Capítulo 10: O Pacto de Calor.
A Vanguard vibrava com energia nova, mas para Elian Vane o mundo parecia girar em câmera lenta, turvo e doloroso. A euforia da missão havia evaporado no instante em que cruzou a porta da nave, dando lugar a uma tortura silenciosa que emanava de seu ombro esquerdo. O osso estava fora do lugar, uma desarmonia brutal em seu esqueleto, e o peso do braço inútil puxava seus nervos como se mil agulhas fossem cravadas a cada batida do coração.
Ele se arrastou pelo chão frio, os joelhos batendo contra o metal com um som seco. A visão embaçava de tempos em tempos, manchas pretas dançando nas bordas da pupila. A dor era tão grande que lhe causava náuseas, o estômago revirando em espasmos vazios.
— Não… agora não… — sussurrou ele, a voz falhando, quase um lamento.
Arrastou-se até a enfermaria, apoiando-se nas paredes, usando o corpo são para sustentar o quebrado. A injeção de estimulante queimou suas veias, acelerando o pulso, mas foi como jogar água em uma rocha: não tocou a agonia profunda. Ele encostou as costas na porta de aço, olhando para o membro deslocado que latejava, inchado, roxo, deformado.
Respirou fundo, enchendo os pulmões de ar frio, tentando encontrar coragem em algum lugar esquecido de sua alma.
— Um… dois…
No três, ele não gritou. Mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico do sangue, e lançou seu peso contra o batente.
CRACK.
O som foi úmido, asqueroso, como quebrar um galho verde e cheio de seiva. A dor explodiu em seu cérebro como uma supernova branca. Ele caiu de joelhos, o corpo dobrando-se sobre si mesmo, e vomitou bílis amarga e ácida no chão, convulsionando. Lágrimas quentes e involuntárias escorriam pelo rosto, misturando-se à sujeira e à barba, congelando em crostas salgadas nas bochechas rachadas. O ombro agora latejava com uma queimadura interna, latejante, insuportável, mas estava no lugar. Ele estava remendado. Funcionando.
Mal havia conseguido se sentar, apoiado na parede, ofegante como um animal ferido, quando seus olhos captaram movimento lá fora.
Através da neblina espessa e do vendaval que começava a engrossar, algo se movia. Uma forma colossal, lenta e penosa, emergia da branca infinita. Não era uma montanha, era o Titã. Ele se arrastava pela encosta, impulsionado apenas por instinto, como um fantasma gigantesco que vagueia em busca de descanso. A cada metro, o corpo massivo afundava na neve, e a cada parada, ele soltava um gemido baixo que vibrava no solo e chegava até os ossos de Elian.
A criatura não conseguia mais ficar em pé. Chegou até a área plana, a apenas quarenta metros da nave, e colapsou. Um baque surdo, abafado pelo vento. Ali ficou, imóvel, um monte de pelos e gelo, com o peito subindo e descendo em esforço mínimo, já entrando em hibernação terminal, se entregando ao frio eterno.
Elian olhou para ele, sentindo uma pontada no peito que doía mais que o ombro. Ele havia levado o reator. Ele havia roubado o cobertor da besta para salvar a si mesmo.
— Maldito seja… — sussurrou ele, limpando o baba e o vômito da boca. — Eu não sou assim. Não mais.
Mesmo com o corpo gritando por repouso, ele se forçou a se levantar. A cabeça girou, ele cambaleou, mas se manteve de pé. Caminhou até a Impressora 3D. Seus dedos pairaram sobre o menu holográfico, tremendo não só pelo frio, mas pela fraqueza física.
Ele pensou em blindagem. Pensou em armas. Mas olhou novamente para a figura caída lá fora.
Selecionou o projeto: Módulo de Irradiação Térmica.
A máquina zumbiu, construindo o pilar hexagonal. Elian o calibrou com precisão: 130°C na superfície. Calor radiante, potente o suficiente para vencer o inverno, mas suave o bastante para não queimar a carne viva.
