Capítulo 113: Sempre Estive Aqui
O peito de Arthur inflava e murchava às pressas. O punho até poderia estar cerrado, mas os dedos, latejando de dor, não deixavam de estremecer.
Por um momento, tudo o que conseguia ouvir era a própria respiração. As sensações do corpo pareciam mais sensíveis do que o normal.
As gotas de suor eram facilmente sentidas. O vento caminhava com calma, mas ele conseguia sentir cada mísero toque vindo dele.
A guarda caiu logo depois. Os joelhos tremendo não sabiam responder como ele estava de pé… Até que eventualmente caísse sem forças.
As pálpebras quase fechavam. Sua visão, embaçada, tentava observar o que estava acontecendo. Era um ritmo lento, mas estava ficando melhor.
Ainda na sua perspectiva, lá estava Saito: sentado com cara de bobo. Ele nem se deu ao trabalho de limpar o pouco sangue morando no nariz.
Arthur ainda o observava com um olhar um pouco confuso. Seu plano realmente deu certo? Ele não conseguia acreditar nessa realidade.
Ele estava tão focado em entender sua vitória aos poucos que nem percebeu as partículas esverdeadas que o curavam, indicando o fim da luta.
A leveza alcançou o coração antes que ficasse curado. A dopamina da conquista encharcou e inundou seus pensamentos, e assim sorriu sem nem se dar conta.
As risadas espalhavam ao horizonte a alegria que sentia. Ambos os braços se ergueram ao céu. Nos pensamentos, comemorou consigo mesmo:
“Consegui!”
Saito observava essa reação. Em seu peito, não existia ressentimento ou desculpas para criar, apenas uma leve sensação de orgulho, mas palpável.
“É… Então eu tava errado.”
Antes que se levantasse, um pequeniníssimo sorriso abraçou a face. Logo depois, caminhou em direção ao garoto vencedor.
Arthur o observou brevemente. Por enquanto, não pensava em nada além da sua conquista, mas, se fosse para pensar em algo, seria: “Será que ele tá irritado?”
Antes que conseguisse se perguntar sobre, Saito estendeu a mão com um sorriso no rosto. Em sequência, brincou com meias verdades:
— Sabe que eu deixei, né?
Arthur aceitou a ajuda oferecida. Enquanto se levantava, respondia aos risos:
“Sei, sei, sei sim!”
Pouco depois disso, eles caminhavam em direção à arquibancada em um clima amigável. O garoto, ainda banhado em felicidade, desabafou um pouco da sua alegria:
— Mas aí, pode falar… Foi um baita de um socão, não foi não?
Saito riu brevemente antes de responder logo em seguida.
— Sei, sei… Quer brincar? Me dá dez que eu te dou um só.
— Eu não!
— Ahhh… Não é bobo, né?
E assim continuaram em passos lentos. Nas suas costas, a Nona Sistema voava em direção a eles. Não havia pressa alguma na sua locomoção.
Alcançou-os pouco depois. Ambos logo perceberam sua presença e doaram a atenção que tinham para ela.
S9
Parabéns pela vitória, Arthur! A regeneração já foi feita. Eu vim aqui para perguntar se você pretende continuar no torneio, considerando a taxa de desistência.
Devido a todo o ânimo que encontrou, tinha até esquecido que estava em um torneio. Não demorou para se lembrar de que seus pais também estavam participando.
— Ah é, né? Eu quero desistir. Não quero ter o azar de cair contra meus pais e ter que lutar com eles…
Os olhos da Nona Sistema se inclinaram em confusão por um breve momento. Pouco depois, lembrou da informação que esqueceu de dizer.
“Ah, agora já foi… Não deve ser tão importante também.”
Foi o que ela disse pouco antes de iniciar o processo de teletransporte. Eles, aos poucos, desapareciam em partículas prateadas até que deixassem a arena.
Saito novamente estava no abismo. Dessa vez, conseguia observar as trevas.
Não só isso, o chão escuro era tão firme quanto concreto.
Não demorou muito para que começasse a andar. Cada passo trazia fagulhas de luz, que se fortaleciam até superar a escuridão do horizonte.
Tudo ficava mais e mais claro. Eventualmente, tudo se tornou branco como luz de lâmpada, mas nada que o forçasse a fechar as pálpebras.
Aos poucos, contornos começavam a substituir o chão rapidamente. Sem que notasse, o horizonte estava completamente reconstruído.
Teve apenas um instante de distração, e só isso bastou. Em um piscar de olhos, estava de pé na arquibancada, mas não conseguia ver ninguém.
