Índice de Capítulo

    A frequência vai continuar muito pequena porque tive uma enormidade de problemas na minha vida e ainda preciso me mudar de estado nos próximos meses. Fé que em algum momento voltaremos pra frequência de 2 capítulos por semana…

    Verion, Jean, Lyria e Elemenope seguiam andando pela capital. Naquele momento rumavam até a parte central para encontrar as propriedades da família Khrizantema, a detentora da maior biblioteca do país.

    — Essa cidade é bem estranha, principalmente quando comparada à Aludra. — Jean andava de braços cruzados, um pouco desengonçado, mas tentava se manter parecendo sério e responsável.

    — Sim… Não faço a mínima ideia de como esses autômatos funcionam. Não parece algo que só puro vapor conseguiria fazer. Lembro de ter lido algo sobre isso nos livros que usei para estudar, mas minha memória não tá das melhores — disse Verion, olhando para os arredores.

    Parou e perguntou para uma moça que andava na calçada para onde ficava a biblioteca. Havia perguntado outras vezes antes, mas sempre queria checar para ter certeza de que alguém não deu as direções erradas. Ouviu o que a moça disse e agradeceu antes de continuar caminhando com o grupo.

    — São mais uns quilômetros daqui, então vai demorar um pouquinho — Elemenope disse de uma forma que deixava evidente que ela já esteve por lá.

    — Quantos exatamente?

    — Mais 6 quilômetros. — Ela passou a mão em seu cabelo cinzento, tentando se concentrar em seus pensamentos. — Estive lá por conta do meu pai, ele queria um livro sobre física.

    — Ahnn… essa biblioteca é muito grande? — Lyria se aproximou dela um pouco mais.

    — O suficiente para que você se perca lá dentro se não prestar atenção, é quase como um labirinto se não souber o que está fazendo.

    Cruzaram mais ruas arborizadas, abrigando-se abaixo da sombra das folhas enquanto esperavam os veículos passarem. Ao fim de alguns minutos, acabaram diante de uma grande rua que seguia até uma enorme construção. Os olhos de todos foram atraídos para a fachada majestosa de um teatro elegante.

    “Esse lugar é grande… Fica no final dessa rua longa e dá pra ver muito bem o que é.”

    — É o teatro da família Khrizantema. — Elemenope ficou um pouco adiante do grupo. — Não há problemas em fazermos uma visita, seria mais um lugar em que poderíamos procurar por respostas para ajudar Lyria.

    — Vamos lá, eu quero saber como é essa coisa por dentro! — Verion estava animado, claramente se segurando para não correr e deixá-los para trás.

    — Você tem interesse por teatros? — Jean perguntou.

    — Sim, eu li bastante sobre eles nos livros. Nunca tive a chance de visitar algum teatro em Quilionodora, então acho que essa é uma boa oportunidade!

    Ao fim da rua, a estrutura fazia-se mais imponente. Uma larga escadaria de granito polido levava à fachada sustentada por grandes pilares de mármore branco. Cada um dos doze pilares parecia ter sido feito cuidadosamente por um ótimo construtor e arquiteto, não possuíam irregularidades em suas estruturas ou qualquer defeito visível. O som suave dos passos do grupo sobre o granito se perdia dentre o barulho das buzinas na rua e motores a vapor.

    O topo da escadaria marcava o que parecia a travessia entre dois mundos. Aquele ambiente se destacava em muito do restante da cidade, uma estranha sensação onírica infiltrava as mentes de quem ousava se aproximar. O Grande Teatro de Raptra era uma anomalia.

    Três arcos de mármore branco levavam a um grande portão de aço, que estava aberto. Cada arco era abraçado por flores: os asfódelos, os girassóis vivazes e o vermelho sangrento dos crisântemos. A fragrância que permeava o ar era doce, agradável o suficiente para afastar o estresse de qualquer um que passasse lá mesmo que momentaneamente.

    O grupo passou pelo portão e se deparou com o salão de entrada.

    — Esse lugar é lindo… — Lyria sussurrou, deslumbrada pela visão do ambiente.

    O piso era agressivamente luxuoso. Mármore branco cortado por linhas diagonais de lápis-lazúli polido. Um grupo de estátuas aladas sem cabeça, repletas de flores, criava um caminho claro a ser seguido. Algumas arruinadas, outras parecendo recém-esculpidas. Atravessando o azul e o branco do chão, um grande tapete preto atraía o olhar em direção às portas do auditório.

    — Sério que tá tudo bem entrarmos em um lugar como esse? — Jean parecia intimidado.

    — Não se preocupe, é realmente algo construído pela elite do segundo nível da cidade, mas é um prédio tratado como público. — Elemenope seguiu na frente, desinteressada no que encantava todos. — Ninguém irá te expulsar daqui por estar se vestindo do jeito que está… Caso seja essa sua preocupação.

