Capítulo 11 - Personalidade surpreendente
O que de mais poderia acontecer no Reino dos Elfos? Mesmo que a melhor amiga de Stelle tenha sido uma elfa, ela não falava muito do reino de onde veio. Além disso, a narrativa focava mais na sua relação com a protagonista do que no lugar de onde ela veio e, por causa disso, Ulisses não sabia muito bem o que poderia enfrentar. Porém, sabia de uma coisa: o treinamento seria brutal.
Ele lembrava de uma frase que a melhor amiga elfa de Stelle havia dito brevemente, em volta de uma fogueira, enquanto estavam indo para as vastas florestas ao norte em busca de um artefato que pudesse aprimorar o corpo sem precisar de treinamento. Isso no primeiro volume, um volume que estava mostrando a reta final do primeiro arco da jornada de Stelle, já que, ao todo, Planos para matar o Imperador terminou com 8 volumes e mais alguns extras para mostrar a vida da protagonista após chegar ao seu objetivo, e cada volume terá seu arco.
“O treinamento elfo é realmente mais letal do que qualquer coisa que se possa imaginar.” Foi o que ela disse.
Devido a essa frase, estava se preparando mentalmente para o que quer que tivesse que aprender de forma brutal, sem nada de gentileza. E, com isso em mente, havia procurado seu professor de magia para o ensinar algo que, no universo daquela novel, seria extremamente importante: meditação.
Marcus será um mago de baixa classe, que não chega a ser muito forte em combate, mas a explicação para que ele esteja trabalhando na grande casa Urion, será pela seu grande conhecimento sobre magia. Ele será alguns anos mais velho que Haru, mas, uma vez, Marcus disse casualmente que seu pai era bibliotecário da família real e, por isso, teve acesso a uma grande quantidade de livros e, devido a isso, seus conhecimentos aumentaram gradualmente desde que era apenas uma criança.
Para Ulisses, escolhê-lo não foi difícil. Sempre quando entrava para a sua aula, Marcus estava em posição de meditação, sentado no chão, e só abria os olhos quando o seu aluno estava devidamente sentado na sua cadeira para os estudos. Uma vez, ele disse que meditava para controlar um problema sério e, como Ulisses não queria ser invasivo, não perguntou o problema. Ele poderia ter pedido ao pai que lhe ensinasse a meditação, mas ele estava muito ocupado discutindo a “ida” de Ulisses para a capital quando a sua “preparação” estivesse acabado. Ulisses não queria nem saber quantas mentiras Haru estava contando e não queria atrapalhar, então apenas escolheu outra pessoa.
— Quer aprender a meditar? — Marcus o olhou com interesse.
— Sim.
Ao leste da casa, em uma sala sempre usada para as aulas de Teoria da magia, de pé em frente à mesa usada todas as terças-feiras por Ulisses nas suas aulas, com o rosto mais determinado possível, ele estava pedindo para o professor lhe ensinar a meditar. Não era nada muito grave, então Ulisses não estava tão nervoso e levou a conversa com calma.
— Okay.
— Eh?
Um sinal de interrogação apareceu em cima da cabeça de Ulisses, além da expressão em seu rosto mostrar a sua surpresa e confusão. Marcus estava aceitando tão tranquilo e facilmente que Ulisses até teve um lampejo de confusão. Poderia ser pegadinha?
— Está surpreso? — O professor riu suavemente, enquanto colocava o livro em cima da mesa com delicadeza.
— Ah… sim? — Ulisses coçou a cabeça, soltando um riso nervoso e envergonhado.
— Como professor, adoro quando meus alunos vêm até mim em busca dos meus conhecimentos… me faz parecer o dono de toda a sabedoria do mundo!
Marcus apertou o punho esquerdo e o levantou, com um sorriso de satisfação no rosto, como se estivesse comemorando algo importante ou que estivesse em um palco, com uma expressão de euforia. Ulisses fechou a cara, olhando-o de cima a baixo, como se estivesse o julgando de todas as formas possíveis.
“Ele parecia alguém respeitável a alguns dias atrás”, pensou o garoto. Marcus sempre mostrava ser alguém sério e estoico, então nunca pensou que ele poderia ser um idiota que adorava ensinar.
— Isso é sério?
— Silêncio, alma sem sabedoria! — Marcus colocou as mãos na cintura — Você deve seguir os meus comandos atentamente para conseguir um bom desempenho na sua meditação. Não vou tolerar reclamações, mas se quiser elogiar… fique à vontade.
— Espera ai, seu velho idiota… como você pode ser alguém cheio de conhecimento com esse seu pensamento? — disse o garoto indignado.
