor dela, espalhando-se como névoa.

    Sherine cruza os braços.

    — Oi, prima. Já que você está acordada… meio que você pode fazer um favor.

    — Não vou fazer favores. Depois da guerra de vocês contra Zero… e depois de eu ter assumido como atual Deusa da Bondade… depois de tudo isso, eu não devo mais auxílio.

    Ela mexe as mãos levemente, e fios de ouro se friccionam no chão como lâminas afiadas.

    — Mas eu não estou pedindo auxílio por mim… — Sherine dá um passo à frente. — E sim pelos meus filhos. Eu sei que fiz muita coisa errada, mas eu preciso de ajuda para ajudá-los.

    — Não me importo, você criou eles porque quis então não me venha usar eles como objeto de argumento — Os dedos dela se mexem em deboche — Além disso se você se preocupasse tanto ja teria lidado com aquilo

    — Por favor, reconsidere — Ela grita 

    Quineiou se aproxima do trono e sussurra algo para Téka.

    Téka sorri.

    — Não vou dizer que foi sua melhor ideia… mas serve.

    O chão se move. Uma pilastra se ergue sob os pés de Sherine, elevando-a até ficar frente a frente com Téka.

    — Vamos fazer algo justo. Um julgamento. Se você convencer eles, eu juro que te ajudo. O que acha, priminha?

    Ela estala os dedos.

    Cinco pilastras surgem ao redor.

    — Certo. Quem eu tenho que convencer? Sou ótima em julgamentos.

    Sherine tenta enxergar o que o véu esconde no topo das pilastras.

    — São apenas alguns conhecidos, Sherine.

    Téka estala os dedos novamente. O véu desaparece, revelando as estátuas de cinco deuses.

    — Você vai ter que convencer: Sartor… Orfelha… Linyâte… Red… e Quineiou.

    Ela observa o rosto de desgosto de Sherine e sorri ainda mais.

    — Mas se quiser posso usar os títulos… já que você parece animada demais.

    Ela inclina a cabeça.

    — O Costureiro…
    A Musicista…
    A Artesã…
    O Cenógrafo…
    E a Ilusão.

    A cada título citado, o ódio no olhar de Sherine aumenta.

    — Tá. Já entendi. Agora me deixa ir fazer isso.

    Fios dourados faiscam ao redor dela.

    — Tem mais alguma coisa ou você só vai me gongar?

    — Não é isso. — Téka cruza as mãos. — Eu apenas vou dar as memórias dos seus filhinhos para você saber o que fizeram… e também para os que vão julgar. Não seria justo fazer um julgamento apenas com suposições.

    Fios dourados se enrolam pelo corpo de Sherine.

    — Lembre-se, prima… somos família. Então saiba que vai doer ainda mais.

    Ela a lança contra o chão negro.

    Sherine se levanta com raiva.

    — Você não é da minha família. Somos apenas criações de três divindades que tinham a cabeça cheia de parafusos.

    Ela invoca a sua tesoura.

    Téka ri com deboche.

    — Isso explica por que os filhos de Carmesina sempre são tão pirados.

    Ela arremessa a tesoura contra Téka.

    A lâmina corta o ar — mas antes de tocar nela, uma barreira de mosaicos se forma apenas com um movimento de olhar.

    A tesoura bate.
    Ecoa.
    Cai no chão negro.

    — Pelo visto você continua a mesma… — Téka comenta, quase entediada. — Não aguenta nada e já parte para cima. Alguém tão egocêntrica que criou um reino só para si.

    Ela ri alto.

    O vazio se distorce.

    O espaço negro se transforma em um salão dourado, imenso, colunas trabalhadas com detalhes minuciosos, o teto pintado como um céu eterno. Cada passo ecoa como julgamento.

    Sherine gira a tesoura entre os dedos.

    — Pelo menos eu não casei comigo mesma para conseguir mais poder ainda. Eu tenho ego… — ela sorri de lado — mas o que você tem está acima de ego. Igualzinha ao seu pai.

    O sorriso de Téka vacila por meio segundo.

    — A educação está em dia, não é? Sua—

    — Tá. — Sherine a corta, impaciente. — Eu não tenho tempo pra ficar discutindo com você. Eu tenho que ajudar meus filhinhos.

    Ela abre um sorriso que mistura orgulho e urgência.

    Téka a observa em silêncio… então estala os dedos.

    Uma porta dourada se abre sob os pés de Sherine.

    O chão some.

    Ela cai.

    — Talvez você tenha mudado um pouco, Sherine… — a voz de Téka ecoa distante. — Só um pouco.

    Dentro do portal, Sherine despenca por um corredor repleto de fios e alfinetes flutuando como armadilhas vivas. Ela gira o corpo no ar, desviando por centímetros, cortando alguns com a tesoura, deixando faíscas douradas para trás.

    Até que atravessa a última camada de luz.

    Ela cai de pé.

    O impacto é suave.

    Está em uma sala ampla, iluminada por uma claridade cálida.

    Vestidos, mantos e trajes flutuam ao redor — tecidos feitos da mais pura bondade, costurados com intenções sinceras, fios que parecem pulsar compaixão.

    O ar ali é leve… quase dolorosamente leve.

    Sherine respira fundo e olha pro lado vendo ele…

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