O interior da Vanguard — outrora um santuário de luxo marciano, com painéis holográficos que projetavam vistas estelares artificiais e assentos que se moldavam ao corpo como um abraço acolhedor — agora exalava o cheiro de metal queimado, suor rançoso e um aroma adocicado de seiva alienígena que vazava de algum ponto oculto. Elian Vane apoiou as costas contra o console principal, que piscava com uma luz laranja intermitente, semelhante a um coração mecânico prestes a parar. Seus olhos, avermelhados pela fadiga e pelo frio intenso, fixaram-se no indicador de energia: 12% restantes. Um número frio e impessoal, que selaria seu destino se nenhuma solução surgisse. O reator principal estava danificado além de reparo após a queda e o vazamento de refrigerante, o que significava que a bateria de reserva acabaria em poucas horas. Com ela, se iriam o aquecimento, a circulação de ar e a iluminação, transformando a nave em um caixão de gelo, um túmulo prateado no vale congelado onde seu corpo permaneceria preservado como uma relíquia de uma civilização distante.

    Sorte não era uma opção. Em Marte, os problemas se resolviam com recursos financeiros, profissionais especializados ou normas corporativas. Já ali, no Inverno Eterno, a sobrevivência dependia da termodinâmica pura: equilibrar ganhos e perdas de energia em um ambiente que absorvia calor como um buraco negro. Elian fechou os olhos por um instante, respirando devagar para conservar forças, enquanto a gravidade dupla pressionava seus pulmões como se mãos invisíveis o apertassem. Lembrou-se das aulas na Academia Estelar, onde bocejou durante as explicações sobre sistemas de suporte vital em locais hostis. “A termodinâmica é a lei do universo”, dizia o professor, um senhor de origem terrestre com sotaque marcante. “Se você a ignorar, o universo também não levará você em conta.” Ele soltou uma risada seca, sem alegria. Agora, finalmente compreendia: ele era o engenheiro, o sobrevivente, um ser que lutava para extrair vida de um mundo morto.

    A estratégia começou pela desmontagem — uma dissecação cuidadosa dos itens de luxo que antes definiram sua viagem. Com o traje danificado, com um rasgo no peito remendado apenas com fita adesiva industrial que grudava na pele, ele precisava criar uma proteção contra o ambiente letal. Arrastou-se até a cadeira do piloto, uma peça ergonômica revestida de couro sintético importado e espuma de memória. Com um kit reduzido de ferramentas, arrancou o estofamento, rasgando o material com mãos trêmulas. O tecido, feito para o conforto em viagens interestelares, se transformaria em sua armadura: enrolou-o no tronco para cobrir o ferimento, onde o frio ainda penetrava como pontas afiadas, e o prendeu com cabos de fibra ótica retirados de um painel secundário. Os fios eram finos e cortavam a pele se apertados demais, mas mantinham tudo no lugar. No reflexo de uma tela quebrada, ele parecia um guerreiro de um futuro distante, vestindo resquícios de tecnologia avançada: um colete improvisado sobre o traje rasgado, com cabos que serpenteavam como veias expostas. Não era elegante, mas esperava que fosse suficiente para bloquear o vento por algum tempo.

    Depois, partiu para a peça-chave de seu plano arriscado, mas fundamentado. Foi até o banheiro da nave, um espaço luxuoso com chuveiro sônico e sistema de reciclagem que transformava resíduos em água potável com 99% de eficiência. Desmontou o mecanismo com precisão cirúrgica, retirando tubos de liga leve flexíveis. Eles eram perfeitos: resistentes ao frio extremo e com o diâmetro ideal para transportar a seiva viscosa. Sua ideia era criar uma conexão biológico-mecânica: ligar o sistema de ventilação da nave ao tronco de uma Árvore de Cristal, usando a seiva quente como fluido para transferir calor. As árvores extraem calor geotérmico do subsolo por meio de reações internas; ele iria aproveitar esse fluxo, fazendo-o circular pela cabine como sangue aquecido. Era uma atitude parasitária, contrária aos princípios de preservação ambiental, mas indispensável. “Desculpe, árvore”, murmurou, testando a flexibilidade de um tubo. “Mas eu preciso viver mais do que você.”

    Com os materiais preparados — tubos enrolados no ombro como uma serpente metálica, uma furadeira de impacto na mão e uma pistola de cola térmica no cinto —, Elian abriu a escotilha. O ar gelado o atingiu como um golpe, penetrando por todas as frestas de sua proteção improvisada e mordendo a pele exposta. A gravidade dupla o deixava com movimentos pesados, cada passo afundando na neve compactada como se pisasse em areia movediça congelada. Ao redor, o vale se estendia como uma catedral silenciosa, com árvores de cristal cujas agulhas vibravam em um som contínuo e suave. A luz fraca da estrela alaranjada se refratava nelas, criando efeitos luminosos que iluminavam a nevasca fina, como se poeira de diamante flutuasse no ar.