— Ah… é um problema que eu tenho… — ele colocou uma das mãos no queixo e logo alisou a sua barba — Eu adoro escutar elogios e, se quiser fazer isso, faça, jovem Ulisses.
— Tá de brincadeira?
Ulisses revirou os olhos, pensando que aquilo era ridículo. Porém, algo veio à sua mente. Algo que o fez olhar diretamente para seu professor e finalmente perguntar:
— As meditações que faz… é para controlar a sua compulsão por elogios?
— Sim, exatamente.
— Isso é ridículo!
— Ei, não fala assim comigo não, garoto! — disse Marcus rápido — Já que ninguém entende que só meu nascimento é motivo para elogio, preciso me conter como uma besta enjaulada.
Marcus levou as mãos ao peito de forma exagerada, como se as palavras do garoto tivessem o machucado profundamente, como facas afiadas sendo enfiadas diretamente no seu coração.
— Seu narcisista de-
— Ei, ei, ei! Quem te ensinou essas palavras?!
— Eu… — Ulisses suspirou — Só me ensine a meditar velho.
— Com esse seu comportamento e linguajar, não tenho a motivação necessária — o professor cruzou os braços.
Ulisses levantou a sobrancelha e olhou diretamente para ele.
— Você é um bom professor.
— Ah! Isso é realmente verdade… — a expressão dele logo mudou para animação — O que mais?
“Idiota”, xingou Ulisses em pensamento, como se estivesse julgando Marcus até a alma.
Os olhos azuis de Ulisses o olharam de cima a baixo, analisando-o por completo, com o pensamento de que isso era algo ridículo. Professor Marcus realmente gostava tanto de elogios? Na mente do garoto, isso seria impossível. Como alguém poderia gostar tanto de elogios? Pensava realmente que não poderia ser possível, então algo passou pela sua mente: se tentasse e Marcus aceitasse, então o seu respeito por ele iria diminuir drasticamente e só não iria chegar a zero pelo tanto de conhecimento que o velho possuía.
Ulisses limpou a garganta e cruzou os braços e não conseguiu esconder um sorriso um tanto… divertido? No fundo, o garoto estava achando aquela situação hilária, como se fosse o episódio de alguma série de comédia ou algo assim.
— Se me der uma moeda de ouro, posso te elogiar a todo momento.
— O quê? — Marcus franziu a sobrancelha, como se aquela ideia fosse ridícula, mas… com uma pitada de algo mais, e isso não passou despercebido por Ulisses, que sentiu um pingo de satisfação, afinal, era dinheiro fácil — Acha que eu sou tão idiota por aceitar pagar para ter elogios? Acha que meu dinheiro cai do céu?
— Seu salário deve te fazer viver bem por dez anos inteiros — retrucou Ulisses.
— Sim, mas… Hm… — Marcus desviou o olhar, mas Ulisses pôde ver as mãos do professor se moverem, como se estivesse ansioso — Comprar elogios deve ser tão desesperado.
Ulisses ficou em silêncio, mas logo revirou os olhos e olhou diretamente para Marcus, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
— Professor… os seus ensinamentos são os melhores do continente.
Marcus soltou um suspiro pesado e colocou as mãos no bolso, jogando uma moeda de ouro para Ulisses, que a pegou com um ar de satisfação, pois aparentemente Marcus havia aceitado comprar seus elogios. Na realidade, ele não estava confiante que alguém poderia realmente aceitar algo tão absurdo como isso, mas, já que era o caso, iria aproveitar, já que era dinheiro fácil que estava entrando na sua conta. Quem seria o embecil que iria rejeitar dinheiro? Ulisses não nasceu ontem.
— Por que eu acho que está me usando, seu pirralho?
— É porque estou.
— Se não fosse pela sua aparência, não iria acreditar que fosse filho de Haru.
— …
O sorriso de Ulisses quase vacilou, mas fez o possível para não deixar transparecer que aquela frase havia lhe pegado desprevenido. Olhando por outro ângulo, ele realmente não era filho de Haru; era apenas um impostor, a alma de alguém completamente diferente que estava no corpo do verdadeiro filho de Haru, como se fosse uma pessoa usando uma máscara com o rosto de Ulisses. Mesmo que soubesse disso, não iria deixar que os outros também soubessem, mesmo que, às vezes, esse fato o incomodasse.
Pensando nisso, Ulisses tentou continuar com aquela sua atuação.
— Ah, qual é, não consegue ver a minha beleza, herdada pelos membros da família Urion? — Ulisses passou uma das mãos pelos cabelos e piscou para Marcus, com uma pequena pose.
