— Sherine…

    — Sherine…

    — Sherine, minha deusa… — uma voz gentil passa as mãos pelo rosto dela. — Você está bem?

    — Sim… estou bem. Só com muita coisa na cabeça.

    Ela sente as mãos da mulher segurarem as suas.

    — Então vamos dançar. Para tirar esses pensamentos sombrios. Vamos, minha deusa.

    Sherine concorda.

    Elas dançam.

    Sherine segura as mãos dela numa dança de salão, enquanto a mulher mistura passos suaves de balé, girando com um sorriso leve demais para aquele vazio.

    — SHERINE!

    A voz corta tudo.

    O salão se desfaz como vidro quebrado.

    Sherine volta à realidade, seu olhar confuso ao mesmo consciente a tal situação

    Ela olha para qualquer lugar — menos para os olhos de Quineiou.

    — Você não me respondeu. — A voz da prima é fria. — Matou ou não matou aquela aberração fanática?

    — Meio… que… você sabe… as coisas são complicadas…

    Os olhos de Sherine descem involuntariamente para os tentáculos de Quineiou, que começam a se contrair nos pés da cama.

    — Sherine. — O tom fica mais firme. — Não fique me enrolando. Quero ouvir você falando.

    O olhar dela se fixa no rosto nervoso da prima.

    — NÃO! — Sherine explode. — Eu não a matei! Não tive coragem de matar ela… mas ela foi a primeira a nascer no meu reino. Eu não podia simplesmente descartá-la!

    O ar foge dos pulmões dela ao ver o olhar de Quineiou.

    Frio.

    Sem qualquer traço de suavidade.

    Quineiou se levanta da cama.
    Os tentáculos ainda presos aos pés da estrutura se esticam como correntes, caso ela precise conter algo pior.

    — Você deixou… — uma energia onírica começa a apertar o pescoço de Sherine — aquela coisa viva.

    A pressão aumenta.

    — Você tem noção do que pode ter… — Ela a arremessa contra a parede. — Condenado aquelas crianças? E você sabe disso!

    Sherine cai no chão, segurando o próprio pescoço, mesmo sem marcas visíveis.

    — Ela não faria nada de mal com eles…

    Um soco atinge seu rosto.

    — Ela era obcecada! — A voz de Quineiou treme entre controle e fúria. — Perturbadora. Tinha um ciúme absurdo. E você sabe disso. Eu vi nos meus sonhos. E meus sonhos não são brincadeira para deuses que não compreendem o perigo iminente.

    Sherine se recusa a encará-la.

    Os tentáculos se movem e seguram seu rosto, forçando-a a olhar diretamente nos olhos da prima.

    — Não desvie o olhar quando eu estiver falando de algo sério. Senso, Sherine. Senso.

    — Estou levando isso a sério…

    — Pois não parece.

    Silêncio.

    — Você deu algo a ela. — A voz de Quineiou começa a soar mais etérea, mais distante. — Deu poder?

    Sherine hesita.

    — Dei… um pouco do meu poder. Nesses séculos em que ela esteve comigo.

    Outro soco.
    Dessa vez com a própria mão de Quineiou.

    — Então ela tem força de uma deusa. Ótimo. — A respiração dela se controla à força. — Há alguma forma de matá-la?

    Sherine permanece em silêncio.

    Os tentáculos se movem lentamente atrás de Quineiou, como pensamentos inquietos.

    — Sherine… — agora a voz é mais baixa, quase calma demais. — Estou tentando ser sucinta. Se há alguma forma de matá-la, você precisa me dizer. Porque duvido que até seus filhos saibam.

    — Eles não sabem. Ninguém sabe. Nem ela. Mas a única coisa que pode matá-la é a minha… minha… minha…

    A palavra se prende na garganta.

    O olhar de Sherine cai lentamente para a própria tesoura.

    Quineiou acompanha o movimento.

    — Já entendi. — A voz sai rápida. — Agora, onde ela está?

    — No meu castelo… — Sherine responde, trêmula.

    O olhar de Quineiou escurece.

    Os tentáculos aumentam, se expandem pelas paredes, e o rosto dela se distorce numa expressão quase irreconhecível.

    — No mesmo lugar que ela esta?! — a voz sai horrivelmente tenebrosa.

    — N-não! Não só lá! — Sherine se apressa. — A outra parte está na catedral. Eu dividi em duas, já que a catedral quis manter uma como símbolo religioso.

    A forma de Quineiou lentamente volta ao normal.

    Ela pensa por um instante.

    — Certo. Pode passar.

    — Oi…? — Sherine mal termina a palavra.

    Os tentáculos a envolvem em um casulo.

    O quarto desaparece.

    Sherine surge em um vazio completamente preto.

    À frente dela, Téka está sentada com tranquilidade absoluta, balançando as mãos no ar como quem rege uma orquestra invisível. A cada movimento, arquiteturas enormes e magníficas se formam — palácios, pontes, catedrais — todos feitos de pura divindade.

