Chapter 1- O Garoto Que Não Deveria Existir
Tokyo, 23h47.
A chuva caía pesada sobre Nakano, transformando os postes em manchas laranja e os letreiros em aquarelas borradas. A cidade não parava — nunca parava — mas havia uma qualidade diferente no barulho dessa noite. Abafado. Como se o som chegasse de dentro d’água.
Eiden caminhava sozinho pela calçada quase vazia, mochila nas costas, capuz molhado colado na nuca.
Na aparência: apenas mais um estudante voltando tarde.
Por dentro: algo fervia desde manhã.
Não era nervoso. Não era exatamente medo. Era mais parecido com a sensação de estar sendo observado por algo que não tinha olhos — uma pressão constante nas beiradas da percepção, como quando você vê movimento pelo canto da visão e vira rápido demais pra confirmar.
O ar ao redor dele vibrava.
Sutil. Intermitente. Como batida cardíaca de algo que não deveria ter coração.
Cansaço, ele se disse. Só cansaço.
Apertou a alça da mochila com mais força do que precisava.
As sombras nas paredes dos prédios se comportavam errado. Eiden notou isso três quarteirões atrás e vinha tentando ignorar desde então. Sombras projetadas na direção errada. Sombras que demoravam um segundo a mais para acompanhar os movimentos das pessoas que as causavam. Uma vez — só uma vez — uma sombra se moveu sem que ninguém a tivesse gerado.
Ele respirou fundo pelo nariz.
Para.
Então ouviu.
Não com os ouvidos.
Era como se a voz tivesse se formado diretamente na base da coluna vertebral, subindo vértebra por vértebra até chegar na nuca.
“Desequilíbrio… delicioso…”
Eiden virou de golpe.
A viela entre os dois prédios antigos estava vazia. Escura de um jeito que não era só ausência de luz — era presença de outra coisa. A chuva ali caía diferente, mais densa, como se o ar tivesse mais peso naquele espaço específico.
Sua nuca latejava.
Ele deu um passo para trás.
A força que o puxou pela gola não teve aviso. Não foi gradual. Foi como a diferença entre estar em pé e estar caindo — um estado e o outro, sem transição.
— O quê—
O impacto com o chão da viela foi concreto e frio. Eiden rolou, tentou se levantar, e então viu.
Surgiu do ar como se o ar fosse tecido sendo rasgado de dentro para fora.
Uma massa. Não havia palavra melhor. Uma massa de sombra pulsante que se retorcia sem seguir nenhuma geometria coerente, com bocas — várias, costuradas umas às outras em linhas irregulares — e olhos que apareciam e desapareciam em lugares onde anatomia não deveria permitir olhos. Cada vez que piscavam, o espaço ao redor tremia levemente.
Eiden não sabia o nome da coisa.
Mas seu corpo sabia o suficiente. Cada músculo, cada nervo, cada instinto acumulado em dezesseis anos de existência apontava para a mesma conclusão com clareza absoluta:
Aquilo quer me devorar.
— Sai. — A voz saiu mais firme do que ele esperava. — SAI!
Ele tentou correr. As pernas não obedeceram direito — não de medo, de algo mais físico, como se o espaço ao redor da criatura exercesse uma pressão que tornava o movimento caro. Gritou por ajuda. Ninguém do lado de fora da viela reagiu. As pessoas continuavam passando a três metros, completamente alheias, como se a viela não existisse.
A criatura avançou.
O ar entre eles sumiu.
Então é assim.
O pensamento foi mais frio do que Eiden esperava de si mesmo. Não resignação — apenas constatação. Então é assim que termina. Num beco em Nakano na chuva, e ninguém nem vai saber o que aconteceu.
Havia algo quase irônico nisso. Ele que sempre soube que era diferente, que algo estava errado nele, que o mundo ao redor distorcia quando ele perdia o controle — ia ser destruído por uma distorção antes de entender qualquer coisa.
A criatura estava a meio metro.
CRACK.
O som foi seco, preciso, como uma articulação sendo estendida além do limite — mas em escala maior. O chão da viela vibrou uma única vez, curto e definitivo.
A criatura parou.
Eiden também.
O silêncio durou talvez dois segundos. Depois:
— …Que cena patética.
A voz veio de cima. Preguiçosa. Quase entediada. Com a inflexão específica de alguém comentando o placar de um jogo que já sabia que ia ser ruim.
No topo do muro, parado debaixo da chuva com a postura de quem estava numa varanda em dia de sol, havia um homem.