    Arrastou os tubos até a árvore mais próxima, a cerca de quinze metros da nave: uma gigante translúcida, com o tronco grosso como o corpo de um elefante, cujo calor interno derretia a neve ao redor da base. O aroma adocicado da seiva já se fazia sentir, lembrando-o de sua situação anterior. Posicionou a furadeira — com a bateria em 30% — e ligou-a. O som foi alto e estridente no silêncio do vale, rompendo a harmonia natural. Quando a broca penetrou na casca vítrea, uma vibração intensa subiu por seus braços, fazendo seus ossos doerem e atingindo até os ferimentos causados pela queda. O ruído ecoou pela floresta, interrompendo o zumbido das árvores. Mesmo com o frio, Elian suava; as gotas congelavam em sua testa como pérolas de gelo, e o medo de que o barulho atraísse algo perigoso aumentava sua tensão.

    Quando a broca finalmente rompeu o núcleo, a seiva de cor âmbar jorrou como sangue de uma ferida, quente e viscosa, liberando um vapor perfumado. Ele agiu rápido: inseriu o tubo no orifício, sentindo o calor passar pelo metal, e selou as bordas com a cola térmica, que endureceu imediatamente no frio. Voltou para a nave com dificuldade, arrastando a outra ponta do equipamento, e conectou-a à entrada de ar externa. Poucos segundos depois, os ventiladores voltaram a funcionar com um som rouco. O ar que saía das saídas já não era gelado e seco; era morno e trazia o cheiro de terra úmida. A temperatura interna subiu de -15 °C para 5 °C em poucos minutos, um alívio tão grande que Elian caiu de joelhos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele havia transformado a nave em um organismo que se alimentava da energia da árvore. Pela primeira vez desde a queda, sentiu um pouco de segurança — uma vitória, ainda que frágil.

    Ele saiu novamente para verificar a conexão e sentou-se na neve, observando o vapor sair do tubo como a respiração de uma criatura adormecida. O vale parecia até belo, com a luz alaranjada tingindo as árvores de tons dourados e roxos. Mas a tranquilidade durou pouco. Ele ouviu um som diferente: não era o vento, nem a vibração das árvores. Eram batidas rítmicas, como unhas tocando vidro, vindas das copas acima.

    Ao olhar para cima, viu sombras se movendo entre os galhos com agilidade surpreendente. Eram dezenas de seres que desciam e paravam a uma distância segura, observando-o. Elian os chamou mentalmente de Lêmures de Vidro, inspirado em animais extintos da Terra. Tinham o tamanho de macacos, corpos musculosos para suportar a gravidade, seis membros — quatro braços com garras e duas pernas fortes — e pelagem transparente, como fios de vidro, que os deixava quase invisíveis quando parados. Seus olhos eram grandes e negros, adaptados para enxergar na luz fraca, e tinham dentes finos e afiados, próprios para perfurar a casca das árvores e extrair a seiva.

    Eles não pareciam interessados nele, mas sim no tubo quente e na seiva que vazava lentamente. Um exemplar maior, com uma marca branca na pelagem, aproximou-se e tocou o metal. O calor era raro naquele mundo, e a criatura soltou um guincho de satisfação, se aconchegando ao redor do cano para absorvê-lo. Logo, todos os outros desceram, brigando por um espaço próximo à fonte de calor. Se amontoavam, arranhando o material e mordendo as junções, atraídos também pelo cheiro da seiva. O tubo vibrava com o peso deles, e Elian sentiu o pânico tomar conta: se eles danificassem a conexão, o aquecimento acabaria, e ele voltaria a enfrentar a morte pelo frio.

    — Saiam! Saiam daí! — gritou, com a voz rouca, formando nuvens de vapor. Pegou uma ferramenta e bateu no casco da nave, produzindo um som alto. Os animais pararam e viraram para ele, mostrando os dentes como forma de ameaça. Não eram predadores de grande porte, mas sim seres oportunistas que sabiam aproveitar recursos. Em grupo, porém, eram perigosos o suficiente para destruir seu sistema de suporte vital em pouco tempo.

    Elian recuou até a escotilha, tremendo não só de frio. O problema estava resolvido, mas agora surgira outro: o calor que ele conseguiu era uma bênção, mas também um farol que atraía todas as criaturas da região. Ele não poderia mais deixar a nave sem vigilância; se saísse, voltaria apenas para encontrar seu sistema de sobrevivência destruído. Ao trancar a porta e cair no chão da cabine, ele compreendeu uma nova lição: sobreviver não é vencer uma vez, mas manter um equilíbrio constante, onde cada solução traz um novo desafio. Agora, ele sabia que teria que aprender a lutar — não só contra o planeta hostil, mas contra as criaturas que o habitavam.

    Mas enquanto observava os Lêmures de Vidro se agruparem do lado de fora, como sentinelas silenciosas, um pensamento sombrio cruzou sua mente: se eles eram apenas os exploradores oportunistas da região, o que seria capaz de fazer com que criaturas tão ágeis e adaptadas sentissem medo? E se o barulho da furadeira tivesse acordado algo muito maior e mais perigoso, escondido nas profundezas do vale?

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