    Voltaram a caminhar para acompanhá-la.

    — É… não é como se você estivesse vestida de algum jeito muito elegante também — respondeu baixinho.

    — Algum problema com meu suéter amarelo? — O olhar indecifrável e profundo em seu rosto cheio de sardas deixaria qualquer um tenso.

    — N-Nenhum…

    “Bobos.”

    Cruzaram o último limiar e alcançaram o majestoso auditório. Era vasto, frio e brilhante. Toda a estética padrão de vermelho e dourado dos teatros comuns foi descartada para dar lugar ao branco, azul e preto. As paredes de mármore branco refletiam suavemente a luz do gigantesco lustre cerúleo de cristal que iluminava acima de suas cabeças. O teto cupular atraía e fisgava o olhar mais do que o restante do ambiente. Lá estava uma pintura tão desconcertante do céu noturno que enganava a percepção. Por um segundo, esqueciam-se de que aquela não era a noite verdadeira, como se simplesmente olhassem para o véu noturno e seus astros.

    À frente, milhares de assentos azuis espalhavam-se numa descida até onde se encontrava o palco. Uma grande cortina que lembrava o mar ficava lá, infestada de crisântemos azuis. Ao redor de tudo, seis andares de camarotes luxuosos adicionavam ainda mais ao ar de grandiosidade daquilo que a família Khrizantema poderia oferecer. Era um exagero sem igual.

    As vozes de algumas figuras no ambiente eram o que quebrava o encanto místico do local.

    — Orpheus, eu já pedi para que parasse de fumar dentro do teatro. Você não tem um pingo de respeito por esse lugar?! — A voz ecoava pelo auditório, cansada e estranhamente encantadora.

    — Nah, nah, nah, ui que vai ataaacar minha asma e sinusite… — Ele tragou e soltou a fumaça. — Aprende a respirar direito, por favor!

    Quem fez o questionamento era a mais próxima. Uma mulher de longos e claríssimos cabelos verdes trajada com um vestido branco volumoso tão longo que arrastava no chão. A roupa deixava seus ombros expostos e tinha mangas curtas. Em seu pescoço havia uma gargantilha branca apertada. Seus olhos dourados, desprovidos de qualquer brilho, atingiram os novos visitantes segundos depois, enquanto um sorriso largo e fingido surgiu em seu rosto.

    Orpheus Bristol, aquele que respondeu, estava sentado em um dos assentos, mas logo se levantou. Era um homem jovem de terno e gravata vermelha, da forma mais clássica que poderia se imaginar. Os cabelos castanhos bagunçados na altura do pescoço quebravam um pouco o tom de elegância que a roupa trazia. Seu olhar também acabou nos visitantes.

    “Eu sinto que isso deveria me lembrar de algo…”

    Verion percebeu algo chamativo e singular naquele rosto. Uma marca de nascença em formato de lua minguante abaixo do olho direito. Não conseguia desviar o olhar daquele detalhe que parecia chamá-lo para mergulhar nas próprias memórias de anos atrás. Entretanto, nada além de desconforto nasceu dessa sensação intensa e instigante.

    — Bem-vindos ao Grande Teatro de Raptra! — A jovem mulher de branco deu alguns passos entre os assentos, subindo rumo ao grupo. — Meu nome é Monet Ynor e sou quem está cuidando do teatro nesse período. O que os traz aqui?

    — Apenas viemos dar uma olhada em como era, na verdade estávamos indo à biblioteca da família Khrizantema para fazermos algumas perguntas sobre uma autora — Elemenope respondeu tranquilamente.

    — Galera, a biblioteca tá fechada hoje, é melhor pensarem nisso depois. — Orpheus bocejou. — O dono tá preparando umas coisas pra uma próxima radionovela e não quer ninguém zanzando lá dentro.

    — Sim, isso é verdade. — Monet estava mais perto. — Louis Khrizantema é cuidadoso quando o assunto são seus livros e suas radionovelas. Ele odeia que informações vazem, então fechar a biblioteca não é uma grande raridade.

    Lyria ficou cabisbaixa e segurou, sem muita vontade, o braço de Verion.

    — Então… não vou conseguir nada sobre minha mãe? — A voz soava desesperançosa, quebrada.

    — Eu acho que ainda podemos fazer alguma coisa, esse teatro também é da família desse Louis. — Verion não conseguia esconder a preocupação que tinha, não queria fazer Lyria esperar.

    Monet avançou pelos últimos assentos antes de chegar ao topo. Estendeu sua mão na direção de Lyria, colocando os dedos em seu queixo para levantar sua cabeça. A jovem de tinta não teve reação alguma, apenas trocou olhares com ela em um curto silêncio.