— O pior é que, se eu negar que todos da família não são bonitos, vai ser mentira — murmurou Marcus para si mesmo.
Mesmo com sua pequena e curiosa descoberta, Ulisses acreditou que isso não iria atrapalhar nada na sua aprendizagem, então iria apenas ignorar a personalidade estranha de Marcus. Ao menos isso não era da sua conta. Porém, não iria parar de vender seus lindos elogios. Afinal, gostava de dinheiro muito antes de vir para este mundo.
Com isso, Marcus parecia estar animado com a primeira aula e decidiu que seria imediatamente. Em menos de cinco minutos, Ulisses já havia ganho 13 moedas de ouro, e só isso já seria o suficiente para alimentar uma casa de plebeu com 7 pessoas por 3 meses. Qualquer pessoa pudesse recusar aquele dinheiro seria, no mínimo, um idiota, já que outras pessoas poderiam estar precisando de dinheiro e não iriam jogar fora essas moedas tão descaradamente. E, para Ulisses, não era diferente: ele não iria desperdiçar dinheiro fácil, nem agora e nem nunca. Ele não tinha um coração puro e tão pouco era um santo, então, se estava sendo materialista demais, que assim fosse.
“Não sou um imbecil para me importar com o que as pessoas podem falar”, pensou Ulisses, enquanto se sentava no chão, em cima de um grande e grosso tapete. Escutando as instruções de Marcus, o garoto se sentou na posição instruída.
Com as palavras do professor e o olhando para poder fazer certo, Ulisses sentou-se com as pernas cruzadas, assim como Marcus, com as suas mãos apoiadas nos joelhos. Como lhe foi dito, os olhos azuis brilhantes do garoto se fecham suavemente, além da sua respiração se tornar lenta e profunda, como se tentasse relaxar o corpo, enquanto, simultaneamente, tenta focar em limpar sua mente de quaisquer pensamentos ou distrações externas que iria o impedir do objetivo daquela atividade. Quando o seu corpo finalmente está relaxado, mesmo que levemente em alerta, com a coluna ereta e a cabeça elevada, um suspiro saiu pelos lábios de Ulisses de modo suave e calmo. E isso faz Ulisses assumir uma posição de tranquilidade e paz, preparado para entrar em um estado de consciência plena a fim de alcançar um estágio meditativo profundo.
Marcus o observava com atenção, seus olhos cinzas passando por toda a extensão do rosto do garoto sentado na sua frente, seguindo as suas instruções com atenção. Geralmente, as pessoas terão dificuldade para conseguir relaxar de primeira. O professor não podia negar que ficou bem impressionado com Ulisses. “Haru, você teve alguém que aparentemente tem um grande potencial, seus genes realmente são bons, que inveja…” pensou Marcus, enquanto balançava a cabeça e ria baixinho.
— Não pensei que iria acertar de primeira…
— Por que está com esse tom decepcionado, velhote?
— Ah, é que eu queria explicar como faz com mais detalhes e parecer mais inteligente, sabe?
— Você… — Ulisses fez uma careta e revirou os olhos — Seu-
Marcus tirou uma moeda do bolso e rapidamente jogou para Ulisses, que a pegou com rapidez e o colocou no bolso.
— Ahem! — pigarreou Ulisses — … seu ótimo professor.
Marcus sorriu de modo presunçoso, enquanto se deleitava com o elogio do aluno. Mesmo que, no começo, fosse completamente idiota ter aceitado pagar pelos elogios de um garoto de nove anos, o professor até que estava gostando. Antes, ele tinha que esperar a boa vontade dos outros para conseguir o que queria e até mesmo fazia algumas gentilezas para os outros empregados para eles o elogiarem, porém, eles só pareciam mais folgados e ele parecia mais um bobão gentil, aqueles que qualquer pessoa pode passar por cima e ainda iria pedir perdão por estar na frente. Era humilhante, mas agora havia resolvido esse problema.
— Obrigado.
— Então continue, professor.
— Bem, é um exercício simples de relaxar e tentar focar em algo na sua mente, focar o suficiente para que tudo à sua volta desapareça e o seu corpo se sinta tão envolvido pelos seus pensamentos que comece a sentir que verdadeiramente está lá, mesmo que não esteja.
Ulisses arregalou levemente os olhos. Não pensava que poderia ser assim, e isso levou a sua curiosidade a aumentar um pouco. De certa forma, estava ansioso para tentar.
— Certo.
— Vamos começar agora.
Ulisses respirou fundo e esperou as próximas instruções. Considerando que estava indo tudo muito fácil até agora, pensou que não teria problemas em conseguir fazer o exercício de Marcus na meditação.

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