Mas então parou. Uma lembrança nítida, de quando ainda era um estudante em Marte, surgiu clara em sua mente. Era Termodinâmica, a única matéria que realmente estudara com paixão, fascinado pela física dos extremos.
— Espera… — murmurou ele, apoiando-se na máquina para não cair. — Se eu ligar isso agora… o vento vai levar todo o calor embora. É a convecção forçada. Vou gastar 170.000 Watts para nada… é como tentar aquecer o oceano com uma vela.
Seu olhar caiu sobre a neve acumulada nas paredes da base.
— A neve… — seus olhos brilharam, apesar da palidez. — A neve é 90% ar preso. É o melhor isolante térmico natural que existe. Os terráqueos faziam iglus… e dentro estava quente.
Ele sorriu fraco, um sorriso cheio de dor.
— Vou construir uma barreira. Vou fechar o sistema. Sem vento, sem perda. A potência cai para 10.000 Watts… eficiência máxima.
Com um esforço que arrancou gemidos baixos de sua garganta, Elian pegou ferramentas. Cada movimento com o braço recém-colocado no lugar era uma facada cega. Ele sentia os tendões esticando, o osso roçando, uma agonia constante que o fazia suar frio e perder a respiração. Mas ele foi até o Titã.
Trabalhou ao redor da besta inconsciente, empilhando e compactando a neve em muros altos, formando um recinto semicircular, um ninho protetor contra o mundo. O vento uivava, mas os muros bloqueavam a fúria. A neve, com seu ar estagnado, criaria uma câmara isolante perfeita.
Quando terminou, estava exausto, quase caindo, o uniforme encharcado de suor que já congelava nas costas. Ele fincou o pilar de aquecimento bem no centro, a poucos metros da cabeça gigante.
Correu de volta — ou melhor, tropeçou de volta — até a nave, conectou o cabo grosso e puxou a alavanca.
HUMMmmmmm.
O pilar brilhou em um rubor intenso, emanando ondas de calor estáveis. O efeito foi mágico e imediato. Dentro da fortaleza de neve, a temperatura disparou para 25°C. A neve ao redor derreteu em uma borda fina, selando-se em gelo transparente, criando uma estufa natural. O calor penetrou na pelagem do Titã, dissolvendo o gelo que a endurecia.
A besta estremeceu, um movimento que percorreu toneladas de músculo. Soltou um suspiro profundo, um vapor quente que subiu como uma oração, e abriu o olho imenso. Ele não estava mais morrendo. Ele estava vivo. E olhou diretamente para o pequeno humano ferido que o salvara.
Mas o brilho foi um farol. Os Lêmures vieram, uma maré translúcida e guinchante, atraídos pelo oásis de calor, esquecendo o medo da luz. Subiram na nave, arranharam o vidro, roeram o cabo de energia.
Elian pegou seu laser, mas o braço doía, ele era só um homem ferido e cansado. Eram muitos.
Então, o chão tremeu.
O Titã ergueu-se. Não mais uma vítima, mas um guardião. Ele sentiu a ameaça contra a fonte de sua vida.
BOOM!
A pata desceu como um martelo de guerra. O rugido abafou o vento. A besta entrou em fúria, esmagando, rosnando, protegendo o perímetro com uma ferocidade divina. Era um tanque de quatro toneladas, defendendo seu lar.
Quando tudo acabou, a calmaria voltou.
Elian caiu no chão da cabine, enrolado como uma bola, abraçando o próprio ombro dolorido, tremendo de exaustão e choque. Lá fora, dentro da câmara de neve aquecida, o Titã jazia enrolado, dormindo profundamente, aquecido e seguro.
Elian olhou para suas mãos trêmulas e cicatrizadas. Ele estava quebrado, ferido, sofrendo. Mas estava vivo. E pela primeira vez, não estava sozinho.

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