    — Não fique olhando tanto para o chão dessa forma triste, esse teatro é bonito demais para que desperdice a visão do restante. — Soltou do rosto dela e deu um passo para trás, ainda sorridente. — Se querem saber alguma coisa sobre uma autora, perguntem para mim.

    — Ahm… sabe quem é Lya Seshat? — Jean questionou.

    — Conheço bem até demais… — Monet fechou os olhos por um instante. — Haverá um show no teatro em breve e a peça escolhida foi uma história escrita por ela. Fiz algumas pequenas adaptações para que ficasse mais adequado aos meus gostos. Lya é ótima no que faz.

    — V-Você sabe mais coisas sobre ela? Eu quero descobrir… — Lyria largou o braço de Verion e se aproximou dela.

    — Eu posso conseguir para você qualquer informação que quiser sobre Lya… — Os olhos dourados sem ânimo ganharam um pouco de brilho. — Mas não será em troca de nada. Quero algo de você…

    — O quê?

    — Fiquei interessada na sua aparência, se parece muito com o que Lya escreveu para a peça. — Levou a mão para perto do rosto dela, sem tocar. — Você me lembra a protagonista dessa história de uma forma tão bela e forte… Quero tê-la para mim no palco, é perfeita para esse papel como nenhuma outra poderia ser.

    — Ei, a gente não tem tempo a perder com essas coisas… Precisamos dessas informações logo. — Jean ficou chateado e sua expressão deixava isso evidente.

    — Hmmm… — Monet manteve o olhar em Lyria. — Apenas te levarei às informações que busca se me ajudar e aceitar minha proposta: quero que participe do show que haverá no teatro. Não houve ninguém que acreditei ser interessante ou digna de cumprir o papel da protagonista antes, mas você é ideal.

    — Eu… nunca atuei na minha vida. Desculpa, mas não posso ajudar com isso. — Lyria desviou o olhar, sentindo-se pressionada.

    — Não há problemas! Ensinarei tudo que sei para você, detalhe por detalhe. — Deu um passo adiante, ficando a poucos centímetros de Lyria, ignorando qualquer noção de espaço pessoal, com um sorriso inebriante no rosto.

    Verion pensou: “Ela é um pouco assustadora…”.

    — Ahh… — Lyria sentiu o coração acelerar por ela estar tão perto, ansiosa pelos pensamentos que a rondavam.

    “Acho que eu deveria aceitar… Preciso saber as coisas da minha mãe…”

    “Mas… nunca fiz nada desse tipo, como eu poderia participar de um show?”

    Os resquícios nebulosos da memória de Lya Seshat, a falecida escritora, compartilhavam espaço com seus pensamentos. Rememorou algo que nunca viveu, algo que nunca avistou com seus próprios olhos: uma plateia lotada observando o palco antes de uma apresentação começar. Eram pessoas de todas as idades e trejeitos, focados no mesmo ponto.

    Uma sensação estranha percorreu a jovem de tinta, trazendo uma breve vontade de chorar. Lembrou-se da situação na vila, de como a atacaram e a consideraram uma aberração antes mesmo de Circe fazer alguma coisa. Sua fantasmagórica aparência branca, quase paranormal, era um problema ao que conseguia pensar.

    “E se as pessoas do show se assustarem e jogarem coisas em mim igual aquelas crianças fizeram? O que impede algo assim de acontecer?”

    “Não quero mais ser um problema para os outros, assustar alguém ou deixar Circe fazer qualquer coisa…”

    “Mas…”

    A vontade de conhecer tudo que pudesse sobre sua escritora era tão grande que ultrapassou as ansiedades. Pelo menos naquele breve instante em que ela teve coragem de falar:

    — Quero que prometa que vai me ajudar de verdade caso eu aceite… — Todos perceberam sua voz quase colapsar ao fim do pedido, como se ela tivesse se segurado para não chorar.

    “Nunca vou conseguir viver em paz se não souber o motivo da minha existência… Por que ela escreveu esse livro e essas tragédias que sofri? Como era a vida dela antes de morrer para que eu nascesse?”

    — Prometo… Quero te ajudar, mas também preciso de ajuda com algumas coisas. — Ela deu alguns passos para trás e estendeu a mão para ela. — Não me levem a mal ou pensem que sou uma aproveitadora, apenas quero uma troca justa.

    — Tudo bem por mim. — Lyria firmou o acordo ao segurar a mão de Monet, ignorando por completo qualquer outra opinião ou contraponto que poderia surgir do grupo.

    “É quente…”

    — Qual é seu nome?

    — Lyria… — respondeu e sentiu sua mão ser segurada com mais força.

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