Na sua frente existia apenas o vento. Na esquerda conseguia ver a arena, e na direita morava a ausência de pessoas, que o fez questionar:
“Ué… Cadê todo mundo?”
Douglas, em passos lentos e sorrateiros, aproximava-se por suas costas. Quando a distância estava curta o suficiente, cobriu seu pescoço com um dos braços.
Sua gargalhada veio pouco depois. Seus lábios não se seguravam em gritar:
— Cê perdeu pro meu filho!
Saito, antes mesmo de entender o que estava acontecendo, sentiu o formigamento nascer na cabeça. Douglas, ainda imerso no orgulho que sentia, esfregava o punho no cabelo do garoto.
Quando conseguiu olhar para trás, lá estava Arthur do lado de sua mãe. Luna fazia um cafuné carinhoso enquanto dizia:
— Certeza que você puxou a mamãe para conseguir dar aquele soco lá!
Waraioni estava acordado e bem… Bem o suficiente para rir discretamente de Saito enquanto negava com o rosto.
Quando Saito foi se dar conta, já estava sorrindo junto de seus colegas, devolvendo o cascudo ao mesmo tempo em que se “defendia”:
— Eu deixei, tá me entendendo, bobão?
E assim seguiram, sem nem perceber que uma partícula escura crescia de pouquinho em pouquinho.
Não demorou muito para que se transformasse numa interface escura que conhecemos muito bem: a Segunda Sistema.
S2
Estão se divertindo bastante, pelo visto, né?
Até mesmo ela estava sorrindo discretamente só de sentir aquela energia amigável que o grupo criava. Assim que eles notaram sua presença, Luna desejou boas-vindas a ela.
S2
Muito obrigada. Eu vim aqui assistir à final desse torneio com vocês. Já já começa.
Todos se lembraram desse detalhe que escapou.
Não faltaria ninguém… Se não fosse pela ausência de Ônix e Andressa. Ao observarem esse detalhe, a final ficou fácil de descobrir.
A Segunda Sistema sentou-se em um dos bancos e se deixou levar pelos devaneios enquanto esperava alguém… Que não demorou para aparecer.
Ainda estava longe, mas a cor bege-claro era muito bem visível. Algumas pipocas flutuavam ao seu redor. Demorou pouquíssimo tempo para que ela chegasse até o grupo.
S9
Opa, cheguei! Todo mundo pronto para a final?!
Sua empolgação a permitiu falar com algumas pipocas na boca antes mesmo de distribuir aos espectadores.
A plateia estava pronta. Tudo o que faltava era aguardar o último teletransporte desse torneio que descreverei agora.
Os sussurros das bolhas do oceano abraçavam seu ouvido. Ao redor do corpo, uma escuridão pegajosa insistia em abraçá-lo.
Ônix conseguia ouvir o bater do coração, mas um vazio angustiantemente se apoiava nas costas.
De pouco a pouco, se sentia mais e mais imerso nas sombras. Devido a essa entrega, suas mãos flutuavam sozinhas.
Buff…
As costas colidiram com o chão.
Lá estava ele: parado. Não havia a menor intenção em abrir seus olhos, mas isso, naquele lugar, não era algo que ele escolhia.
As pálpebras se abriam sem avisar. No alcance dos seus olhos, nada, além da mais absoluta escuridão, existia. Segundos se passaram, e esse foi o tempo que ele precisou para se levantar.
Poderia não existir algo no horizonte, mas na frente sim: uma porta prateada com a maçaneta escarlate. Uma pequena agulha perfurou seu peito. Por algum motivo, seus instintos sussurravam para que ele a abrisse.
Isso o motivou a caminhar em passos lentos até que a mão alcançasse a maçaneta. Assim que a abriu, luz, numa intensidade feita para cegá-lo, nasceu das cinzas, rapidamente dominando as trevas.
Antes que fechasse seus olhos, conseguiu ver o vislumbre de uma sombra com um cabelo vermelho longo.
Ela tinha os mesmos olhos universais que ele nasceu. Não sabia o motivo, mas sentia um amor infinito transbordar de cada estrela.
POV: Andressa
O chão da arena estava frio, mas o calor do sol confortava todo seu corpo.
Seus olhos, ainda embaçados, buscavam informações, caminhando desde a esquerda até a direita e, eventualmente, encontraram.
Lá estava Ônix: virado de costas com a cabeça baixa, como se estivesse acabado de acordar.
Nem deu tempo dela respirar direito, e ele já estava virando seu olhar para a sua atual “adversária”.
Andressa não deu atenção para mais nada além de seus olhos que, pela primeira vez, cada estrela tinha a atenção voltada só para ela.
Próximo capítulo: Impossível de Alcançar.

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