    O olhar de Téka desce até Sherine.

    — Pelo jeito você conseguiu. — Ela sorri de canto. — Mas eu queria saber… você realmente mudou depois da guerra dos nossos pais e tios? Ou está apenas sendo diferente para salvar seus filhos? Porque, em toda a minha eternidade, eu nunca imaginei que minha priminha cenógrafa iria passar disso.

    O sorriso dela se alonga no final.

    Sherine ajeita a postura.

    Cabeça erguida.

    As marcas das lágrimas quase sumindo.

    — Tudo que passamos é experiência para mudar. Sim, desde a guerra eu já tinha mudado… mas o que realmente me fez mudar foram eles. Meus pequenos peõezinhos. Eu os deixei tão perdidos nesse tabuleiro… e não vou deixá-los desamparados agora.

    A voz é firme.

    Olhos semicerrados.

    Postura de imperatriz.

    Os dedos de Téka se movem novamente.

    Quatro bonecos surgem, suspensos por fios quase invisíveis.

    — Certo. Então suponho que eles possam seguir.

    Quineiou aparece ao lado da divindade maior, e diz algo a Téka que faz ela entregar os bonecos a ela.

    — Está na hora de voltar para o nada, Sherine.

    Sherine fecha os olhos por um instante.

    — Eu já imaginava… mas pode dizer a eles, se os ver, que eu os amo.

    Quineiou concorda com a cabeça.

    Sherine finca a tesoura no chão.

    A lâmina desaparece primeiro.

    Depois, o corpo dela começa a se desfazer.

    Ela sorri.

    Mas há tristeza no olhar.

    Uma esfera preta e outra branca reaparecem, separadas, flutuando no vazio. Lentamente, retornam — uma para a espada, outra para a tesoura.

    Quineiou envolve ambas as armas com os tentáculos.

    E reaparece na ilha.

    A noite está calma.

    O pequeno grupo se arruma para dormir, alheio ao que aconteceu além da compreensão mortal.

    A lua brilha sobre o mar escuro.

    — Tia Quineiou… então você conseguiu? — Pionla pergunta, ajeitando o chapéu com ansiedade contida.

    Quineiou sorri de leve.

    Com cuidado, devolve a espada e a tesoura aos gêmeos.

    — Consegui. — Sua voz está serena outra vez. — Agora vou tirar vocês daqui. Mas antes, um aviso: a dica que levaria até mim está com Red. Então, quando pegarem o artefato dele, em vez de virem até mim… vão até a Catedral buscar uma das partes da tesoura da sua mãe.

    Todos se entreolham, confusos.

    Bauvalier cruza os braços.

    — Como assim? Se conseguimos o artefato, teoricamente nossa aventura acaba. Salvamos nossa terra. Por que ir até a Catedral pegar a tesoura?

    Quineiou suspira.

    — Porque vocês são mais fracos que deuses como a mãe de vocês. E vão precisar da parte da tesoura dela também. Para pegar a outra parte… — o olhar dela endurece levemente — vocês terão que matar aquela fanática no castelo da sua mãe. Ela é apegada demais àquilo para ceder sem morrer.

    Um silêncio pesado cai sobre o grupo.

    — Eu esperava que não precisássemos encontrar Ballet novamente… — Pionla diz, mantendo um sorriso calmo demais para a situação. — Mas, se é a única forma, agradecemos a ajuda e a informação.

    Quineiou observa os dois por um instante mais demorado.

    — Antes que eu esqueça… — ela ajusta os próprios óculos — sua mãe pediu que eu dissesse que ama vocês.

    Os olhos dos gêmeos tremem.

    Quineiou cria uma réplica etérea de seus óculos e os entrega a Pionla.

    — Ela cumpriu o desafio para que eu concedesse minha relíquia. Então vão… com a graça da neutralidade no caminho de vocês.

    Ela lança um beijinho no ar.

    Move o braço onde os bonecos flutuam.

    O mundo se dobra.

    E, no instante seguinte, o grupinho reaparece exatamente no lugar onde estavam antes de abrirem a caixa.

    O retorno é brusco.

    Todos ficam enjoados.

    Ré cai sentada para trás.

    — Que viagem…

    Roseta leva a mão à boca.

    — Vamos nos deitar. Amanhã precisamos seguir. Já perdemos tempo demais naquela ilha.

    — Realmente… precisamos de energia para ir até Simulacrum.

    Um a um, eles se acomodam na carruagem.

    Antes de dormir, Pionla ergue a mão e cria quatrocentas e setenta e oito barreiras ao redor do veículo — camadas invisíveis de proteção que vibram levemente sob a luz da lua.

    Só por garantia.

    A noite fica silenciosa.

    Mas, bem longe dali… no próximo reino que pisaria em seus caminhos…

    Ecoa um riso eletrônico.

    Fim do Arco 2 – Máscaras entre sonhos Oníricos

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