Cabelos escuros presos num rabo baixo, alguns fios soltos na testa pela chuva. Haori preto com detalhes prateados nas mangas — bordados que, de longe, pareciam apenas decorativos, mas tinham uma geometria que incomodava se você olhasse tempo demais. Olhos entediados, meio fechados, com a qualidade específica de quem avaliou a situação inteira em dois segundos e chegou a uma conclusão que não o impressionou.
Ele fechou um guarda-chuva.
Eiden não tinha visto o guarda-chuva antes. Não fazia sentido, estava ali o tempo todo, mas simplesmente não tinha visto.
— Espírito Corrompido em Nakano. — O homem suspirou, colocando o guarda-chuva embaixo do braço. — De novo. — Pausa. — Eu realmente achei que hoje ia dormir cedo.
Saltou do muro.
Caiu no chão sem fazer som algum. Não a leveza de alguém ágil — algo diferente, como se o impacto tivesse simplesmente decidido não acontecer.
A criatura reagiu imediatamente. Tentáculos de energia distorcida dispararam em sua direção, rápidos, de ângulos múltiplos, o tipo de ataque projetado para não ter esquiva possível.
O homem deu um passo para o lado.
Natural. Mínimo. Como quem desvia de alguém abrindo uma porta sem olhar.
Os tentáculos passaram onde ele estava fração de segundo antes e se dissolveram na parede atrás.
— Mal formada. — murmurou ele, quase para si mesmo. Diagnóstico, não insulto.
Então fechou a mão direita.
O soco veio sem preparação visível, sem postura de luta, sem aviso de qualquer espécie. Apenas um movimento que existiu e depois não existiu mais.
Não houve explosão. Não houve luz. Não houve nenhum dos indicadores que Eiden associava instintivamente com poder.
Apenas um impacto tão denso que o ar ao redor comprimiu como se estivesse sendo espremido — um som grave e curto que Eiden sentiu mais no peito do que nos ouvidos.
A criatura foi arremessada contra a parede do fundo com força suficiente para que o concreto cedesse, deixando uma marca irregular. Ela tentou se regenerar. A massa escura pulsou, bocas se abrindo e fechando sem som, olhos piscando em sequência desordenada.
O homem esperou.
Não com urgência. Com paciência de quem sabe exatamente quando agir e está deixando a situação confirmar o que já sabia.
Quando a criatura se reorganizou o suficiente para avançar novamente, ele agarrou pelo que seria o pescoço — se aquilo tivesse anatomia convencional — com uma mão só.
E puxou.
O Espírito Corrompido foi rasgado ao meio como papel molhado. Os fragmentos negros evaporaram na chuva antes de tocar o chão, deixando no ar um cheiro de ozônio e algo mais difícil de nomear — como o cheiro de antes de uma tempestade, mas do lado de dentro de alguma coisa.
Silêncio.
Só a chuva.
O homem estalou os dedos uma vez, como quem fecha uma torneira.
— Problema resolvido.
Eiden percebeu que estava com a mão espalmada no chão molhado, meio sentado, olhando para onde a criatura tinha estado. Seu coração estava acelerado mas sua cabeça estava estranhamente quieta — o tipo de quietude que vem depois do perigo, não durante.
Ele levantou os olhos.
— Você… quem é?
O homem o encarou pela primeira vez de frente. De perto, os olhos eram mais escuros do que pareciam de longe — não pretos, mas de um marrom tão profundo que absorvia a luz ao invés de refletir.
— Daeron Tsuki. — disse, com o tom de quem recita um endereço. — Professor dos Santuários da Dualidade. Herdeiro das Cinco Famílias Principais.
Colocou as mãos nos bolsos e se aproximou, olhando Eiden com a expressão calculada de alguém lendo um texto em idioma parcialmente familiar.
— E você — seus olhos se estreitaram levemente — está vazando energia como tubulação rompida. Honestamente, estou surpreso que só um espírito apareceu.
Eiden abriu a boca. Fechou. A chuva continuava.
— Eu não… eu não entendo o que está acontecendo comigo.
A frase saiu antes que ele pudesse decidir dizê-la. Mais honesta do que ele pretendia. Mais cansada.
Daeron o observou por um momento — não com pena, não com julgamento. Com o olhar específico de alguém que já sabia a resposta e estava decidindo se o momento era o certo para entregá-la.
— Eu sei. — disse, finalmente, em voz mais baixa. Ainda casual. Mas sem o tédio de antes.
Fez um gesto vago com a cabeça em direção à rua.
— Levanta. Você vai se explicar caminhando, não no chão de um beco.
Nessa noite, Eiden não dormiu.
Não porque estava com medo — embora estivesse.
Mas porque, pela primeira vez em dezesseis anos de perguntas sem resposta, alguém tinha dito “eu sei” como se fosse verdade.
E isso, descobriu ele, era mais assustador que qualquer espírito corrompido.

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